"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

O deserto do tártaros

Dino Buzzati

Até então ele passara pela despreocupada idade da primeira juventude, uma estrada que na meninice parece infinita, onde os anos escoam lentos e com passo leve, tanto que ninguém nota a sua passagem. Caminha-se placidamente, olhando com curiosidade ao redor, não há necessidade de se apressar, ninguém empurra por trás e ninguém espera, também os companheiros procedem sem preocupações, detendo-se frequentemente para brincar. Das casas, a porta, a gente grande cumprimenta-se benigna e aponta para o horizonte com sorrisos de cumplicidade; assim o coração começa a bater por heroicos e suaves desejos, saboreia-se a véspera das coisas maravilhosas que aguardam mais adiante; ainda não se veem, não, mas é certo, absolutamente certo, que um dia chegaremos a elas.

Falta muito? Não, basta atravessar aquele rio lá longe, no fundo, ultrapassar aquelas verdes colinas. Ou já não se chegou, por acaso? Não são talvez estas árvores, estes prados, esta casa branca o que procurávamos? Por alguns instantes tem-se a impressão que sim, e quer-se parar ali. Depois ouve-se dizer que o melhor está mais adiante, e retomasse despreocupadamente a estrada. Assim, continua-se o caminho numa espera confiante, e os dias são longos e tranquilos, o sol brilha alto no céu e parece não ter mais vontade de desaparecer no poente.

Mas a uma certa altura, quase instintivamente, vira-se para trás e vê-se que uma porta foi trancada às nossas costas, fechando o caminho de volta. Então sente-se que alguma coisa mudou, o sol não parece mais imóvel, desloca-se rápido, infelizmente, não dá tempo de olhá-lo, pois já se precipita nos confins do horizonte, percebe-se que as nuvens não estão mais estagnadas nos golfos azuis do céu, fogem, amontoando-se umas sobre as outras, tamanha é sua afoiteza; compreende-se que o tempo passa e que a estrada, um dia, deverá inevitavelmente acabar.

A um certo momento batem às nossas costas um pesado portão, fecham-no a uma velocidade fulminante, e não há tempo de voltar. Mas Giovanni Drogo, naquele momento, dormia, inocente, e sorria no sono, como fazem as crianças.

Passarão alguns dias antes que Drogo entenda o que aconteceu. Será então como um despertar. Olhará à sua volta, incrédulo; depois ouvirá um barulho de passos vindo de trás, verá as pessoas, despertadas antes dele, que correm afoitas e o ultrapassam para chegar primeiro. Ouvirá a batida do tempo escandir avidamente a vida. Nas janelas não mais aparecerão figuras risonhas, mas rostos imóveis e indiferentes. E se perguntar quanto falta do caminho, ainda lhe apontarão o horizonte, mas sem nenhuma bondade ou alegria. Entretanto, os companheiros se perderão de vista, um porque ficou para trás, esgotado, outro porque desapareceu antes e já não passa de um minúsculo ponto no horizonte.

Além daquele rio — dirão as pessoas —, mais dez quilômetros, e terá chegado. Ao contrário, não termina nunca, os dias se tornam cada vez mais curtos, os companheiros de viagem, mais raros, nas janelas estão apáticas figuras pálidas que balançam a cabeça.

Até Drogo ficar completamente sozinho e no horizonte surgir a estria de um imensurável mar parado, cor de chumbo. Então já estará cansado, as casas, ao longo da rua, terão quase todas as janelas fechadas, e as raras pessoas visíveis lhe responderão com um gesto desconsolado: o que era bom ficou para trás, muito para trás, e ele passou adiante, sem dar por isso. Ah, é demasiado tarde para voltar, atrás dele aumenta o fragor da multidão que o segue, impelida pela mesma ilusão, mas ainda invisível, na branca estrada deserta.

Giovanni Drogo agora dorme no interior do terceiro reduto. Ele sonha e sorri. São as últimas vezes que chegarão até ele, na noite, as suaves imagens de um mundo completamente feliz. Ai, se pudesse ver a si mesmo, como estará um dia, lá onde a estrada termina, parado na praia do mar de chumbo, sob um céu cinzento e uniforme, sem nenhuma casa ao redor, nenhum homem, nenhuma árvore, nem mesmo um fio de erva, tudo assim desde um tempo imemorável.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Fevereiro

Matilde Campilho


Escuta só, isto é muito sério.  Anda, escuta que isto é sério. O mundo está tremendamente esquisito. Há dez anos atrás o Leo me disse que existe uma rachadura em tudo, e que é assim que a luz entra. Não sei se entendi. Você percebe alguma coisa da mistura entre falhas e iluminação? Aliás, me diga, você percebe alguma coisa de carpintaria? Você sabe por que foi que meteram um boi naquele estábulo em vez de um pequeno rinoceronte? Deve ter tido alguma coisa a ver com geografia ou com os infelizmente insolucionáveis mistérios  que só podem vir no misticismo asiático. Um boi é um bicho tão  inexplicável. Ainda bem. O amor é um animal tão mutante, com tantas divisões possíveis. Lembra daqueles instrumentos que usávamos na boca quando éramos pequenininhos? Lembra da queda deles no chão? Então, acho que o amor quando aparece é em tudo semelhante  a forma física do mercúrio no mundo. Quando o vidro do termômetro se quebra o movimento químico se espalha e então ele fica se dividindo pelos salões de todas as festas. O mercúrio se multiplicando... Acho que deve ser isso uma das cinco mil explicações possíveis para o amor.  Ah é, eu gosto de você. A luz entrou torta por nós adentro, mas olha, eu gosto de você. A luz do verão passado quebrou o vidro da melancolia e agora ela fica se expandindo pelas ruas todas. Desde aquilo o outro lado do sol, a testa tremendo agora. Hoje ainda faz bastante frio. As cinzas ainda não aterraram sobre as cabeças disfarçadas. Tem gente batucando suor e cerveja pelas ruas da nossa cidade sul. Na cidade norte, há ondas de sete metros tentando acertar o terceiro olho dos rapazinhos disfarçados de caubói. O mestre ainda não veio decretar o começo da abstenção e, olha, a luz ainda está conosco. Sim, o mundo está absurdamente esquisito. Já ninguém confia nas imposições dos perfeitos. A esta hora na Terra é metade carnaval, metade conspiração, metade medo, metade fé, metade folia, metade desespero. E provavelmente a esta hora uma metade do mundo está dançando e outra metade dormindo. Há ainda outra metade limpando as armas, outra limpando o pó das flores. Mas por causa do que me ensinou o místico eu acredito que agora exista alguém profundamente acordado. Alguém que esteja vivendo no intervalo tênue entre o sono e a agilidade. Supondo que ele saiba perfeitamente que este começo de século será nosso batismo de voo para a persistência no amor. João molhou a testa de Manoel, os gritos das ruas molham as testas de nossos corações. De que lado você está eu não me importo. De que garfo você come, de que copo você bebe, que posto 7 você escolhe, qual é seu orixá, seu partido, sua altura, de qual das suas cicatrizes você cuida, que pássaro você prefere, quem é seu pai, qual é seu samba, pinot noir ou chardonnay, que protetor você usa, qual é sua pele, seu perfume, qual político. quantos amores você sonha em que Fernando, que Ofélia,  que cinema, que bandeira, em que cabelo você mora, qual dos túneis de Copacabana? Reze para seus santos quando atravessar. É, é impossível viver no país de Deus e seu tesouro (?) barato. Mas atravessar o gramado de Deus de bicicleta, isso não é impossível não. Escuta, isto é sério.  Andamos juntos, distraidamente. As árvores crescem conosco, nossa pele se estende, nosso entendimento teso também. O século cresce conosco. O amor pelas ventas da cara do mundo, também. Quanto ao um pra um entre nós dois, isso logo se vê. Não sei nada sobre a paixão, suspeito que você também não. Mas começo a entender que o compasso da festa  vai mudando a passos largos, dois pra lá e dois pra cá. Portanto, escuta, isto é muito sério. Isto é uma proposta aos trinta anos. Agora que o mercúrio assumiu sua posição certa, vem comigo achar o meu trono mágico entre a folhagem e no caminho até lá,  vem dançar comigo,  vem.