"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

domingo, 17 de junho de 2007

Zapatismo: Liberdade, Democracia e Justiça



5 SONHOS DO ZAPATISMO, 5 SONHOS PARA A RESISTÊNCIA
César Enrique Pineda Ramírez
18 de fevereiro de 2005.

Imaginem por um momento que o capitalismo é uma edificação. Uma voluptuosa e faraônica obra que a humanidade construiu nos séculos recentes. Um sólido muro, quase perfeito que não pode desintegrar-se, já que os materiais com que é feito são a dominação, a exploração e a alienação. Se alguém olha o muro, parece que não há forma de derrubá-lo. Parece impenetrável, inexpugnável. Não há maneira de escapar do muro.

Aproximen-se agora um pouco do muro. Olhem detidamente. Seus olhos têm que fazer um grande esforço. O muro... tem uma fenda. É uma pequena rachadura, quase imperceptível. Por essa abertura, se uma pessoa focaliza bem a vista, parece que se pode ver do outro lado. Mas a rachadura não deixa ver muito bem. É uma fissura, que parece, não faz nenhum dano à solidez do grande muro. Essa fissura, é o zapatismo.

O zapatismo nos ajuda a ver do outro lado. A sonhar com o outro lado, já que mal podemos ver uma pequeníssima parte. Alguns dizem, que esta idéia é uma ilusão, algo infantil, mal uma quimera juvenil, desorientada e confusa. Nós cremos que é uma possibilidade, uma rota por explorar, um caminho que quiçá podemos caminhar.

O zapatismo nos ajuda a pensar ao inverso. De fato, em muitas formas, é uma revolução ao inverso. É um exército que não usa suas armas. São revolucionários que falam de amor. É uma forma de fazer política que não procura tomar o poder. São indígenas pobres, não uma vanguarda iluminada cujo programa, liderança e carisma se tenha que seguir cegamente.

O zapatismo tem muitas possibilidades de interpretação e de leituras. Façamos uma mais. Reorganizemos as contribuições do zapatismo às resistências do México, América e o mundo, para dizer que são cinco.Comecemos por uma delas.

1) Por um mundo onde caibam muitos mundos.

Diversidade e identidade

Durante muitos anos, de fato durante os últimos dois séculos, o pensamento humano e também dos movimentos de resistência foi construído sob algumas premissas básicas. O pensamento moderno, sob o influxo da ilustração, do pensamento newtoniano e depois do positivismo gerou a visão de que poderiamos construir a verdade a partir da racionalidade. Construiu-se a idéia de que poderiamos encontrar através da ciência, a verdade, e com ela, construir leis universais do funcionamento da história. Nossos movimentos, os movimentos de resistência históricos adotaram esta visão. Se encontrávamos e compreendíamos esse funcionamento, só era questão de seguir as pautas dessa verdade científica para construir a revolução.

Esta idéia sobre a verdade, a racionalidade e a ciência, gerou um marco de pensamento patriarcal, linear, mecanicista, teleológico, que ajudou muito na construção de uma modernidade desenvolvimentista e em constante expansão. A idéia de progresso, desenvolvimento e crescimento se adotou pela humanidade, pela esquerda e por nossos movimentos como um fato sem questionamento da evolução humana.

Mas esse pensamento ajudou muito ao funcionamento de um sistema que precisamente precisa crescer sem obstáculos. É o funcionamento do capitalismo. O capitalismo cresce, ou perece.

Esse pensamento está em crise hoje. O zapatismo se inscreve na desestruturação desse pensamento. É por que as bases deste pensamento modernizador, desenvolvimentista, positivista causaram vários estragos.

Os zapatistas, o zapatismo, propõem um mundo onde caibam muitos mundos. O zapatismo propõe a idéia da verdade múltipla frente às leis universais de verdades únicas. O EZLN disse que "as verdades nascem, crescem,desenvolvem-se, decaem e morrem". O pensamento dominante ou hegemônico ajudou a criar a idéia de que se tinha que homogeneizar,desenvolver, modernizar. Esta visão ajudou a arrasar a diferença, as culturas, "os diferentes" em nome de uma modernidade racional que avançava inexoravelmente para um mundo melhor. Os povos índios, mas não só eles, sofreram as conseqüências desta visão. O zapatismo se inscreve numa onda de novas idéias que nos dizem que a história não está escrita, que não necessariamente avançamos para um sistema melhor, e que o múltiplo e o diverso não são um obstáculo, senão que as diferenças são uma riqueza a proteger, a preservar. A diversidade nos ajuda a avançar. Um mundo onde caibam muitos mundos é a proposta de um outro mundo onde convive, em unidade, a diversidade, sem que uns se imponham a outros. Um mundo onde cabem todos, não é só uma idéia utópica do futuro, é uma forma de ver-nos, sonhar-nos, falar-nos entre nós. Hoje a política não se faz mais em nome de verdades científicas. O zapatismo é parte desta nova forma de pensar, que dizemos, é pensar ao inverso.

2) Que o que mande, mande obedecendo.

Estado e poder

É suficiente tomar o poder político?, concebido este como o poder do estado, o poder que se considerava como o único e o mais importante. O zapatismo, e nós, cremos que não. Que poder do estado é um poder inevitável, sim, mas não é todo o poder, nem é todo o político. Mais importante que quem esteja no poder dizem os zapatistas é que quem está no poder, mande, mas mande obedecendo. Esta idéia com que o zapatismo contribui, é de novo uma idéia ao inverso. A esquerda construiu uma idéia providencial e heróica da tomada do poder. O caminho da transformação ou da queda do capitalismo é uma grande odisséia, quase sempre encabeçada por
um herói, enche de dor e sofrimento onde ao final do caminho, a vitória,isto é, a tomada do poder é a grande chegada, o grande dia, o momento em que se bifurca a história em duas grandes etapas. Num antes e num depois. A partir daí, e SÓ a partir daí, a história e o homem começavam a mudar. É o que Immanuel Wallerstein chama a estratégia de dois passos: tomar o
poder e depois, e só depois, mudar ao mundo. A estratégia dos movimentos de resistência girava ao redor desta rota. Era uma estratégia digamos, estadocêntrica.

Mas esta idéia também se deteriorou, ainda que siga sendo muito importante. O zapatismo, ao propor que o que mande, mande obedecendo, reconhece a idéia da representatividade, mas com novos e coletivos controles democráticos. Concebe às direções e as lideranças como resultado de um processo coletivo democrático, não como a vanguarda clarificante que deve guiar-nos ao grande dia da transformação. A história do zapatismo também está cheia de exemplos de como o estado e sua força não são o único referencial e muitas vezes nem o mais importante em sua estratégia política. Evidente que há conflito frente ao estado dominante e as elites mexicanas que governam. O levante armado deixa claro isto. Mas seu atuar parecesse uma lógica muito mais ampla, sua agenda não só define o conflito estatal. Há outras áreas, "outra coisa" dizem os colegas zapatistas, que é desenvolver suas próprias forças, dialogar com o resto, pensar nas alternativas, falar delas. Tudo isso não necessariamente está unido de forma direta com o poder estatal.

Mandar obedecendo significa repensar o poder. Não é só uma proposta ética, senão uma proposta que desarticula a lógica do poder tal e como a conhecemos. Desarticular as regras do poder implica evidentemente a luta acima, contra os senhores do poder e a exploração mas também abaixo, entre nós, rompendo os esquemas de dominação em nossas famílias, trabalho e
escolas; entre homens e mulheres, entre adultos e jovens, entre raças, em nossas organizações e coletivos, em nossas relações cotidianas. É gerar uma nova relação que permita a construção de um novo poder que decida de baixo para acima, que se autogoverne e determine assim mesmo. Implica construir uma ordem social alternativa e global.

Esta proposta é crítica do sistema imperante em seu conjunto e não só do governo da vez. É uma revisão à lógica do sistema e não só uma crítica aos dominadores. Mandar obedecendo significa também a subordinação do estado aos povos. Implica a democratização cada vez mais profunda do novo poder e o correspondente processo de devolução progressiva das funções usurpadas pelo estado à sociedade mesma. Não há que tomar o poder, senão construí-lo. Não há que tomar o sistema por assalto, há que deconstruí-lo e nesse processo experimentar, desenhar, sonhar, um sistema alternativo.

3) Somar e não rachar. Construir e não destruir. Convencer e não vencer. Representar e não suplantar.

Nova forma de fazer política.

Mas, como construir então um sistema alternativo global? O zapatismo com o mandar obedecendo, e o mundo onde caibam muitos mundos propõe algumas pistas para isso. Propõem um terceiro elemento. A construção de um novo mundo, de um mundo outro, precisamente de outra política. A história da esquerda de nossos movimentos está cheia de tristes exemplos onde os piores vícios do poder dominante foram reproduzidos em nossas organizações, em nossas decisões, em nossas estratégias. É uma história que separava os meios dos fins. Se procurávamos um mundo melhor para todos, o socialismo, o comunismo ou a revolução a secas, isto justificava qualquer meio para se chegar a isso. Hoje, através da história, sabemos que
este pensamento pragmático deixou muito que desejar e que as cooptações, a corrupção, o sectarismo, o vanguardismo, o setorialismo, o autoritarismo abalaram a credibilidade e a esperança dos povos que viram seus dirigentes revolucionários converter-se em ditadorezinhos em seus partidos, em suas organizações. Que viram enriquecer-se às classes que falavam de um mundo igualitário. Que viram reproduzir o poder que tanto se criticava. Os que se diziam dominados, convertiam-se em novos dominadores. Uma nova ética, fundada em espaços coletivos é condição imprescindível para um novo mundo. Por isso o zapatismo propõe aos movimentos somar e não rachar, acostumados estes à divisão, à discussão estéril. Propõe construir e não destruir,acostumada a esquerda a dilapidar todo o feito de mudança para controlar tudo o que quer. O zapatismo propõe convencer e não vencer, acostumada a esquerda aos piores vícios do acordo a escuras, da votação que achata, do acordo imposto. Propõe representar e não suplantar; construídas as organizações e os partidos com as vozes de muitos que na prática costumam ser a voz de um só.

Sem novos movimentos, que se desenvolvam, experimentem e atuem dentro de um novo marco ético, o outro mundo se afasta, com o descrédito frente aos olhos dos povos.

4) Há que caminhar ao ritmo do mais lento.

Revolução e sujeito de mudança

Eliminando o velho vanguardismo, esse que dizia que se uma elite clarificada tinha o programa e a estratégia adequadas, as massas iriam correndo abraçar a revolução, o zapatismo entende mais a nossas estratégias de resistência e construção de alternativas como um processo. A imagem "ultra" de empurrar metas que ainda não são realizáveis se derruba frente à idéia de que há que caminhar ao ritmo do mais lento. Eliminando de novo a intenção de impor idéias e estratégias que por muito corretas, por muito avançadas que sejam não podem ser cristalizadas sem o outro, sem os outros, que devem compartilhar, entender e enriquecer ditas propostas. Caminhar ao ritmo do mais lento é construir um processo coletivo para caminhar, e não correr deixando ao resto atrás.

Por outro lado, o mesmo levantamento rompia com o esquema do sujeito revolucionário. Enquanto uma parte da esquerda se nega a reconhecer que não só há um ator de transformação, o pensamento e a ação zapatista são um exemplo entre muitos outros de que nenhum setor tem um papel histórico predeterminado. E mais ainda, que a classe operária industrial, à que se atribuía um papel protagônico teve posições bem mais conservadoras frente à emergência de novos atores como os povos índios, os trabalhadores desempregados ou os movimentos de mulheres e pelo ambiente.

5) Há que caminhar perguntando.

Diálogo

Finalmente os zapatistas dizem que há que caminhar perguntando. Toda a concepção zapatista é uma forte crítica ao pensamento ortodoxo de esquerda, mas mais ainda, ao pensamento moderno ilustrado. Caminhar perguntando implica o reconhecimento dos outros como atores para as alternativas e a construção, digamo-lo assim, revolucionária. Caminhar perguntando se inscreve numa visão profundamente democrática interna e externa dos atores. Implica reconhecer que podem existir outras estratégias, implica reconhecer que devem mediar estratégias de consulta e consenso ao interior de nossos movimentos e que o diálogo como forma de articulação é um veículo poderoso entre os movimentos para desarticular muitas formas de dominação de maneira radical.

A ação do EZLN está cheia de exemplos de caminhar perguntando: Desde processo de consulta e construção interna do zapatismo, até os processos de encontro nacional e internacional que o EZLN convocou em inumeras ocasiões aos movimentos. Em todos os casos, das cinco contribuições que comentamos aqui, a praxe zapatista representa um experimentar constante.
Não desejamos mitificar aqui a ação zapatista. Sabemos e conhecemos suas próprias limitações, contradições e erros. Parece-nos, no entanto, que o movimento zapatista faz contribuições ao pensamento crítico que não podemos deixar de lado porque são assinalamentos profundos de uma reconstituição de nossas formas de pensar e construir nosso horizonte utópico. Estas cinco contribuições se entrelaçam cada uma, estes cinco sonhos são como as cinco pontas de uma estrela, a zapatista que abre uma discussão universal sobre o poder, a diversidade, o estado, a revolução e as formas de fazer política. A estrela vzapatista não é um novo dogma. É uma fissura no pensamento hegemônico para pensar ao inverso e para olhar do outro lado do muro.

Gretas e fissuras do gordo muro capitalista

Retomemos, finalmente nossa idéia inicial. Voltemos ao muro sistêmico do qual falávamos ao começo desta intervenção. Olhemos novamente no muro,afastemos a vista. Saiamos do zapatismo. Procuremos finamente por toda a parede do capitalismo. Veremos, se soubermos ver, que há mais fissuras e coarteaduras. O Exército Zapatista de Libertação Nacional é um sintoma,
um sinal, uma pista, um sinal entre muitas outras. Uma greta entre muitas outras.

Frente aos limites do sistema formal, frente à pobreza e a exclusão uma pequena parte dos povos resiste, mas também experimenta com novas formas de fazer relação humana. Os sem terra, os zapatistas, os piqueteros territorializam suas resistências, criando pequenas zonas, pequenas ilhas de libertação. Fissuras do sistema. Erros da Matriz. Outros mundos, "outras coisas" como dizem os zapatistas. Nesses espaços que não chegam a erosionar o funcionamento geral sistêmico, digamos a fortaleza do muro, no entanto, opõe-se uma ação e um pensamento diferente ao hegemônico. São laboratórios de experimentação: juntas de bom governo, assembléias populares, terras tomadas que produzem; são sinais, pistas de como se olha
a vida, o mundo, do outro lado do muro. Frente à individualização e a concorrência se opõem o comunitarismo, a solidariedade e a cooperação. São espaços onde se deconstrói o pensamento dominante. São espaços onde vemos alguns sinais de como seria uma nova educação, novas relações de intercâmbio e de comércio, formas experimentais de produzir cultura e
informação e o mais importante, formas novas de poder coletivo. Nessas experiências, mas também em muitas outras em todo o planeta, não há distinção entre lutas políticas e sociais, entre lutas materiais e culturais. Igual se põe a mover a produção que questionar as relações hierárquicas e patriarcais. Igual há formas políticas de resistência frente ao capital e o neoliberalismo que reivindicação da identidade cultural local. Igual se luta local e nacionalmente que globalmente. Nesses espaços se começou a derrotar o poder simbólico que mantinha atados aos grupos subalternos. A greta no muro começou a alargar-se.

Pensamos que essas fendas, essas fissuras, essas ilhas de libertação podem crescer, podem articular-se. Podemos, como diz o Subcomandante Marcos, fazer de nossas ilhas uma barca para ir encontrar-nos. Uma fissura que se reúne com outra pode provocar que se desmorone uma parte do muro. Centenas de pequenas gretas, enredadas entre si, de muitas formas, de muitos
tamanhos poderia quiçá, talvez, derrubar e fazer estourar ao muro por completo.

Não o sabemos com certeza. Quiçá valha a pena tentá-lo. Quiçá sim há algo melhor por trás do muro. Quiçá seja esse outro mundo, que dizemos, que é possível.

Enrique Pineda é integrante da agrupação mexicana Jovens em Resistência Alternativa e recém egressado da carreira de sociologia na Universidade Autônoma Metropolitana Xochimilco.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Confortavelmente entorpecidos

Se não me engano é no início de "Crash" que o personagem de Don Cheadle diz que as pessoas perderam a capacidade de se tocar: andamos em ruas lotadas, esbarramos uns nos outros, mas não nos tocamos, e aos poucos vamos nos desumanizando. Acho que o problema é bem pior que isso: não perdemos apenas capacidade do toque, mas também de ver, de ouvir, de observar, enfim, de sentir o mundo e as pessoas ao nosso redor. À noite, quando tudo está no mais absoluto silêncio e estamos tão cansados que não conseguimos pensar em nada, ou tão preocupados que não conseguimos dormir, se soubermos ouvir dá pra reparar que o silêncio também tem seus sons, sutis, bonitos e distantes, uma verdadeira trilha sonora que varia de acordo com o ambiente, seja urbano ou rural. Da mesma maneira, mesmo com todas as luzes apagadas, a escuridão tem luzes, vultos, imagens, e quanto mais as vemos mais aprendemos a enxergá-las. Até com os olhos fechados dá pra ver cores e formas! Se isso já acontece numa noite escura e silenciosa, imaginem quantas coisas deixamos de observar em nosso dia-a-dia... É como se o que está "incorporado" ao ambiente se tornasse invisível para nós: nos mesmos caminhos que eu percorro há anos diariamente, volta e meia encontro coisas que nunca tinha visto antes e me pergunto como é que aquela casa ou loja ou árvore esteve sempre ali sem eu nunca ter me dado conta... E nas raras vezes em que paro pra prestar atenção nesses "detalhes" que constituem a realidade à minha volta eu descubro tantas coisas novas... E o mesmo se pode dizer das pessoas com quem convivemos, ou simplesmente que "esbarramos" por aí, pelas quais costumamos "passar" sem tentar observar o quanto de humano e de dramático há em cada uma delas, não olhamos nos olhos, não interagimos, nem mesmo nos perguntamos o quanto elas sofrem ou fazem sofrer. Não sabemos mais ouvir, ouvir de verdade, com a alma, daquele jeito que não se precisa responder nada pra a outra pessoa saber que você a compreendeu. Não temos "tempo" para esses detalhes, mas é mais que uma questão de “tempo”: fomos educados a viver "no automático", e vamos perdendo progressivamente o que nos torna humanos, a capacidade de sentir, sem nos darmos conta de que enxergar os "detalhes" à nossa volta é enxergar a própria realidade... E isso não é à toa: o mesmo sistema que faz com que a maioria da população mundial não se dê conta da exploração a que é submetida pelo sistema capitalista ou da manipulação da mídia é o mesmo que nos condiciona a não olharmos ao nosso redor. Enxergar a realidade "imediata", a realidade que nos rodeia, nos leva necessariamente a olhar para as crianças nas sinaleiras, as empregadas domésticas, os loucos nas praças, as favelas, enfim, todo esse cenário urbano "invisível" que explode diante de nossos olhos, com personagens ao mesmo tempo fantásticos, incômodos e "invisíveis", e tudo isso conseqüentemente, leva à conscientização. Ver a realidade "micro" nos leva a questionar a realidade "macro", nos leva a sair da passividade, da normalidade, ou pelo menos é um primeiro passo. Não é possível ser ao mesmo tempo lúcido e normal, a lucidez exige coragem, exige loucura, pois a realidade não é normal. Acho que boa parte da esquerda que se diz contra o sistema não consegue ir muito além das palavras e da disputa pelo poder porque os militantes que tanto lêem e dizem querer fazer a revolução não conseguem olhar à própria volta, tornam-se cegos querendo mudar o mundo e, no caminho, acabam se perdendo e querendo apenas tomar o mundo para si. Se não prestamos muita atenção, acabamos lutando contra a Matrix caindo numa armadilha ilusória da própria Matrix. Isso me lembra uma coisa que Saramago disse no documentário "Janela da alma", ao falar sobre a inspiração para escrever "Ensaio sobre a cegueira". Ele disse que a idéia do romance surgiu de uma simples pergunta em sua mente: e se ficássemos todos cegos? Mas na mesma hora ele se deu conta: nós já estamos todos cegos, e aí surgiu o livro como uma metáfora. Acho que é isso: estamos cegos, criamos uma barreira, uma “proteção” pra a realidade, um casulo, um muro. Tendo olhos, não vemos, e tendo ouvidos, não ouvimos, e isso é muito grave, isso nos anestesia, nos ameniza a dor e a responsabilidade, mas nos impede do mais importante, que é sentir... Por isso o condicionamento a que somos submetidos desde crianças é tão importante: ao mesmo tempo em que somos “alienados” por todos os meios possíveis, de vez em quando são convenientes também certas doses homeopáticas de realidade crua através do sofrimento, para irmos nos “imunizando” e nos tornando cada vez mais insensíveis. Obviamente, para as “castas” mais baixas essas doses não são nada homeopáticas... E, assim, nos tornamos "confortavelmente dopados", como na música do Pink Floyd. Lutar contra isso é necessário e exige um grande esforço de reeducação. Saber sair à rua e interpretar toda a poesia contida na história daquelas pessoas, a força, o choro, o grito, o vômito. Não perder a capacidade de admirar as coisas simples, e ao mesmo tempo não deixar de tremer de indignação diante das injustiças do dia-a-dia. Reaprender a sentir é necessário tanto para apreciarmos as belezas "ocultas" que o cotidiano nos oferece quanto para que o soco diário na boca do estômago doa e nos force a chorar, a gritar, enlouquecer, a agir.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Apenas um sonho...

"O maior erro que podemos cometer é achar que estamos vivos quando estamos na verdade dormindo na sala de espera da vida. O segredo é combinarmos as habilidades racionais da vida desperta com as possibilidades infinitas de nossos sonhos. Se soubermos fazê-lo, poderemos fazer qualquer coisa. Já teve um trabalho que odiava e ao qual se dedicava muito? Depois de trabalhar o dia todo, você chega em casa, deita e fecha os olhos. Aí você acorda e percebe que o dia de trabalho havia sido um sonho. Já é ruim o bastante que vendamos nossa vida desperta por um salário mínimo, mas agora eles ficam com seus sonhos de graça." - De um personagem de "Waking Life”.

sábado, 9 de junho de 2007

Certas canções

"Certas canções que ouço cabem tão dentro de mim que perguntar carece como não fui eu que fiz." Esses singelos versos de Milton expressam perfeitamente o que sinto ao ouvir certas canções. Seguem duas delas abaixo, obviamente a beleza delas só pode ser perfeitamente compreendida ouvindo, mas de qualquer forma pelas letras já dá pra me identificar muito quando me percebo dependente de um "emprego que aos poucos me mata", ou quando me sinto eternamente "preso em um momento do qual não consigo sair"...

NO SURPRISES
Radiohead

A heart that's full up like a landfill
A job that slowly kills you
Bruises that won't heal

You look so tired and unhappy
Bring down the government
They don't, they don't speak for us
I'll take a quiet life
A handshake of carbon monoxide

No alarms and no surprises
No alarms and no surprises
No alarms and no surprises
Silent, silent

This is my final fit, my final bellyache with

No alarms and no surprises
No alarms and no surprises
No alarms and no surprises please

Such a pretty house, such a pretty garden

No alarms and no surprises (let me out of here)
No alarms and no surprises (let me out of here)
No alarms and no surprises please (let me out of here)




STUCK IN A MOMENT YOU CAN'T GET OUT OF
U2
I'm not afraid of anything in this world
There's nothing you can throw at me
That I haven't already heard
I'm just trying to find a decent melody
A song that I can sing in my own company

I never thought you were a fool
But darling, look at you
You gotta stand up straight, carry your own weight
These tears are going nowhere, baby

You've got to get yourself together
You've got stuck in a moment
And now you can't get out of it
Don't say that later will be better
Now you're stuck in a moment
And you can't get out of it

I will not forsake, the colors that you bring
But the nights you filled with fireworks
They left you with nothing
I am still enchanted by the light you brought to me
I listen through your ears, and through your eyes I can see

And you are such a fool
To worry like you do
I know it's tough, and you can never get enough
Of what you don't really need now ... my oh my

You've got to get yourself together
You've got stuck in a moment
And you can't get out of it
Oh love look at you now
You've got yourself stuck in a moment
And you can't get out of it

I was unconscious, half asleep
The water is warm till you discover how deep
I wasn't jumping for me it was a fall
It's a long way down to nothing at all

You've got to get yourself together
You've got stuck in a moment and you can't get out of it
Don't say that later will be better now
You're stuck in a moment and you can't get out of it

And if the night runs over
And if the day won't last
And if our way should falter
Along the stony pass

And if the night runs over
And if the day won't last
And if your way should falter
Along the stony pass
It's just a moment
This time will pass