Se não me engano é no início de "Crash" que o personagem de Don Cheadle diz que as pessoas perderam a capacidade de se tocar: andamos em ruas lotadas, esbarramos uns nos outros, mas não nos tocamos, e aos poucos vamos nos desumanizando. Acho que o problema é bem pior que isso: não perdemos apenas capacidade do toque, mas também de ver, de ouvir, de observar, enfim, de sentir o mundo e as pessoas ao nosso redor. À noite, quando tudo está no mais absoluto silêncio e estamos tão cansados que não conseguimos pensar em nada, ou tão preocupados que não conseguimos dormir, se soubermos ouvir dá pra reparar que o silêncio também tem seus sons, sutis, bonitos e distantes, uma verdadeira trilha sonora que varia de acordo com o ambiente, seja urbano ou rural. Da mesma maneira, mesmo com todas as luzes apagadas, a escuridão tem luzes, vultos, imagens, e quanto mais as vemos mais aprendemos a enxergá-las. Até com os olhos fechados dá pra ver cores e formas! Se isso já acontece numa noite escura e silenciosa, imaginem quantas coisas deixamos de observar em nosso dia-a-dia... É como se o que está "incorporado" ao ambiente se tornasse invisível para nós: nos mesmos caminhos que eu percorro há anos diariamente, volta e meia encontro coisas que nunca tinha visto antes e me pergunto como é que aquela casa ou loja ou árvore esteve sempre ali sem eu nunca ter me dado conta... E nas raras vezes em que paro pra prestar atenção nesses "detalhes" que constituem a realidade à minha volta eu descubro tantas coisas novas... E o mesmo se pode dizer das pessoas com quem convivemos, ou simplesmente que "esbarramos" por aí, pelas quais costumamos "passar" sem tentar observar o quanto de humano e de dramático há em cada uma delas, não olhamos nos olhos, não interagimos, nem mesmo nos perguntamos o quanto elas sofrem ou fazem sofrer. Não sabemos mais ouvir, ouvir de verdade, com a alma, daquele jeito que não se precisa responder nada pra a outra pessoa saber que você a compreendeu. Não temos "tempo" para esses detalhes, mas é mais que uma questão de “tempo”: fomos educados a viver "no automático", e vamos perdendo progressivamente o que nos torna humanos, a capacidade de sentir, sem nos darmos conta de que enxergar os "detalhes" à nossa volta é enxergar a própria realidade... E isso não é à toa: o mesmo sistema que faz com que a maioria da população mundial não se dê conta da exploração a que é submetida pelo sistema capitalista ou da manipulação da mídia é o mesmo que nos condiciona a não olharmos ao nosso redor. Enxergar a realidade "imediata", a realidade que nos rodeia, nos leva necessariamente a olhar para as crianças nas sinaleiras, as empregadas domésticas, os loucos nas praças, as favelas, enfim, todo esse cenário urbano "invisível" que explode diante de nossos olhos, com personagens ao mesmo tempo fantásticos, incômodos e "invisíveis", e tudo isso conseqüentemente, leva à conscientização. Ver a realidade "micro" nos leva a questionar a realidade "macro", nos leva a sair da passividade, da normalidade, ou pelo menos é um primeiro passo. Não é possível ser ao mesmo tempo lúcido e normal, a lucidez exige coragem, exige loucura, pois a realidade não é normal. Acho que boa parte da esquerda que se diz contra o sistema não consegue ir muito além das palavras e da disputa pelo poder porque os militantes que tanto lêem e dizem querer fazer a revolução não conseguem olhar à própria volta, tornam-se cegos querendo mudar o mundo e, no caminho, acabam se perdendo e querendo apenas tomar o mundo para si. Se não prestamos muita atenção, acabamos lutando contra a Matrix caindo numa armadilha ilusória da própria Matrix. Isso me lembra uma coisa que Saramago disse no documentário "Janela da alma", ao falar sobre a inspiração para escrever "Ensaio sobre a cegueira". Ele disse que a idéia do romance surgiu de uma simples pergunta em sua mente: e se ficássemos todos cegos? Mas na mesma hora ele se deu conta: nós já estamos todos cegos, e aí surgiu o livro como uma metáfora. Acho que é isso: estamos cegos, criamos uma barreira, uma “proteção” pra a realidade, um casulo, um muro. Tendo olhos, não vemos, e tendo ouvidos, não ouvimos, e isso é muito grave, isso nos anestesia, nos ameniza a dor e a responsabilidade, mas nos impede do mais importante, que é sentir... Por isso o condicionamento a que somos submetidos desde crianças é tão importante: ao mesmo tempo em que somos “alienados” por todos os meios possíveis, de vez em quando são convenientes também certas doses homeopáticas de realidade crua através do sofrimento, para irmos nos “imunizando” e nos tornando cada vez mais insensíveis. Obviamente, para as “castas” mais baixas essas doses não são nada homeopáticas... E, assim, nos tornamos "confortavelmente dopados", como na música do Pink Floyd. Lutar contra isso é necessário e exige um grande esforço de reeducação. Saber sair à rua e interpretar toda a poesia contida na história daquelas pessoas, a força, o choro, o grito, o vômito. Não perder a capacidade de admirar as coisas simples, e ao mesmo tempo não deixar de tremer de indignação diante das injustiças do dia-a-dia. Reaprender a sentir é necessário tanto para apreciarmos as belezas "ocultas" que o cotidiano nos oferece quanto para que o soco diário na boca do estômago doa e nos force a chorar, a gritar, enlouquecer, a agir.
"há sempre um copo de mar para um homem navegar" - jorge de lima
Quando os cronópios saem em viagem, encontram os hotéis cheios, os trens já partiram, chove a cântaros e os táxis não querem levá-los ou lhes cobram preços altíssimos. Os cronópios não desanimam porque acreditam piamente que estas coisas acontecem a todo o mundo, e na hora de dormir dizem uns aos outros: “Que bela cidade, que belíssima cidade”. E sonham a noite toda que na cidade há grandes festas e que eles foram convidados. E no dia seguinte levantam contentíssimos, e é assim que os cronópios viajam.
(Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas)
(Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas)
"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios
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