"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

quarta-feira, 25 de março de 2009

Monólogo ilusório

Que minha vida é regida por uma força maior, não tenho a menor dúvida. Tenho plena consciência de que cada cena do meu cotidiano é escrita e dirigida por alguém que pensa os mínimos detalhes, até que um belo dia o pano cairá, o grande mistério será revelado, todas as peças deste quebra-cabeças se encaixarão e a genialidade do autor da obra-prima da minha vida será enfim compreendida. Mas ao contrário do que pode parecer, isso não me traz consolo algum. Primeiro porque só um personagem tolo pode acreditar na boa vontade de seu autor. Ora, a obra não é feita para o personagem, mas para o público, não se pode culpar um autor por desejar reconhecimento... As grandes obras-primas de qualquer gênero são sempre as com finais trágicos, e se esse que muitos chamam de Deus é realmente o grande escritor das linhas tortas, pelo estilo literário que tem usado, não é de se esperar que seu último capítulo seja um conto de fadas ou um final de novela das 8... Mas o que mais me entristece não é saber previamente que um final feliz é impossível, é que o sentido da obra só é revelado aos seus espectadores, o personagem está sempre ocupado demais interpretando ele mesmo pra poder ler seu próprio romance, está condenado a não ouvir os aplausos entusiasmados da platéia após o fechar das cortinas porque então, necessariamente, já estará morto. Em outras palavras, o personagem é privado de apreciar a beleza da própria tragédia. Então imaginei um personagem que se recusasse a exercer seu papel, se sentasse à beira do palco e simplesmente assistisse ao espetáculo se emocionando, rindo e chorando como um espectador que consegue sentir a dor se colocando no lugar do personagem... Mas talvez isso fosse perigoso, talvez um único personagem que saísse do seu papel pudesse destruir toda a obra, porque revelaria aos demais personagens que seu mundo não passa de um cenário montado, e que para além de seus limites não há o infinito, mas cadeiras com sádicos espectadores, e os personagens poderiam então se revoltar e se juntar ao primeiro rebelde, abdicando dos papéis que o diretor lhe determinara para sentarem e assistiram ao espetáculo... Mas se sem personagens não há espetáculo, não haveria o que ele assistirem, e sua descoberta teria sido então em vão, a não ser que eles tivessem a idéia de se acomodarem no palco para assistir ao espetáculo representado pela platéia, mas talvez a esta, acostumada à cômoda posição de voyer, não lhe agrade a sensação de ser observada, e talvez alguns, sensíveis, se retirem em busca de espetáculo melhor, outros, vaidosos, vejam a grande oportunidade para dizer as coisas importantes sobre suas próprias vidas que sempre acharam que todos precisavam saber e se levantem discursando como sua história pessoal merecia ser levada ao palco porque sempre havia se achado um autêntico personagem; outros, ainda, talvez, inconformados porque pagaram um ingresso caro pra assistir um espetáculo incompleto, invadam ao palco para fazer os personagens continuarem a encenação à força, e estes reconhecerão então que são os Anjos do Apocalipse que vêm com a missão divina de castigá-los por sua rebeldia, mas talvez escolham não se render, talvez seja uma batalha épica em que já não mais se conseguirá distinguir personagens e espectadores, talvez o teatro pegue fogo, e talvez Deus fuja, amedrontado, e talvez chegue ofegante à minha casa e entre pela porta me gritando: "Pra mim já chega! Não quero mais saber de personagens nem de nada que tenha a ver com arte, quero uma atividade criativa totalmente segura e previsível, vou me tornar engenheiro e inventar um programa de computador que crie uma realidade virtual da qual seja impossível escapar, tão perfeita que preveja até a possibilidade de que cada ser humano se questione se não passa de um personagem com sua vida encenada num gigantesco palco... Coloca o disquete!" E talvez eu seja deletado antes do fim. Mas pra onde vão metafisicamente os arquivos deletados e os personagens ignorados, só Deus sabe...

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No dia seguinte, encontro no Livro do Desassossego, de Bernardo Soares/Fernado Pessoa:

"Olho, como numa extensão ao sol que rompe nuvens, a minha vida passada; e noto, com um pasmo metafísico, como todos os meus gestos mais certos, as minhas ideias mais claras, e os meus propósitos mais lógicos, não foram, afinal, mais que bebedeira nata, loucura natural, grande desconhecimento. Nem sequer representei. Representaram-me. Fui, não o actor, mas os gestos dele.

Tudo quanto tenho feito, pensado, sido, é uma soma de subordinações, ou a um ente falso que julguei meu, por que agi dele para fora, ou de um peso de circunstâncias que supus ser o ar que respirava. Sou, neste momento de ver, um solitário súbito, que se reconhece desterrado onde se encontrou sempre cidadão. No mais íntimo do que pensei não fui eu."

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