"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Sobre mártires e inquisidores

(Trecho de A caixa-preta, de Amós Oz)

186a. Assimilar totalmente, portanto, o Eu dentro do Nós. Restringir-se a uma célula cega dentro de um organismo gigantesco, intemporal, onipotente e sublime. Fundir-se até o auto-esquecimento, até o limete extremo, à nação, ao movimento, à raça, como uma gota no ocenao da fé. Daí os diversos tipos de uniformes.

187. Um homem se ocupa com suas próprias questões enquanto tem interesses e enquanto tem privacidade. Na ausência destes, pelo medo do vazio da vida, ele se volta febrilmente para os assuntos dos outros. Para endireitá-los. Para castigá-los. Para esclarecer cada idiota e esmagar todo depravado. Para oferecer favores aos outros ou persegui-los selvagemente. Entre o fanático altruísta e o fanático assassino há naturalmente uma diferença de grau moral, mas não há diferença de essência. O assassínio e o auto-sacrifício são simplesmente dois lados da mesma moeda. Dominação e benevolência, agressão e devoção, repressão do próximo e auto-repressão, a redenção das almas daqueles que diferem de nós e a destruição daqueles que diferem de nós: não são pares de opostos, mas apenas expressões diversas do vazio e da insignificância do homem. "Sua insuficiência para si próprio", conforme a expressão de Pascal (ele mesmo um contaminado).

188. "À falta do que fazer com sua vida vazia e deserta, ele se pendura nos pescoços dos outros ou atira-se nas suas gargantas". (Eric Hoffer, O verdadeiro crente).

189. E este é o segredo da surpreendente semelhança entre a irmã de caridade, que trabalha dia e noite pelos desvalidos da sociedade, e o ladrão ideológico, chefe do serviço secreto, cuja vida é dedicada inteiramente à eliminação dos rivais, ou estranhos, ou inimigos da revolução: sua modéstia. Seu satisfazer-se com pouco. Sua hipocrisia cujo cheiro se sente à distância. Seu hábito secreto de autopiedade, e disso irradiar megawatts de sentimentos de culpa. O rancor comum à irmã de caridade e ao inquisidor por tudo o que é considerado "luxo" ou "auto-indulgência". O missionário dedicado e o diretor de purificação sedento de sangue: os mesmos modos suaves. A mesma cortesia floreada. O mesmo cheiro de azedume indefinido emana dos corpos de ambos. O mesmo estilo ascético de vestir. O mesmo gosto (sentimental, banal) em música e arte. E, particularmente, o mesmo vocabulário ativo, caracterizado por retórica gasta, modéstia afetada, rejeição a toda vulgaridade - toalete em vez de privada, faleceu em vez de morreu, solução em vez de extermínio, purificação em vez de matança. E naturalmente salvação, redenção. O lema comum a ambos: "Sou apenas um modesto instrumento". (Eu sou um "instrumento", portanto eu sou "dente de engrenagem" - ergo sum?!)

190. Torturador e vítima. Inquisidor e mártir. Crucificador e crucificado. O mistério da compreensão mútua, da secreta fraternidade que frequentemente cresce entre eles. A dependência mútua. A mútua admiração oculta. A facilidade com que são capazes de trocar de papéis quando as circusntâncias mudam.

191. "O sacrifício da vida pessoal no altar do ideal sagrado" é apenas uma desesperada adesão aos ideais quando a vida pessoal morre.

200. Em outras palavras: com a morte da alma o cadáver ambulante transforma-se num ser totalmente público.

201. "A santidade do dever": um apegar-se espasmódico a qualquer tábua de salvação que esteja ao nosso alcance. O tipo de tábua é quase acidental.

202. "Purificação de todo egoísmo": estratagema egoísta de sobrevivência, no limite do instinto cego.

Nenhum comentário: