"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Em busca de Pasárgada

Poemas de Manuel Bandeira.

Arte de amar

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.


Pneumotórax


Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .
— Respire.

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— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.



Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada


Auto-retrato

Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província;
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

quando eu tiver setenta anos...


Já disse Quintana:
"Qualquer idéia que te agrade,Por isso mesmo... é tua.O autor nada mais fez que vestir a verdadeQue dentro em ti se achava inteiramente nua"
O que Leminski fez nos poemas abaixo foi só me traduzir antes que eu soubesse o que queria falar:


quando eu tiver setenta anos

então vai acabar esta minha adolescência


vou largar da vida louca

e terminar minha livre docência


vou fazer o que meu pai quer

começar a vida com passo perfeito


vou fazer o que minha mãe deseja

aproveitar as oportunidades

de virar um pilar da sociedade

e terminar meu curso de direito


então ver tudo em sã consciência

quando acabar esta adolescência


***


eu queria tanto

ser um poeta maldito

a massa sofrendo enquanto

eu profundo medito


eu queria tanto

ser um poeta social

rosto queimado

pelo hálito das multidões


em vez olha eu aqui

pondo sal

nesta sopa rala

que mal vai dar para dois


***


parem

eu confesso

sou poeta


cada manhã que nasce

me nasce

uma rosa na face


parem

eu confesso

sou poeta


só meu amor é meu deus


eu sou o seu profeta


***


LÁPIDE 1

epitáfio para o corpo


Aqui jaz um grande poeta.

Nada deixou escrito.

Este silêncio, acredito

são suas obras completas.


***


moinho de versos

movido a vento

em noites de boemia


vai vir o dia

quando tudo que eu diga

seja poesia


***


Incenso Fosse Música


isso de querer

ser exatamente aquilo

que a gente é

ainda vai

nos levar além


***


tenho andado fraco


levanto a mão

é uma mão de macaco


tenho andado só

lembrando que sou pó


tenho andado tanto

diabo querendo ser santo


tenho andado cheio

o copo pelo meio


tenho andado sem pai


yo no creo em caminos

pero que los hay

hay

***


minhas sete quedas


minha primeira queda

não abriu o pára-quedas


daí passei feito uma pedra

pra minha segunda queda


da segunda à terceira queda

foi um pulo que é uma seda


nisso uma quinta queda

pega a quarta e arremeda


na sexta continuei caindo

agora com licença

mais um abismo vem vindo

***


meus amigos

quando me dão a mão

sempre deixam

outra coisa


presença

olhar

lembrança

calor


meus amigos

quando me dão

deixam na minha

a sua mão


***

não fosse isso

e era menos

não fosse tanto

e era quase


***

você está tão longe

que às vezes penso

que nem existo


nem fale em amor

que amor é isto

Maneira simplérrima de destruir uma cidade

Esperar, escondido no gramado, que uma grande nuvem da espécie cúmulo se situe sobre a cidade detestada. Disparar então a flecha petrificadora, a nuvem se transforma em mármore e o resto não merece comentário.

Júlio Cortázar, A volta ao dia em 80 mundos

Sobre o pasmo essencial e o amor

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo.
Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

Alberto Caeiro