"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Navegar é preciso, viver não é preciso...

O coração das trevas, Joseph Conrad

Era o único, entre nós, que ainda corria os mares. E o pior que a seu respeito podia dizer-se é que não representava a classe. Marinheiro, sim, mas vagabundo também, enquanto a maior parte leva um género de vida, digamos que sedentário. Tinha espírito caseiro e arrastava consigo a casa - o navio; e a sua terra - o mar. Todos os barcos se parecem uns com os outros, e o mar é sempre igual. No imutável ambiente que os rodeia, as costas estrangeiras, as caras estrangeiras, a versátil imensidão da vida deslizam rápidas e não veladas por um sentido de mistério, mas certa ignorância desdenhosa; para o marinheiro, misterioso só o próprio mar que é amante de toda a vida e tão indevassável como o Destino. Quanto ao mais, depois das horas de trabalho basta um acidental passeio, uma pândega em terra, para o segredo de um continente inteiro ficar exposto, e, regra geral, achar que não vale o esforço de ser conhecido. As histórias dos marinheiros são objectivamente simples e com significado que cabe inteiro em meia casca de noz. Marlow, porém, não era típico (exceptuada a tendência para tagarelar); para ele, o significado de um episódio não estava no seu interior, como um caroço, mas fora, a envolver a história e a dar-lhe realce, como o calor que provoca a névoa, como esses halos de vapor que o fantomático luar por vezes faz visíveis.

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