Escher - Eye
O terceiro tira
Flann O'Brien
Se um homem se põe diante do espelho e nele vê seu reflexo, o que ele vê não é uma verdadeira reprodução de si próprio mas a imagem de si mesmo quando era um homem mais jovem. A explicação de De Selby quanto a este fenômeno é bem simples. A luz, como ele observa com bastante acerto, tem uma velocidade de deslocamento definida e limitada. Logo, antes que o feflexo de qualquer objeto no espelho possa ser considerado concluído, é necessário que os raios de luz primeiro atinjam o objeto e subsequentemente incidam no vidro, para serem lançados de volta sobre o objeto - os olhos de um homem, por exemplo. Há, portanto, um apreciável e mensurável intervalo de tempo entre o ato de um homem lançar um olhar em seu próprio rosto num espelho e o registro da imagem refletida em seu olho.
Até aqui, poderia-se dizer, tudo bem. Se esta idéia é certa ou errada, a importância de tempo envolvida é tão insignificante que poucas pessoas razoáveis discutiriam o ponto. Mas a permanente relutância de De Selby em deixar as coisas aceitáveis ficarem como estão insiste em refletir o primeiro reflexo num outro espelho profesando detectar mínimas mudanças nesta segunda imagem. Por fim ele propôs a conhecida combinação de espelhos paralelos, cada um refletindo imagens sempre menores de um objeto interposto indefinidamente. O objeto interposto neste caso era o próprio rosto de De Selby, e este ele alega ter examinado retrospectivamente através de uma infinidade de reflexos por meio de uma “lente poderosa”. O que ele declara ter visto com sua lente é espantoso. Alega ter percebido uma crescente juventude nos reflexos de seu rosto à medida que eles diminuíam, o mais distante deles - demasiadamente diminuto para ser visível a olho nu - sendo o rosto de um garoto imberbe de doze anos, e, para usar suas próprias palavras, “um semblante de beleza e nobreza singulares”. Ele não logrou perseguir a questão de volta ao berço “devido à curvatura da terra e às limitações do telescópio”.
(...) Em outra parte, De Selby assevera que uma boa estrada tem que ter caráter e um certo ar de destino, uma insinuação indefinível de que está indo para algum lugar, seja para leste ou oeste, e não retornando de lá. Se você seguir por tal estrada, acha ele, ela lhe oferecerá uma viagem agradável, belas vistas em cada curva e uma tranquila facilidade de peregrinação que o convencerá de que está andando permanentemente em declives. Mas se você rumar para leste numa estrada que está seguindo para oeste, ficará admirado com a invariável aridez de cada paisagem e o enorme número de aclives calejantes que o confrontará para fatigá-lo. Caso uma estrada amistosa o leve a entrar numa cidade complicada com um emanranhado de ruas sinuosas e quinhentas outras estradas saindo dela com destinos ignorados, sua própria estrada será sempre discernível por si mesma e o conduzirá para fora da cidade confusa.
Escher - Stairs
Escher - Moebius
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