"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

sexta-feira, 8 de julho de 2011

À espera dos bárbaros

J. M. Coetzee

O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloqüências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.

Konstantinos Kavafis

"Penso num jovem camponês que me foi apresentado, certa vez, no tempo em que eu tinha jurisdição sobre a guarnição. Fora condenado pelo magistrado de uma aldeia remota a servir durante três anos no exército por ter roubado galinhas. Tentou desertar após um mês. Foi preso e levado a minha presença. Declarou que queria rever a mãe e as irmãs.

– Não podemos fazer tudo o que desejamos – expliquei-lhe. – Todos estamos submetidos à lei. O magistrado que o mandou para cá, eu mesmo, você, todos estamos submetidos à lei.


Ele me fitou melancolicamente, esperando a sentença, as mãos algemadas às costas, dois guardas indiferentes atrás dele.

– Sei que lhe parece injusto ser punido em virtude de seus bons sentimentos filiais. Você pensa saber o que é justo e o que é injusto. Eu compreendo. Todos pensamos saber.

Eu não duvidava, então, de que, a cada momento, cada um de nós, homem, mulher, criança e talvez até mesmo o pobre e velho cavalo que fazia girar a roda do moinho, sabia o que era justo: todas as criaturas, ao nascer, trazem consigo a memória da justiça.

– Mas vivemos num mundo regido por leis – disse a meu pobre prisioneiro –, um mundo em que levamos a pior parte. Nada podemos fazer. Somos criaturas desamparadas. Tudo o que podemos é tratar de manter as leis, todos nós, impedindo que feneça a memória da justiça.
Após essa lição, condenei-o. Ele ouviu a sentença sem nada dizer e a escolta o levou. 


Lembro-me da incômoda vergonha que sentia em dias assim. Saía do tribunal, voltava para casa, sentava-me na cadeira de balanço e ali ficava, no escuro, sem apetite, até a hora de dormir. “Quando alguns homens sofrem injustamente”, dizia para mim mesmo, “o destino dos que lhe testemunham o sofrimento é passar vergonha.” Mas a especiosa consolação de tal pensamento não me aliviava. Brinquei mais de uma vez com a idéia de renunciar a meu cargo, retirar-me da vida pública, comprar uma pequena chácara. Mas então, pensava eu, outra pessoa será designada para passar a vergonha do ofício, e nada terá mudado. E assim continuei no posto, até o dia em que os eventos me apanharam."


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