"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

terça-feira, 2 de agosto de 2011

O espantapássaros

Oliverio Girondo
A Arte é o pior inimigo da arte!... um fetiche ante o qual oficiam, ajoelhados, os que não são artistas." - O. G.

Apunte callejero

Penso onde guardarei os quiosques, os faróis, os transeuntes, que me entram pelas pupilas. Sinto-me tão cheio que tenho medo de estourar... Necessitaria deixar alguma carga sobre a calçada...


Ao chegar a uma esquina, minha sombra se separa de mim, e de repente, se atira entre as rodas de um bonde.


1



Não dou a mínima a que as mulheres tenham os seios como magnólias ou como passas de figo; uma pele de pêssego ou de papel de lixa. Dou uma importância igual a zero ao fato de que amanheçam com um hálito afrodisíaco ou com um hálito de inseticida. Sou perfeitamente capaz de suportar-lhes um nariz que ganharia o primeiro prêmio numa exposição de cenouras; mas isso sim! - e nisso sou irredutível - não lhes perdôo, sob nenhum pretexto, que não saibam voar. Se não sabem voar perdem o tempo as que pretendem seduzir-me!

Essa foi - e não outra -  a razão de que me apaixonasse, tão loucamente, por Maria Luísa.

Maria Luísa era uma verdadeira pluma! 

Desde o amanhecer voava do quarto à cozinha, voava da sala de jantar à despensa. Voando me preparava o banho, a camisa. Voando realizava as compras, seus afazeres.

 
Com que impaciência eu esperava que voltasse, voando, de algum passeio pelos arredores! Ali lnge, perdido entre as nuvens, um pontinho rosado. "Maria Luísa! Maria Luísa!"... e a poucos segundos, já me abraçava com suas pernas de pluma, para me levar, voando, a qualquer parte.
 
Durante quilômetros de silêncio planejávamos uma carícia que nos aproximava do paraíso; durante horas inteiras nos aninhávamos numa nuvem, como dois anjos, e de repente, em caracol, em folha morta, a aterrissagem forçosa de um espasmo.
 
Que delícia a de ter uma mulher tão leve... ainda que nos faça ver, de vez em quando, as estrelas! Que voluptuosidade a de passar os dias entre as nuvens... a de passar a noite em um só vôo...
 
Depois de conhecer uma mulher etérea, pode nos oferecer algum tipo de atrativos uma mulher terrestre? Verdade que não há uma diferença substancial entre viver com uma vaca ou com uma mulher que tenha as nádegas a setenta e oito centímetros do solo?
 
Eu, pelo menos, sou incapaz de compreender a sedução de uma mulher pedestre, e por mais empenho que ponha em concebê-lo, não me é possível nem sequer imaginar que se possa fazer amor mais que voando.


7

Tudo era amor... amor!
Não havia nada mais que amor.
Em todas as partes se encontrava amor.
Não se podia falar mais que de amor.
Amor passado por água, a baunilha,
amor ao portador, amor a prazos.
Amor analisável, analisado.
Amor ultramarino.
Amor equestre.
Amor de cartão pedra, amor com leite...
cheio de prevenções, de preventivos;
cheio de curto-circuitos, de obstáculos.
Amor com um grande M,
com um M maiúsculo,
lambuzado de merengue,
coberto de flores brancas.
Amor espermatozóico, esperantista.
Amor desinfetado, amor untuoso...
Amor com seus acessórios, com seus pedaços;
com suas faltas de pontualidade, de ortografia;
com suas interrupções cardíacas e telefônicas.
Amor que incendeio o coração dos orangotangos,
dos bombeiros.
Amor que exalta o canto das rãs sob os ramos,
que arranca os botões das botinas,
que se alimenta de cio e de salada.
Amor impostergável e amor imposto.
Amor incandescente e amor incauto.
Amor indeformável. Amor desnudo.
Amor-amor que é, simplesmente, amor.
Amor e amor... e nada mais que amor!


12

Se olham, se pressentem, se desejam,
se acariciam, se beijam, se desnudam,
se respiram, se deitam, se cheiram,
se penetram, se chupam, se transfiguram,
se adormecem, despertam, se iluminam,
se cobiçam, se apalpam, se fascinam,
se mastigam, se gostam, se babam,
se confundem, se acoplam, se desagregam,
se letargiam, falecem, se reintegram,
se distendem, se arqueiam, se mexem,
se retorcem, se estiram, se esquentam,
se estrangulam, se apertam, se estremecem,
se tateiam, se juntam, desfalecem,
se repelem, se enervam, se apetecem,
se acometem, se enlaçam, se entrechocam,
se encolhem, se apressam, se deslocam,
se perfuram, se incrustam, se crivam,
se pregam, se enxertam, se enroscam,
se desmaiam, revivem, resplandecem,
se contemplam, se inflamam, enlouquecem,
se derretem, se soldam, se vulcanizam,
se rasgam, se mordem, se assassinam,
ressuscitam, se buscam, se combatem,
se evitam, se evadem e se entregam.
 
16

Uns gostam do alpinismo. A outros, lhes entretém o dominó. A mim, me encanta a transmigração.

Enquanto aqueles passam a vida pendurados de uma corda ou dando socos sobre uma mesa, eu passo transmigrando de um corpo a outro, eu não me canso nunca de transmigrar.

Desde o amanhecer, me instalo em algum eucalipto a respirar a brisa da manhã. Durmo uma sesta mineral dentro da primeira pedra que acho em meu caminho, e antes de anoitecer já estou pensando a noite e as chaminés com um espírito de gato.

Que delícia a de metamorfosear-se em abelha, a de sorver o pólen das rosas! Que voluptuosidade a de ser terra, a de sentir-se penetrado de tubérculos, de raízes, de uma vida latente que nos fecunda... e nos faz cosquinhas!

Para apreciar o presunto, não é indispensável ser porco? Quem não possa transformar-se em cavalo, poderá saborear o gosto dos vales e dar-se conta do que significa "puxar a carroça"?...

Possuir uma virgem é muito distinto a experimentar as sensações da virgem enquanto a estamos possuindo, e uma coisa é olhar o mar desde a praia, outra é contemplá-lo com olhos de caranguejo.

Por isso gosto de meter-me nas vidas alheias, viver todas suas secreções, todas suas esperanças, seus bons e seus maus humores.

Por isso gosto de ruminar a pampa e o crepúsculo personificado numa vaca, sentir a gravitação e as ramagens com um cérebro de noz ou de castanha, ajoelhar-me em pleno campo, para cantar com uma voz de sapo às estrelas.

Ah, o encanto de haver sido camelo, cenoura, maçã, e a satisfação de compreender, a fundo, a preguiça dos remansos... e dos camaleões!...

Pensar que durante toda sua existência a maioria dos homens não foram, nem sequer, mulher!... Como é possível que não se aborreçam de seus apetites, de seus espasmos e que não necessitem experimentar, de vez em quando, os das baratas... os das madressilvas?

Ainda que me haja posto, muitas vezes, um cérebro de imbecil, jamais compreendi que se possa viver, eternamente, com um mesmo esqueleto e um mesmo sexo.

Quando a vida é demasiado humana - unicamente humana! - o mecanismo de pensar não resulta numa doença mais longa e mais entediante que qualquer outra?

Eu, ao menos, tenho a certeza que não a haveria suportado sem essa aptidão de evasão, que me permite transportar-me aonde eu não estou: ser formiga, girafa, pôr um ovo, e o que é mais importante ainda, encontrar-me comigo mesmo no momento em que me havia esquecido, quase completamente, de minha própria existência.

8

Eu não tenho uma personalidade; eu sou um coquetel, um conglomerado, uma manifestação de personalidades.

Em mim, a personalidade é uma espécie de furunculose anímica em estado crônico de erupção; não passa  meia hora sem que me nasça uma nova personalidade.

Desde que estou comigo mesmo, é tal a aglomeração das que me rodeiam, que minha casa parece o consultório de uma quiromântica de moda. Há personalidades em todas as partes: no vestíbulo, no corredor, na cozinha, até no banheiro.

Impossível conseguir um momento de trégua, de descanso! Impossível saber qual é a verdadeira!

Apesar de que me vejo forçado a conviver na promiscuidade mais absoluta com todas elas, não me convenço de que me pertençam.

Que tipo de contato podem ter comigo – me pergunto – todas estas personalidades inconfessáveis, que fariam ruborizar um açougueiro? Haverei de permitir que se me identifique, por exemplo, com este pederasta murcho que não teve nem a coragem de realizar-se, ou com este cretinóide cujo sorriso é capaz de congelar uma locomotiva?

O fato de que se hospedem em meu corpo é suficiente, no entanto, para se adoecer de indignação. Já que não posso ignorar sua existência, quisera obrigá-las a que se ocultem noscantos mais profundos de meu cérebro. Mas são de uma petulância... de um egoísmo...de uma falta de tato...

Até as personalidades mais insignificantes se dão uns ares de transatlântico. Todas, sem nenhum tipo de exceção, se consideram com direito a manifestar um desprezo olímpico pelas outras e, naturalmente, há brigas, conflitos de toda espécie, discussões que não terminam nunca. Em vez de contemporizar, já que têm que viver juntas, pois não senhor!, cada uma pretende impor sua vontade, sem tomar em conta as opiniões e os gostos das demais. Se alguma tem uma idéia que me faz rir a gargalhadas, no ato sai qualquer outra, propondo-me um passeio ao cemitério. Nem bem aquela deseja que me deite com todas as mulheres da cidade, esta se empenha em demostrar-me as vantagens da abstinência, e enquanto uma abusa da noite e não me deixa dormir até a madrugada, a outra me desperta com o amanhecer e exige que me levante junto com as galinhas.

Minha vida resulta assim uma gestação de possibilidades que não se realizam nunca, uma explosão de forças que se entrechocam e se destroem mutuamente. O feito de tomar a menor determinação me custa um tal cúmulo de dificuldades, antes de cometer o ato mais insignificante necessito pôr tantas personalidades de acordo, que prefiro renunciar a qualquer coisa e esperar que se extenuem discutindo o que hão de fazer com minha pessoa, para ter, ao menos, a satisfação de mandá-las todas juntas à merda.


21

Que os ruídos te perfurem os dentes, como uma lixa de dentista, e tua memória se encha de ferrugem, de cheiros decompostos e de palavras podres.

Que te cresça, em cada um dos poros, uma pata de aranha; que só possas alimentar-te de baralhos usados e que o sono te reduza, como um aplanador, à espessura de teu retrato.

Que ao sair à rua, até os postes te expulsem aos chutes, que um fanatismo irresistível te obrigue a prostrar-te ante os cestos de lixo e que todos os habitantes da cidade te confundam com uma latrina.

Que quando queiras dizer "Meu amor", digas "Peixe frito"; que tuas mãos tentem estrangular-te a cada momento, e que em vez de jogar fora o cigarro, sejas tu o que te jogues nas escarradeiras.

Que tua mulher te engane até com as caixas de correio; que, ao deitar-se junto a ti, se metamorfoseie em sanguessuga, e que depois de parir um corvo, dê à luz a uma chave inglesa.

Que tua família se divirta em deformar-te o esqueleto, para que os espelhos, ao te olhar, se suicidem de repugnância; que teu único entretenimento consista em instalar-te na sala de espera dos dentistas, fantasiado de crocodilo, e que te apaixones, tão loucamente, de uma caixa de ferro, que não possas deixar, nem um só instante, de lamber-lhe a fechadura.


3

Nunca deixei de levar a vida humilde que se pode permitir um modesto empregado de correios. Pois! minha mulher - que tem a mania de pensar em voz alta e de dizer tudo o que lhe passa pela cabeça - se empenha em me atribuir os destinos mais absurdos que se podem imaginar.

Agora mesmo, enquanto lia os jornais da tarde, me perguntou sem nenhum tipo de preâmbulos:

"Por que não abandonaste o gato e o lar? Deve ser tão lindo embarcar numa fragata!... Durante as noites de lua, os marinheiros se reúnem sobre a coberta. Alguns tocam o acordeon, outros acariciam uma mulher de borracha. Tu fumas um cachimbo em companhia de um amigo. O mar te endureceu as pupilas. Viste demasiados entardeceres. Com que porto, com que cidade não te deitaste alguma noite? As velas serão capazes de brindar-te um horizonte novo? Um dia em que a calma já é uma maldição, desces a teu beliche, desatas um lenço de seda, te enforcas com uma trança de mulher".

E não contente em fazer-me navegar por todo o mundo, quando faz dezesseis anos que estou ancorado no correio:

"Recordas como era quando me conheceste?... Nesse tempo imaginava que serias soldado e meus mamilos se incendiavam ao pensar que terias um peito áspero, como um tapete felpudo.

"Eras forte. Escalaste os muros de um monastério. Te deitaste com a abadessa. Deixaste-a prenha. A que tempo, a que nação pertence tua história?... Apostaste a vida tantas vezes que possuis um cheiro a baralhos usados. Com que avidez, com que ternura eu te beijava as feridas! Eras brutal. Eras taciturno. Gostavas dos queijos com sabor a virilha de sátiro... e na primeira noite, ao possuir-me, me destroçaste a coluna no respaldo da cama."

E como me dispusesse a demonstrar-lhe que, longe de cometer essas barbaridades, não ambicionei durante toda minha existência, mais que ingressar no Clube Social Vélez Sarsfield:

"Agora te vejo ajoelhado numa igreja com cheiro a bodega.

"Olha-te as mãos; só servem para folhear missais. Tua humildade é tão grande que te envergonhas de tua pureza, de tua sabedoria. Te inclinas a cada instante para beijar as folhas que se queixam e que suspiram. Quando uma mulher te olha, baixas as pálpebras e te sentes nu. Teu suor é grato às prostitutas e aos cães. Gostas de deitar-te, em pleno campo, a olhar as estrelas...

"Uma noite - em que te achas com Deus - entras num estábulo, sem que ninguém te veja, e te estiras sobre a palha, para morrer abraçado ao pescoço de alguma vaca..."


HÁ QUE COMPADECÊ-LOS

Não sabem.
Perdoai-os!
Não sabem o que fizeram,
o que fazem,
por que matam,
por que ferem as pedras,
massacram as paisagens...
Não sabem...
Não sabem por que morrem...

Se nutrem,
se nutriram
de hediondas imposturas,
de cancerosos miasmas,
de vocábulos sem polpa,
sem caroço,
sem suco,
de negras carnes em fumaça,
de canções em pasta,
de passionais sombras com vozes de ventríloquo.

Vivem
entre o fétido,
uma inquietude de isca,
de bexiga cheia,
de urticária florida que cultiva o jejum,
o suor estancado,
a iniquidade grávida.

Não creem.
Não creem em nada
além do muco fervido,
no ideal,
chiante,
dos rolos compressores,
nas azedas náuseas
que atormentam o éter,
em todas as mentiras
que engendram as matrizes do chumbo derretido.

Só pensam em cifras,
em fórmulas,
em pesos,
em tirar proveito até de seus excrementos.
Cospem nas veredas,
cospem nos bondes,
para esquivar as horas
e demonstrar que existem.

Não podem rebelar-se.
Empurra-os a inércia,
o terror,
o engano,
as plumas subornadas,
os consórcios sem sexo que pariu a usura
e que nunca se saciam de fabricar cadáveres.

Se negam ao diálogo da água com as pedras.
Ignoram o mistério do vaga-lume,
do ar.
Veem as nuvens,
a areia,
e não caem de joelhos.
Não ficam deslumbrados por viver entre veias.
Só buscam a felicidade nas solas de borracha.
Se se aproximam a uma árvore não é mais que para mijá-la.
São capazes de tudo contanto que não se escutem,
contanto que não estejam sós.

Como,
como saberiam
o que fizeram,
o que fazem?
Algo tem de estranho
que desertem do asco,
do fel,
do cansaço?

Só se pode esperar
que defendam o chumbo,
que morram pelo esterco,
que cumpram a proeza
de arrasar o que encontrem e exterminar tudo,
para que a fome estenda seus tapetes de fibra
e desate sua bolsa empanturrada de cãibras.

São ferozmente cruéis,
São ferozmente estúpidos,
mas são inocentes.

Há que compadecê-los!

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