Matéi Visniec
Se quero ficar sozinho, paro, tiro o giz preto do meu bolso e traço um círculo à minha volta. Dentro do meu círculo, encontro abrigo. Ninguém tem o direito nem o poder de me dirigir a palavra se eu estiver dentro do meu círculo. Ninguém tem o direito nem o poder de entrar, de me tocar ou de me olhar por muito tempo.
Quando estou dentro do meu círculo, não escuto mais o barulho da rua, as ondas do mar ou o canto dos passarinhos. Posso ficar lá, sem me mexer, o tempo que quiser. Nada mais que acontece à minha volta me interessa. O círculo me isola do mundo exterior e de mim mesmo. É a felicidade total, é a paz.
Dentro do círculo não se sente mais frio, dor ou fome. O tempo, ele também para. Mergulha-se na abstração como num sonho protetor. A gente se torna o centro do círculo.
Quando quero sair do círculo, estendo a mão e corto a linha do círculo. Só eu posso fazê-lo. De fora, ninguém pode cortar o círculo para mim. O milagre do círculo consiste na segurança total que ele nos oferece.
Desde que o círculo foi inventado, o mundo ficou melhor. Não há guerra, nem fome, nem catástrofe. A criminalidade diminuiu. É só a náusea nos atingir que traçamos um círculo em volta da gente. É só alguém nos aborrecer que entramos no círculo. Se um ladrão entra em nossa casa à noite, entramos depressa no círculo.
Se depois de uma longa viagem ficamos cansados, é só descansar dentro do círculo. Se não conseguimos responder a alguma questão essencial, o círculo é o melhor lugar para meditar. Se a morte se aproxima e não queremos morrer, podemos vegetar eternamente dentro do círculo.
Não se pode nunca trancar dois no mesmo círculo. Alguns tentaram, mas não deu em nada. Um círculo para dois não existe e estou certo de que não existirá jamais.
No começo era preciso um giz magnético preto para poder traçar o círculo. O giz era um pouco caro e a maioria das pessoas não podia comprar. Pouco a pouco o preço do giz foi caindo e até giz colorido apareceu no mercado. No fim, a prefeitura começou a distribuir giz grátis para toda a população.
Hoje se sabe que não se precisa nem mesmo de giz para traçar um círculo em volta de si mesmo. O círculo pode ser desenhado com qualquer coisa: um toco de lápis, um batom, uma ponta de faca, uma agulha ou até mesmo com a unha.
Todo mundo é da opinião de que o círculo representa a panaceia de todos os tempos. É fim de milênio e ninguém mais é infeliz.
As pesquisas mostram que os habitantes da cidade passam mais de cem dias por ano no seu círculo. Foi feito um recenseamento daqueles que não saíram do círculo por cinco, dez, vinte anos. Sem dúvida tomaram gosto pela eternidade.
Mas não deixo de me inquietar com boatos que correm pela cidade nos últimos tempos. Dizem que os círculos escondem uma armadilha, que a gente entra algumas vezes para nunca mais sair. Fala-se de gente que ficou bloqueada no círculo contra a própria vontade. Dizem que os que vivem dentro do círculo por mais de dez ou vinte anos são, na realidade, prisioneiros. Fala-se até que, já faz algum tempo, a maior parte dos círculos não obedece mais aos homens. Dizem haver muitas pessoas que, uma vez cercadas, descobrem que não podem mais abrir suas jaulas.
Dizem até que não sairão jamais.
*extraído de "Teatro Decomposto ou O Homem-Lixo"
Se quero ficar sozinho, paro, tiro o giz preto do meu bolso e traço um círculo à minha volta. Dentro do meu círculo, encontro abrigo. Ninguém tem o direito nem o poder de me dirigir a palavra se eu estiver dentro do meu círculo. Ninguém tem o direito nem o poder de entrar, de me tocar ou de me olhar por muito tempo.
Quando estou dentro do meu círculo, não escuto mais o barulho da rua, as ondas do mar ou o canto dos passarinhos. Posso ficar lá, sem me mexer, o tempo que quiser. Nada mais que acontece à minha volta me interessa. O círculo me isola do mundo exterior e de mim mesmo. É a felicidade total, é a paz.
Dentro do círculo não se sente mais frio, dor ou fome. O tempo, ele também para. Mergulha-se na abstração como num sonho protetor. A gente se torna o centro do círculo.
Quando quero sair do círculo, estendo a mão e corto a linha do círculo. Só eu posso fazê-lo. De fora, ninguém pode cortar o círculo para mim. O milagre do círculo consiste na segurança total que ele nos oferece.
Desde que o círculo foi inventado, o mundo ficou melhor. Não há guerra, nem fome, nem catástrofe. A criminalidade diminuiu. É só a náusea nos atingir que traçamos um círculo em volta da gente. É só alguém nos aborrecer que entramos no círculo. Se um ladrão entra em nossa casa à noite, entramos depressa no círculo.
Se depois de uma longa viagem ficamos cansados, é só descansar dentro do círculo. Se não conseguimos responder a alguma questão essencial, o círculo é o melhor lugar para meditar. Se a morte se aproxima e não queremos morrer, podemos vegetar eternamente dentro do círculo.
Não se pode nunca trancar dois no mesmo círculo. Alguns tentaram, mas não deu em nada. Um círculo para dois não existe e estou certo de que não existirá jamais.
No começo era preciso um giz magnético preto para poder traçar o círculo. O giz era um pouco caro e a maioria das pessoas não podia comprar. Pouco a pouco o preço do giz foi caindo e até giz colorido apareceu no mercado. No fim, a prefeitura começou a distribuir giz grátis para toda a população.
Hoje se sabe que não se precisa nem mesmo de giz para traçar um círculo em volta de si mesmo. O círculo pode ser desenhado com qualquer coisa: um toco de lápis, um batom, uma ponta de faca, uma agulha ou até mesmo com a unha.
Todo mundo é da opinião de que o círculo representa a panaceia de todos os tempos. É fim de milênio e ninguém mais é infeliz.
As pesquisas mostram que os habitantes da cidade passam mais de cem dias por ano no seu círculo. Foi feito um recenseamento daqueles que não saíram do círculo por cinco, dez, vinte anos. Sem dúvida tomaram gosto pela eternidade.
Mas não deixo de me inquietar com boatos que correm pela cidade nos últimos tempos. Dizem que os círculos escondem uma armadilha, que a gente entra algumas vezes para nunca mais sair. Fala-se de gente que ficou bloqueada no círculo contra a própria vontade. Dizem que os que vivem dentro do círculo por mais de dez ou vinte anos são, na realidade, prisioneiros. Fala-se até que, já faz algum tempo, a maior parte dos círculos não obedece mais aos homens. Dizem haver muitas pessoas que, uma vez cercadas, descobrem que não podem mais abrir suas jaulas.
Dizem até que não sairão jamais.
*extraído de "Teatro Decomposto ou O Homem-Lixo"
Um comentário:
Este texto é incrível!
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