"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

A leveza e o peso

Milan Kundera

Quem pensa que os regimes comunistas da Europa Central são exclusivamente obra de criminosos deixa na sombra uma verdade fundamental: é que os regimes comunistas não foram edificados por criminosos, mas por entusiastas, convencidos de que tinham descoberto a única via possível para o paraíso. E defendiam essa via com unhas e dentes, chegando inclusivamente a mandar matar muito boa gente por causa disso. Mais tarde, tomou-se claro como a luz do dia que o paraíso não existia e, portanto, que os entusiastas eram assassinos.

Então todos caíram em cima dos comunistas: eles é que eram responsáveis pela desgraça do país (que se encontrava pobre e arruinado), pela perda da independência nacional (o país tinha caído sob a alçada dos russos), pelos homicídios judiciais!

Os acusados respondiam: não sabíamos! Fomos enganados! Acreditávamos! Somos inocentes do fundo do coração!

O debate resumia-se, portanto, a uma questão: os comunistas não saberiam mesmo? Ou estavam só a fingir que não sabiam de nada?

Tomas ia seguindo o debate (como outros dez milhões de tchecos), convencido que tinha forçosamente de haver comunistas ao corrente de alguma coisa (apesar de tudo, sempre deviam ter ouvido falar dos horrores que se tinham produzido e continuavam a produzir-se na Rússia pós-revolucionária). Mas também achava provável que a grande maioria não estivesse realmente ao corrente de nada.

E pensava que a pergunta que devia ser feita não era: afinal, os comunistas sabiam ou não? Mas: alguém pode estar inocente só por não saber? Um imbecil sentado num trono pode ser desculpado de tudo só pelo fato de ser imbecil?

Admitamos que o procurador tcheco, que no início dos anos cinquenta pedia a pena de morte para um inocente, tenha sido de fato enganado pela polícia secreta russa e pelo Governo do seu país. Mas agora que toda a gente sabia que as acusações eram absurdas e que os supliciados estavam inocentes, como é que exactamente o mesmo procurador podia defender a pureza da sua alma e bater com a mão no peito, protestando: eu tenho a consciência limpa, eu não sabia, eu acreditava! Não era exactamente no seu "Eu não sabia! Eu acreditava!” que residia a sua culpa irreparável?

Então, Tomas lembrou-se da história de Édipo. Édipo não sabia que dormia com a própria mãe, mas, no entanto, quando compreendeu o que lhe tinha acontecido, não se sentiu inocente. Não pôde suportar o espectáculo da desgraça que causara com a sua ignorância, vazou os olhos e, cego para todo o sempre, deixou Tebas.

Tomas ouvia os comunistas a defender aos berros a pureza das suas almas e pensava: por causa da vossa inconsciência, talvez este país tenha ficado privado de liberdade por vários séculos e ainda se põem a berrar que estão inocentes? Como é que ainda podem olhar para aquilo que vos rodeia? Como é que não ficam apavorados? Ainda são capazes de ver? Se ainda tivessem olhos, deviam mais era vazá-los e sair de Tebas!

(A insustentável leveza do ser)

sexta-feira, 20 de junho de 2014

O arquivo

Victor Giudice




No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos.

joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.

No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.

Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.

Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.

O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.

Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.

Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.

Agora joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.

Prosseguiu a luta.

Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.

joão preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.

Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.

Respirou descompassado.

— Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor.

joão baixou a cabeça em sinal de modéstia.

— Sabemos de todos os seus esforços. É nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.

O coração parava.

— Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.

A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.

— De hoje em diante, o senhor passará a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?

Radiante, joão gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.

Nesta noite, joão não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio.

Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixara de jantar. O almoço reduzira-se a um sanduíche. Emagrecia, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminara certas despesas inúteis, lavadeira, pensão.

Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência. A vida foi passando, com novos prêmios.

Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.

O corpo era um monte de rugas sorridentes.

Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho. Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:

— Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.

O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:

— Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo requerer minha aposentadoria.

O chefe não compreendeu:

— Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?

A emoção impediu qualquer resposta.

joão afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento.

João transformou-se num arquivo de metal.

quarta-feira, 19 de março de 2014

O caçador de crepúsculos


Julio Cortázar



Se eu fosse cineasta me dedicaria a caçar crepúsculos. Tenho tudo estudado menos o capital necessário para o safári, porque um crepúsculo não se deixa caçar assim sem mais nem menos, quero dizer que às vezes começa com pouquinha coisa e justo quando o abandonamos lhe saem todas as plumas, ou inversamente é um desperdício cromático e de repente fica como um louro ensaboado, e nos dois casos se supõe uma câmera com boa película de cor, gastos de viagem e pernoites prévios, vigilância do céu e eleição do horizonte mais propício, coisas nada baratas. De todas maneiras creio que se fosse cineasta arranjaria um jeito de caçar crepúsculos, na verdade um só crepúsculo, mas para chegar ao crepúsculo definitivo teria que filmar quarenta ou cinquenta, porque se fosse cineasta teria as mesmas exigências que com a palavra, as mulheres ou a geopolítica.

Não é assim e me consolo imaginando o crepúsculo já caçado, dormindo em sua longuíssima espiral enlatada. Meu plano: não somente a caça, mas a restituição do crepúsculo a meus semelhantes que pouco sabem dele, quero dizer as pessoas da cidade que vêem o sol se pôr, se o vêem, detrás do edifício dos correios, dos apartamentos da frente ou num subhorizonte de antenas de televisão e postes de iluminação. O filme seria mudo, ou com uma trilha sonora que registrasse somente os sons contemporâneos do crepúsculo filmado, provavelmente algum latido de cão ou zumbidos de moscar, com sorte um sininho de ovelha ou um golpe de onda de o crepúsculo fosse marinho.

Por experiência e relógio, sei que um bom crepúsculo não dura além de vinte minutos entre o clímax e o anticlímax, duas coisas que eliminaria para deixar tão somente seu lento jogo interno, seu caleidoscópio de imperceptíveis mutações; teria assim um filme desses que se chamam documentários e que são exibidos antes de Brigitte Bardot enquanto as pessoas vão se acomodando e olham a tela como se ainda estivessem no ônibus ou no metrô. Meu filme teria uma legenda impressa (acaso uma voz em off) com estas linhas: "O que se verá é o crepúsculo de 7 de junho de 1976, filmado em X com película M e com câmera fixa, sem interrupção durante Z minutos. O público fica informado de que fora do crepúsculo não acontece absolutamente nada, pelo qual se aconselha a proceder como se estivesse em sua casa e fazer o que lhe vier à cabeça; por exemplo, olhar o crepúsculo, dar-lhe as costas, falar com os demais, passear, etc. Lamentamos não poder sugerir-lhe que fume, coisa sempre tão bela à hora do crepúsculo, mas as condições medievais das salas cinematográficas requerem, como se sabe, a proibição deste excelente hábito. Em compensação não está vedado tomar um bom trago do frasco de bolso que o distribuidor do filme vende no foyer."

Impossível predizer o destino de meu filme, as pessoas vão ao cinema para esquecerem de si mesmas, e um crepúsculo tende precisamente ao contrário, é a hora em que acaso nos vemos um pouco mais desnudados, a mim ao menos me acontece, e é penoso e útil. Talvez outros também aproveitem, nunca se sabe.