"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

quarta-feira, 19 de março de 2014

O caçador de crepúsculos


Julio Cortázar



Se eu fosse cineasta me dedicaria a caçar crepúsculos. Tenho tudo estudado menos o capital necessário para o safári, porque um crepúsculo não se deixa caçar assim sem mais nem menos, quero dizer que às vezes começa com pouquinha coisa e justo quando o abandonamos lhe saem todas as plumas, ou inversamente é um desperdício cromático e de repente fica como um louro ensaboado, e nos dois casos se supõe uma câmera com boa película de cor, gastos de viagem e pernoites prévios, vigilância do céu e eleição do horizonte mais propício, coisas nada baratas. De todas maneiras creio que se fosse cineasta arranjaria um jeito de caçar crepúsculos, na verdade um só crepúsculo, mas para chegar ao crepúsculo definitivo teria que filmar quarenta ou cinquenta, porque se fosse cineasta teria as mesmas exigências que com a palavra, as mulheres ou a geopolítica.

Não é assim e me consolo imaginando o crepúsculo já caçado, dormindo em sua longuíssima espiral enlatada. Meu plano: não somente a caça, mas a restituição do crepúsculo a meus semelhantes que pouco sabem dele, quero dizer as pessoas da cidade que vêem o sol se pôr, se o vêem, detrás do edifício dos correios, dos apartamentos da frente ou num subhorizonte de antenas de televisão e postes de iluminação. O filme seria mudo, ou com uma trilha sonora que registrasse somente os sons contemporâneos do crepúsculo filmado, provavelmente algum latido de cão ou zumbidos de moscar, com sorte um sininho de ovelha ou um golpe de onda de o crepúsculo fosse marinho.

Por experiência e relógio, sei que um bom crepúsculo não dura além de vinte minutos entre o clímax e o anticlímax, duas coisas que eliminaria para deixar tão somente seu lento jogo interno, seu caleidoscópio de imperceptíveis mutações; teria assim um filme desses que se chamam documentários e que são exibidos antes de Brigitte Bardot enquanto as pessoas vão se acomodando e olham a tela como se ainda estivessem no ônibus ou no metrô. Meu filme teria uma legenda impressa (acaso uma voz em off) com estas linhas: "O que se verá é o crepúsculo de 7 de junho de 1976, filmado em X com película M e com câmera fixa, sem interrupção durante Z minutos. O público fica informado de que fora do crepúsculo não acontece absolutamente nada, pelo qual se aconselha a proceder como se estivesse em sua casa e fazer o que lhe vier à cabeça; por exemplo, olhar o crepúsculo, dar-lhe as costas, falar com os demais, passear, etc. Lamentamos não poder sugerir-lhe que fume, coisa sempre tão bela à hora do crepúsculo, mas as condições medievais das salas cinematográficas requerem, como se sabe, a proibição deste excelente hábito. Em compensação não está vedado tomar um bom trago do frasco de bolso que o distribuidor do filme vende no foyer."

Impossível predizer o destino de meu filme, as pessoas vão ao cinema para esquecerem de si mesmas, e um crepúsculo tende precisamente ao contrário, é a hora em que acaso nos vemos um pouco mais desnudados, a mim ao menos me acontece, e é penoso e útil. Talvez outros também aproveitem, nunca se sabe.

Nenhum comentário: