Subcomandante Marcos
Quando os deuses maiores, os que criaram o mundo, os primeiros, pensaram em como e para que iriam fazer o que iriam fazer, fizeram uma assembleia onde cada qual expôs sua palavra para que os outros a conhecessem. Assim, cada um dos primeiros deuses ia tirando uma palavra e a jogava ao centro da assembleia, e aí quicava e chegava a outro deus que a agarrava e a jogava de novo e, assim como uma bola, ia a palavra de um lado a outro até que já todos a entendiam e entravam em acordo os deuses maiores que foram os que criaram todas as coisas que chamamos mundos.
Um dos acordos a que chegaram quando jogaram suas palavras foi que cada caminho tivesse seu caminhante, e cada caminhante seu caminho. E então iam nascendo as coisas completas, ou seja, cada quem com seu cada qual.
Assim foi como nasceram o ar e os pássaros. Ou seja, não houve primeiro o ar e depois os pássaros para que o caminhassem, nem tampouco fizeram os pássaros primeiros depois o ar para que o voassem. Igualmente fizeram com a água e os peixes que a nadam, a terra e os animais que a andam, o caminho e os pés que o caminham.
Mas falando de pássaros, houve um que protestava muito contra o ar.
Este pássaro dizia que voaria melhor e mais rápido se o ar não se opusesse. Reclamava muito porque, ainda que seu voo fosse ágil e veloz, sempre queria que fosse mais e melhor, e se não conseguia era porque, dizia ele, o ar se convertia em obstáculo. Os deuses se aborreceram de que muito mal falava este pássaro que no ar voava e do ar se queixava. Assim foi que, de castigo, os deuses primeiros lhe tiraram as plumas e a luz dos olhos. Desnudado o mandaram ao frio da noite e cego devia voar. Então seu voo antes gracioso e rápido, se converteu em desordenado e lento.
Mas já recuperado e depois de muitos golpes e tropeços, o pássaro pegou o truque de ver com os ouvidos. Falando com as coisas, este pássaro, ou seja o Tzotz, orienta seu caminho e conhece o mundo que lhe responde em língua que só ele sabe escutar. Sem plumas que o vistam, cego e com um voo nervoso e atropelado, o morcego reina na noite da montanha e nenhum animal caminha melhor que ele os ares escuros.
Deste pássaro, o Tzotz, o morcego, aprenderam os homens e mulheres verdadeiros a dar grande e poderoso valor à palavra falada, ao som do pensamento.
Aprenderam também que a noite encerra muitos mundos e que há que saber escutá-los para que se revelem e floresçam. Com palavras nascem os mundos que a noite tem. Soando se fazem luzes, e tantos são que não cabem na terra e muitos terminam por se acomodar no céu. Por isso dizem que as estrelas nascem no chão.
Os deuses maiores criaram também os homens e as mulheres, não para que um fosse o caminho do outro, mas para que fossem ao mesmo tempo caminho e caminhante. Para que se amassem fizeram os deuses maiores aos homens e mulheres. Por isso o ar da noite é o melhor para se voar, para se pensar, para se falar e para se amar.
(Los otros cuentos)
"há sempre um copo de mar para um homem navegar" - jorge de lima
Quando os cronópios saem em viagem, encontram os hotéis cheios, os trens já partiram, chove a cântaros e os táxis não querem levá-los ou lhes cobram preços altíssimos. Os cronópios não desanimam porque acreditam piamente que estas coisas acontecem a todo o mundo, e na hora de dormir dizem uns aos outros: “Que bela cidade, que belíssima cidade”. E sonham a noite toda que na cidade há grandes festas e que eles foram convidados. E no dia seguinte levantam contentíssimos, e é assim que os cronópios viajam.
(Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas)
(Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas)
"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios
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