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Como escreve Marcel Bénabou em Pourquoi je n'ai écrit aucun de mes livres: "Entretanto não vá pensar, leitor, que os livros que não escrevi são puro nada. Ao contrário (que fique claro de uma vez), estão como em suspenso na literatura universal".
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Joubert escreveu em seu diário: "Mas como procurar ali onde se deve, quando se ignora até o que se procura? Isso ocorre sempre quando se compõe e se cria. Felizmente, perdendo-se assim, faz-se mais de uma descoberta, dão-se encontros felizes".
Joubert conheceu a felicidade da arte de perder-se, da qual foi possivelmente o fundador.
Quando Joubert diz que não sabe muito bem em que consiste o essencial de sua estranha tarefa de perdido, traz-me à lembrança o que aconteceu com Georg Lukács certa vez em que, rodeado por seus discípulos, o filósofo húngaro ouvia um elogio após o outro sobre sua obra. Aborrecido, Lukács comentou: "Sim, sim, mas agora percebo que não entendi o essencial". "E o que é o essencial?", perguntaram-lhe, surpresos. Ao que ele respondeu: "O problema é que eu não sei".
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Lembrei-me de Albert Camus: "O que é um homem rebelde? Um homem que diz não".
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Como diz Susan Sontag: "A atitude realmente séria é aquela que interpreta a arte como um meio para obter algo que talvez só se possa alcançar quando se abandona a arte".
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Virgílio dá a impressão de estar pensando em uma língua ainda não encontrada, talvez inatingível ("escrever é tentar saber o que escreveríamos se escrevêssemos", dizia Marguerite Duras), pois seria necessária uma vida sem-fim para guardar um único pobre segundo da lembrança, uma vida sem-fim para lançar um único olhar de um segundo à profundidade do abismo do idioma.
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Acabei refugiando-me no que primeiro me veio à cabeça, umas frases do escritor argentino Fogwill: "Escrevo para não ser escrito. Vivi escrito por muitos anos, representava uma narrativa. Suponho que escrevo para escrever sobre outros, para agir sobre a imaginação, a revelação, o conhecimento dos outros.Talvez sobre o comportamento literário dos outros".
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"Lendo Cervantes há pouco", escreve Ribeyro em La tentación del fracaso, "passou por mim um sopro que, infelizmente, não tive tempo de captar (por quê?, alguém me interrompeu, o telefone tocou, não sei), pois lembro que me senti impulsionado a começar algo... Depois tudo se dissolveu. Todos nós guardamos um livro, talvez um grande livro, mas que no tumulto de nossa vida interior raras vezes emerge, ou o faz tão rapidamente que não temos tempo de arpoá-lo".
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Paranoico Pérez nunca conseguiu escrever um livro, porque sempre que tinha alguma ideia para um e se dispunha a fazê-lo, Saramago o escrevia antes dele.
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Quem afirma a literatura em si não afirma nada. Quem a procura, procura apenas aquilo que lhe escapa, quem a encontra, encontra apenas aquilo que está aqui ou, o que é pior, para além da literatura. Por isso, em suma, cada livro persegue a não literatura como a essência daquilo que quer e que gostaria apaixonadamente de descobrir.
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