"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Coração tão branco

Javier Marías

Até as coisas mais indeléveis têm uma duração, como as que não deixam vestígio ou nem mesmo acontecem, e se estivermos prevenidos e as anotarmos ou gravarmos ou filmarmos, se nos enchermos de recordações e chegarmos até a substituir o acontecido pela mera constância, registro e arquivamento do que aconteceu, de modo que o que na verdade ocorra desde o princípio seja nossa anotação ou nossa gravação ou nossa filmagem, apenas isso, mesmo nesse aperfeiçoamento infinito da repetição teremos perdido o tempo em que as coisas de fato aconteceram (embora seja o tempo da anotação); e enquanto procuramos revivê-lo ou reproduzi-lo e fazê-lo voltar e impedir que seja passado, outro tempo diferente estará acontecendo, e nele, sem dúvida, não estaremos juntos nem atenderemos nenhum telefonema, nem nos atreveremos a nada, nem poderemos evitar nenhum crime e nenhuma morte (embora tampouco venhamos a cometê-los ou a causá-los), porque o estaremos deixando passar como se não fosse nosso em nossa intenção doentia de que o que já aconteceu não acabe e retorne. Assim, o que vemos e ouvimos acaba se assemelhando e até se igualando ao que não vimos nem ouvimos, é apenas uma questão de tempo, ou de que desapareçamos. E apesar de tudo não podemos deixar de encaminhar nossas vidas para o ouvir e o ver e o presenciar e o saber, com a convicção de que essas nossas vidas dependem de estarmos juntos um dia ou de atendermos um telefonema, ou de nos atrevermos, ou de cometermos um crime ou causarmos uma morte e sabermos que foi assim. Às vezes tenho a sensação de que nada do que acontece acontece, porque nada acontece sem interrupção, nada perdura nem persevera nem se recorda incessantemente, e até a mais monótona e rotineira das existências vai se anulando e negando a si mesma em sua aparente repetição até que nada seja nada e ninguém seja ninguém que tenham sido antes, e a frágil roda do mundo é empurrada por desmemoriados que ouvem e vêem e sabem o que não se diz nem sucede nem é cognoscível nem comprovável. O que ocorre é idêntico ao que não ocorre, o que descartamos ou deixamos passar idêntico ao que pegamos e agarramos, o que experimentamos idêntico ao que não provamos, e no entanto vai-nos a vida e vai-se-nos a vida em escolher, rejeitar e selecionar, em traçar uma linha que separe essas coisas que são idênticas e faça de nossa história uma história única que recordemos e possa ser contada. Dirigimos toda a nossa inteligência, os nossos sentidos e o nosso afã à tarefa de discernir o que será nivelado, ou já está, e por isso estamos cheios de arrependimentos e de ocasiões perdidas, de confirmações e reafirmações e ocasiões aproveitadas, quando o certo é que nada se afirma e tudo se vai perdendo. Ou talvez que nunca tenha havido nada.

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Imaginamos que conhecemos cada vez melhor os que nos são próximos, mas o tempo traz consigo muito mais coisas ignoradas do que sabidas, cada vez se conhece relativamente menos, cada vez há mais zonas de sombra. Embora também haja mais iluminadas, as sombras sempre são em maior número.

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Não é só que os filhos demorem muito para se interessar por como eram seus pais antes de os conhecerem (em geral esse interesse se produz quando esses filhos se aproximam da idade que os pais tinham quando de fato os conheceram, ou quando por sua vez têm filhos e então se lembram através deles de quando eram criança e se indagam perplexos sobre as tutelares figuras a que agora se equivalem), mas o fato é que também os pais se acostumam a não despertar curiosidade alguma e a calar sobre si mesmos diante de seus rebentos, a silenciar sobre como eram ou talvez se esqueçam. Quase todo o mundo se envergonha de sua juventude, não é muito certo que tenha saudade dela, como se diz, ao contrário relega-a ao esquecimento ou renega-a, e com facilidade ou esforço confina sua origem à esfera dos pesadelos, ou dos romances, ou do que não existiu. Oculta-se a juventude, a juventude é secreta para os que já não nos conhecem jovens.

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“E agora?” A única forma de se safar dessa pergunta não é repeti-la, mas que ela não exista e não a fazer nem permitir que ninguém a faça. Mas isso é impossível, e talvez por isso, para respondê-la, seja necessário inventar problemas e sofrer apreensões, ter suspeitas e pensar no futuro abstrato, pensar com cérebro tão doente ou tão doentiamente com o cérebro, “so brainsickly of things”, como disseram a Macbeth que não fizesse, ver o que não há para que haja algo, temer a doença ou a morte, o abandono ou a traição, e criar ameaças, ainda que por pessoa interposta, ainda que analogicamente ou simbolicamente, e talvez seja isso que nos leve a ler romances e crônicas e a ver filmes, a busca da analogia, do símbolo, a busca do reconhecimento, não do conhecimento. Contar deforma, contar os fatos deforma os fatos e os tergiversa e quase os nega, tudo o que se conta passa a ser irreal e aproximado embora seja verídico, a verdade não depende de que as coisas tenham sido ou acontecido, mas de que permaneçam ocultas e sejam desconhecidas e não contadas, enquanto se relatam ou se manifestam ou se mostram, mesmo que seja no que parece mais real, na televisão ou no jornal, no que se chama realidade ou vida ou vida real até, passam a fazer parte da analogia e do símbolo, já não são fatos, mas se transformam em reconhecimento. A verdade nunca resplandece, como diz a fórmula, porque a única verdade é a que não se conhece nem se transmite, a que não se traduz em palavras nem em imagens, a encoberta e não averiguada, e talvez por isso se conte tanto ou se conte tudo, para que nunca tenha ocorrido nada, uma vez que se conta.

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O estranho é que as palavras não tenham mais conseqüências nefastas do que as que normalmente têm. Ou talvez não o saibamos suficientemente, acreditamos que não têm tantas e tudo é um desastre perpétuo devido ao que dizemos. O mundo inteiro fala sem parar, a cada momento há milhões de conversas, de narrativas, de declarações, de comentários, de mexericos, de confissões, são ditos e ouvidos e ninguém pode controlá-los. Ninguém pode prever o efeito explosivo que causam, nem mesmo segui-lo. Porque apesar de as palavras serem tantas e tão baratas, tão insignificantes, poucos são capazes de não as levar em conta. A gente dá importância a elas. Ou não, mas ouviu-as.

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