"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

segunda-feira, 10 de abril de 2017

sofrer para cantar

Jorge Luis Borges, Sete Noites 

Quando lemos versos que são bons e admiráveis, tendemos a lê-los em voz alta. Um verso bom não pode ser lido em voz baixa — ou em silêncio. Se isso for possível, então o verso não vale a pena, pois um verso sempre exige sua pronúncia. O verso nos faz lembrar que, antes de arte escrita, foi uma arte oral; o verso nos lembra que inicialmente foi um canto.

Há duas frases que confirmam isso. Uma é de Homero (ou dos vários gregos que chamamos de Homero), na Odisséia, onde se diz: "Os deuses provocam desventuras entre os homens para que as gerações futuras tenham o que cantar". A outra frase — muito posterior —  é de Mallarmé e repete, com menos beleza, o que disse Homero: tout aboutit en un livre — "tudo acaba num livro". Trata-se de duas visões diferentes: os gregos falam de gerações que cantam, enquanto Mallarmé menciona um objeto, uma coisa entre as coisas — um livro. Mas a ideia é a mesma: fomos feitos para a arte; fomos feitos para a memória e a poesia; ou fomos feitos, quem sabe, para o esquecimento. Mas algo sobra; e esse algo é a história ou a poesia, que não são essencialmente distintas.

Nenhum comentário: