"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Poesia de solidão e poesia de comunhão

Octavio Paz

A sociedade não pode perdoar a poesia, pela própria natureza desta: ela lhe parece sacrílega. E mesmo que a poesia se disfarce, aceite comungar no altar comum e prontamente justifique sua embriaguez com todo tipo de razões, a consciência social a reprovará sempre como um extravio e uma loucura perigosa. O poeta tende a participar do absoluto, como o místico, e tende a expressá-lo, como a liturgia e a festa religiosa. Essa pretensão o converte em um ser perigoso, uma vez que sua atividade não traz benefício à sociedade; verdadeiro parasita, ao invés de atrair para ele as forças desconhecidas que a religião organiza e distribui, ele as dispersa em um empreendimento estéril e antissocial. Na comunhão buscada pelo poeta, ele descobre a força secreta do mundo, essa força que a religião pretende canalizar e utilizar, e até apagar, por meio da burocracia eclesiástica. E o poeta não apenas a descobre e funde-se com ela; diferentemente do místico, ele a revela em toda a sua aterradora e violenta nudez ao resto dos homens, pulsando no sua palavra, viva nesse estranho mecanismo de encantamento que é o poema.  Será preciso dizer que essa força, alternadamente sagrada ou maldita, é a do êxtase, da vertigem, que brota como um fascínio no cume do contato carnal ou espiritual? No ponto mais alto desse contato e na profundeza dessa vertigem, o homem e a mulher tocam o absoluto, o reino em que os contrários se reconciliam e a vida e a morte pactuam nos lábios que se misturam. O corpo e a alma, nesse instante, são um só e a pele é como uma nova consciência, consciência do infinito, apontada para o infinito... O tato e todos os sentidos deixam de servir ao prazer ou ao conhecimento; deixam de ser pessoais; estendem-se, por assim dizer, e, longe de constituir as antenas, os instrumentos da consciência a dissolvem no absoluto, reintegram-se na energia original.

Os poetas foram os primeiros a revelar que a eternidade e o absoluto não estão além dos nossos sentidos, e sim neles mesmos. Essa eternidade e essa reconciliação com o mundo se dão no tempo, dentro do tempo, e em nossa vida mortal, pois o amor e a poesia não nos oferecem a imortalidade e a salvação. Já dizia Nietzsche: "Não a vida eterna, mas a eterna vivacidade: eis o que importa." Mostrar essa condição perecível talvez possa ser trágico; de fato, é, porém encontro nesse elemento o verdadeiro valor, no sentido de valioso e de valoroso, da poesia, pois ela resgata o cotidiano da vulgaridade e unge o instante com o irreparável.

Em nossa época, a poesia não pode conviver com o que a sociedade capitalista chama de seus ideais: a vida e o martírio de Shelley, de Rimbaud, de Baudelaire, de Bécquer, são uma prova patética do que digo. Se até o final do século passado um Mallarmé não pôde criar sua poesia fora da sociedade, atualmente toda atividade poética, se é verdadeira, terá que ir contra essa sociedade. Não é estranho que, para algumas almas sensíveis, a única vocação possível no nosso tempo sejam a solidão ou o suicídio; tampouco é estranho que para outras, belas e apaixonadas, as únicas atividades poéticas imagináveis sejam a dinamite, o assassinato político ou o crime gratuito. Em certos casos, pelo menos, é preciso ter a coragem de afirmar a simpatia por essas explosões, testemunho do desespero a que conduz um sistema social baseado apenas na conservação de tudo e, especialmente, na ganância econômica.

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