"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

terça-feira, 11 de setembro de 2018

O inferno dos vivos


O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço. 

Italo Calvino, As cidades invisíveis


Vivimos en el infierno, pero en el infierno tenemos la capacidad, que es irónica, de crear espacios de vida sensibles, de vida que no olvide la felicidad como una dimensión posible. No olvidar la posibilidad de ser feliz, esa es la consigna hoy.

Franco Berardi (http://anarquiacoronada.blogspot.com/2017/07/no-olvidar-la-posibilidad-de-ser-feliz.html)


fogo eterno pra afugentar
o inferno pra outro lugar
fogo eterno pra consumir
o inferno fora daqui

Gilberto Gil, Palco

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

As cidades

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.

(Sophia de Mello)

Eu vim a Londres. O lugar tinha se tornado o centro do meu mundo, e eu tinha trabalhado muito para chegar nele. (...) Eu me tornei nada mais que um habitante de uma cidade grande, roubado de minhas lealdades, o tempo passando, me afastando mais e mais do que eu era, eu cada vez mais recolhido em mim mesmo, lutando para manter o equilíbrio e deixar acesa em mim a visão do mundo aberto que existia além dos tijolos e do asfalto e do caos dos trilhos de trem. Todas as terras míticas definharam, e na cidade grande fui confinado a um mundo menor do que qualquer outro que eu conhecera. Me tornei minha casa, minha mesa, meu nome.

(V. S.Naipaul, An Area of Darkness)