"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

A leveza e o peso

Milan Kundera

Quem pensa que os regimes comunistas da Europa Central são exclusivamente obra de criminosos deixa na sombra uma verdade fundamental: é que os regimes comunistas não foram edificados por criminosos, mas por entusiastas, convencidos de que tinham descoberto a única via possível para o paraíso. E defendiam essa via com unhas e dentes, chegando inclusivamente a mandar matar muito boa gente por causa disso. Mais tarde, tomou-se claro como a luz do dia que o paraíso não existia e, portanto, que os entusiastas eram assassinos.

Então todos caíram em cima dos comunistas: eles é que eram responsáveis pela desgraça do país (que se encontrava pobre e arruinado), pela perda da independência nacional (o país tinha caído sob a alçada dos russos), pelos homicídios judiciais!

Os acusados respondiam: não sabíamos! Fomos enganados! Acreditávamos! Somos inocentes do fundo do coração!

O debate resumia-se, portanto, a uma questão: os comunistas não saberiam mesmo? Ou estavam só a fingir que não sabiam de nada?

Tomas ia seguindo o debate (como outros dez milhões de tchecos), convencido que tinha forçosamente de haver comunistas ao corrente de alguma coisa (apesar de tudo, sempre deviam ter ouvido falar dos horrores que se tinham produzido e continuavam a produzir-se na Rússia pós-revolucionária). Mas também achava provável que a grande maioria não estivesse realmente ao corrente de nada.

E pensava que a pergunta que devia ser feita não era: afinal, os comunistas sabiam ou não? Mas: alguém pode estar inocente só por não saber? Um imbecil sentado num trono pode ser desculpado de tudo só pelo fato de ser imbecil?

Admitamos que o procurador tcheco, que no início dos anos cinquenta pedia a pena de morte para um inocente, tenha sido de fato enganado pela polícia secreta russa e pelo Governo do seu país. Mas agora que toda a gente sabia que as acusações eram absurdas e que os supliciados estavam inocentes, como é que exactamente o mesmo procurador podia defender a pureza da sua alma e bater com a mão no peito, protestando: eu tenho a consciência limpa, eu não sabia, eu acreditava! Não era exactamente no seu "Eu não sabia! Eu acreditava!” que residia a sua culpa irreparável?

Então, Tomas lembrou-se da história de Édipo. Édipo não sabia que dormia com a própria mãe, mas, no entanto, quando compreendeu o que lhe tinha acontecido, não se sentiu inocente. Não pôde suportar o espectáculo da desgraça que causara com a sua ignorância, vazou os olhos e, cego para todo o sempre, deixou Tebas.

Tomas ouvia os comunistas a defender aos berros a pureza das suas almas e pensava: por causa da vossa inconsciência, talvez este país tenha ficado privado de liberdade por vários séculos e ainda se põem a berrar que estão inocentes? Como é que ainda podem olhar para aquilo que vos rodeia? Como é que não ficam apavorados? Ainda são capazes de ver? Se ainda tivessem olhos, deviam mais era vazá-los e sair de Tebas!

(A insustentável leveza do ser)

sexta-feira, 20 de junho de 2014

O arquivo

Victor Giudice




No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos.

joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.

No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.

Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.

Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.

O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.

Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.

Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.

Agora joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.

Prosseguiu a luta.

Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.

joão preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.

Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.

Respirou descompassado.

— Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor.

joão baixou a cabeça em sinal de modéstia.

— Sabemos de todos os seus esforços. É nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.

O coração parava.

— Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.

A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.

— De hoje em diante, o senhor passará a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?

Radiante, joão gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.

Nesta noite, joão não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio.

Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixara de jantar. O almoço reduzira-se a um sanduíche. Emagrecia, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminara certas despesas inúteis, lavadeira, pensão.

Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência. A vida foi passando, com novos prêmios.

Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.

O corpo era um monte de rugas sorridentes.

Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho. Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:

— Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.

O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:

— Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo requerer minha aposentadoria.

O chefe não compreendeu:

— Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?

A emoção impediu qualquer resposta.

joão afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento.

João transformou-se num arquivo de metal.

quarta-feira, 19 de março de 2014

O caçador de crepúsculos


Julio Cortázar



Se eu fosse cineasta me dedicaria a caçar crepúsculos. Tenho tudo estudado menos o capital necessário para o safári, porque um crepúsculo não se deixa caçar assim sem mais nem menos, quero dizer que às vezes começa com pouquinha coisa e justo quando o abandonamos lhe saem todas as plumas, ou inversamente é um desperdício cromático e de repente fica como um louro ensaboado, e nos dois casos se supõe uma câmera com boa película de cor, gastos de viagem e pernoites prévios, vigilância do céu e eleição do horizonte mais propício, coisas nada baratas. De todas maneiras creio que se fosse cineasta arranjaria um jeito de caçar crepúsculos, na verdade um só crepúsculo, mas para chegar ao crepúsculo definitivo teria que filmar quarenta ou cinquenta, porque se fosse cineasta teria as mesmas exigências que com a palavra, as mulheres ou a geopolítica.

Não é assim e me consolo imaginando o crepúsculo já caçado, dormindo em sua longuíssima espiral enlatada. Meu plano: não somente a caça, mas a restituição do crepúsculo a meus semelhantes que pouco sabem dele, quero dizer as pessoas da cidade que vêem o sol se pôr, se o vêem, detrás do edifício dos correios, dos apartamentos da frente ou num subhorizonte de antenas de televisão e postes de iluminação. O filme seria mudo, ou com uma trilha sonora que registrasse somente os sons contemporâneos do crepúsculo filmado, provavelmente algum latido de cão ou zumbidos de moscar, com sorte um sininho de ovelha ou um golpe de onda de o crepúsculo fosse marinho.

Por experiência e relógio, sei que um bom crepúsculo não dura além de vinte minutos entre o clímax e o anticlímax, duas coisas que eliminaria para deixar tão somente seu lento jogo interno, seu caleidoscópio de imperceptíveis mutações; teria assim um filme desses que se chamam documentários e que são exibidos antes de Brigitte Bardot enquanto as pessoas vão se acomodando e olham a tela como se ainda estivessem no ônibus ou no metrô. Meu filme teria uma legenda impressa (acaso uma voz em off) com estas linhas: "O que se verá é o crepúsculo de 7 de junho de 1976, filmado em X com película M e com câmera fixa, sem interrupção durante Z minutos. O público fica informado de que fora do crepúsculo não acontece absolutamente nada, pelo qual se aconselha a proceder como se estivesse em sua casa e fazer o que lhe vier à cabeça; por exemplo, olhar o crepúsculo, dar-lhe as costas, falar com os demais, passear, etc. Lamentamos não poder sugerir-lhe que fume, coisa sempre tão bela à hora do crepúsculo, mas as condições medievais das salas cinematográficas requerem, como se sabe, a proibição deste excelente hábito. Em compensação não está vedado tomar um bom trago do frasco de bolso que o distribuidor do filme vende no foyer."

Impossível predizer o destino de meu filme, as pessoas vão ao cinema para esquecerem de si mesmas, e um crepúsculo tende precisamente ao contrário, é a hora em que acaso nos vemos um pouco mais desnudados, a mim ao menos me acontece, e é penoso e útil. Talvez outros também aproveitem, nunca se sabe.

sábado, 14 de dezembro de 2013

A liberdade de ver os outros

Discurso de paraninfo de David Foster Wallace para formandos do Kenyon College. 


Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz:

- Bom dia, meninos. Como está a água?

Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta:

- Água? Que diabo é isso?

Não se preocupem, não pretendo me apresentar a vocês como o peixe mais velho e sábio que explica o que é água ao peixe mais novo. Não sou um peixe velho e sábio. O ponto central da história dos peixes é que a realidade mais óbvia, ubíqua e vital costuma ser a mais difícil de ser reconhecida. Enunciada dessa forma, a frase soa como uma platitude - mas é fato que, nas trincheiras do dia-a-dia da existência adulta, lugares comuns banais podem adquirir uma importância de vida ou morte.

Boa parte das certezas que carrego comigo acabam se revelando totalmente equivocadas e ilusórias. Vou dar como exemplo uma de minhas convicções automáticas: tudo à minha volta respalda a crença profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, de que sou a pessoa mais real, mais vital e essencial a viver hoje. Raramente mencionamos esse egocentrismo natural e básico, pois parece socialmente repulsivo, mas no fundo ele é familiar a todos nós. Ele faz parte de nossa configuração padrão, vem impresso em nossos circuitos ao nascermos.

Querem ver? Todas as experiências pelas quais vocês passaram tiveram, sempre, um ponto central absoluto: vocês mesmos. O mundo que se apresenta para ser experimentado está diante de vocês, ou atrás, à esquerda ou à direita, na sua tevê, no seu monitor, ou onde for. Os pensamentos e sentimentos dos outros precisam achar um caminho para serem captados, enquanto o que vocês sentem e pensam é imediato, urgente, real. Não pensem que estou me preparando para fazer um sermão sobre compaixão, desprendimento ou outras "virtudes". Essa não é uma questão de virtude - trata-se de optar por tentar alterar minha configuração padrão original, impressa nos meus circuitos. Significa optar por me libertar desse egocentrismo profundo e literal que me faz ver e interpretar absolutamente tudo pelas lentes do meu ser.

Num ambiente de excelência acadêmica, cabe a pergunta: quanto do esforço em adequar a nossa configuração padrão exige de sabedoria ou de intelecto? A pergunta é capciosa. O risco maior de uma formação acadêmica - pelo menos no meu caso - é que ela reforça a tendência a intelectualizar demais as questões, a se perder em argumentos abstratos, em vez de simplesmente prestar atenção ao que está ocorrendo bem na minha frente.

Estou certo de que vocês já perceberam o quanto é difícil permanecer alerta e atento, em vez de hipnotizado pelo constante monólogo que travamos em nossas cabeças. Só vinte anos depois da minha formatura vim a entender que o surrado clichê de "ensinar os alunos como pensar" é, na verdade, uma simplificação de uma idéia bem mais profunda e séria. "Aprender a pensar" significa aprender como exercer algum controle sobre como e o que cada um pensa. Significa ter plena consciência do que escolher como alvo de atenção e pensamento. Se vocês não conseguirem fazer esse tipo de escolha na vida adulta, estarão totalmente à deriva.

Lembrem o velho clichê: "A mente é um excelente servo, mas um senhorio terrível." Como tantos clichês, também esse soa inconvincente e sem graça. Mas ele expressa uma grande e terrível verdade. Não é coincidência que adultos que se suicidam com armas de fogo quase sempre o façam com um tiro na cabeça. Só que, no fundo, a maioria desses suicidas já estava morta muito antes de apertar o gatilho. Acredito que a essência de uma educação na área de humanas, eliminadas todas as bobagens e patacoadas que vêm junto, deveria contemplar o seguinte ensinamento: como percorrer uma confortável, próspera e respeitável vida adulta sem já estar morto, inconsciente, escravizado pela nossa configuração padrão - a de sermos singularmente, completamente, imperialmente sós.

Isso também parece outra hipérbole, mais uma abstração oca. Sejamos concretos então. O fato cru é que vocês, graduandos, ainda não têm a mais vaga idéia do significado real do que seja viver um dia após o outro. Existem grandes nacos da vida adulta sobre os quais ninguém fala em discursos de formatura. Um desses nacos envolve tédio, rotina e frustração mesquinha.

Vou dar um exemplo prosaico imaginando um dia qualquer do futuro. Você acordou de manhã, foi para seu prestigiado emprego, suou a camisa por nove ou dez horas e, ao final do dia, está cansado, estressado, e tudo que deseja é chegar em casa, comer um bom prato de comida, talvez relaxar por umas horas, e depois ir para cama, porque terá de acordar cedo e fazer tudo de novo. Mas aí lembra que não tem comida na geladeira. Você não teve tempo de fazer compras naquela semana, e agora precisa entrar no carro e ir ao supermercado. Nesse final de dia, o trânsito está uma lástima.

Quando você finalmente chega lá, o supermercado está lotado, horrivelmente iluminado com lâmpadas fluorescentes e impregnado de uma música ambiente de matar. É o último lugar do mundo onde você gostaria de estar, mas não dá para entrar e sair rapidinho: é preciso percorrer todos aqueles corredores superiluminados para encontrar o que procura, e manobrar seu carrinho de compras de rodinhas emperradas entre todas aquelas outras pessoas cansadas e apressadas com seus próprios carrinhos de compras. E, claro, há também aqueles idosos que não saem da frente, e as pessoas desnorteadas, e os adolescentes hiperativos que bloqueiam o corredor, e você tem que ranger os dentes, tentar ser educado, e pedir licença para que o deixem passar. Por fim, com todos os suprimentos no carrinho, percebe que, como não há caixas suficientes funcionando, a fila é imensa, o que é absurdo e irritante, mas você não pode descarregar toda a fúria na pobre da caixa que está à beira de um ataque de nervos.

De qualquer modo, você acaba chegando à caixa, paga por sua comida e espera até que o cheque ou o cartão seja autenticado pela máquina, e depois ouve um "boa noite, volte sempre" numa voz que tem o som absoluto da morte. Na volta para casa, o trânsito está lento, pesado etc. e tal.

É num momento corriqueiro e desprezível como esse que emerge a questão fundamental da escolha. O engarrafamento, os corredores lotados e as longas filas no supermercado me dão tempo de pensar. Se eu não tomar uma decisão consciente sobre como pensar a situação, ficarei irritado cada vez que for comprar comida, porque minha configuração padrão me leva a pensar que situações assim dizem respeito a mim, a minha fome, minha fadiga, meu desejo de chegar logo em casa. Parecerá sempre que as outras pessoas não passam de estorvos. E quem são elas, aliás? Quão repulsiva é a maioria, quão bovinas, e inexpressivas e desumanas parecem ser as da fila da caixa, quão enervantes e rudes as que falam alto nos celulares.

Também posso passar o tempo no congestionamento zangado e indignado com todas essas vans, e utilitários e caminhões enormes e estúpidos, bloqueando as pistas, queimando seus imensos tanques de gasolina, egoístas e perdulários. Posso me aborrecer com os adesivos patrióticos ou religiosos, que sempre parecem estar nos automóveis mais potentes, dirigidos pelos motoristas mais feios, desatenciosos e agressivos, que costumam falar no celular enquanto fecham os outros, só para avançar uns 20 metros idiotas no engarrafamento. Ou posso me deter sobre como os filhos dos nossos filhos nos desprezarão por desperdiçarmos todo o combustível do futuro, e provavelmente estragarmos o clima, e quão mal-acostumados e estúpidos e repugnantes todos nós somos, e como tudo isso é simplesmente pavoroso etc. e tal.

Se opto conscientemente por seguir essa linha de pensamento, ótimo, muitos de nós somos assim - só que pensar dessa maneira tende a ser tão automático que sequer precisa ser uma opção. Ela deriva da minha configuração padrão.

Mas existem outras formas de pensar. Posso, por exemplo, me forçar a aceitar a possibilidade de que os outros na fila do supermercado estão tão entediados e frustrados quanto eu, e, no cômputo geral, algumas dessas pessoas provavelmente têm vidas bem mais difíceis, tediosas ou dolorosas do que eu.

Fazer isso é difícil, requer força de vontade e empenho mental. Se vocês forem como eu, alguns dias não conseguirão fazê-lo, ou simplesmente não estarão a fim. Mas, na maioria dos dias, se estiverem atentos o bastante para escolher, poderão preferir olhar melhor para essa mulher gorducha, inexpressiva e estressada que acabou de berrar com a filhinha na fila da caixa. Talvez ela não seja habitualmente assim. Talvez ela tenha passado as três últimas noites em claro, segurando a mão do marido que está morrendo. Ou talvez essa mulher seja a funcionária mal remunerada do Departamento de Trânsito que, ontem mesmo, por meio de um pequeno gesto de bondade burocrática, ajudou algum conhecido seu a resolver um problema insolúvel de documentação.

Claro que nada disso é provável, mas tampouco é impossível. Tudo depende do que vocês queiram levar em conta. Se estiverem automaticamente convictos de conhecerem toda a realidade, vocês, assim como eu, não levarão em conta possibilidades que não sejam inúteis e irritantes. Mas, se vocês aprenderam como pensar, saberão que têm outras opções. Está ao alcance de vocês vivenciarem uma situação "inferno do consumidor" não apenas como significativa, mas como iluminada pela mesma força que acendeu as estrelas.

Relevem o tom aparentemente místico. A única coisa verdadeira, com V maiúsculo, é que vocês precisam decidir conscientemente o que, na vida, tem significado e o que não tem.

Na trincheira do dia-a-dia, não há lugar para o ateísmo. Não existe algo como "não venerar". Todo mundo venera. A única opção que temos é decidir o que venerar. E o motivo para escolhermos algum tipo de Deus ou ente espiritual para venerar - seja Jesus Cristo, Alá ou Jeová, ou algum conjunto inviolável de princípios éticos - é que todo outro objeto de veneração te engolirá vivo. Quem venerar o dinheiro e extrair dos bens materiais o sentido de sua vida nunca achará que tem o suficiente. Aquele que venerar seu próprio corpo e beleza, e o fato de ser sexy, sempre se sentirá feio - e quando o tempo e a idade começarem a se manifestar, morrerá um milhão de mortes antes de ser efetivamente enterrado.

No fundo, sabemos de tudo isso, que está no coração de mitos, provérbios, clichês, epigramas e parábolas. Ao venerar o poder, você se sentirá fraco e amedrontado, e precisará de ainda mais poder sobre os outros para afastar o medo. Venerando o intelecto, sendo visto como inteligente, acabará se sentindo burro, um farsante na iminência de ser desmascarado. E assim por diante.

O insidioso dessas formas de veneração não está em serem pecaminosas - e sim em serem inconscientes. São o tipo de veneração em direção à qual você vai se acomodando quase que por gravidade, dia após dia. Você se torna mais seletivo em relação ao que quer ver, ao que valorizar, sem ter plena consciência de que está fazendo uma escolha.

O mundo jamais o desencorajará de operar na configuração padrão, porque o mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos.

Esse tipo de liberdade tem méritos. Mas existem outros tipos de liberdade. Sobre a liberdade mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros - no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita.

Pensem de tudo isso o que quiserem. Mas não descartem o que ouviram como um sermão cheio de certezas. Nada disso envolve moralidade, religião ou dogma. Nem questões grandiosas sobre a vida depois da morte. A verdade com V maiúsculo diz respeito à vida antes da morte. Diz respeito a chegar aos 30 anos, ou talvez aos 50, sem querer dar um tiro na própria cabeça. Diz respeito à consciência - consciência de que o real e o essencial estão escondidos na obviedade ao nosso redor - daquilo que devemos lembrar, repetindo sempre: "Isto é água, isto é água."

É extremamente difícil lembrar disso, e permanecer consciente e vivo, um dia depois do outro.

Retirado de: http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-25/despedida/a-liberdade-de-ver-os-outros

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O homem no círculo

Matéi Visniec


Se quero ficar sozinho, paro, tiro o giz preto do meu bolso e traço um círculo à minha volta. Dentro do meu círculo, encontro abrigo. Ninguém tem o direito nem o poder de me dirigir a palavra se eu estiver dentro do meu círculo. Ninguém tem o direito nem o poder de entrar, de me tocar ou de me olhar por muito tempo.

Quando estou dentro do meu círculo, não escuto mais o barulho da rua, as ondas do mar ou o canto dos passarinhos. Posso ficar lá, sem me mexer, o tempo que quiser. Nada mais que acontece à minha volta me interessa. O círculo me isola do mundo exterior e de mim mesmo. É a felicidade total, é a paz.

Dentro do círculo não se sente mais frio, dor ou fome. O tempo, ele também para. Mergulha-se na abstração como num sonho protetor. A gente se torna o centro do círculo.

Quando quero sair do círculo, estendo a mão e corto a linha do círculo. Só eu posso fazê-lo. De fora, ninguém pode cortar o círculo para mim. O milagre do círculo consiste na segurança total que ele nos oferece.

Desde que o círculo foi inventado, o mundo ficou melhor. Não há guerra, nem fome, nem catástrofe. A criminalidade diminuiu. É só a náusea nos atingir que traçamos um círculo em volta da gente. É só alguém nos aborrecer que entramos no círculo. Se um ladrão entra em nossa casa à noite, entramos depressa no círculo.

Se depois de uma longa viagem ficamos cansados, é só descansar dentro do círculo. Se não conseguimos responder a alguma questão essencial, o círculo é o melhor lugar para meditar. Se a morte se aproxima e não queremos morrer, podemos vegetar eternamente dentro do círculo.

Não se pode nunca trancar dois no mesmo círculo. Alguns tentaram, mas não deu em nada. Um círculo para dois não existe e estou certo de que não existirá jamais.

No começo era preciso um giz magnético preto para poder traçar o círculo. O giz era um pouco caro e a maioria das pessoas não podia comprar. Pouco a pouco o preço do giz foi caindo e até giz colorido apareceu no mercado. No fim, a prefeitura começou a distribuir giz grátis para toda a população.

Hoje se sabe que não se precisa nem mesmo de giz para traçar um círculo em volta de si mesmo. O círculo pode ser desenhado com qualquer coisa: um toco de lápis, um batom, uma ponta de faca, uma agulha ou até mesmo com a unha.

Todo mundo é da opinião de que o círculo representa a panaceia de todos os tempos. É fim de milênio e ninguém mais é infeliz.

As pesquisas mostram que os habitantes da cidade passam mais de cem dias por ano no seu círculo. Foi feito um recenseamento daqueles que não saíram do círculo por cinco, dez, vinte anos. Sem dúvida tomaram gosto pela eternidade.

Mas não deixo de me inquietar com boatos que correm pela cidade nos últimos tempos. Dizem que os círculos escondem uma armadilha, que a gente entra algumas vezes para nunca mais sair. Fala-se de gente que ficou bloqueada no círculo contra a própria vontade. Dizem que os que vivem dentro do círculo por mais de dez ou vinte anos são, na realidade, prisioneiros. Fala-se até que, já faz algum tempo, a maior parte dos círculos não obedece mais aos homens. Dizem haver muitas pessoas que, uma vez cercadas, descobrem que não podem mais abrir suas jaulas.

Dizem até que não sairão jamais.



*extraído de "Teatro Decomposto ou O Homem-Lixo"

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Quando a criança era criança


Peter Handke




Quando a criança era criança,
andava balançando os braços,
queria que o riacho fosse um rio,
que o rio fosse uma torrente
e que essa poça fosse o mar.

Quando a criança era criança,

não sabia que era criança,
tudo lhe parecia ter alma,
e todas as almas eram uma.

Quando a criança era criança,

não tinha opinião a respeito de nada,
não tinha nenhum costume,
sentava-se sempre de pernas cruzadas,
saía correndo,
tinha um redemoinho no cabelo
e não fazia poses na hora da fotografia.

Quando a criança era uma criança

era a época destas perguntas:
Por que eu sou eu e não você?
Por que estou aqui, e por que não lá?
Quando foi que o tempo
começou, e onde é que o espaço termina?
Um lugar na vida sob o sol não é apenas um sonho?
Aquilo que eu vejo e ouço e cheiro
não é só a aparência de um mundo diante de um mundo?
Existe de fato o Mal e as pessoas
que são realmente más?
Como pode ser que eu, que sou eu,
antes de ser eu mesmo não era eu,
e que algum dia, eu, que sou eu,
não serei mais quem eu sou?
Quando uma criança era uma criança,
Mastigava espinafre, ervilhas, bolinhos de arroz, e couve-flor cozida,
e comia tudo isto não somente porque precisava comer.
Quando uma criança era uma criança,
Uma vez acordou numa cama estranha,
e agora faz isso de novo e de novo.
Muitas pessoas, então, pareciam lindas
e agora só algumas parecem, com alguma sorte.
Visualizava uma clara imagem do Paraíso,
e agora no máximo consegue só imaginá-lo,
não podia conceber o vazio absoluto,
que hoje estremece no seu pensamento.
Quando uma criança era uma criança,
brincava com entusiasmo,
e agora tem tanta excitação como tinha,
porém só quando pensa em trabalho.
Quando uma criança era uma criança,
Era suficiente comer uma maçã, uma laranja, pão,
E agora é a mesma coisa.
Quando uma criança era criança,
amoras enchiam sua mão como somente as amoras conseguem,
e também fazem agora,
Avelãs frescas machucavam sua língua,
parecido com o que fazem agora,
tinha, em cada cume de montanha,
a busca por uma montanha ainda mais alta,e em cada cidade,
a busca por uma cidade ainda maior,
e ainda é assim,
alcançava cerejas nos galhos mais altos das árvores
como, com algum orgulho, ainda consegue fazer hoje,
tinha uma timidez na frente de estranhos,
como ainda tem.
Esperava a primeira neve,
Como ainda espera até agora.
Quando a criança era criança,
Arremessou um bastão como se fosse uma lança contra uma árvore,
E ela ainda está lá, chacoalhando, até hoje.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Cântico negro


José Régio



"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

domingo, 21 de outubro de 2012

Amor é bicho instruído

Carlos Drummond de Andrade

O Amor Bate na Aorta

Cantiga de amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.

Meu bem, não chores,
hoje tem filme de Carlito.

O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.

Amor é bicho instruído.

Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que corre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...




Cantiga de enganar

O mundo não vale o mundo,
meu bem.
Eu plantei um pé-de-sono,
brotaram vinte roseiras.
Se me cortei nelas todas
e se todas me tingiram
de um vago sangue jorrado
ao capricho dos espinhos,
não foi culpa de ninguém.
O mundo,
meu bem,
não vale
a pena, e a face serena
vale a face torturada.
Há muito aprendi a rir,
de quê? de mim? ou de nada?
O mundo, valer não vale.
Tal como sombra no vale,
a vida baixa... e se sobe
algum som deste declive,
não é grito de pastor
convocando seu rebanho.
Não é flauta, não é canto
de amoroso desencanto.
Não é suspiro de grilo,
voz noturna de correntes,
não é mãe chamando filho,
não é silvo de serpentes
esquecidas de morder
como abstratas ao luar.
Não é choro de criança
para um homem se formar.
Tampouco a respiração
de soldados e de enfermos,
de meninos internados
ou de freiras em clausura.
Não são grupos submergidos
nas geleiras do entressono
e que deixam desprender-se,
menos que a simples palavra,
menos que a folha no outono,
a partícula sonora
que a vida contém, e a morte
contém, o mero registro
de energia concentrada.
Não é nem isto, nem nada.
É som que precede a música,
sobrante dos desencontros
e dos encontros fortuitos,
dos malencontros e das
miragens que se condensam
ou que se dissolvem noutras
absurdas figurações.
O mundo não tem sentido.
O mundo e suas canções
de timbre mais comovido
estão calados, e a fala
que de uma para outra sala
ouvimos em certo instante
é silêncio que faz eco
e que volta a ser silêncio
no negrume circundante.
Silêncio: que quer dizer?
Que diz a boca do mundo?
Meu bem, o mundo é fechado,
se não for antes vazio.
O mundo é talvez: e é só.
Talvez nem seja talvez.
O mundo não vale a pena,
mas a pena não existe.
Meu bem, façamos de conta.
de sofrer e de olvidar,
de lembrar e de fruir,
de escolher nossas lembranças
e revertê-las, acaso
se lembrem demais em nós.
Façamos, meu bem, de conta
- mas a conta não existe -
que é tudo como se fosse,
ou que, se fora, não era.
Meu bem, usemos palavras.
façamos mundos: idéias.
Deixemos o mundo aos outros
já que o querem gastar.
Meu bem, sejamos fortíssimos
- mas a força não existe -
e na mais pura mentira
do mundo que se desmente,
recortemos nossa imagem,
mais ilusória que tudo,
pois haverá maior falso
que imaginar-se alguém vivo,
como se um sonho pudesse
dar-nos o gosto do sonho?
Mas o sonho não existe.
Meu bem, assim acordados,
assim lúcidos, severos,
ou assim abandonados,
deixando-nos à deriva
levar na palma do tempo
- mas o tempo não existe -,
sejamos como se fôramos
num mundo que fosse: o Mundo.


Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.

João foi para o Estados  Unidos, Teresa para o convento,

Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história. 

sábado, 15 de setembro de 2012

A arte de perder

Elizabeth Bishop


One Art



The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.


--Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied.  It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.


A arte de perder

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo 

que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério 

por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

sábado, 5 de novembro de 2011

O amor é um cão dos diabos

Charles Bukowski

“Muito cara legal foi parar debaixo da ponte por causa de uma mulher.”
HENRY CHINASKI / BUKOWSKI

o jeito que isso é

o inferno está lotado ainda
você sempre pensa que você está sozinho.

e você nunca pode dizer
a ninguém que
você está no inferno
ou eles vão pensar
que você está louco.

mas ser louco é
estar no inferno
e ser sensato também.

aqueles que escapam do inferno
nunca falam sobre isso
e nada mais
incomoda eles depois disso.

Quero dizer, coisas como
falta de uma refeição,
ir para a cadeia,
bater seu carro ou mesmo
morrer.

quando você perguntar-lhes,
"como as coisas estão indo? "
eles vão responder:
"bem, muito bem ... "

uma vez que você foi para o inferno
e voltou
é o bastante, é a
mais silenciosa celebração conhecida.

uma vez que você foi para o inferno
e voltou,
você não olha para trás
quando o chão range.
o sol está no alto a meia-noite

e coisas como os olhos de ratos
ou um velho pneu
em um terreno baldio
pode torná-lo feliz.

uma vez que você foi para o inferno
e voltou.

quatro e meia da manhã

quatro e meia da manhã
os barulhos do mundo
com passarinhos vermelhos,
são quatro e meia da
manhã, são sempre
quatro e meia da manhã,
e eu escuto meus amigos:
os lixeiros
e os ladrões
e gatos sonhando com
minhocas,
e minhocas sonhando
os ossos do meu amor,
e eu não posso dormir
e logo vai amanhecer,
os trabalhadores vão se levantar
e eles vão procurar por mim
no estaleiro e dirão:
"ele tá bêbado de novo",
mas eu estarei adormecido,
finalmente, no meio das garrafas e
da luz do sol,
toda a escuridão acabada,
os braços abertos como
uma cruz,
os passarinhos vermelhos
voando,
voando,
rosas se abrindo no fumo
e como algo esfaqueado e cicatrizando,
como 40 páginas de um romance ruim,
um sorriso bem na
minha cara de idiota.

Oh Sim

há coisas piores do que estar só
mas costuma levar décadas
até que o percebamos e frequentemente
quando o conseguimos é demasiado tarde
e nada pior do que ser demasiado tarde.


462-0614

agora recebo muitas chamadas de telefone.
todas iguais.
"é Charles Bukowski, o escritor?"
"sim," eu lhes respondo.
e eles dizem que entendem minha escrita.
alguns deles são escritores ou querem ser escritores
e estão em empregos estúpidos e horríveis
e não conseguem nem encarar a sala
o apartamento
as paredes
essa noite...
querem alguém com quem possam conversar,
não podem acreditar que não posso ajudá-los
que não conheço as palavras.
não podem acreditar que agora mesmo me dobro em meu quarto
segurando minhas entranhas e dizendo. "Jesus Jesus Jesus, de novo não!"
eles não podem acreditar que as pessoas mal-amadas
as ruas
a solidão
as paredes
também são minhas e quando desligo o telefone
eles acham que escondi o jogo.
Não escrevo a partir da sabedoria.
quando o telefone toca eu também gostaria de ouvir palavras
que pudessem aliviar um pouco alguma dessas coisas.
é por isso que meu nome está na lista.


Aos fazedores de poemas rápidos e modernos


é muito fácil parecer moderno
enquanto se é o maior idiota jamais nascido;
eu sei; eu joguei fora um material horrível
mas não tão horrível como o que leio nas revistas;
eu tenho uma honestidade interior nascida de putas e hospitais
que não me deixará fingir que sou
uma coisa que não sou-
o que seria um duplo fracasso: o fracasso de uma pessoa
na poesia e o fracasso de uma pessoa
na vida.
e quando você falha na poesia
você erra a vida,
e quando você falha na vida
você nunca nasceu
não importa o nome que sua mãe lhe deu.
as arquibancadas estão cheias de mortos
aclamando um vencedor
esperando um número que os carregue de volta
para a vida,
mas não é tão fácil assim-
tal como no poema
se você está morto
você podia também ser enterrado
e jogar fora a máquina de escrever
e parar de se enganar com
poemas cavalos mulheres a vida:
você está entulhando a saída - portanto saia logo
e desista das
poucas preciosas
páginas.

Showbiz

Eu não aguento isto, você não aguenta isto e nós não vamos compreender isto então não aposte nisto ou nem mesmo pense nisto simplesmente levante-se da cama a cada manhã
lave-se
barbeie-se
vista-se
saia de casa
e aceite isto porque fora isso tudo o que resta é suicídio e loucura
então você simplesmente não pode ter muitas expectativas
você não pode nem ter expectativas
então o que você faz é trabalhar a partir de uma modesta
remuneração mínima como quando você sai
fique contente que seu carro
possivelmente esteja lá
e se está ... fique contente pelos pneus
não estarem furados
então você entra e se ele
dá a partida ... você dá a partida.
e este é o filme mais desgraçado
que você já viu porque você está nele...
cachê baixo e 4 bilhões de críticos
e o período mais longo de exibição
que você já desejou é um dia.

Sozinho com todo mundo


A carne cobre os ossos e colocam uma mente ali dentro e algumas vezes uma alma, e as mulheres quebram vasos contra as paredes e os homens bebem demais e ninguém encontra o par ideal mas seguem na procura rastejando para dentro e para fora dos leitos.
A carne cobre os ossos e a carne busca muito mais do que mera carne.
De fato, não há qualquer chance: estamos todos presos a um destino singular.
Ninguém nunca encontra o par ideal.
As lixeiras da cidade se completam,
os ferros-velhos se completam
os hospícios se completam
as sepulturas se completam
nada mais se completa.


Sem chance de ajuda

há um lugar no coração que nunca será preenchido
um espaço e mesmo nos melhores momentos
e nos melhores tempos
nós saberemos
nós saberemos mais que nunca
há um lugar no coração que nunca será preenchido
e nós iremos esperar e esperar
nesse lugar.

O caixão da criação


O caixão da criação, a capacidade de sofrer e resistir, isso é nobreza, amigo. A capacidade de sofrer e resistir por uma ideia, um sentimento, um caminho, isso é arte, meu amigo. A capacidade de sofrer e resistir quando o amor falha, isso é o inferno, velho amigo. Nobreza, arte e inferno, vamos falar sobre arte por uns instantes. Destino é a minha estropiada filha. Repara, é difícil, eu contra eles,com eles.
Kafka, deixa-me entrar!
Hemingway acautela-te!
Hegel, tens piada!
Cervantes, queres dizer que escreveste esse romance aos 80 anos? Grandes escritores são gente indecente, eles vivem injustamente guardando a melhor parte para o papel. Bons seres humanos salvam o mundo para que patifes como eu possamos continuar a criar arte, tornar-nos imortais.
Se leres isto depois de eu ter morrido há muito significa que consegui. Portanto escritores do mundo agora é a vossa vez de maltratar a vossa mulher abusar dos vossos filhos amarem-se a vós próprios viver dos fundos de outrém ter aversão a toda a arte criada antes e durante o vosso tempo, e ter aversão ou mesmo odiar a humanidade um a um ou em massa. Patifes, mesmo que leiam isto depois de ter morrido há muito esqueçam-me. Eu provavelmente não era assim tão bom.

Como ser um grande escritor

Você tem que trepar com um grande número de mulheres, belas mulheres e escrever uns poucos e decentes poemas de amor, e não se preocupe com a idade e/ou com os talentos frescos recém-chegados, apenas beba mais cerveja e mais cerveja, e vá às corridas pelo menos uma vez por semana e vença se possível. Aprender a vencer é dificil - qualquer frouxo pode ser um bom perdedor, e não esqueça do Brahms e do Bach e também da sua cerveja. Não exagere no exercício, durma até ao meio-dia. Evite cartões de crédito ou pagar qualquer conta no prazo. Lembre-se que nenhum rabo no mundo vale mais do que 50 pratas (em 1977) e se você tem a capacidade de amar, ame primeiro a si mesmo, mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma derrota total mesmo que a razão para essa derrota pareça certa ou errada - um gosto precoce da morte não é necessariamente um coisa má. Fique longe de igrejas e bares e museus, e como a aranha seja paciente - o tempo é a cruz de todos, mais o exílio, a derrota, a traição, todo esse esgoto. Fique com a cerveja. A cerveja é o sangue contínuo, uma amante contínua. Arrange um grande máquina de escrever e assim como os passos que sobem e descem do lado de fora da sua janela bata na máquina, bata forte, faça disso um combate de pesos pesados. Faça como um touro no momento do primeiro ataque e lembre dos velhos cães que brigavam tão bem: Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun. Se você pensa que eles não ficaram loucos em quartos apertados assim como este em que agora você está, sem mulheres, sem comida, sem esperança, então você está pronto. Beba mais cerveja. Há tempo, e se não há está tudo certo também.

Ódio

Há bastante deslealdade, ódio, violência, absurdo no ser humano comum para suprir qualquer exército em qualquer dia. E o melhor no assassinato são aqueles que pregam contra ele. E o melhor no ódio são aqueles que pregam amor, e o melhor na guerra, são aqueles que pregam a paz. Aqueles que pregam Deus precisam de Deus, aqueles que pregam paz não têm paz, aqueles que pregam amor não têm amor. Cuidado com os pregadores, cuidado com os sabedores. Cuidado com aqueles que estão sempre lendo livros. Cuidado com aqueles que detestam pobreza ou que são orgulhosos dela. Cuidado com aqueles que elogiam fácil, porque eles precisam de elogios de volta. Cuidado com aqueles que censuram fácil, eles têm medo daquilo que não conhecem. Cuidado com aqueles que procuram constantes multidões, eles não são nada sozinhos. Cuidado com o homem comum, com a mulher comum, cuidado com o amor deles. O amor deles é comum, procura o comum, mas há genialidade em seu ódio, há bastante genialidade em seu ódio para matar você, para matar qualquer um. Sem esperar solidão, sem entender solidão eles tentarão destruir qualquer coisa que seja diferente deles mesmos.