"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Ah, se eu pudesse sozinho dinamitar a ilha de Manhattan...

Quem diria, Drummond era um terrorista poético... E um profeta... Ou então foi a realidade que não mudou muito de 1938 pra cá... A única "atualização" que eu acharia cabível seria substituir, na 4ª estrofe, "ao telefone" por "ao computador".

Poema não indicado para momentos de crise existencial ou depressão.

ELEGIA 1938

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios de espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

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