"há sempre um copo de mar para um homem navegar" - jorge de lima
Quando os cronópios saem em viagem, encontram os hotéis cheios, os trens já partiram, chove a cântaros e os táxis não querem levá-los ou lhes cobram preços altíssimos. Os cronópios não desanimam porque acreditam piamente que estas coisas acontecem a todo o mundo, e na hora de dormir dizem uns aos outros: “Que bela cidade, que belíssima cidade”. E sonham a noite toda que na cidade há grandes festas e que eles foram convidados. E no dia seguinte levantam contentíssimos, e é assim que os cronópios viajam.
(Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas)
(Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas)
"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios
quinta-feira, 17 de maio de 2007
Panis et circensis
Todos os problemas do mundo se resumem a algo muito simples e cinza: as pessoas na sala de jantar, ocupadas que são em nascer e morrer. Principalmente em morrer. Afinal, nascer é muito natural, não há que se preocupar com algo tão banal. Ah, não que a morte também não seja tão comum quanto o vir ao mundo, mas é que a vida passou a ser uma ordem, as pessoas na sala de jantar precisam de um ritual muito especial para morrer, na verdade elas se enterram na sala de jantar muito cedo, não diria que ao nascer, mas logo que amadurecem e perdem o ingênuo hábito de viver no presente. Elas se preparam tão solenemente para esse momento final que em verdade o concretizam muito antes, quase que inconscientemente, durante o jantar de todo dia vendo na tv a colorida propaganda do banco que financia a felicidade, durante a ceia natalina de todo ano quando todos são humanos por um dia, a cada vez que a consciência se cala numa paz omissa diante do inaceitável, a cada grito engolido quando é o próprio corpo que cai lentamente do oitavo andar. As pessoas na sala de jantar estão muito ocupadas para pensar, não podem notar as mensagens que nos chegam sem parar, não podem perceber nem que a guerra acontece ao seu redor nem que há bem mais sóis crestando entre as estrelas. Como não sabem e não crêem que se pode sempre a sorte escolher, fica a morte por medida, fica a vida por prisão. O futuro é hoje e cabe na palma da mão, mas também escorre por entre os dedos gota a gota. Para seres que vivem como vegetais, talvez lhes falte aprender um pouco com a natureza, as folhas sabem procurar pelo sol, e as raízes procurar, procurar... Sejamos simples e calmos, como os regatos e as árvores. Mas calma não é apatia, nem simplicidade é submissão. Quem tem olhos para ver, que veja, mas além do próprio nariz. Quem de dentro de si não sai, vai morrer sem amar ninguém, é necessário sair da ilha para ver a ilha. É mais conveniente não ver os meninos invisíveis que se alimentam de luz no Brejo da Cruz e nos sinais, ou não saber que o dinheiro de quem não dá é o trabalho de quem não tem. Homens e mulheres partidos, que quando mudam, é para que tudo permaneça como está, que quando dão migalhas, é para se sentirem humanos. Muita coisa as pessoas na sala de jantar fazem seguindo o caminho que o mundo traçou, seguindo a cartilha que alguém ensinou, seguindo a receita da vida normal, mas o que é vida afinal, será que é fazer o que o mestre mandou, é comer o pão que o diabo amassou, perdendo da vida o que tem de melhor? Não, a única forma que pode ser norma é nenhuma regra ter, é nunca fazer nada que o mestre mandar; sempre desobedecer, nunca reverenciar. A sala de jantar não tem portas, nela estamos presos todos e não podemos sair individualmente, pois a única saída é derrubar totalmente suas paredes. É preciso que não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. É por isso que eu não estou interessado em nenhuma teoria, a minha alucinação é suportar o dia-a-dia, e o meu delírio é a experiência com coisas reais. Revoltar-me é mais que possível, é necessário. Amar e mudar as coisas me interessa mais.
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