"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

domingo, 30 de setembro de 2007

O que é, o que é

Uma das melhores respostas que já encontrei à eterna pergunta da canção de Gonzaguinha sobre o que é a vida: é irônica. Ou, nos dizeres de Alanis Morissette em Ironic:

It's like rain on your wedding day
It's a free ride when you've already paid
It's the good advice that you just didn't take
Who would've thought...it figures

Ou, como diz, Vinicius:

sei lá, sei lá,
a vida é uma grande ilusão
sei lá,
só sei que ela está coma razão

Mas eu ainda fico com a pureza da resposta das crianças: é a vida, e é bonita, e é bonita...



Preguiça: liberdade e resistência

LIBERDADE

Fernando Pessoa

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro pra ler
E não o fazer!
Ler é maçada.
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por Dom Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

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MUDAR O MUNDO SEM TOMAR O PODER (trecho)
John Holloway

"Sejamos preguiçosos em tudo, exceto ao amar e beber, exceto em sermos preguiçosos". Lafargue começa sua obra The right to be lazy (O direito à preguiça) com essa citação, querendo dizer que não há nada mais incompatível com a exploração capitalista do que a preguiça defendida por Lessing. Na sociedade capitalista, no entanto, a preguiça implica uma rejeição a fazer, uma afirmação ativa de uma prática alternativa. Fazer, no sentido em que o entendemos aqui, inclui a preguiça e a busca do prazer, práticas que são negativas em uma sociedade baseada em sua negação. Em um mundo baseado em uma conversão do fazer em trabalho, a rejeição pode ser vista como uma forma efetiva de resistência.

domingo, 23 de setembro de 2007

Mais trabalho

Interessante, publiquei há pouco um texto sobre o domingo e a alienação do trabalho, e por acaso me deparo com outro texto que também acaba de ser publicado, com um tema bem semelhante. Achei no site do Coletivo Sabotagem (http://www.sabotagem.revolt.org) e segue abaixo. Logo após, pra contrapor essas reflexões angustiantes, coloco uma letra de uma música um pouco mais "inspiradora", sobre um futuro que temos que construir.

Trabalhador

Enviado por Holden Caulfield em 23 Setembro, 2007 - 7:57pm.

As vezes você tem que ficar sozinho né?
Não quer, mas tem. Não tem pra quem ligar
ou ninguém que vá atender pode falar o que é certo.

Você tem que por em prova teus princípios,
Se você vale tanto quanto isso tudo que você tem.
Se você cumpre o que fala,
Se você é civilizado.
Porque deve-se ser alguém pelos outros,
essa imagem tem que ser mantida, a todo custo.
Acho que é assim na vida pessoal hoje em dia.

Quanto ao trabalho(que palavra infeliz) cada um pensa o que pode,
Tem gente que diz que é dignidade.
Pois então estou cheio dela, hoje é domingo e trabalhei o dia todo num serviço cansativo e que me deixou mal porque estava muito calor.
Eu não quero essa dignidade, pensei que quando eu trabalhasse eu iria gostar, a gente tenta entender porque uma coisa é jogada na sua mente a vida toda, mas eu desistiria dessa dignidade e de toda essa imagem se pudesse.
Não dá sobreviver, é isso. Ae falam: "Você pode criticar, mas vai viver do sistema".
Claro, existe essa chantagem, ou me alieno por salario ou passo fome. Mas não dá pra aceitar a humilhação que alguns seres humanos passam. Sem falar no que anda acontecendo com o futuro dos outros.
Nessa Terra que não vai sobrar muita coisa pra provar que a gente viveu muito bem.

Eu não sou desses que vira a cara quando vê um mendigo.
Isso é dignidade, perceber o problema e não aceitar.
Tá eu não posso viver sem estar no sistema, mas mesmo assim
Com pouca chance de sucesso contra os que estão por cima,
Sem mais motivos e sem muita lógica,
Isso não dá pra ser aceito.


Quando Quiser
Arnaldo Antunes

acabou a hora do trabalho
começou o tempo do lazer
você vai ganhar o seu salário
pra fazer o que quiser fazer

o que você gosta e gostaria
de estar fazendo noite e dia
ler, andar, ir ao cinema, brincar com seu nenén
e até mesmo trabalhar também

quando quiser, se assim quiser
se assim quiser, como quiser
como quiser, quando quiser

ir de bicicleta ao mercado
escolher um peixe pro jantar
encontrar a namorada ou o namorado
escolher alguém pra visitar

quando quiser, se assim quiser
se assim quiser, como quiser
como quiser, quando quiser



Idéias de Canário

MACHADO DE ASSIS

UM HOMEM dado a estudos de ornitologia, por nome Macedo, referiu a alguns amigos um caso tão extraordinário que ninguém lhe deu crédito. Alguns chegam a supor que Macedo virou o juízo. Eis aqui o resumo da narração.
No princípio do mês passado, — disse ele, — indo por uma rua, sucedeu que um tílburi à disparada, quase me atirou ao chão. Escapei saltando para dentro de uma loja de belchior. Nem o estrépito do cavalo e do veículo, nem a minha entrada fez levantar o dono do negócio, que cochilava ao fundo, sentado numa cadeira de abrir. Era um frangalho de homem, barba cor de palha suja, a cabeça enfiada em um gorro esfarrapado, que provavelmente não achara comprador. Não se adivinhava nele nenhuma história, como podiam ter alguns dos objetos que vendia, nem se lhe sentia a tristeza austera e desenganada das vidas que foram vidas.
A loja era escura, atulhada das cousas velhas, tortas, rotas, enxovalhadas, enferrujadas que de ordinário se acham em tais casas, tudo naquela meia desordem própria do negócio. Essa mistura, posto que banal, era interessante. Panelas sem tampa, tampas sem panela, botões, sapatos, fechaduras, uma saia preta, chapéus de palha e de pêlo, caixilhos, binóculos, meias casacas, um florete, um cão empalhado, um par de chinelas, luvas, vasos sem nome, dragonas, uma bolsa de veludo, dous cabides, um bodoque, um termômetro, cadeiras, um retrato litografado pelo finado Sisson, um gamão, duas máscaras de arame para o carnaval que há de vir, tudo isso e o mais que não vi ou não me ficou de memória, enchia a loja mas imediações da porta, encostado, pendurado ou exposto em caixas de vidro, igualmente velhas. Lá para dentro, havia outras cousas mais e muitas, e do mesmo aspecto, dominando os objetos grandes, cômodas, cadeiras, camas, uns por cima dos outros, perdidos na escuridão.
Ia a sair, quando vi uma gaiola pendurada da porta. Tão velha como o resto, para ter o mesmo aspecto da desolação geral, faltava-lhe estar vazia. Não estava vazia. Dentro pulava um canário. A cor, a animação e a graça do passarinho davam àquele amontoado de destroços uma nota de vida e de mocidade. Era o último passageiro de algum naufrágio, que ali foi parar íntegro e alegre como dantes. Logo que olhei para ele, entrou a saltar mais abaixo e acima de poleiro em poleiro, como se quisesse dizer que no meio daquele cemitério brincava um raio de sol. Não atribuo essa imagem ao canário, senão porque falo a gente retórica; em verdade, ele não pensou em cemitério nem sol, segundo me disse depois. Eu, de envolta com o prazer que me trouxe aquela vista, senti-me indignado do destino do pássaro, e murmurei baixinho palavras de azedume.
— Quem seria o dono execrável deste bichinho, que teve ânimo de se desfazer dele por alguns pares de níqueis? Ou que mão indiferente, não querendo guardar esse companheiro de dono defunto, o deu de graça a algum pequeno, que o vendeu para ir jogar uma quiniela?
E o canário, quedando-se em cima do poleiro, trilou isto:
— Quem quer que sejas tu, certamente não estás em teu juízo. Não tive dono execrável, nem fui dado a nenhum menino que me vendesse. São imaginações de pessoa doente; vai-te curar, amigo...
— Como — interrompi eu, sem ter tempo de ficar espantado. Então o teu dono não te vendeu a esta casa? Não foi a miséria ou a ociosidade que te trouxe a este cemitério, como um raio de sol?
— Não sei que seja sol nem cemitério. Se os canários que tens visto usam do primeiro desses nomes, tanto melhor, porque é bonito, mas estou que confundes.
— Perdão, mas tu não vieste para aqui à toa, sem ninguém, salvo se o teu dono foi sempre aquele homem que ali está sentado.
— Que dono? Esse homem que aí está é meu criado, dá-me água e comida todos os dias, com tal regularidade que eu, se devesse pagar-lhe os serviços, não seria com pouco; mas os canários não pagam criados. Em verdade, se o mundo é propriedade dos canários, seria extravagante que eles pagassem o que está no mundo.
Pasmado das respostas, não sabia que mais admirar, se a linguagem, se as idéias. A linguagem, posto me entrasse pelo ouvido como de gente, saía do bicho em trilos engraçados. Olhei em volta de mim, para verificar se estava acordado; a rua era a mesma, a loja era a mesma loja escura, triste e úmida. O canário, movendo a um lado e outro, esperava que eu lhe falasse. Perguntei-lhe então se tinha saudades do espaço azul e infinito. . .
— Mas, caro homem, trilou o canário, que quer dizer espaço azul e infinito?
— Mas, perdão, que pensas deste mundo? Que cousa é o mundo?
— O mundo, redargüiu o canário com certo ar de professor, o mundo é uma loja de belchior, com uma pequena gaiola de taquara, quadrilonga, pendente de um prego; o canário é senhor da gaiola que habita e da loja que o cerca. Fora daí, tudo é ilusão e mentira.
Nisto acordou o velho, e veio a mim arrastando os pés. Perguntou-me se queria comprar o canário. Indaguei se o adquirira, como o resto dos objetos que vendia, e soube que sim, que o comprara a um barbeiro, acompanhado de uma coleção de navalhas.
— As navalhas estão em muito bom uso, concluiu ele.
— Quero só o canário.
Paguei-lhe o preço, mandei comprar uma gaiola vasta, circular, de madeira e arame, pintada de branco, e ordenei que a pusessem na varanda da minha casa, donde o passarinho podia ver o jardim, o repuxo e um pouco do céu azul.
Era meu intuito fazer um longo estudo do fenômeno, sem dizer nada a ninguém, até poder assombrar o século com a minha extraordinária descoberta. Comecei por alfabetar a língua do canário, por estudar-lhe a estrutura, as relações com a música, os sentimentos estéticos do bicho, as suas idéias e reminiscências. Feita essa análise filológica e psicológica, entrei propriamente na história dos canários, na origem deles, primeiros séculos, geologia e flora das ilhas Canárias, se ele tinha conhecimento da navegação, etc. Conversávamos longas horas, eu escrevendo as notas, ele esperando, saltando, trilando.
Não tendo mais família que dous criados, ordenava-lhes que não me interrompessem, ainda por motivo de alguma carta ou telegrama urgente, ou visita de importância. Sabendo ambos das minhas ocupações científicas, acharam natural a ordem, e não suspeitaram que o canário e eu nos entendíamos.
Não é mister dizer que dormia pouco, acordava duas e três vezes por noite, passeava à toa, sentia-me com febre. Afinal tornava ao trabalho, para reler, acrescentar, emendar. Retifiquei mais de uma observação, — ou por havê-la entendido mal, ou porque ele não a tivesse expresso claramente. A definição do mundo foi uma delas. Três semanas depois da entrada do canário em minha casa, pedi-lhe que me repetisse a definição do mundo.
— O mundo, respondeu ele, é um jardim assaz largo com repuxo no meio, flores e arbustos, alguma grama, ar claro e um pouco de azul por cima; o canário, dono do mundo, habita uma gaiola vasta, branca e circular, donde mira o resto. Tudo o mais é ilusão e mentira.
Também a linguagem sofreu algumas retificações, e certas conclusões, que me tinham parecido simples, vi que eram temerárias, Não podia ainda escrever a memória que havia de mandar ao Museu Nacional, ao Instituto Histórico e às universidades alemãs, não porque faltasse matéria, mas para acumular primeiro todas as observações e ratificá-las. Nos últimos dias, não saía de casa, não respondia a cartas, não quis saber de amigos nem parentes. Todo eu era canário. De manhã, um dos criados tinha a seu cargo limpar a gaiola e por-lhe água e comida. O passarinho não lhe dizia nada, como se soubesse que a esse homem faltava qualquer preparo científico. Também o serviço era o mais sumário do mundo; o criado não era amador de pássaros.
Um sábado amanheci enfermo, a cabeça e a espinha doíam-me. O médico ordenou absoluto repouso; era excesso de estudo, não devia ler nem pensar, não devia saber sequer o que se passava na cidade e no mundo. Assim fiquei cinco dias; no sexto levantei-me, e só então soube que o canário, estando o criado a tratar dele, fugira da gaiola. O meu primeiro gesto foi para esganar o criado; a indignação sufocou-me, caí na cadeira, sem voz, tonto. O culpado defendeu-se, jurou que tivera cuidado, o passarinho é que fugira por astuto...
— Mas não o procuraram?
— Procuramos, sim, senhor; a princípio trepou ao telhado, trepei também, ele fugiu, foi para uma árvore, depois escondeu-se não sei onde. Tenho indagado desde ontem, perguntei aos vizinhos, aos chacareiros, ninguém sabe nada.
Padeci muito; felizmente, a fadiga estava passada, e com algumas horas pude sair à varanda e ao jardim. Nem sombra de canário. Indaguei, corri, anunciei, e nada. Tinha já recolhido as notas para compor a memória, ainda que truncada e incompleta, quando me sucedeu visitar um amigo, que ocupa uma das mais belas e grandes chácaras dos arrabaldes. Passeávamos nela antes de jantar, quando ouvi trilar esta pergunta:
— Viva, Sr. Macedo, por onde tem andado que desapareceu?
Era o canário; estava no galho de uma árvore. Imaginem como fiquei, e o que lhe disse. O meu amigo cuidou que eu estivesse doudo; mas que me importavam cuidados de amigos? Falei ao canário com ternura, pedi-lhe que viesse continuar a conversação, naquele nosso mundo composto de um jardim e repuxo, varanda e gaiola branca e circular. . .
— Que jardim? que repuxo?
— O mundo, meu querido.
— Que mundo? Tu não perdes os maus costumes de professor. O mundo, concluiu solenemente, é um espaço infinito e azul, com o sol por cima.
Indignado, retorqui-lhe que, se eu lhe desse crédito, o mundo era tudo; até já fora uma loja de belchior. . .
— De belchior? trilou ele às bandeiras despregadas. Mas há mesmo lojas de belchior?

Hoje é domingo

Não é sete de setembro, nem dia de finados. Não é sexta-feira-santa nem um outro feriado. Justamente o tão esperado dia de descanso, é também o mais melancólico pela segunda que anuncia. Engraçado que não costumamos notar a cruel contradição que é ter que passar uma semana inteira sendo consumidos pelas obrigações infinitas do trabalho, estudos, etc, etc, para enfim termos direito a um dia para aproveitarmos a vida. Na verdade, partindo da definição de tempo de “Momo e o Sr. Do Tempo”, se tempo é tempo vivido, é o tempo em que nos sentimos realmente vivos, e se durante a semana somos progressivamente submetidos a mais alienação e insensibilidade para termos que dar conta de cada vez mais obrigações, é como se, na verdade, estivéssemos vivendo um dia por semana. E o pior é que a música dos Titãs vai ficando cada vez mais desatualizada, “tudo está fechado” é coisa do passado, cada vez mais “tudo está abrindo” aos domingos, o que quer dizer que cada vez mais menos pessoas podem curtir o domingo. Essa sensação de perda do controle sobre o próprio tempo, sobre a própria vida, foi muito bem interpretada em duas músicas de duas de minhas bandas favoritas, Pato Fu e Engenheiros do Hawaii. Seguem trechos das letras das duas abaixo. Quanto a mim, não sei o que fazer, mas já vou, antes que eu confunda o domingo com a segunda...


“Tenho vivido um dia por semana,

Acaba a grana, mês ainda tem,

Sem passado, nem futuro

Eu vivo um dia de cada vez

Quantas vezes eu estive

Cara a cara com a pior metade

Quantas vezes a gente sobrevive

À hora da verdade...

Se eu soubesse antes o que sei agora,

Iria embora antes do final...”


Engenheiros do Hawaii, Surfando Karmas e DNA


“Quase não me sobra tempo algum

Não conheço bem lugar nenhum

Fora do trabalho

Eu acho essa cidade tão ruim.

Sou tão dedicado a ser comum

Anos vão passando um a um

E o tempo pela frente comigo é diferente

Conto assim: sete catorze vinte e um...”

Pato Fu, Amendoim

sábado, 15 de setembro de 2007

Diante da Lei

Franz Kafka

Diante da Lei está um guarda. Vem um homem do campo e pede para entrar na Lei. Mas o guarda diz-lhe que, por enquanto, não pode autorizar-lhe a entrada. O homem considera e pergunta depois se poderá entrar mais tarde. - "É possível" - diz o guarda. - "Mas não agora!". O guarda afasta-se então da porta da Lei, aberta como sempre, e o homem curva-se para olhar lá dentro. Ao ver tal, o guarda ri-se e diz: - "Se tanto te atrai, experimenta entrar, apesar da minha proibição. Contudo, repara: sou forte. E ainda assim sou o último dos guardas. De sala para sala estão guardas cada vez mais fortes, de tal modo que não posso sequer suportar o olhar do terceiro depois de mim".

O homem do campo não esperava tantas dificuldades. A Lei havia de ser acessível a toda a gente e sempre, pensa ele. Mas, ao olhar o guarda envolvido no seu casaco forrado de peles, o nariz agudo, a barba à tártaro, longa, delgada e negra, prefere esperar até que lhe seja concedida licença para entrar. O guarda dá-lhe uma banqueta e manda-o sentar ao pé da porta, um pouco desviado. Ali fica, dias e anos. Faz diversas diligências para entrar e com as suas súplicas acaba por cansar o guarda. Este faz-lhe, de vez em quando, pequenos interrogatórios, perguntando-lhe pela pátria e por muitas outras coisas, mas são perguntas lançadas com indiferença, à semelhança dos grandes senhores, no fim, acaba sempre por dizer que não pode ainda deixá-lo entrar.O homem, que se provera bem para a viagem, emprega todos os meios custosos para subornar o guarda. Esse aceita tudo mas diz sempre: - "Aceito apenas para que te convenças que nada omitiste".

Durante anos seguidos, quase ininterruptamente, o homem observa o guarda. Esquece os outros e aquele afigura-se-lhe o único obstáculo à entrada na Lei. Nos primeiros anos diz mal da sua sorte, em alto e bom som e depois, ao envelhecer, limita-se a resmungar entre dentes. Torna-se infantil, e como ao fim de tanto examinar o guarda durante anos lhe conhece até as pulgas das peles que ele veste, pede também às pulgas que o ajudem a demover o guarda. Por fim, enfraquece-lhe a vista e acaba por não saber se está escuro em seu redor ou se os olhos o enganam. Mas ainda apercebe, no meio da escuridão, um clarão que eternamente cintila por sobre a porta da Lei. Agora a morte está próxima.

Antes de morrer, acumulam-se na sua cabeça as experiências de tantos anos, que vão todas culminar numa pergunta que ainda não fez ao guarda. Faz-lhe um pequeno sinal, pois não pode mover o seu corpo já arrefecido. O guarda da porta tem de se inclinar até muito baixo porque a diferença de alturas acentuou-se ainda mais em detrimento do homem do campo. - "Que queres tu saber ainda?", pergunta o guarda. - "És insaciável".

- "Se todos aspiram a Lei", disse o homem. - "Como é que, durante todos esses anos, ninguém mais, senão eu, pediu para entrar?". O guarda da porta, apercebendo-se de que o homem estava no fim, grita-lhe ao ouvido quase inerte: - "Aqui ninguém mais, senão tu, podia entrar, porque só para ti era feita esta porta. Agora vou-me embora e fecho-a".