"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Águas passadas movem moinhos

"Nós vivemos a temer o futuro; mas é o passado quem nos atropela e mata."
Mario Quintana


Se ele queria apagá-la das fotografias de sua vida, não era porque não a amava, mas sim porque a tinha amado. Ele a apagara, a ela e a seu amor por ela, raspara a imagem dela até fazê-la desaparecer, como o departamento de propaganda do partido fizera desaparecer Clementis da sacada de onde Gottwald havia pronunciado seu histórico discurso. Mirek reescreveu a História exatamente como o partido comunista, como todos os partidos políticos, como todos os povos, como o homem. Gritamos que queremos moldar um futuro melhor, mas não é verdade. O futuro nada mais é do que um vazio indiferente que não interessa a ninguém, mas o passado é cheio de vida e seu rosto irrita; revolta, fere, a ponto de querermos destruí-lo ou pintá-lo de novo. Só queremos ser mestres do futuro para podermos mudar o passado. Lutamos para ter acesso aos laboratórios onde se pode retocar as fotos e reescrever as biografias e a História.

(Milan Kundera, O livro do riso e do esquecimento)

sexta-feira, 15 de maio de 2009

O poeta terrorista

Condenado à prisão perpétua do dia-a-dia, metaforagiu-se.
Hoje, semeia bombas de poesia.
Vândalo, espalha o espanto
que só a infância colheria.

poema desocupado

poesia é coisa de desocupados
é coisa de irresponsáveis
é coisa de gente imatura
é coisa de quem não vive a realidade concreta
poesia é coisa pra quem pode se dar ao luxo
de achar que vai destruir os moinhos
lançando palavras ao vento.

poesia é coisa de quem, estando ocupado,
inventa o tempo que não tem
é coisa de quem, tendo obrigações,
acha uma fenda no muro impenetrável do cotidiano.
é coisa de quem, não tendo maturidade para ser seco,
paga o preço por gostar de ser como uma criança.
é coisa de quem, preso à realidade sufocante,
cria a realidade libertadora.
poesia é coisa pra quem pode se dar ao luxo
de ter coragem
de enxergar os moinhos
e de lutar com o vento
e com as palavras.

sim, poesia é coisa de gente inútil.
ah, mas como é necessária...

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Poexcesso

Se é para ser poetas,
Não o sejamos convenientemente pela metade,
Não gozemos a beleza agonizante a conta-gotas,
Uma dose por dia,
Até mesmo porque isso pode ser auto-ajuda,
Mas jamais será poesia.

Poesia é o excesso que não satisfaz,
É a utopia que não se adia,
É a ilusão que constrói a realidade,
É a megalomania dos detalhes.

Se é para ser poetas,
Sejamos com as estrelas
E com o lixo,
Sejamos com o mar
E com a lama
E sejamos inteiros,
Ainda que sempre incompletos.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Como dizia Vinicius...

Ai de quem não rasga o coração... É melhor viver que ser feliz.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

ode aos suínos

antes viver na lama como porcos
do que morrer todos os dias aos poucos.
se a pandemia é um fato,
nós vamos descobrir a poesia na sujeira
e morrer suinamente no lodo do amor.

domingo, 10 de maio de 2009

Ovelha negra

Um belo dia resolvi mudar...

sábado, 9 de maio de 2009

CURRICULUM VITAE

Tenho muito talento para inutilidades.
Sei contemplar com extrema deseficiência,
Sem qualquer resultado avaliável.
Sou competente para inventar perguntas para o que as palavras não dizem.
Consigo a proeza de escutar os desabafos das pessoas sem dar um conselho sequer,
Pois compreendo suas confusões a tal ponto
Que acabo fundindo-as com minhas próprias confusões.

Me adapto com facilidade a qualquer fase da lua.
Leio poesia com improdutividade rigorosa,
Sendo incapaz de escrever um único verso que preste.
Para coisas úteis, está claro.

Sou particularmente criativo para repetir clichês batidos
Até senti-los.
Afinal, repetindo o poeta Manoel,
Repetir, repetir é um dom do estilo.

Sou destacadamente eficaz para sonhar impossibilidades.
Tenho vasta experiência em amar e sofrer com intensidade.
Rio e choro com fluência em qualquer idioma.
Me esforço muito para desaprender pelo menos 8 horas por dia.

Meu curso atual é bem definido:
Me deixar navegar pelo mar
À procura do turbilhão onde quero me perder
E me afogar
E me sentir protegido debaixo d'água,
Onde tudo é mais bonito, mais azul, mais colorido,
E ainda assim conseguir respirar.

Sou determinado:
Para atingir um objetivo, sou capaz de qualquer sacrifício.
Menos de fazer o que não gosto.
Porque, no fim das contas, meu objetivo é simplesmente
Fazer o que gosto.

Almejo chegar longe, sim, até Pasárgada,
Não porque ache novidade ver a nudez do rei,
Mas porque não abro mão de ter a mulher que quero
Na cama que escolherei.

Quanto à questão da confiança, sou do tipo que não sabe mentir.
Se por, outro lado, também não sei dizer a verdade,
É que tenho a sabedoria socrática
De que só sei que nada sei,
Se é que alguém sabe se isso é verdade.

Não sou bom em esconder sentimentos,
A não ser de mim mesmo.
Meu ser é transparente como um poço de água cristalina.
Só que sem fundo
E no escuro.

Sim, eu sou exatamente essa máscara
Que vocês hoje não poderão nunca ver
Porque o espelho dos olhos tem medo de se enxergar-me.

Ah! Tenho uma memória prodigiosa para lembrar com detalhes
Os sabores de meus sorvetes preferidos
E das peles das mulheres que amei.

Minhas habilidades musicais são tamanhas
Que as esgoto completamente na complexa arte de saber escutar.
Habilidades teatrais? Óbvio!
Ou vocês acham que qualquer um consegue interpretar eu próprio o tempo inteiro,
Sem poder sair de cena desta eterna comédia dell'arte,
Dirigida por um sádico que não se decide
Entre a tragédia grega,
O dramalhão mexicano,
A perversão rodriguiana
E o absurdo becketiano?
Pode não parecer, mas eu não sou um personagem fácil,
Ainda mais para um ator inexperiente como eu.

A carga horária não é problema,
Tenho disponibilidade para sonhar em tempo integral,
Inclusive quando estou dormindo.
Creio que posso contribuir muito
Para que o grupo atinja a exuberância das desimportâncias essenciais.

Meu projeto é um dia não querer mais
Deixar de ser a criança que hoje finjo que não sou.
Minhas ambições são para pássaro ou para peixe,
Mas também me contento com a beleza única
Da pieguice cotidiana de uma flor.
Tenho tendência à rebeldia
E aptidão para a liberdade.
Minha vocação é me embriagar de mar.

Um defeito?
Não sei lidar muito bem com esse troço de vida.
Pra algumas pessoas parece tão fácil, quase automático...
Mas pra mim não;
Em mim nada está como é,
Tudo é um tremendo esforço de ser.
E a cada dia tenho que improvisar uma solução nova
Para que a vida continue para sempre funcionando
Por enquanto.

Quanto a minha vida privada, é um livro aberto,
Embora ninguém ainda tenha descoberto em que língua e em que tempo está sendo escrito
Neste exato momento
Em que eu nunca termino.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Hey Jude

take a sad song and make it better...

domingo, 3 de maio de 2009

Olhos de cão azul

Gabriel García Márquez


Então olhou para mim. Pensava que olhava para mim pela primeira vez. Mas então, quando se virou por trás do abajur, e eu continuava sentindo sobre o ombro, nas minhas costas, seu escorregadio e oleoso olhar, compreendi que era eu quem a olhava pela primeira vez. Acendi um cigarro. Traguei a fumaça áspera e forte, antes de fazer girar a cadeira, equilibrando-a sobre uma das pernas posteriores. Depois disso a vi ali, como havia estado todas as noites, de pé junto ao abajur, me olhando. Durante breves minutos não fizemos nada mais que isto: olhar-nos. Eu, olhando-a da cadeira, equilibrando-me numa das pernas traseiras. Ela, em pé, me olhando, com uma das mãos, comprida e quieta, sobre o abajur. Via as pálpebras iluminadas como todas as noites. Foi então que lembrei o de sempre, quando lhe disse: "Olhos de cão azul". Ela me disse, sem tirar a mão do abajur: "Isso. Já não o esqueceremos nunca". Saiu da órbita suspirando: "Olhos de cão azul. Escrevi isso por todas as partes”.

Vi-a caminhar em direção à cômoda. Vi-a aparecer na lua circular do espelho, olhando-me agora no final duma ida e volta de luz matemática. Vi-a continuar me olhando com seus grandes olhos de cinza acesa: olhando-me enquanto abria uma caixinha revestida de nácar rosado. Vi-a passar pó-de-arroz no nariz. Quando acabou de fazer isso, fechou a caixinha e voltou a ficar em pé e andou novamente em direção ao abajur, dizendo: "Temo que alguém sonhe com este quarto e mexa nas minhas coisas"; e estendeu sobre a chama a mão comprida e trêmula, a mesma que estivera esquentando antes de sentar-se em frente ao espelho. E me disse: "Você não sente o frio". E eu lhe disse: "Às vezes". E ela me disse: "Você deve senti-lo agora". E então compreendi por que não tinha podido ficar sozinho na cadeira. Era o frio o que me dava certeza da minha solidão. "Agora o sinto", disse. "E é raro, porque a noite está quieta. Talvez o lençol tenha rodado". Ela não respondeu. Começou a se mexer em direção ao espelho e voltei a girar sobre a cadeira para ficar de costas para ela. Embora sem vê-Ia, sabia o que estava fazendo. Sabia que estava outra vez sentada diante do espelho, vendo minhas costas, que haviam tido tempo para chegar até o fundo do espelho, e serem encontradas pelo seu olhar, que também havia tido o tempo justo para chegar até o fundo e regressar antes que a mão tivesse tempo de iniciar a segunda virada — até os lábios que estavam agora pintados de carmim, da primeira virada da mão em frente ao espelho. Eu via, à minha frente, a parede lisa, que era como outro espelho cego, onde eu não a via sentada às minhas costas, mas imaginando onde estaria, se no lugar da parede tivesse sido colocado um espelho. "Estou vendo você", disse-lhe. E vi, na parede, como se ela tivesse levantado os olhos e me visto de costas na cadeira, ao fundo do espelho, com o rosto voltado para a parede. Depois vi-a abaixar as pálpebras, outra vez, e ficar com os olhos quietos no seu sutiã, sem falar. E voltei a lhe dizer: "Estou vendo você." E ela voltou a levantar os olhos do sutiã. "É impossível", disse. Eu perguntei por quê. E ela, com os olhos outra vez quietos no sutiã: "Porque você tem o rosto voltado para a parede". Então eu fiz girar a cadeira. Tinha o cigarro apertado na boca. Quando fiquei de frente para o espelho, ela estava outra vez junto do abajur. Agora tinha as mãos abertas sobre a chama, como duas asas abertas de galinha, sendo assada, e com o rosto sombreado pelos próprios dedos. "Acho que vou me resfriar", disse. "Esta deve ser uma cidade gelada”. Voltou o rosto de perfil e sua pele de cobre vermelho se tornou repentinamente triste. "Faça alguma coisa contra isso", disse. E ela começou a tirar a roupa, peça por peça, começando por cima; pelo sutiã. Disse-lhe: "Vou me virar para a parede". Ela disse: "Não. De todas as maneiras você vai me ver, como me viu quando estava de costas". Mal tinha acabado de dizer isso e já estava despida quase por completo, com a chama lambendo-lhe a comprida pele de cobre. "Sempre tinha querido ver você assim, com o couro da barriga cheio de buracos fundos, como se houvessem feito você a pauladas". E antes que eu me desse conta de que minhas palavras se tinham tornado torpes diante da sua nudez, ela ficou imóvel, esquentando-se na órbita do abajur, e disse: "Às vezes creio que sou metálica". Manteve o silêncio por um instante. A posição das mãos sobre a chama mudou levemente. Eu disse: "Às vezes, em outros sonhos, pensei que você é apenas uma estatueta de bronze num canto de algum museu. Talvez por isso sinta frio". E ela disse: "Às vezes, quando durmo sobre o coração, sinto que o corpo fica como um ovo, e a pele como uma lâmina. Então, quando o sangue me bate por dentro, é como se alguém me estivesse chamando com os nós dos dedos na barriga, e sinto meu próprio som de cobre na cama. É como se fosse assim como você diz: de metal laminado". Aproximou-se mais do abajur. "Teria gostado de ouvir você", disse. E ela disse: "Se alguma vez nos encontrarmos ponha o ouvido nas minhas costelas, quando eu dormir sobre o lado esquerdo, e me ouvirá ressonar. Sempre desejei que você alguma vez fizesse isso”. Ouvi-a respirar fundo enquanto falava. E disse que durante anos não tinha feito nada diferente disso. Sua vida estava dedicada a me encontrar na realidade, por meio dessa frase identificadora. "Olhos de cão azul." E na rua ia dizendo em voz alta, que era uma maneira de dizer à única pessoa que teria podido compreendê-la:

"Eu sou a que chega em seus sonhos todas as noites e lhe diz isto: olhos de cão azul". E ela disse que ia aos restaurantes e dizia para os garçons, antes de fazer o pedido: "Olhos de cão azul". Mas os garçons lhe faziam uma respeitosa reverência, sem que houvessem lembrado nunca ter dito isso nos seus sonhos. Depois escrevia nos guardanapos e riscava com a faca o verniz das mesas: "Olhos de cão azul". E nos cristais embaçados dos hotéis, das estações, de todos os edifícios públicos, escrevia com o indicador: "Olhos de cão azul". Disse que uma vez chegou a uma drogaria e percebeu o mesmo cheiro que tinha sentido no seu quarto uma noite, depois de ter sonhado comigo: "Deve estar perto", pensou, vendo a cerâmica limpa e nova da drogaria. Então se aproximou do vendedor e lhe disse: "Sempre sonho com um homem que me disse: "Olhos de cão azul". E disse que o vendedor a havia olhado nos olhos e dito: "Na verdade, moça, a senhora tem os olhos assim". E ela disse: "Preciso encontrar o homem que me diz isso nos sonhos". E o vendedor começou a rir e foi para o outro lado do balcão. Ela permaneceu olhando o ladrilho limpo do chão e sentindo o cheiro. E abriu a bolsa e se ajoelhou e escreveu com o batom sobre o ladrilho, com grandes letras vermelhas: "Olhos de cão azul". O vendedor regressou de onde se encontrava. Disse-lhe: "Moça, a senhora sujou o ladrilho". Deu-­lhe um pano úmido, dizendo: "Limpe-o". E ela disse, ainda junto ao abajur, que passou a tarde toda agachada, lavando o ladrilho e dizendo: "Olhos de cão azul", até que as pessoas se aglomeraram na porta e disseram que estava louca.

Agora, quando acabou de falar, eu continuava no canto, sentado, equilibrando-me na cadeira. "Tento me lembrar todos os dias da frase com que preciso encontrar você", disse. "Agora creio que amanhã não a esquecerei. Mas sempre esqueço ao acordar quais são as palavras com que posso encontrar você". E ela disse: "Você mesmo as inventou desde o primeiro dia". E eu lhe disse: "Inventei-as porque vi seus olhos cor de cinza. Mas nunca me lembro delas na manhã seguinte." E ela, com os punhos fechados junto ao abajur, respirou fundo: "Se pelo menos pudesse recordar agora em que cidade estive escrevendo isso".

Seus dentes apertados resplandeceram sobre a chama. "Eu gostaria de tocar em você agora", disse. Ela levantou o rosto que estivera olhando a luz: levantou o olhar ardente, assando-se também do mesmo jeito que ela, do mesmo jeito que suas mãos: e eu senti que me viu, no canto, onde continuava sentado, me balançando na cadeira. "Você nunca me tinha dito isso", disse. "Agora digo, e é verdade", disse. Do outro lado do abajur ela me pediu um cigarro. O toco tinha desaparecido dos meus dedos. Esquecera que estava fumando. Disse: "Não sei por quê, não posso lembrar onde o escrevi". E eu lhe disse: "Pela mesma razão pela qual eu não poderei lembrar as palavras amanhã". E ela disse, triste: "Não. É que às vezes creio que também sonhei isso". Fiquei em pé e andei até o abajur. Ela estava um pouco mais para lá, e eu continuava andando, com os cigarros e os fósforos na mão, e não passaria o abajur. Aproximei dela o cigarro. Ela o apertou entre os lábios e se inclinou para atingir a chama, antes que eu tivesse tempo de acender o fósforo. "Em alguma cidade do mundo, em todas as paredes, têm que estar escritas estas palavras: 'Olhos de cão azul", disse. "Se amanhã me lembrasse delas iria buscar você". Ela levantou outra vez a cabeça e já tinha a brasa acesa nos lábios."Olhos de cão azul", suspirou, recordando, com o cigarro jogado sobre o queixo e um olho semifechado. Aspirou a fumaça, com o cigarro entre os dedos, e exclamou: "Já isto é outra coisa. Estou me sentindo mais quente". E disse-o com a voz um pouco morna e fugidia, como se não o tivesse dito realmente, mas como se houvesse aproximado o papel à chama enquanto eu lia: "Estou entrando — e ela tivesse continuado com o papelzinho entre o polegar e o indicador, virando-o, enquanto ia se consumindo e eu acabava de ler — ­... mais quente", antes que o papelzinho se consumisse por completo e caísse ao chão amassado, diminuído, convertido num leve pó de cinza. "Assim, é melhor", disse. "Às vezes me dá medo ver você assim. Tremendo junto ao abajur".

Há vários anos nos víamos. Às vezes, quando já estávamos juntos, alguém deixava cair lá fora uma colherinha e acordávamos. Pouco a pouco íamos compreendendo que nossa amizade estava subordinada às coisas, aos acontecimentos mais simples. Nossos encontros terminavam sempre assim, com o cair de uma colherzinha na madrugada.

Agora, junto ao abajur, estava me olhando. Eu lembrava que antes também me havia olhado assim, desde aquele remoto sonho em que fiz a cadeira girar sobre as pernas traseiras e fiquei diante de uma desconhecida de olhos cinzentos. Foi nesse sonho que perguntei a ela pela primeira vez:"Quem é a senhora?" E ela me disse: "Não lembro". Eu lhe disse: "Mas acredito que nos vimos antes". E ela disse, indiferente: "Creio que alguma vez sonhei com o senhor, com este mesmo quarto". E eu lhe disse: "É isso. Já começo a lembrar". E ela disse: "Que curioso. É verdade que temos nos encontrado em outros sonhos".

Deu duas chupadas no cigarro. Eu estava ainda em pé em frente ao abajur, quando fiquei olhando para ela de repente. Olhei-a de cima a baixo e ainda era de cobre; mas já não de metal duro e frio, senão de cobre amarelo, macio, maleável. "Gostaria de tocar em você", voltei a dizer. E ela disse: "Você jogaria tudo por água abaixo", voltou a dizer, antes que eu pudesse tocá-la. "Talvez, se você se virar por trás do abajur, acordaríamos sobressaltados quem sabe em que parte do mundo". Mas eu insisti: "Não importa". E ela disse:"Se virássemos o travesseiro, voltaríamos a nos encontrar. Mas você, quando acordar, terá esquecido tudo". Comecei a me mexer em direção ao canto. Ela ficou por trás, esquentando as mãos sobre a chama. E eu ainda não estava junto da cadeira quando a ouvi falar às minhas costas: "Quando acordo à meia-noite, fico revirando-me na cama, com os fios do travesseiro ardendo no joelho e repetindo até o amanhecer: 'Olhos de cão azul'".

Então fiquei com o rosto na parede. "Já está amanhecendo", disse sem olhar para ela. "Quando deram duas da manhã, estava acordado, já fazia bastante tempo." Dirigi-me até a porta. Quando tinha pegado a maçaneta, ouvi outra vez sua voz igual, invariável: "Não abra essa porta", disse. "O corredor está cheio de sonhos difíceis". E eu lhe disse: "Como você sabe disso?" E ela me disse: "Porque há pouco estive ali e tive que voltar quando descobri que estava dormindo sobre o coração". Eu mantinha a porta entreaberta. Movi um pouco o batente, e um ar frio e tênue me trouxe um cheiro fresco de terra vegetal, de campo úmido. Ela falou outra vez, virei-me, mexendo ainda o batente montado em gonzos silenciosos, e lhe disse: "Creio que não há nenhum corredor aqui fora. Sinto o cheiro do campo". E ela,já um pouco longe, me disse: "Conheço isso mais do que você. O que acontece é que lá fora há uma mulher sonhando com o campo". Cruzou os braços sobre a chama. Continuou falando: "É essa mulher que sempre desejou ter uma casa no campo e nunca pôde sair da cidade". Eu lembrava ter visto a mulher num outro sonho anterior, mas sabia, já com a porta entreaberta, que dentro de meia hora tinha que descer para o café da manhã. E lhe disse: "De todas maneiras, tenho que sair daqui para acordar".

Lá fora o vento bateu um instante, ficou quieto depois, e ouviu-se a respiração de alguém adormecido que acabava de virar-se na cama. O vento do campo suspendeu-se. Já não houve mais odores. "Amanhã vou reconhecer você por isso", disse. "Vou reconhecê-la quando vir na rua uma mulher que escreva nas paredes: 'Olhos de cão azul'". E ela, com um sorriso triste — que já era um sorriso de entrega ao impossível, ao inatingível —, disse: "Não obstante, você não lembrará nada durante o dia". E voltou a pôr as mãos sobre o abajur, com a expressão obscurecida por uma névoa amarga: "Você é o único homem que, ao acordar, não se lembra nada do que sonhou".