"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

terça-feira, 30 de junho de 2009

Se eu fosse eu...

Clarice Lispector

Quando eu não sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar, diria melhor SENTIR.

E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida.

Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua, porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.

Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu e confiaria o futuro ao futuro.

"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido.

No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teriamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos emfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Próxima Estação: Esperança

Quando ele decidiu fugir, muitos o chamaram de irresponsável: como é que, sem necessidade alguma, alguém resolve abrir mão do conforto e da segurança da prisão? Afinal, a prisão era, antes de tudo, um lar, e lá se encontrava abrigo e proteção contra todos os perigos da temida liberdade.

Para outros, o problema crucial era que a fuga representava um ato de covardia. A prisão era uma uma instituição cruel e injusta, sim, mas a verdadeira nobreza de caráter consistia emsuportá-la cotidianamente, sem se deixar entregar, sem se deixar seduzir pela tentação do caminho fácil da fuga.

Outros, ainda, ficaram decepcionados com a insensibilidade demonstrada pela fuga. Ora, se todos aqueles que lhe queriam bem estavam na prisão, querer fugir era, no mínimo, um ato de ingratidão.

Outros, que muitas vezes eram os mesmos de antes, disseram que aquilo era loucura: não havia porque fugir simplesmente porque prisão não havia, todos estavam ali desde tempos ancestrais por livre e espontânea vontade, e se não se moviam era apenas porque não queriam. Como poderia então alguém querer fugir de um sistema cujo fundamento era a liberdade?

Outros diziam, ainda, que aquela fuga não passava de uma ilusão, pois a verdadeira prisão se esconde dentro de cada um de nós, e dela não podemos escapar nem mesmo fugindo para os confins do mundo. Portanto, enquanto não quebrarmos nossas grades internas, inútil émover-se em qualquer direção, e melhor é ficar parado.

Outros, por sua vez, denunciaram o egoísmo de sua postura, pois a fuga em nada contribuía para a derrubada dos muros do sistema que os aprisionava e a consequente instauração do reina da liberdade plena. A atitude realmente revolucionária consistia em submeter-se ao regime prisional e educar a massa ignorante dos prisioneiros sobre a necessidade da liberdade, conceito este que eles explicavam com teorias de precisão científica (ou talvez religiosa), por mais que nunca tenham cometido a ingenuidade histórica de lutar de verdade por essa tal liberdade. Acusaram-no e condenaram-no por ser incoerente, mas se esqueceram que ele não reivindicava a coerência deles, e nada queria provar com sua fuga,, apenas fugir.

Apesar de tudo isso, ele fugiu, e em seu caminho foi conhecendo muitos outros fugitivos, e descobrindo outras tantas prisões, e foi percebendo que a liberdade dá medo, e que por isso as pessoas fogem dela. Se o mundo inteiro estava transformado numa grande prisão, havia que continuar semprefungindo , desviando, atravessando, procurando as brechas, não para chegar em terras longínquas, mas até formas de (con)vivência distantes. E ele viu que todos aqueles que tinham condenado sua fuga por ser um ato irresponsável, insensível, covarde, ilusório, louco e egoísta, no fundo tinham sua razão, mas ainda assim fugir vale sempre a pena, porque fugir é estar vivo. Quem foge pode não saber seu destino, mas segue rumo à esperança.

sábado, 20 de junho de 2009

Saudade...

Navio que partes para longe,
Por que é que, ao contrário dos outros,
Não fico, depois de desapareceres, com saudades de ti?
Porque quando te não vejo, deixaste de existir.
E se se tem saudades do que não existe,
Sinto-a em relação a cousa nenhuma;
Não é do navio, é de nós, que sentimos saudade.

Alberto Caeiro

Sangue latino

Tenho 25 anos de sonho e de sangue e de américa do sul... Eu quero é que esse canto torto, feito faca, corte a carne de voces.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

escritos de outros tempos

eu não acredito na liberdade planejada.
a liberdade só é possível enquanto urgência,
enquanto necessidade,
enquanto grito,
e um grito adiado é um grito engolido.
só se pode ser livre no presente.

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dizem que viver é andar numa corda bamba sem rede de proteção.
o que poucos sabem é que o difícil mesmo não é o equilíbrio,
pois chegar ao outro lado é uma consequência natural da inércia.
o grande segredo é ter coragem de olhar para baixo,
se jogar no desconhecido
e compreender que cair também é voar.

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foi preciso muito tempo para eu ver
que o mosntro contra o qual eu tanto lutara
não passava de um reflexo de mim mesmo.
foi preciso ainda mais sofrimento para eu compreender
que isso não era motivo para parar de lutar.
é preciso destruir o espelho
para que eu possa, enfim, ser
o que não sou capaz de enxergar.

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o que mais me define é tudo aquilo que eu nego,
o que mais me caracteriza é tudo aquilo que eu escondo,
o que mais me identifica é tudo aquilo de que eu me envergonho,
o que mais me move é tudo aquilo de que eu tenho medo.
eu sou, antes de tudo, minha própria negação.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

A salvação é pelo risco

Cronicas de Clarice Lispector

VIVER

Ele teve a sensação de ser. Não poderia explicar, tão profundo, nítido e largo que era. A sensação de ser era uma visão aguda, calma e instantânea de ser o próprio representante da vida e da morte. Então, ele não quis dormir, para não perder a sensação da vida.


APRENDENDO A VIVER
(Publicada no Jornal do brasil em 28 de dezembro de 1968)

Thoreau era um filósofo americano que, entre coisas mais difíceis de se assimilar assim de repente, numa leitura de jornal, escreveu muitas coisas que talvez possam nos ajudar a viver de um modo mais inteligente, mais eficaz, mais bonito, menos angustiado.

Throreau, por exemplo, desolava-se vendo seus vizinhos só pouparem e economizarem para um futuro longínquo. Que se pensasse um pouco no futuro, estava certo. Mas "melhore o momento presente", exclamava. E acrescentava: "Estamos vivos agora." E comentava com desgosto: "Eles ficam juntando tesouros que as traças e a ferrugem irão roer e os ladrões roubar."

A mensagem é clara: não sacrifique o dia de hoje pelo de amanhã. Se você se sente infeliz agora, tome alguma providência agora, pois só na sequência dos agoras é que você existe.

Cada um de nós, aliás, fazendo um exame de consciência, lembra-se pelo menos de vários agoras que foram perdidos e que não voltarão mais. Há momentos na vida que o arrempedimento de não ter tido ou não ter sido ou não ter resolvido ou não ter aceito, há momentos na vida em que o arrependimento é profundo como uma dor profunda.

Ele queria que fizéssemos agora o que queremos fazer. A vida inteira Thoreau pregou e praticou a necessidade de fazer agora o que é mais importante para cada um de nós.

Por exemplo: para os jovens que queriam tornar-se escritores mas que contemporizavam - ou esperando uma inspiração ou se dizendo que não tinham tempo por causa de estudos ou trabalhos - ele mandava ir agora para o quarto e começar a escrever.

Impacientava-se também com os que gastam tanto tempo estudando a vida que nunca chegam a viver. "É só quando esquecemos todos os nossos conhecimentos que começamos a saber."

E dizia esta coisa forte que nos enche de coragem: "Por que não deixamos penetrar a torrente, abrimos os portões e pomos em movimento toda a nossa engrenagem?" Só em pensar em seguir o seu conselho, sinto uma corrente de vitalidade percorrer-me o sangue. Agora, meus amigos, está sendo neste próprio instante.

Thoreau achava que o medo era a causa da ruína dos nossos momentos presentes. E também as assustadoras opiniões que nós temos de nós mesmos. Dizia ele: "A opinião pública é uma tirana débil, se comparada à opinião que temos de nós mesmos." É verdade: mesmo as pessoas cheias de segurança aparente julgam-se tão mal que no fundo estão alarmadas. E isso, na opinião de Thoreau, é grave, pois "o que um homem pensa a respeito de si mesmo determina, ou melhor, revela seu destino".

E, por mais inesperado que isso seja, ele dizia: tenha pena de si mesmo. Isso quando se levava uma vida de desespero passivo. Ele então aconselhava um pouco menos de dureza para com eles próprios. O medo faz, segundo ele, ter-se uma covardia desnecessária. Nesse caso devia-se abrandar o julgamento de si próprio. "Creio", escreveu, "que podemos confiar em nós mesmo muito mais do que confiamos. A natureza adapta-se tão bem à nossa fraqueza quanto à nossa força". E repetia mil vez aos que complicavam inutilmente as coisas - e quem de nós não faz isso? -, como eu ia dizendo, ele quase gritava com quem complicava as coisas: simplifique! simplifique!

E um dia desses, abrindo um jornal e lendo um artigo de um nome de homem que infelizmente esqueci, deparei com citações de Bernanos que na verdade vêm complementar Thoreau, mesmo que aquele jamais tenha lido este.
Em determinado ponto do artigo (só recortei esse trecho) o autor fala que a marca de Bernanos estava na veemência com que nunca cessou de denunciar a impostura do "mundo livre". Além disso, procurava a salvação pelo risco - sem o qual a vida para ele não valia a pena - "e não pelo encolhimento senil, que não é só dos velhos, é de todos os que defendem as suas posições, inclusive ideológicas, inclusive religiosas" (o grifo é meu).

Para Bernanos, dizia o artigo, o maior pecado sobre a terra era a avareza, sob todas as formas. "A avareza e o tédio danam o mundo." "Dois ramos, enfim, do egoísmo", acrescenta o autor do artigo.

Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena!

Feliz Ano Novo

sábado, 13 de junho de 2009

loco por ti, América

um poema ainda existe...

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Somos todos atores

Augusto Boal

Teatro não pode ser apenas um evento - é forma de vida! Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são estruturadas em forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confronto de idéias e paixões, tudo que fazemos no palco fazemos sempre em nossas vidas: nós somos teatro!

Não só casamentos e funerais são espetáculos, mas também os rituais cotidianos que, por sua familiaridade, não nos chegam à consciência. Não só pompas, mas também o café da manhã e os bons-dias, tímidos namoros e grandes conflitos passionais, uma sessão do Senado ou uma reunião diplomática - tudo é teatro.

Uma das principais funções da nossa arte é tornar conscientes esses espetáculos da vida diária onde os atores são os próprios espectadores, o palco é a platéia e a platéia, o palco. Somos todos artistas: fazendo teatro, aprendemos a ver aquilo que nos salta aos olhos, mas que somos incapazes de ver, tão habituados estamos apenas a olhar. O que nos é familiar torna-se invisível: fazer teatro, ao contrário, ilumina o palco da nossa vida cotidiana.

Verdade escondida


Em setembro do ano passado fomos surpreendidos por uma revelação teatral: nós, que pensávamos viver em um mundo seguro, apesar das guerras, genocídios, hecatombes e torturas que aconteciam, sim, mas longe de nós, em países distantes e selvagens, nós vivíamos seguros com nosso dinheiro guardado em um banco respeitável ou nas mãos de um honesto corretor da bolsa quando fomos informados de que esse dinheiro não existia, era virtual, feia ficção de alguns economistas que não eram ficção, nem eram seguros, nem respeitáveis. Tudo não passava de mau teatro com triste enredo, onde poucos ganhavam muito e muitos perdiam tudo. Políticos dos países ricos fecharam-se em reuniões secretas e de lá saíram com soluções mágicas. Nós, vítimas de suas decisões, continuamos espectadores sentados na última fila das galerias.

Vinte anos atrás, eu dirigi Fedra de Racine, no Rio de Janeiro. O cenário era pobre: no chão, peles de vaca; em volta, bambus. Antes de começar o espetáculo, eu dizia aos meus atores: "Agora acabou a ficção que fazemos no dia-a-dia. Quando cruzarem esses bambus, lá no palco, nenhum de vocês tem o direito de mentir. Teatro é a Verdade Escondida".

Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, gêneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida.

Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!