Quando ele decidiu fugir, muitos o chamaram de irresponsável: como é que, sem necessidade alguma, alguém resolve abrir mão do conforto e da segurança da prisão? Afinal, a prisão era, antes de tudo, um lar, e lá se encontrava abrigo e proteção contra todos os perigos da temida liberdade.
Para outros, o problema crucial era que a fuga representava um ato de covardia. A prisão era uma uma instituição cruel e injusta, sim, mas a verdadeira nobreza de caráter consistia emsuportá-la cotidianamente, sem se deixar entregar, sem se deixar seduzir pela tentação do caminho fácil da fuga.
Outros, ainda, ficaram decepcionados com a insensibilidade demonstrada pela fuga. Ora, se todos aqueles que lhe queriam bem estavam na prisão, querer fugir era, no mínimo, um ato de ingratidão.
Outros, que muitas vezes eram os mesmos de antes, disseram que aquilo era loucura: não havia porque fugir simplesmente porque prisão não havia, todos estavam ali desde tempos ancestrais por livre e espontânea vontade, e se não se moviam era apenas porque não queriam. Como poderia então alguém querer fugir de um sistema cujo fundamento era a liberdade?
Outros diziam, ainda, que aquela fuga não passava de uma ilusão, pois a verdadeira prisão se esconde dentro de cada um de nós, e dela não podemos escapar nem mesmo fugindo para os confins do mundo. Portanto, enquanto não quebrarmos nossas grades internas, inútil émover-se em qualquer direção, e melhor é ficar parado.
Outros, por sua vez, denunciaram o egoísmo de sua postura, pois a fuga em nada contribuía para a derrubada dos muros do sistema que os aprisionava e a consequente instauração do reina da liberdade plena. A atitude realmente revolucionária consistia em submeter-se ao regime prisional e educar a massa ignorante dos prisioneiros sobre a necessidade da liberdade, conceito este que eles explicavam com teorias de precisão científica (ou talvez religiosa), por mais que nunca tenham cometido a ingenuidade histórica de lutar de verdade por essa tal liberdade. Acusaram-no e condenaram-no por ser incoerente, mas se esqueceram que ele não reivindicava a coerência deles, e nada queria provar com sua fuga,, apenas fugir.
Apesar de tudo isso, ele fugiu, e em seu caminho foi conhecendo muitos outros fugitivos, e descobrindo outras tantas prisões, e foi percebendo que a liberdade dá medo, e que por isso as pessoas fogem dela. Se o mundo inteiro estava transformado numa grande prisão, havia que continuar semprefungindo , desviando, atravessando, procurando as brechas, não para chegar em terras longínquas, mas até formas de (con)vivência distantes. E ele viu que todos aqueles que tinham condenado sua fuga por ser um ato irresponsável, insensível, covarde, ilusório, louco e egoísta, no fundo tinham sua razão, mas ainda assim fugir vale sempre a pena, porque fugir é estar vivo. Quem foge pode não saber seu destino, mas segue rumo à esperança.
"há sempre um copo de mar para um homem navegar" - jorge de lima
Quando os cronópios saem em viagem, encontram os hotéis cheios, os trens já partiram, chove a cântaros e os táxis não querem levá-los ou lhes cobram preços altíssimos. Os cronópios não desanimam porque acreditam piamente que estas coisas acontecem a todo o mundo, e na hora de dormir dizem uns aos outros: “Que bela cidade, que belíssima cidade”. E sonham a noite toda que na cidade há grandes festas e que eles foram convidados. E no dia seguinte levantam contentíssimos, e é assim que os cronópios viajam.
(Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas)
(Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas)
"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios
Um comentário:
Eu sou a que diria:
"Outros diziam, ainda, que aquela fuga não passava de uma ilusão, pois a verdadeira prisão se esconde dentro de cada um de nós, e dela não podemos escapar nem mesmo fugindo para os confins do mundo. Portanto, enquanto não quebrarmos nossas grades internas, inútil é mover-se em qualquer direção, e melhor é ficar parado."
Então por isso, diria:
Não fuja, simplesmente vá...
vá, pela beleza do ir
ir que nem sempre é fugir
apenas(se)encontrar...
A esperança não está na próxima estação,
já mora dentro de ti
Desde a coragem do ir!
Amo vc!!!!
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