"há sempre um copo de mar para um homem navegar" - jorge de lima
Quando os cronópios saem em viagem, encontram os hotéis cheios, os trens já partiram, chove a cântaros e os táxis não querem levá-los ou lhes cobram preços altíssimos. Os cronópios não desanimam porque acreditam piamente que estas coisas acontecem a todo o mundo, e na hora de dormir dizem uns aos outros: “Que bela cidade, que belíssima cidade”. E sonham a noite toda que na cidade há grandes festas e que eles foram convidados. E no dia seguinte levantam contentíssimos, e é assim que os cronópios viajam.
(Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas)
"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios
Que faz um autor com as pessoas vulgares, absolutamente vulgares? Como colocá-las perante seus leitores e como torná-las interessantes? É impossível deixá-las sempre fora da ficção, pois as pessoas vulgares são, em todos os momentos, a chave e o ponto essencial na corrente de assuntos humanos; se as suprimimos, perdemos toda a probabilidade de verdade.
(Dostoiévski, O idiota)
- Parece que você quer escrever um livro? Seria um livro sobre o quê?
Tamina enchia as xícaras de chá e alegrava-se que os dois homens que tinham descido ao seu apartamento, vindos do Olimpo do espírito, fossem compreensivos com sua amiga.
- É muito simples - respondeu Bibi. - Um romance. Sobre o mundo como o vejo.
- Um romance? - perguntou Banaka com uma voz que traía a desaprovação.
Bibi retificou de maneira evasiva:
- Não seria necessariamente um romance. Quero apresentar um relato sobre minha vida. Ao mesmo tempo, não quero esconder que minha vida é totalmente banal, comum, e que eu nada vivi de original.
- Isso não tem nenhuma importância! Eu também, visto do exterior, não vivi nada de original.
- É - exclamou Bibi -, bem falado! Visto do exterior, não vivi nada. Visto do exterior! Mas tenho a impressão de que minha experiência interior vale a pena ser escrita e poderia interessar a todo mundo.
- Desde James Joyce - disse ele -, sabemos que a maior aventura de nossa vida é a ausência de aventuras. Ulisses, que tinha lutado em Tróia, voltava singrando os mares, pilotava ele mesmo seu navio, tinha uma amante em cada ilha, não, não é isso nossa vida. A odisséia de Homero transportou-se para dentro. Ela se interiorizou. As ilhas, os mares, as sereias que nos seduzem, Ítaca que nos chama, não são hoje senão vozes de nosso interior. Pense bem no que é um romance - disse Banaka. - Nessa multidão de personagens diferentes. Você quer que acreditemos que você conhece tudo sobre eles? Que sabe como eles são, o que pensam, como se vestem, de que família vêm? Confesse que isso não lhe interessa absolutamente!
- É verdade - reconheceu Bibi -, isso não me interessa.
- Você sabe - disse Banaka -, o romance é fruto de uma ilusão humana. A ilusão de poder compreender o outro.
- É! É exatamente isso o que sinto! - exclamou Bibi. E é por isso que eu queria lhe perguntar o que se deve fazer. Tenho muitas vezes a impressão de que meu corpo inteiro está cheio de desejo de se exprimir. De falar. De se fazer ouvir. Às vezes penso que vou ficar louca, or ue me sinto cheia a ponto de estourar, de ter vontade de gritar. O senhor certamente conhece isso, Sr. Banaka. Gostaria de expressar minha vida, meus sentimentos, que são, sei disso, absolutamente originais, mas quando sento diante de uma folha de papel, de repente não sei mais o que escrever. Então disse a mim mesma que é certamente uma questão de técnica. Faltam-me, é claro, certos conhecimentos que o senhor possui. O senhor escreveu livros tão bonitos...
- Tudo o que podemos fazer - disse Banaka - é apresentar um relato sobre nós mesmos. Um relato de cada um sobre si mesmo. Todo o resto é apenas abuso de poder. Todo o resto é mentira.
Bibi aprovava com entusiasmo:
- É verdade! É inteiramente verdade! Eu também não quero escrever um romance! Eu me expressei mal. Gostaria de fazer exatamente o que o senhor disse, escrever sobre mim.
(Milan Kundera, O livro do riso e do esquecimento)
CARTA A UM JOVEM POETA
Meu caro poeta,
Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola traçada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para oscontemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos, aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? – perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: “eu vos trago a verdade”, enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: “eu te trago a minha verdade.” E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócrifos!
Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as digressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: “O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escreve os seus poemas?” A poesia é dessas coisas que a gente faz, mas não diz.
A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.
Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: “Eu não te largarei até que me abençoes”. Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técnica dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.
Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.
Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que, no entanto, me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.
Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?
porque o samba é a tristeza que balança e a tristeza tem sempre uma esperança de um dia não ser mais triste não
Poema de Natal
Para isso fomos feitos: Para lembrar e ser lembrados Para chorar e fazer chorar Para enterrar os nossos mortos – Por isso temos braços longos para os adeuses Mãos para colher o que foi dado Dedos para cavar a terra.
Assim será a nossa vida: Uma tarde sempre a esquecer Uma estrela a se apagar na treva Um caminho entre dois túmulos – Por isso precisamos velar Falar baixo, pisar leve, ver A noite dormir em silêncio.
Não há muito que dizer: Uma canção sobre um berço Um verso, talvez, de amor Uma prece por quem se vai – Mas que essa hora não esqueça E por ela os nossos corações Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos: Para a esperança no milagre Para a participação da poesia Para ver a face da morte – De repente nunca mais esperaremos... Hoje a noite é jovem; da morte, apenas Nascemos, imensamente.
A hora íntima
Quem pagará o enterro e as flores Se eu me morrer de amores? Quem, dentre amigos, tão amigo Para estar no caixão comigo? Quem, em meio ao funeral Dirá de mim: – Nunca fez mal... Quem, bêbedo, chorará em voz alta De não me ter trazido nada? Quem virá despetalar pétalas No meu túmulo de poeta? Quem jogará timidamente Na terra um grão de semente? Quem elevará o olhar covarde Até a estrela da tarde? Quem me dirá palavras mágicas Capazes de empalidecer o mármore? Quem, oculta em véus escuros Se crucificará nos muros? Quem, macerada de desgosto Sorrirá: – Rei morto, rei posto... Quantas, debruçadas sobre o báratro Sentirão as dores do parto? Qual a que, branca de receio Tocará o botão do seio? Quem, louca, se jogará de bruços A soluçar tantos soluços Que há de despertar receios? Quantos, os maxilares contraídos O sangue a pulsar nas cicatrizes Dirão: – Foi um doido amigo... Quem, criança, olhando a terra Ao ver movimentar-se um verme Observará um ar de critério? Quem, em circunstância oficial Há de propor meu pedestal? Quais os que, vindos da montanha Terão circunspecção tamanha Que eu hei de rir branco de cal? Qual a que, o rosto sulcado de vento Lançará um punhado de sal Na minha cova de cimento? Quem cantará canções de amigo No dia do meu funeral? Qual a que não estará presente Por motivo circunstancial? Quem cravará no seio duro Uma lâmina enferrujada? Quem, em seu verbo inconsútil Há de orar: – Deus o tenha em sua guarda. Qual o amigo que a sós consigo Pensará: – Não há de ser nada... Quem será a estranha figura A um tronco de árvore encostada Com um olhar frio e um ar de dúvida? Quem se abraçará comigo Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores Se eu me morrer de amores
Dialética
É claro que a vida é boa E a alegria, a única indizível emoção É claro que te acho linda Em ti bendigo o amor das coisas simples É claro que te amo E tenho tudo para ser feliz Mas acontece que eu sou triste...
A fim de proteger-se das sereias, Ulisses entupiu os ouvidos de cera e mandou que o acorrentassem com firmeza ao mastro. É claro que, desde sempre, todos os outros viajantes teriam podido fazer o mesmo (a não ser aqueles aos quais as sereias atraíam já desde muito longe), mas o mundo todo sabia que de nada adiantava fazê-lo. O canto das sereias impregnava tudo -- que dirá um punhado de cera --, e a paixão dos seduzidos teria arrebentado muito mais do que correntes e mastro. Nisso, porém, Ulisses nem pensava, embora talvez já tivesse ouvido falar a respeito; confiava plenamente no punhado de cera e no feixe de correntes, e, munido de inocente alegria com os meiozinhos de que dispunha, partiu ao encontro das sereias.
As sereias, porém, possuem uma arma ainda mais terrível do que seu canto: seu silêncio. É certo que nunca aconteceu, mas seria talvez concebível que alguém tivesse se salvado de seu canto; de seu silêncio, jamais. O sentimento de tê-las vencido com as próprias forças, a avassaladora arrogância daí resultante, nada neste mundo é capaz de conter.
E, de fato, essas poderosas cantoras não cantaram quando Ulisses chegou, seja porque acreditassem que só o silêncio poderia com tal opositor, seja porque a visão da bem-aventurança no rosto de Ulisses -- que não pensava senão em cera e correntes -- as tenha feito esquecer todo o canto.
Ulisses, contudo, e por assim dizer, não ouviu-lhes o silêncio; acreditou que estivessem cantando e que somente ele estivesse a salvo de ouvi-las; com um olhar fugaz, observou primeiro as curvas de seus pescoços, o respirar fundo, os olhos cheios de lágrimas, a boca semi-aberta; mas acreditou que tudo aquilo fizesse parte das árias soando inaudíveis ao seu redor. Logo, porém, tudo deslizou por seu olhar perdido na distância; as sereias literalmente desapareceram, e, justo quando estava mais próximo delas, ele já nem mais sabia de sua existência.
Elas, por sua vez, mais belas do que nunca, esticavam-se, giravam o corpo, deixavam os cabelos horripilantes soprar livres ao vento, soltando as garras na rocha; não queriam mais seduzir, mas somente apanhar ainda, pelo máximo de tempo possível, o reflexo dos grandes olhos de Ulisses.
Se as sereias tivessem consciência, teriam sido aniquiladas então; mas permaneceram: Ulisses, no entanto, escapou-lhes.
Dessa história, porém, transmitiu-se ainda um apêndice. Diz-se que Ulisses era tão astuto, uma tal raposa, que nem mesmo a deusa do destino logrou penetrar em seu íntimo; embora isto já não seja compreensível ao intelecto humano, talvez ele tenha de fato percebido que as sereias estavam mudas, tendo então, de certo modo, oferecido a elas e aos deuses toda a simulação acima tão-somente como um escudo.
O assobio do melro (do livro Palomar, de Italo Calvino)
O senhor Palomar tem sorte numa coisa: passa o Verão num sítio onde cantam muitos pássaros. Enquanto se encontra estendido numa cadeira de repouso e "trabalha" (de fato, tem ainda sorte numa outra coisa: poder dizer que trabalha em lugares e posições que se diriam do mais absoluto repouso; ou melhor dizendo, tem esta cruz: sentir-se obrigado a não parar nunca de trabalhar, mesmo quando está estendido sob as árvores, numa manhã de Agosto) os pássaros, invisíveis entre os ramos, espalham à volta dele um repertório das mais variadas expressões sonoras, envolvem-no num espaço acústico irregular, descontínuo e requebrado, mas dentro do qual se estabelece um equilíbrio entre os vários sons, nenhum dos quais se eleva acima dos outros em intensidade ou frequência, e todos se entrelaçam num enredo homogéneo, que não é interligado pela harmonia, mas antes pela leveza e transparência. Até ao momento em que, na hora de maior calor, a feroz multidão dos insectos acaba por impor o seu domínio absoluto sobre as vibrações do ar, ocupando sistematicamente as dimensões do tempo e do espaço com o martelar ensurdecedor e ininterrupto das cigarras.
O canto dos pássaros ocupa um espaço variável na atenção auditiva do senhor Palomar: ora o afasta como sendo uma das componentes do silêncio de fundo, ora o concentra para distinguir cada canto, agrupando-os em categorias de crescente complexidade - chilros agudos, trilos de duas notas, uma breve e uma curta, chilreios breves e vibrados, assobios, cascatas de notas que se precipitam vertiginosamente e depois param de repente, encaracoladas modulações que se enrolam sobre si próprias, e assim de seguida até aos gorjeios.
O senhor Palomar não consegue chegar a uma classificação menos genérica: não é uma daquelas pessoas que ao ouvir um canto sabem reconhecer a que pássaro pertence. Vive esta sua ignorância como se fora uma culpa. O novo saber que o género humano vai adquirindo não compensa o saber que se propaga apenas pela transmissão oral directa, o qual, uma vez perdido, nunca mais se pode readquirir e retransmitir: nenhum livro pode ensinar aquilo que apenas se pode aprender na influencia, se se entrega o ouvido e o olho atentos ao canto e ao voo dos pássaros e se se encontra então alguém que pontualmente lhes saiba dar um nome. Ao culto da precisão nomenclativa e classificativa, Palomar tinha preferido a demanda contínua de uma precisão insegura no definir a modulação, o cambiante, o heterogéneo: ou seja, o indefinível. Hoje faria a escolha oposta; e, seguindo o fio dos pensamentos despertados pelo canto dos pássaros, a sua vida surge-lhe como uma sucessão de ocasiões falhadas.
Entre todos os cantos dos pássaros, destaca-se o assobio do melro, que não se confunde com nenhum outro. Os melros chegam ao fim da tarde: são dois, por certo um casal, talvez o mesmo do ano passado, de todos os anos por esta época. Todas as tardes, ao ouvir um assobio de chamada, em duas notas, como se fosse uma pessoa que quer assinalar a sua chegada, o senhor Palomar levanta a cabeça para ver quem é que o está a chamar; depois lembra-se de que é a hora dos melros. Não tarda a entrevê-los: caminham sobre o prado, como se a sua verdadeira vocação fosse a de bípedes terrestres e se divertissem a estabelecer analogias com o homem.
O assobio dos melros tem isso mesmo de especial: é idêntico a um assobio humano, de alguém que não seja particularmente hábil a assobiar, mas a quem aconteça, de quando em quando, ter um bom motivo para assobiar, e que o faça uma única vez, sem intenção de continuar, e num tom decidido, mas modesto e afável, de modo a granjear-lhe a benevolência de quem o escuta. Pouco depois, o assobio é repetido - pelo mesmo melro ou pelo seu cônjuge - mas sempre como se fosse a primeira vez que lhe passasse pela mente assobiar; se é um diálogo, então cada deixa chega após uma longa reflexão. Mas será um diálogo ou será que cada melro assobia para si próprio e não para o outro? E, em qualquer dos casos, trata-se de perguntas e respostas (ao outro ou a si próprio) ou trata-se de confirmar alguma coisa (a sua presença, a pertença à espécie, ao sexo, ao território)? Talvez que o valor daquela única palavra resida no facto de ser repetida por um outro bico assobiante, no facto de não ser esquecida durante o intervalo de silêncio.
Ou, então, todo o diálogo consiste em dizer ao outro "eu estou aqui", e o comprimento das pausas junta à frase um significado de "ainda", como que a dizer: "eu ainda estou aqui, continuo a ser eu". E se estivesse na pausa e não no assobio o significado da mensagem? Se fosse no silêncio que os melros falam uns com os outros? (O assobio seria neste caso um mero sinal de pontuação, uma fórmula como "terminado"). Um silêncio aparentemente igual ao outro silêncio poderia exprimir cem intenções diferentes; também um assobio, por outro lado; falar-se, calando-se ou assobiando, é sempre possível; o problema é entender-se. Ou então ninguém pode entender ninguém: cada melro pensa ter posto no assobio um significado fundamental para si mas que só ele próprio entende; o outro responde qualquer coisa que não tem nenhuma relação com aquilo que ele disse; é um diálogo entre surdos, uma conversa sem pés nem cabeça.
Mas os diálogos humanos serão porventura algo de diferente? A senhora Palomar encontra-se igualmente no jardim, a regar as verónicas. Diz: - Hei-los - enunciação pleonástica (subentende-se que o marido já está a observar os melros) ou então (se ele não os tiver visto) incompreensível, mas que é destinada, de qualquer modo, a estabelecer a sua própria prioridade na observação dos melros (porque efectivamente foi ela a primeira a descobri-los e a assinalar os seus hábitos ao marido) e a sublinhar a infalibilidade das'suas aparições, que foram já registadas por ela inúmeras vezes.
- Psiu! - faz o senhor Palomar, aparentemente para impedir que a sua mulher os assuste falando em voz alta (recomendação inútil, porque os melros marido e mulher estão já habituados à presença dos senhores Palomar marido e mulher) mas na realidade para contestar a vantagem da mulher, demonstrando uma atenção pelos melros muito maior do que a dela. Então a senhora Palomar diz: - Desde ontem que está novamente seca - referindo-se à terra do canteiro que está a regar, comunicação em si mesma supérflua, mas que é destinada a demonstrar, ao continuar a falar e a mudar de assunto, uma confiança com os melros muito maior e mais desenvolvida do que a do marido. O senhor Palomar, de qualquer modo, extrai desta troca de frases um quadro geral de tranquilidade, e fica grato à mulher por esse facto, porque se ela lhe confirma que de momento não existe nada de mais grave com que se preocupar, ele pode ficar absorvido no seu trabalho (ou pseudotrabalho, ou hipertrabalho). Deixa passar um minuto e tenta por sua vez enviar uma mensagem reconfortante, para informar a mulher de que o seu trabalho (ou infratrabalho ou ultratrabalho) prossegue como de costume; com este fim, imite uma série de sopros e resmungos: - ... correu mal... com tudo o que... do princípio... sim, com o caraças... - enunciações que no seu conjunto transmitem também a mensagem "estou muito ocupado", para o caso de a última observação da mulher conter também uma velada censura do tipo: "tu também poderias pensar em regar o jardim de vez em quando".
O pressuposto destas trocas verbais é a ideia de que um perfeito entendimento entre cônjuges permite compreender-se sem estar a especificar tudo tintim-por-tintim; mas este princípio é posto em prática por cada um deles de modos muito diferentes: a senhora Palomar exprime-se com frases inteiras, mas que são frequentemente alusivas ou sibilinas, destinadas a pôr à prova a rapidez das associações mentais do marido e a sintonia dos pensamentos dele com os dela (coisa que nem sempre funciona); o senhor Palomar, pelo contrário, deixa que das brumas do seu monólogo interior emirjam vagos sons articulados, esperando que deles possa resultar, se não a evidência de um sentido completo, pelo menos a penumbra de um estado de alma. Pelo seu lado, a senhora Palomar recusa-se a receber estes resmungos como uma conversa e para sublinhar a sua não participação diz em voz baixa: - Psiuuuu! Vais assustá-los... - devolvendo ao marido o silêncio que ele se tinha julgado no direito de lhe contrapor e reconfirmando a sua própria primazia em relação à atenção aos melros.
Tendo marcado este ponto a seu favor, a senhora Palomar afasta-se. Os melros debicam no prado e por certo consideram o diálogo dos cônjuges Palomar como o equivalente dos seus assobios. Mais valia que nos limitássemos a assobiar, pensa ele. Abre-se aqui uma perspectiva de pensamentos muito prometedora para o senhor Palomar, o qual vive a discrepância existente entre o comportamento humano e o resto do universo como uma constante fonte de angústia. E eis que o assobio igual, do homem e do melro, lhe surge como uma ponte lançada sobre o abismo.
Se o homem investisse no assobio tudo aquilo que normalmente confia à palavra e se o melro modulasse no seu assobio todo o não dito da sua condição de ser natural, estaria dado o primeiro passo para preencher a distância entre... entre o quê e o quê? Natureza e cultura? Silêncio e palavra? O senhor Palomar espera sempre que o silêncio contenha alguma coisa mais do que aquilo que a linguagem pode dizer. Mas se a linguagem fosse realmente o ponto de chegada para que tende tudo aquilo que existe? Ou se tudo aquilo que existe fosse linguagem, logo desde o início dos tempos? Nesta altura o senhor Palomar volta a ser assaltado pela angústia.
Após ter ouvido atentamente o assobio do melro, experimenta repeti-lo, o mais fielmente que consegue. Segue-se um silêncio perplexo, tal como se a sua mensagem exigisse um atento exame; a seguir ecoa um assobio igual, que o senhor Palomar não sabe se é uma resposta ou a prova de que o seu assobio é tão diferente que os melros não são minimamente perturbados por ele e retomam o diálogo entre si como se nada fosse.
Continuam a assobiar e a interrogar-se perplexos, ele e os melros.
Que haverá com a lua que - sempre que a gente olha - é com o súbito espanto da primeira vez?
Lua adversa
Cecilia Meireles
Tenho fases, como a lua Fases de andar escondida, fases de vir para a rua... Perdição da minha vida! Perdição da vida minha! Tenho fases de ser tua, tenho outras de ser sozinha
Fases que vão e que vêm, no secreto calendário que um astrólogo arbitrário inventou para meu uso.
E roda a melancolia seu interminável fuso! Não me encontro com ninguém (tenho fases, como a lua...) No dia de alguém ser meu não é dia de eu ser sua... E, quando chega esse dia, o outro desapareceu...
São demais os perigos desta vida Vinicius de Moraes e Toquinho
São demais os perigos desta vida Pra quem tem paixão principalmente Quando uma lua chega de repente E se deixa no céu, como esquecida
E se ao luar que atua desvairado Vem se unir uma música qualquer Aí então é preciso ter cuidado Porque deve andar perto uma mulher
Deve andar perto uma mulher que é feita De música, luar e sentimento E que a vida não quer de tão perfeita
Uma mulher que é como a própria lua: Tão linda que só espalha sofrimento Tão cheia de pudor que vive nua
Foguete particular Batatinha
Parti de minha rua Num vôo até a lua No meu foguete particular Agora sou patente De um mundo diferente E tenho coisas pra contar
Nesse trajeto de aventuras Em desafio à emoção Eu vi o medo, vi a cor do frio E a beleza da escuridão E quando à terra eu voltar Sei que estão me esperando Numa prova de alegria Eu vou chegar sambando
A DISTÂNCIA DA LUA
(do livro "As cosmicômicas", de Italo Calvino)
Houve tempo, segundo sir George H. Darwin, em que a Lua esteve muito próxima da Terra. Foram as marés que pouco a pouco a impeliram para longe: as marés que a própria Lua provoca nas águas terrestres e com as quais a Terra vai perdendo lentamente energia.
Bem sei disso!, exclamou o velho Qfwfq, vocês não podem se lembrar, mas eu posso. A Lua estava sempre sobre nós, desmesurada: no plenilúnio - as noites claras como o dia, mas com uma luz cor de manteiga -, parecia a ponto de explodir; quando chegava a lua nova, rolava pelo céu como um negro guarda-chuva levado pelo vento; e, no crescente, avançava com o chifre de tal forma baixo que parecia prestes a espetá-lo na crista de um promontório e ali ficar ancorada. Mas o mecanismo das fases se processava de modo diverso do de hoje; isso porque eram outras as distâncias do Sol, e as órbitas, bem como a inclinação de não sei bem o quê; daí ocorrerem a todo momento eclipses, com a Terra e a Lua assim tão juntas: imaginem se aquelas duas bolonas não faziam sombra continuamente uma à outra.
A órbita? Elíptica, é claro, elíptica: achatava-se um pouco sobre nós, depois erguia o vôo. As marés, quando a Lua estava em seu ponto mais baixo, se levantavam de tal forma que era impossível contê-las. Havia noites de plenilúnio em que estava tão baixa e as marés tão altas, que para a Lua banhar-se no mar faltava um fio; digamos: poucos metros. Se nunca tentamos subir nela? Claro que sim. Bastava ir até embaixo da Lua, de barco, nela apoiar uma escada portátil e subir.
O ponto em que a Lua passava mais baixo era nos Escolhos de Zinco. Lá íamos nas barquinhas a remo que se usavam então, redondas e chatas, de cortiça. Éramos vários a ir: eu, o capitão Vhd Vhd, a mulher dele, meu primo, surdo, e às vezes também a pequena Xlthlx, que devia ter então uns doze anos. A água naquelas noites era claríssima, prateada que parecia de mercúrio, e dentro dela os peixes, roxos, não podendo resistir à atração da Lua, vinham todos à tona, bem como os polvos e as medusas da cor do açafrão. Havia sempre um vôo de animais minúsculos - pequenos caranguejos, lulas e até mesmo algas leves e diáfanas, eflorescências de corais - que se desprendiam do mar e acabavam na Lua, e lá ficavam dependurados naquele teto calcinado, ou então ficavam ali no ar, como um enxame fosforescente que tínhamos de espantar agitando grandes folhas de bananeira.
Nosso trabalho consistia no seguinte: levávamos na barca uma escada portátil; um a segurava, outro subia por ela, enquanto um terceiro ia remando para baixo da Lua; por isso, era preciso contar com algumas pessoas (de que só me referi às principais). O que estava no alto da escada, à medida que a barca se aproximava da Lua, gritava apavorado:
- Parem! Parem! Se não vou dar uma cabeçada nela! - Era a impressão que nos dava ao vê-la ali em cima de nós tão grande, tão eriçada de farpas cortantes e bordos salientes e serrilhados.
- Agora pode ser diferente, mas então a Lua, ou melhor, o fundo, o ventre da Lua, em suma, a parte que passava mais perto da Terra, quase a ponto de roçá-la, era coberta de uma crosta de escamas pontiagudas. Chegava a parecer o ventre de um peixe e, mesmo o cheiro, pelo que me lembro, era, se não de todo de peixe, levemente mais tênue, como o de salmão defumado.
Na verdade, no alto da escada conseguia-se de fato tocá-la: bastava erguer os braços, apoiando-se no último degrau. Havíamos tomado cuidadosamente as medidas (sem suspeitar ainda que ela estava se afastando); a única coisa para a qual se devia estar bem atento era o lugar onde se punham as mãos. Eu escolhia uma escama que me parecesse sólida (devíamos subir todos, por turnos, em grupos de cinco ou seis), agarrava-a com uma das mãos, e depois com a outra, e imediatamente sentia a escada e a barca escaparem debaixo de mim, e o movimento da Lua arrancar-me da atração terrestre. Sim, a Lua tinha uma força que nos arrancava e de que nos dávamos conta no momento de passagem de uma para a outra; era preciso fazê-lo bem rápido, com uma espécie de cambalhota, agarrar-se às escamas, atirar as pernas para o alto, para então se encontrar de pé sobre o solo lunar. Visto da Terra, era como se estivéssemos dependurados de cabeça para baixo, mas para nós mesmos era a costumeira posição de sempre, e a única coisa que parecia estranha era, ao erguer os olhos, ver-se embaixo a capa cintilante do mar com a barca e os companheiros de cabeça para baixo, a balançar como um cacho de uva na parreira.
Quem demonstrava um talento todo especial naqueles saltos era meu primo surdo. Suas mãos rudes, mal tocavam a superfície lunar (era sempre o primeiro a pular da escada), se tornavam de repente macias e seguras. Encontravam logo o ponto em que deviam apoiar-se para o salto, até parecia que apenas com a pressão das palmas conseguia aderir-se à crosta do satélite. Uma vez tive mesmo a impressão de que a Lua lhe vinha ao encontro no momento em que ele lhe estendia as mãos.
Igualmente hábil se mostrava na descida à Terra, operação ainda mais difícil. Para nós todos, consistia em dar um salto para cima, o mais alto que podíamos, com os braços erguidos (visto da Lua, pois visto da Terra, ao contrário, era mais parecido com um mergulho ou com um nado em profundidade, os braços pendentes), idêntico ao salto da Terra, em suma, só que então nos faltava a escada, porque não havia na Lua nada onde se pudesse apoiá-la. Mas meu primo, em vez de lançar-se de braços erguidos, inclinava-se sobre a superfície lunar de cabeça para baixo como numa cambalhota, e começava a dar pinotes apoiando-se sobre as mãos. Nós, na barca, o víamos retesado no ar como se estivesse segurando a enorme bola da Lua e a fizesse saltitar tocando-a com as palmas das mãos, até que suas pernas ficavam ao nosso alcance e conseguíamos agarrá-lo pelos tornozelos e trazê-lo para bordo.
Agora certamente vão me perguntar que diabo andávamos fazendo na Lua, e eu lhes explico. Íamos recolher o leite, com uma grande concha e um alguidar. O leite lunar era muito denso, como uma espécie de ricota. Formava-se nos interstícios entre uma escama e outra pela fermentação de diversos corpos e substâncias de proveniência terrestre, que se desprendiam dos prados, das florestas e das lagoas que o satélite sobrevoava. Era composto essencialmente de: sumos vegetais, girinos de rãs, betume, lentilhas, mel de abelhas, cristais de amido, ovas de esturjão, bolores, polens, substâncias gelatinosas, vermes, resinas, pimenta, sal mineral, material de combustão. Bastava afundar a concha sob as escamas que recobriam o solo encrostado da Lua e então retirá-la cheia daquela preciosa papa. Não em estado puro, compreende-se; as escórias eram muitas: na fermentação (quando a Lua atravessava grandes extensões de ar tórrido sobre o deserto), nem todos os corpos se fundiam; alguns permaneciam ali cravados: unhas e cartilagens, cravos, pequenos cavalos-marinhos, caroços e pedúnculos, cacos de louça, anzóis de pescar, às vezes até mesmo um pente. Por isso, aquele mingau, depois de recolhido, precisava ser desnatado, passado por um coador. Mas a dificuldade não residia nisso, e sim na maneira de enviá-lo à Terra. Fazíamos assim: mandávamos o conteúdo de cada colherada para o alto, manobrando a concha como se fosse uma catapulta, com ambas as mãos. A ricota voava no ar, e se o impulso fosse bastante forte ia se esborrachar no teto, ou seja, sobre a superfície marinha. Ali chegando, ficava à tona e depois era mais fácil recolhê-la para dentro da barca. Até nesses arremessos, meu primo surdo demonstrava uma aptidão toda especial; tinha força e pontaria; com um lance resoluto conseguia acertar o tiro bem dentro de um balde que da barca lhe estendíamos. Ao passo que eu às vezes fazia um papelão; a colherada não conseguia vencer a força da atração lunar e vinha de volta me acertar no olho.
Ainda não lhes disse tudo a respeito dessas operações em que meu primo era exímio. O trabalho de extrair leite lunar das escamas era para ele uma espécie de brincadeira: em vez de concha, bastava-lhe às vezes meter sob as escamas a mão nua, ou apenas um dedo. Não agia ordenadamente, mas em pontos isolados, deslocando-se aos saltos de um ponto para o outro, como se quisesse pregar peças à Lua, causar-lhe surpresa ou mesmo provocar-lhe cócegas. E, onde quer que metesse a mão, o leite esguichava forte como das tetas de uma cabra. Tanto que nós não fazíamos outra coisa senão ficar por trás e recolher com nossas conchas a substância que ele, ora daqui ora dali, fazia esguichar; mas sempre como que por acaso, pois os itinerários do surdo não pareciam corresponder a nenhum claro propósito prático. Havia pontos que tocava, por exemplo, simplesmente pelo prazer de tocá-los: interstícios entre uma escama e outra, pregas lisas e tenras da polpa lunar. Às vezes, meu primo não as comprimia com os dedos da mão, e sim - num gesto bem calculado de seus pulos - com os artelhos (ele subia na Lua de pés descalços), e isso parecia para ele o máximo do divertimento, a julgar pelos ganidos que emitia sua úvula e pelos novos saltos que se seguiam.
O solo da Lua não era uniformemente escamoso; ele apresentava zonas irregulares e nuas de uma escorregadia argila pálida. Esses espaços macios davam ao surdo a fantasia das cambalhotas ou quase vôos de pássaros, como se quisesse imprimir na pasta lunar toda a sua figura. E foi assim avançando que a certo ponto o perdemos de vista. Na Lua havia extensas regiões que nunca nos despertaram a curiosidade ou nos deram motivo para explorá-las, e era ali precisamente que meu primo desaparecia; minha idéia era que todas aquelas cambalhotas e aqueles beliscões com que se comprazia aos nossos olhos não passavam de uma preparação, um prelúdio, de algo secreto que devia desenrolar-se nas zonas ocultas.
Um estado de espírito todo especial nos invadia naquelas noites ao largo dos Escolhos de Zinco; um humor alegre, mas um tanto hesitante, como se dentro do crânio tivéssemos, em vez do cérebro, um peixe, que flutuasse atraído pela Lua. E assim navegávamos cantando e tocando instrumentos. A mulher do capitão tocava harpa; tinha braços muito compridos, que naquelas noites se mostravam prateados como enguias, e axilas escuras e misteriosas como ouriços-do-mar; e o som de sua harpa era tão doce e agudo, tão doce e agudo que quase não o podíamos suportar, e éramos obrigados a lançar longos gritos, não tanto para acompanhar a música, mas antes para proteger nossos ouvidos.
Medusas transparentes afloravam à superfície marinha, vibravam um pouco e levantavam vôo para a Lua, ondulando. A pequena Xlthlx divertia-se em agarrá-las no ar, porém não era coisa fácil. Certa vez, estirando os bracinhos para apoderar-se de uma, deu um saltinho e encontrou-se, também ela, flutuando no ar. Magrinha como era, faltavam-lhe alguns gramas de peso para que a gravidade a trouxesse de volta para a Terra, vencendo a atração lunar; assim, ficou voando entre as medusas, suspensa sobre o mar. De repente, apavorou-se, começou a chorar, depois riu e se pôs a brincar, aparando no vôo crustáceos e peixinhos, alguns dos quais levava à boca e mordiscava. Manejávamos a barca para nos mantermos por baixo dela; a Lua corria em sua elipse, arrastando atrás de si aquele enxame de fauna marinha pelo céu, e uma longa fileira de algas encaracoladas, com a menina suspensa em meio àquilo tudo. Tinha duas trancinhas finas, a Xlthlx, que pareciam voar por conta própria, retesadas para a Lua: mas ela, enquanto isso, escoiceava, agitava as canelas no ar, como se quisesse combater aquele influxo, e as meias - havia perdido as sandálias no vôo - escorregavam-lhe dos pés e balançavam atraídas pela força terrestre. Em cima da escada, procurávamos agarrá-las.
Fora uma boa idéia a de se pôr a comer os animaizinhos suspensos; quanto mais Xlthlx ganhava peso, mais propendia para a Terra; além do mais, como entre todos aqueles corpos em suspensão o seu era o de maior massa, os moluscos, as algas e o plâncton começaram a gravitar em torno dela, e logo a menina ficou recoberta de minúsculas conchinhas silíceas, couraças quitinosas, carapaças e filamentos de ervas marinhas. E, quanto mais se perdia naquele emaranhado, mais ia se libertando do influxo lunar, até que aflorou a pele do mar e nele mergulhou.
Remamos rápido para socorrê-la e retirá-la da água: seu corpo permanecia imantado, e tivemos trabalho para despojá-la de tudo aquilo que a ela estava agarrado. Moles corais envolviam-lhe a cabeça, e dos cabelos choviam anchovas e camarõezinhos a cada passada de pente; os olhos estavam selados por conchas de moluscos que aderiam às pálpebras com suas ventosas; tentáculos de sépias enrolavam-se em torno de seus braços e do pescoço; e o vestidinho parecia inteiramente tecido de algas e de esponjas. Livramo-la do mais grosso; depois ela, por semanas inteiras, continuou a desprender de si mesma barbatanas e conchas; mas a pele, picotada por minúsculas diatomáceas, ficou para sempre com a aparência - para quem não a observasse bem - de estar coberta de um delicado pulverizar de pintas.
O interstício entre a Terra e a Lua era assim disputado por dois influxos que se equilibravam. Direi mais: um corpo que caía à Terra vindo do satélite permanecia algum tempo ainda carregado de força lunar e se opunha à atração do nosso planeta. Até eu, por grande e gordo que fosse, toda vez que ia lá em cima, custava a reabituar-me com os altos e baixos da Terra, e os companheiros tinham de me agarrar pelos braços e manter-me à força, amontoados sobre mim na barca ondulante, enquanto de cabeça para baixo eu continuava a levantar as pernas para o céu.
- Agarre-se! Agarre-se firme a nós! - gritavam para mim.
E eu, naquele agarrar-me às cegas, acabei certa vez por aferrar uma das mamas da sra. Vhd Vhd, que as tinha redondas e firmes, e esse contato me pareceu gostoso e seguro, exercendo sobre mim uma atração semelhante ou ainda mais forte que a da Lua, principalmente quando naquele mergulho de cabeça eu conseguia com o outro braço cingi-la pela cintura, e dessa maneira passava então de volta a este mundo, e caía de chofre no fundo da barca, até que o capitão Vhd Vhd, para reanimar-me, jogava sobre mim um balde de água.
Foi assim que começou a história de meu enamoramento pela mulher do capitão, e a de meus sofrimentos. Porque não demorei a perceber o que significavam os olhares mais obstinados daquela senhora: quando as mãos de meu primo pousavam seguras sobre o satélite, eu olhava fixo para ela e no seu olhar lia os pensamentos que aquela intimidade entre o surdo e a Lua nela suscitava, e, quando ele desaparecia em suas misteriosas explorações lunares, via-a mostrar-se inquieta, como se estivesse pisando em brasas, e logo tudo me pareceu claro, que a sra. Vhd Vhd estava ficando com ciúmes da Lua e eu com ciúmes de meu primo. Tinha olhos de diamante, aquela sra. Vhd Vhd; faiscavam, quando olhava para a Lua, quase num desafio, como se dissesse: "Não o terás!". E eu me sentia excluído.
Quem menos se dava conta de toda essa história era o próprio surdo. Quando o ajudávamos na descida, puxando-o - como já lhes expliquei - pelas pernas, a sra. Vhd Vhd perdia toda a reserva esforçando-se para fazê-lo tombar sobre sua própria pessoa, envolvendo-o com seus longos braços argênteos; eu sentia um aperto no coração (nas vezes em que me agarrava a ela, seu corpo era dócil e gentil, mas não se lançava para a frente como no caso de meu primo), enquanto ele permanecia indiferente, perdido ainda em seu êxtase lunar.
Eu reparava no capitão, perguntando a mim mesmo se também ele se dava conta do comportamento da esposa; mas nenhuma expressão se estampava jamais naquele rosto avermelhado pela salsugem, sulcado de rugas alcatroadas. Como o surdo era sempre o último a se desprender da Lua, sua descida era o sinal para que as barcas partissem. Então, com um gesto insolitamente delicado, Vhd Vhd recolhia a harpa do fundo da barca e a estendia à mulher. Ela era obrigada a tomá-la e arrancar-lhe algumas notas. Nada a podia afastar mais do surdo que o som da harpa. Eu ficava cantarolando aquela canção melancólica, que diz: "Todo peixe brilhante vem à tona, vem à tona, e todo peixe sombrio vai ao fundo, vai ao fundo...", e todos, com exceção do surdo, me faziam coro.
Todos os meses, assim que o satélite passava por nós, o surdo reentrava em seu isolado desprezo pelas coisas do mundo; só o aproximar-se do plenilúnio o despertava. Daquela vez eu arranjei as coisas de modo a não estar no grupo dos que subiriam à Lua, a fim de poder ficar na barca junto à mulher do capitão. E eis que, mal meu primo pôs o pé na escada, a sra. Vhd Vhd falou:
- Hoje eu também quero ir lá em cima!
Jamais havia acontecido de a mulher do capitão subir à Lua. Mas Vhd Vhd não se opôs, ao contrário, quase mesmo a empurrou para a escada, exclamando:
- Pois vá!
E todos nos pusemos a ajudá-la e eu a segurava por trás, e a sentia nos meus braços roliça e macia, e para sustentá-la apoiava contra ela as palmas das mãos e o rosto; quando a senti elevar-se à esfera lunar, invadiu-me uma ansiedade por aquele contato perdido, tanto que comecei a correr atrás dela, dizendo:
- Subo eu também para ajudá-la!
Fui contido como se por uma mordaça.
- Você fica quieto aí, pois temos muito o que fazer - ordenou-me o capitão Vhd Vhd sem erguer o tom de voz.
Naquele momento, já as intenções de cada um estavam claras. Contudo, eu nada concluí, e até hoje não estou seguro de haver interpretado tudo com exatidão. Sem dúvida a mulher do capitão havia por muito tempo acalentado o desejo de isolar-se lá em cima com meu primo (ou pelo menos de não deixar que ele se apartasse sozinho com a Lua), mas é possível que seu plano tivesse um objetivo mais ambicioso, talvez mesmo arquitetado em comum acordo com o surdo: esconderem-se os dois lá em cima e permanecerem na Lua um mês inteiro. Pode ser também que meu primo, surdo como era, não tivesse compreendido nada do que ela tentara lhe explicar, ou, melhor ainda, nem mesmo se desse conta de ser objeto dos desejos da senhora. E o capitão? Não esperava outra coisa senão livrar-se da esposa, tanto é verdade que, tão logo a mulher se confinou no espaço, vimo-lo imediatamente entregar-se às suas inclinações e mergulhar no vício, e agora compreendemos por que nada fizera para impedi-la. Mas saberia ele, desde o início, que a órbita da Lua estava se alargando?
Nenhum de nós poderia suspeitar. O surdo, talvez apenas o surdo: da maneira larval com que sabia das coisas, havia pressentido que lhe tocava aquela noite dar adeus à Lua. Por isso, escondeu-se em seus lugares secretos e só reapareceu para voltar a bordo. E a mulher do capitão perdeu tempo em segui-lo: vimo-la atravessar várias vezes a extensão escamosa, para cima e para baixo, e houve um momento em que se deteve a olhar para nós que ficáramos na barca, quase a ponto de nos perguntar se o tínhamos visto.
Sem dúvida havia algo de insólito naquela noite. A superfície do mar, embora tensa como sempre quando era lua cheia, quase arqueada para o céu, parecia manter-se afastada, frouxa, como se o ímã lunar não exercesse sobre ela toda a sua força. Além disso, não se podia dizer que a luz fosse a mesma dos outros plenilúnios, e havia como que um espessamento das trevas noturnas. Os companheiros que estavam lá em cima também deviam dar-se conta do que estava acontecendo, pois lançaram para nós olhares espavoridos. E de suas bocas e das nossas, no mesmo instante, saiu um grito:
- A Lua está se afastando!
Não havia ainda se dissipado o som daquele grito, quando na Lua apareceu meu primo, correndo. Não parecia amedrontado, nem mesmo surpreso: apoiou as mãos no solo na manobra da sua cambalhota de sempre, mas desta vez, depois de haver se lançado no ar, lá ficou, suspenso, como já havia acontecido com a menina Xlthlx; então rodopiou um momento entre a Terra e a Lua, ficou de cabeça para baixo e, com um esforço dos braços como alguém que ao nadar tivesse de vencer a correnteza, dirigiu-se, com insólita lentidão, para o nosso planeta.
Na Lua, os outros marinheiros se apressaram em seguir seu exemplo. Ninguém estava mais pensando em fazer chegar à barca o leite lunar recolhido, nem o capitão os recriminava por isso. Já haviam esperado demais, a distância se tornara difícil de atravessar; embora tentassem imitar o vôo e o nado de meu primo, lá ficaram a bracejar, suspensos em meio ao céu.
- Ajuntem-se! Imbecis! Ajuntem-se! - gritou o capitão.
À sua ordem, os marinheiros tentaram agrupar-se, fazer um bolo, a fim de se lançarem juntos para alcançar a zona de atração da Terra: até que em certo ponto uma cascata de corpos precipitou-se no mar num baque surdo.
Os barqueiros remavam então para recolhê-los.
- Esperem! Está faltando a senhora! - gritei.
A mulher do capitão havia tentado igualmente o salto, mas permanecera flutuando a poucos metros da Lua, e movia molemente no ar seus longos braços argênteos. Trepei na pequena escada e, no vão intento de lhe oferecer um ponto de apoio, estendi a harpa em sua direção.
- Não chega lá! Precisamos ir buscá-la! - E fiz um gesto para lançar-me, brandindo a harpa.
Acima de mim, o enorme disco lunar já não parecia o mesmo de antes, tanto havia diminuído, e olhem que ia até se contraindo cada vez mais como se fosse o meu olhar que o atirasse para longe, e o céu vazio se arreganhasse como um abismo no fundo do qual as estrelas andavam se multiplicando, e a noite derramava sobre mim um rio de vácuo, submergindo-me na ansiedade e na vertigem.
"Tenho medo!", pensei. "Tenho medo demais para atirar-me! Sou um covarde!", e naquele momento mesmo me atirei. Nadava pelo céu furiosamente, e estendia a harpa para ela, mas, em vez de vir ao meu encontro, ela se revolvia, ora me mostrando a face impassível, ora o dorso.
- Vamos nos abraçar! - gritei, e já a alcançava, para agarrá-la para sempre, enlaçando os meus membros nos seus. - Vamos nos abraçar para cairmos juntos!
E concentrava minhas forças em me unir o mais estreitamente possível a ela, e minhas sensações no desfrutar a totalidade daquele abraço. Tanto que custei a dar-me conta de que estava em vez disso arrebatando-a de seu estado de libração para fazê-la recair na Lua. Não me dera conta? Ou talvez fosse essa desde o princípio a minha verdadeira intenção? Não havia ainda conseguido formular o pensamento, quando já um grito irrompeu da minha garganta:
- Eu é que vou ficar um mês junto com você! - E até mesmo: - Em cima de você! - gritava, na minha excitação: - Eu em cima de você um mês inteiro! - E naquele momento a queda sobre o solo lunar havia desfeito o nosso abraço, e roláramos eu para um lado e ela para o meio das frias escamas.
Ergui os olhos como fazia sempre que tocava a crosta da Lua, seguro de encontrar acima de mim o mar natal como um teto infinito, e o vi, sim, o vi ainda esta vez, mas muito mais alto, e muito exiguamente limitado por seus contornos de costas, promontórios e escolhos, e como me pareceram pequeninas as barcas e irreconhecíveis os vultos dos companheiros e débeis os seus gritos! Um som chegou-me de pouca distância: a sra. Vhd Vhd havia encontrado a harpa e a acariciava, provocando um acorde triste como um pranto.
Começou um longo mês. A Lua girava lenta em torno da Terra. No globo suspenso já não víamos nossa praia familiar, mas uma sucessão de oceanos profundos como abismos, e desertos de seixos incandescentes, e continentes de gelo, e florestas borbulhantes de répteis, e os paredões rochosos das cadeias de montanhas talhados pela lâmina de rios precipitosos, e cidades palustres, e necrópoles de tufo, e impérios de argila e lama. A distância espalhava sobre todas as coisas uma cor uniforme: as perspectivas estranhas tornavam estranhas todas as imagens; bandos de elefantes e nuvens de gafanhotos percorriam as planícies tão igualmente vastas e densas e fechadas que não havia diferença.
Eu deveria estar feliz: como nos meus sonhos estava sozinho com ela, a intimidade com a Lua tantas vezes invejada a meu primo com a senhora Vhd Vhd era agora um privilégio exclusivo meu, um mês de dias e noites lunares estendia-se ininterrupto diante de nós, a crosta do satélite nos alimentava com seu leite de sabor acidulado e familiar, o nosso olhar se erguia para o mundo onde havíamos nascido, finalmente percorrido em toda a sua multiforme extensão, explorado nas paisagens jamais vistas pelos seres terrestres, ou então contemplava as estrelas que havia além da Lua, enormes como frutos de luz amadurecidos nos recurvos ramos do céu, e tudo ultrapassava as expectativas mais luminosas, mas, em vez disso, era o exílio.
Só pensava na Terra. Era a Terra que fazia com que alguém fosse de fato alguém e não outro qualquer; lá em cima, arrebatado da Terra, era como se eu não fosse mais eu mesmo, nem ela para mim aquela que foi. Estava ansioso por voltar à Terra, e tremia no temor de havê-la perdido. A extensão de meu sonho de amor havia durado apenas aquele instante em que havíamos rodado abraçados entre a Terra e a Lua; privada de seu terreno terrestre, minha paixão só provava a nostalgia lancinante daquilo que nos faltava: um onde, um em torno, um antes, um depois.
Isso era o que eu provava. Mas e ela? Ao me fazer tal pergunta, sentia-me dividido em meus temores. Porque, se ela também só pensasse na Terra, isso podia ser um bom sinal, o de um entendimento afinal alcançado, no entanto podia ser igualmente sinal de que tudo havia sido inútil, de que era ainda só para o surdo que se dirigiam todos os seus desejos. Mas não, nada disso. Ela jamais erguia o olhar para o velho planeta, pálida perambulava por aquelas landes, murmurando nênias e acariciando a harpa, como compenetrada de sua provisória (como eu achava) condição lunar. Significava isso que eu tinha vencido o meu rival? Não; que havia perdido; uma derrota desesperada. Porque ela havia compreendido que o amor de meu primo era apenas pela Lua, e tudo o que ela desejava então era transformar-se em Lua, assimilar-se ao objeto daquele amor extra-humano.
Tendo a Lua completado a sua volta do planeta, eis que nos encontramos de novo sobre os Escolhos de Zinco. Foi com desalento que os reconheci: nem mesmo em minhas mais negras previsões esperava vê-los tão apequenados na distância. Naquele charco de mar os companheiros tinham voltado a navegar, agora sem a escada portátil, que se tornara inútil; mas das barcas ergueu-se como uma selva de longas lanças; cada um deles brandia a sua, disposta em cima de um arpão ou gancho, talvez na esperança de arrancar ainda um pouco da última ricota lunar ou quem sabe para levar a nós pobres lá no alto algum auxílio. Porém, logo se tornou claro que elas não tinham comprimento suficiente para atingir a Lua; e tombavam, ridiculamente curtas, aviltadas, ficando a balouçar nas águas; e houve barcas que, naquela confusão, acabaram por virar. Mas eis que, então, de outra embarcação começou a erguer-se uma vara mais longa, arrastada até ali por sobre a superfície do mar: devia ser de bambu, de muitas e muitas varas de bambu, engastadas umas nas outras, e para erguê-la era preciso proceder com cautela a fim de que - leve como era - as oscilações não a quebrassem, e manobrá-la com muita força e perícia, para que todo aquele peso vertical não desequilibrasse a barca.
E aconteceu: estava claro que a ponta daquela haste havia tocado a Lua, e vimo-la roçar o solo escamoso, nele fazer pressão e apoiar-se um momento, dar quase um pequeno empurrão, e mesmo um forte empurrão que a fazia afastar-se de novo, e depois voltar a feri-la naquele mesmo ponto como em ricochete, e de novo afastar-se. E então reconheci, ou reconhecemos nós dois - eu e a senhora Vhd Vhd -, que era meu primo, não poderia ser outro, a fazer sua última brincadeira com a Lua, um truque dos seus, com a Lua na ponta da vara como se esta estivesse em equilíbrio. E percebemos que sua habilidade não visava a nada, não pretendia obter nenhum resultado prático, até mesmo poderíamos dizer que a estava empurrando mais ainda para longe, a Lua, que estava ajudando esse afastamento, que a queria acompanhar em sua órbita mais distante. E também isso era muito próprio dele: dele que não sabia conceber desejos em contraste com a natureza da Lua e seu curso e seu destino, e, se a Lua agora tendia a distanciar-se dele, pois então se rejubilava com esse afastamento como até agora se rejubilara com sua vizinhança.
Que devia fazer, diante daquilo, a sra. Vhd Vhd? Só naquele instante ela demonstrou até que ponto sua paixão pelo surdo não era um frívolo capricho, e sim um voto sem retorno. Se o que meu primo amava era a Lua distante, ela iria permanecer distante, na Lua. Isso intuí, vendo que ela não dava um só passo em direção ao bambu, apenas voltava a harpa em direção à Terra, alta no céu, beliscando-lhe as cordas. Disse que a vi, mas na realidade foi só com o canto do olho que captei sua imagem, pois mal a haste havia tocado a crosta lunar, eu saltei para agarrar-me a ela, e rápido como uma serpente deslizava pelos nós do bambu, subia com movimentos dos braços e joelhos, leve no espaço rarefeito, como impelido por uma força natural a me ordenar que voltasse à Terra, esquecendo o motivo que me havia feito ir lá em cima, ou talvez mesmo mais consciente que nunca dele e de seu desfecho malogrado, e já a escalada pela haste ondulante chegava ao ponto em que não devia fazer mais esforço algum, apenas deixar-me escorregar de cabeça atraído pela Terra, até que naquela corrida a vara se rompeu em mil pedaços e caí no mar por entre as barcas.
Era o doce retorno, a volta à pátria, entretanto meu pensamento era só de dor por aquela que perdera, e meus olhos se dirigiam para a Lua para sempre inalcançável, procurando-a. E a vi. Estava lá onde a havia deixado, estendida numa praia situada exatamente acima de nossas cabeças, sem dizer nada. Estava da cor da Lua; segurava a harpa de lado e movia uma das mãos em lentos e raros arpejos. Distinguia-se bem a forma do peito, dos braços, dos flancos, assim como agora a recordo, agora que a Lua se tornou aquele círculo achatado e distante, e eu continuo sempre a buscá-la com o olhar mal se mostra no céu o primeiro crescente, e quanto mais vai crescendo, mais imagino vê-la, ela ou qualquer coisa dela, porém nada mais que ela, em cem em mil visões distintas, ela que faz da Lua a Lua e que faz a cada plenilúnio os cães ladrarem a noite inteira e eu com eles.
Poema de Antonio Machado musicado por Joan Manuel Serrat.
C A N T A R E S
Todo pasa y todo queda pero lo nuestro es pasar, pasar haciendo caminos, caminos sobre la mar.
Nunca perseguí la gloria ni dejar en la memoria de los hombres mi canción; yo amo los mundos sutiles, ingrávidos y gentiles como pompas de jabón.
Me gusta verlos pintarse de sol y grana, volar bajo el cielo azul, temblar subitamente y quebrarse.
Nunca perseguí la gloria.
Caminante son tus huellas el camino, y nada más; caminante, no hay camino, se hace camino al andar.
Al andar se hace camino, y al volver la vista atrás se ve la senda que nunca se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino sino estelas en la mar.
Hace algún tiempo en ese lugar donde hoy los bosques se visten de espinos se oyó la voz de un poeta gritar "caminante no hay camino, se hace camino al andar."
Golpe a golpe, verso a verso...
Murió el poeta lejos del hogar, le cubre el polvo de un país vecino. Al alejarse le vieron llorar "caminante, no hay camino, se hace camino al andar."
Golpe a golpe, verso a verso...
Cuando el jilguero no puede cantar. Cuando el poeta es un peregrino. Cuando de nada nos sirve rezar "caminante, no hay camino, se hace camino al andar."
Golpe a golpe, verso a verso Golpe a golpe, verso a verso... Golpe a golpe, verso a verso...