(Dostoiévski, O idiota)
- Parece que você quer escrever um livro? Seria um livro sobre o quê?
Tamina enchia as xícaras de chá e alegrava-se que os dois homens que tinham descido ao seu apartamento, vindos do Olimpo do espírito, fossem compreensivos com sua amiga.
- É muito simples - respondeu Bibi. - Um romance. Sobre o mundo como o vejo.
- Um romance? - perguntou Banaka com uma voz que traía a desaprovação.
Bibi retificou de maneira evasiva:
- Não seria necessariamente um romance. Quero apresentar um relato sobre minha vida. Ao mesmo tempo, não quero esconder que minha vida é totalmente banal, comum, e que eu nada vivi de original.
- Isso não tem nenhuma importância! Eu também, visto do exterior, não vivi nada de original.
- É - exclamou Bibi -, bem falado! Visto do exterior, não vivi nada. Visto do exterior! Mas tenho a impressão de que minha experiência interior vale a pena ser escrita e poderia interessar a todo mundo.
- Desde James Joyce - disse ele -, sabemos que a maior aventura de nossa vida é a ausência de aventuras. Ulisses, que tinha lutado em Tróia, voltava singrando os mares, pilotava ele mesmo seu navio, tinha uma amante em cada ilha, não, não é isso nossa vida. A odisséia de Homero transportou-se para dentro. Ela se interiorizou. As ilhas, os mares, as sereias que nos seduzem, Ítaca que nos chama, não são hoje senão vozes de nosso interior. Pense bem no que é um romance - disse Banaka. - Nessa multidão de personagens diferentes. Você quer que acreditemos que você conhece tudo sobre eles? Que sabe como eles são, o que pensam, como se vestem, de que família vêm? Confesse que isso não lhe interessa absolutamente!
- É verdade - reconheceu Bibi -, isso não me interessa.
- Você sabe - disse Banaka -, o romance é fruto de uma ilusão humana. A ilusão de poder compreender o outro.
- É! É exatamente isso o que sinto! - exclamou Bibi. E é por isso que eu queria lhe perguntar o que se deve fazer. Tenho muitas vezes a impressão de que meu corpo inteiro está cheio de desejo de se exprimir. De falar. De se fazer ouvir. Às vezes penso que vou ficar louca, or ue me sinto cheia a ponto de estourar, de ter vontade de gritar. O senhor certamente conhece isso, Sr. Banaka. Gostaria de expressar minha vida, meus sentimentos, que são, sei disso, absolutamente originais, mas quando sento diante de uma folha de papel, de repente não sei mais o que escrever. Então disse a mim mesma que é certamente uma questão de técnica. Faltam-me, é claro, certos conhecimentos que o senhor possui. O senhor escreveu livros tão bonitos...
- Tudo o que podemos fazer - disse Banaka - é apresentar um relato sobre nós mesmos. Um relato de cada um sobre si mesmo. Todo o resto é apenas abuso de poder. Todo o resto é mentira.
Bibi aprovava com entusiasmo:
- É verdade! É inteiramente verdade! Eu também não quero escrever um romance! Eu me expressei mal. Gostaria de fazer exatamente o que o senhor disse, escrever sobre mim.
(Milan Kundera, O livro do riso e do esquecimento)
CARTA A UM JOVEM POETA
Meu caro poeta,
Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola traçada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para oscontemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos, aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? – perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: “eu vos trago a verdade”, enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: “eu te trago a minha verdade.” E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócrifos!
Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as digressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: “O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escreve os seus poemas?” A poesia é dessas coisas que a gente faz, mas não diz.
A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.
Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: “Eu não te largarei até que me abençoes”. Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técnica dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.
Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.
Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que, no entanto, me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.
Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?
Mario Quintana
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