"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

El arte de la transmigración

Oliverio Girondo

Uns gostam do alpinismo. A outros, lhes entretém o dominó. A mim, me encanta a transmigração.

Enquanto aqueles passam a vida pendurados de uma corda ou dando socos sobre uma mesa, eu passo transmigrando de um corpo a outro, eu não me canso nunca de transmigrar.

Desde o amanhecer, me instalo em algum eucalipto a respirar a brisa da manhã. Durmo uma sesta mineral dentro da primeira pedra que acho em meu caminho, e antes de anoitecer já estou pensando a noite e as chaminés com um espírito de gato.

Que delícia a de metamorfosear-se em abelha, a de sorver o pólen das rosas! Que voluptuosidade a de ser terra, a de sentir-se penetrado de tubérculos, de raízes, de uma vida latente que nos fecunda... e nos faz cosquinhas!

Para apreciar o presunto, não é indispensável ser porco? Quem não possa transformar-se em cavalo, poderá saborear o gosto dos vales e dar-se conta do que significa "puxar a carroça"?...

Possuir uma virgem é muito distinto a experimentar as sensações da virgem enquanto a estamos possuindo, e uma coisa é olhar o mar desde a praia, outra é contemplá-lo com olhos de caranguejo.

Por isso gosto de meter-me nas vidas alheias, viver todas suas secreções, todas suas esperanças, seus bons e seus maus humores.

Por isso gosto de ruminar a pampa e o crepúsculo personificado numa vaca, sentir a gravitação e as ramagens com um cérebro de noz ou de castanha, ajoelhar-me em pleno campo, para cantar com uma voz de sapo às estrelas.

Ah, o encanto de haver sido camelo, cenoura, maçã, e a satisfação de compreender, a fundo, a preguiça dos remansos... e dos camaleões!...

Pensar que durante toda sua existência a maioria dos homens não foram, nem sequer, mulher!... Como é possível que não se aborreçam de seus apetites, de seus espasmos e que não necessitem experimentar, de vez em quando, os das baratas... os das madressilvas?

Ainda que me haja posto, muitas vezes, um cérebro de imbecil, jamais compreendi que se possa viver, eternamente, com um mesmo esqueleto e um mesmo sexo.

Quando a vida é demasiado humana - unicamente humana! - o mecanismo de pensar não resulta numa doença mais longa e mais entediante que qualquer outra?

Eu, ao menos, tenho a certeza que não a haveria suportado sem essa aptidão de evasão, que me permite transportar-me aonde eu não estou: ser formiga, girafa, pôr um ovo, e o que é mais importante ainda, encontrar-me comigo mesmo no momento em que me havia esquecido, quase completamente, de minha própria existência.

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