"há sempre um copo de mar para um homem navegar" - jorge de lima
(Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas)
"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios
sábado, 26 de março de 2011
O jardim de veredas que se bifurcam
"Na janela estavam os telhados de sempre e o sol nublado das seis. Pareceu-me incrível que esse dia sem premonições nem símbolos fosse o da minha morte inevitável. Apesar de meu falecido pai, apesar de minha infância passada num jardim simétrico de Hai Feng, eu, agora, ia morrer? Depois refleti que todas as coisas sempre acontecem precisamente a alguém, precisamente agora. Séculos de séculos e só no presente ocorrem os fatos; inumeráveis homens no ar, na terra e no mar, e tudo o que realmente acontece acontece a mim..."
terça-feira, 22 de março de 2011
Divas
domingo, 13 de março de 2011
ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro
Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.
Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.
Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!
Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!
quintana
já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo
morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma
morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma
leminski
sexta-feira, 11 de março de 2011
Notas para a recordação do meu mestre Caeiro
Álvaro de Campos
O meu mestre Caeiro não era um pagão: era o paganismo. O Ricardo Reis é um pagão, o António Mora é um pagão, eu sou um pagão; o próprio Fernando Pessoa seria um pagão, se não fosse um novelo embrulhado para o lado de dentro. Mas o Ricardo Reis é um pagão por carácter, o António Mora é um pagão por inteligência, eu sou um pagão por revolta, isto é, por temperamento. Em Caeiro não havia explicação para o paganismo; havia consubstanciação.
Vou definir isto da maneira em que se definem as coisas indefiníveis — pela cobardia do exemplo. Uma das coisas que mais nitidamente nos sacodem na comparação de nós com os gregos é a ausência de conceito de infinito, a repugnância de infinito, entre os gregos. Ora o meu mestre Caeiro tinha lá mesmo esse mesmo conceito. Vou contar, creio que com grande exactidão, a conversa assombrosa em que mo revelou.
Referia-me ele, aliás desenvolvendo o que diz num dos poemas de «O Guardador de Rebanhos», que não sei quem lhe tinha chamado em tempos «poeta materialista». Sem achar a frase justa, porque o meu mestre Caeiro não é definível com qualquer frase justa, disse, contudo, que não era absurda de todo a atribuição. E expliquei-lhe, mais ou menos bem, o que é o materialismo clássico. Caeiro ouviu-me com uma atenção de cara dolorosa, e depois disse-me bruscamente:
«Mas isso o que é é muito estúpido. Isso é uma coisa de padres sem religião, e portanto sem desculpa nenhuma».
Fiquei atónito, e apontei-lhe várias semelhanças entte o materialismo e a doutrina dele, salva a poesia desta última. Caeiro protestou.
«Mas isso a que V. chama poesia é que é tudo. Nem é poesia: é ver. Essa gente materialista é cega. V. diz que eles dizem que o espaço é infinito. Onde é que eles viram isso no espaço?»
E eu, desnorteado. «Mas V. não concebe o espaço como infinito? Você não pode conceber o espaço como infinito?»
«Não concebo nada como infinito. Como é que eu hei-de conceber qualquer coisa como infinito?»
«Homem», disse eu, «suponha um espaço. Para além desse espaço há mais espaço, para além desse mais, e depois mais, e mais, e mais... Não acaba...»
«Porquê?» disse o meu mestre Caeiro.
Fiquei num terramoto mental. «Suponha que acaba», gritei. «O que há depois?»
«Se acaba, depois não há nada», respondeu.
Este género de argumentação, cumulativamente infantil e feminina, e portanto irresponsável, atou-me o cérebro durante uns momentos.
«Mas V. concebe isso?» deixei cair por fim.
«Se concebo o quê? Uma coisa ter limites? Pudera! O que não tem limites não existe. Existir é haver outra coisa qualquer e portanto cada coisa ser limitada. O que é que custa conceber que uma coisa é uma coisa, e não está sempre a ser uma outra coisa que está mais adiante?»
Nessa altura senti carnalmente que estava discutindo, não com outro homem, mas com outro universo. Fiz uma última tentativa, um desvio que me obriguei a sentir legítimo.
«Olhe, Caeiro... Considere os números... Onde é que acabam os números? Tomemos qualquer número — 34, por exemplo. Para além dele temos 35, 36, 37, 38, e assim sem poder parar. Não há número grande que não haja um número maior. . .»
«Mas isso são só números», protestou o meu mestre Caeiro.
E depois acrescentou, olhando-me com uma formidável infância:
«O que é o 34 na realidade?»
Como ele me disse uma vez: “Só a prosa é que se emenda. O verso nunca se emenda. A prosa é artificial. O verso que é que é natural. Não nos falamos em prosa. Falamos em verso. Falamos em verso sem rima nem ritmo. Fazemos pausas na conversa que na leitura se não podem fazer. Falamos, sim, em verso, verso natural – isto é, em verso sem rima nem ritmo, com as pausas do nosso fôlego e sentimento.
Os meus versos são naturais porque são feitos assim...
O verso ritmado e rimado é bastardo e ilegítimo”.
Poemas de Alberto Caeiro
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
-----------------------------------------------------------------------
Vive, dizes, no presente:
Vive só no presente.
Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as coisas que existem, não o tempo que as mede.
O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras coisas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.
Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas como cousas.
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.
Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.
Eu devia apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.
-------------------------------------------------------------------------
Se eu morrer novo,
Sem poder publicar livro nenhum
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa,
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.
Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.
Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.
Não desejei senão estar ao sol ou à chuva -
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo
(E nunca a outra cousa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.
Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela unica grande razão -
Porque não tinha que ser.
Consolei-me voltando ao sol e a chuva,
E sentando-me outra vez a porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.
-----------------------------------------------------------
Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas—a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.
Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.
--------------------------------------------------------
Navio que partes para longe,
Porque é que, ao contrário dos outros,
Não fico, depois de desapareceres, com saudades de ti?
Porque quando te não vejo, deixaste de existir.
E se se tem saudades do que não existe,
Sente-se em relação a coisa nenhuma,
Não é do navio, é de nós, que sentimos saudades.
--------------------------------------------------------
A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus,
Porque embora afirme que existe o que não existe,
Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em algum ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.
--------------------------------------------------------
Noite de S. João para além do muro do meu quintal.
Do lado de cá, eu sem noite de S. João.
Porque há S. João onde o festejam.
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos.
E um grito casual de quem não sabe que eu existo.
A hora dos assassinos
Henry Miller
Uma noite, sentei a Beleza em meus joelhos. — E encontrei-a amarga. — E insultei-a.
Levantei-me em armas contra a justiça.
Fugi. Ó bruxas, ó miséria, ó ódio, é a vós que meu tesouro foi confiado!
O trabalho de assassinato - pois é do que se trata - em breve chegará ao fim. Quando se sufoca a voz do poeta, a história perde o sentido, e a ameaça escatológica irrompe como nova e terrível aurora nas consciências humanas. Somente agora, à beira do abismo, é possível compreender que “tudo o que nos ensinam é falso”. A prova dessa afirmação devastadora está aí, visível, todo dia em toda parte: no campo de batalha, no laboratório, na fábrica, na imprensa, na escola, na igreja. Vivemos inteiramente no passado, alimentados por pensamentos estéreis, crenças obsoletas, ciências mortas. E é o passado que nos devora, não o futuro. O futuro sempre foi e sempre será do poeta.
(...)
“Ele nunca ficará satisfeito”, escreve um biógrafo. “Sob o peso de seu olhar, todas as flores murcham, todas as estrelas empalidecem.” Sim, existe um pouco de verdade nisso. Sei, porque sofro do mesmo mal. Mas, se alguém sonhou com um império, o império humano, e atreve-se a refletir sobre a lentidão de lesma com que a nossa civilização ruma para a civilização desse sonho, é bem possível que o que chamado de atividade humana se reduza a uma insignificância. Não posso crer, nem por um instante, que flores murchassem ou estrelas empalidecessem perante os olhos de Rimbaud. Acho que no âmago de seu ser sempre manteve uma comunicação direta e fervorosa com elas. Foi no mundo dos homens que seu olhar cansado enxergou coisas murchas e sem brilho. No começo queria “ver tudo, sentir tudo, exaurir tudo, explorar tudo, dizer tudo”. Não demorou muito para sentir o freio na boca, as esporas nos flancos e o chicote nas costas. Basta alguém vestir-se de modo diferente de seus semelhantes para tornar-se objeto de escárnio e ridículo. A única lei realmente acatada de bom grado e sem hesitações é a do conformismo. Não admira que mero adolescente terminasse “descobrindo que o desequilíbrio de sua mente era sagrado”. A essa altura já era vidente. Percebeu, porém, que o consideravam palhaço e charlatão. Viu-se diante da alternativa de passar o resto da vida lutando para defender o terreno conquistado ou renuncar por completo a essa luta. Por que preferiu não transigir? Porque transigir não fazia parte de seu vocabulário. Fanático desde menino, não suportava deixar nada pela metade, do contrário morreria. Nisso consiste a sua pureza, a sua inocência.
Em todos esses traços redescubro a minha própria sina. Nunca desistir de lutar. Mas o preço que paguei! Tive que recorrer a táticas de guerrilha, essa luta vã oriunda do desespero. A obra que me dispus a escrever ainda não está escrita, ou apenas em parte. Só para erguer a voz, para falar do modo que me é peculiar, tive que lutar palmo a palmo. A luta quase abafou a canção. E venham me falar do peso do olhar que murcha flores e empalidece estrelas! Os meus olhos se tornaram positivamente corrosivos: é um milagre que sob a minha mirada impiedosa elas não se desintegrem com estrondo. Isso quanto ao âmago do meu ser. Quanto às aparências, bem, o homem que os outros veem aos poucos foi aprendendo a se acomodar às imposições do mundo. Hoje ele é capaz de estar nele sem fazer parte dele. Pode ser amável, gentil, benévolo, hospitaleiro. Por que não? “O verdadeiro problema”, como frisou Rimbaud, “é tornar a alma monstruosa”. O que significa não horrenda, mas prodigiosa! Qual o sentido de monstruoso? Segundo o dicionário, “qualquer ofrma organizada de vida extremamente anômala, seja por falta, excesso, deslocamento, ou distorção de partes ou órgãos; por conseguinte, tudo o que for horrendo ou anormal, ou constituído de partes ou caracteres inconsistentes, sejam repulsivos ou não”. A raiz vem do verbo latino moneo, advertir. Na mitologia, reconhecemos o monstruoso sob as formas de harpia, da górgone, da esfinge, do centauro, da dríade, da sereia. Todos são prodígios, que é o sentido essencial da palavra. Perturbaram a norma, o equilíbrio. O que significa isso senão o medo do homem comum? As almas tímidas sempre veem monstros pela frente, seja lá o nome que tenham, hipogrifos ou hitlerianos. O maior pavor humano é o da expansão da consciência. Toda a parte assustadora, hedionda da mitologia deriva desse medo. “Vivamos em paz e harmonia!”, suplica o medíocre. Mas a lei do universo de termina que a paz e a harmonia só podem ser conquistadas pela luta íntima. O medíocre não quer pagar o preço desse tipo de paz e harmonia; quer encontrá-lo já pronto, feito terno confeccionado em série na fábrica.
(...)
Que choque para um poeta descobrir que Rimbaud renunciou à sua vocação! Equivale a dizer que renunciou ao Amor. Fosse qual fosse o motivo, o impulso decisivo foi sem dúvida a perda da fé. A consternação do poeta, a sua sensação de traição e logro, encontra paralelo na reação do cientista ao descobrir o uso que fazem de suas invenções. Fica-se tentado a comparar o ato de renúncia de Rimbaud com o lançamento da primeira bomba atômica. A repercussão, embora mais difundida no último caso, não é mais profunda. O coração registra o choque antes do resto do corpo. Leva algum tempo para que a noção da ruína se espalhe por todo o núcleo da civilização. Mas quandoRimbaud saiu pela porta dos fundos, a ruína já se tinha feito anunciar.
Como fiz bem em adiar a verdeira descoberta de Rimbaud! Se tiro conclusões totalmente diferentes de outros poetas a respeito de sua aparição e de suas manifestações na Terra, é com o mesmo espírito que os santos tiram conclusões extraordinárias a respeito da vinda de Cristo. Ou essas coisas representam acontecimentos marcantes na história da humanidade ou a arte de interpretação é falsa. Não tenho a menor dúvida de que um dia todos nós viveremos como Cristo viveu. Nem tampouco de que antes disso todos nós negaremos o nosso individualismo. Atingimos o ponto máximo do egoísmo, o estado atômico do ser. E seremos despedaçados. Preparamo-nos agora para a morte do pequeno ego a fim de que possa surgir o ego verdadeiro. Inconscientemente e sem querer, unificamos o mundo, mas também o nulificamos. Precisamos passar por uma morte coletiva para emergir como indivíduos autênticos. Se for verdade, como disse Lautréamont, que “a poesia deve ser feita por todos”, então temos que achar uma nova linguagem, em que um coração fale com o outro sem intermediários. Os nossos mútuos apelos precisam ser tão diretos e espontâneos como os do homem de Deus com Deus. O poeta hoje está obrigado a desistir de sua vocação porque já demonstrou seu desespero, já reconheceu a própria incapacidade de comunicar-se. Ser poeta era antigamente a vocação mais sublime; hoje é a mais fútil. E isso não porque o mundo seja imune ás súplicas do poeta, mas porque ele mesmo não acredita mais no caráter divino de sua missão. Já vem cantando fora do tom há mais ou menos um século; por fim não conseguimos mais sintonizar. O assobio da bomba ainda tem sentido para nós, mas os delírios do poeta parecem disparates. E são um disparate se, de uma população mundial de dois bilhões de habitantes, apenas um punhado finge entender o que o poeta individual está dizendo. O culto da arte não preenche sua finalidade quando só existe para meia dúzia de homens e mulheres privilegiados. Então não é mais arte, mas a linguagem cifrada de uma sociedade secreta para a propagação de uma individualidade descabida. A arte é algo que incita as paixões humanas, que dá visão, lucidez, coragem e fé. Que artista da palavra, nesses últimos anos, incitou o mundo como Hitler? Que poema abalou o mundo, recentemente, como a bomba atômica? Desde o advento de Cristo que não se viam cenas semelhantes a se desenrolarem, se multiplicarem, diariamente. Que armas tem o poeta, em comparação? Ou que sonhos? Onde foi parar a sua decantada imaginação? A realidade está aí, diante dos nossos próprios olhos, completamente nua, mas onde está o cântico para anunciá-la? Existe algum poeta visível, de quinta magnitude ao menos? Não vejo nenhum. Não chamo de poeta quem apenas faz versos, com ou sem rima. Para mim, poeta é aquele homem capaz de alterar profundamente o mundo. Se houver um poeta desses vivendo entre nós, que se proclame. Que levante a voz! Mas terá que ser uma voz que possa abafar o estrondo da bomba. E que use uma linguagem que derreta os corações humanos, que faça borbulhar o sangue.
Se a missão da poesia é despertar, há muito tempo que deveríamos ter acordado. É inegável que alguns acordaram. Mas agora são todos que devem despertar - e imediatamente -, senão pereceremos. Só que o homem jamais perecerá, fiquem tranquilos. O que corre o rico de perecer é a cultura, a civilização, o estilo de vida. Quando esses mortos despertarem, e é certo que despertarão, poesia será a própria essência da vida. Podemos arcar com a perda do poeta se em troca preservarmos a poesia. Não se precisa de papel nem tina para se criar ou disseminar a poesia. De modo geral, os povos primitivos são poetas da ação, poetas da vida. Embora não nos comovam, ainda estão fazendo poesia. Se fôssemos suscetíveis ao poético, não seríamos imunes a seu modo de vida: teríamos incorporado essa poesia à nossa, teríamos impregnado nossas vidas da beleza que permeia as deles. A poesia do homem civilizado sempre foi exclusiva, esotérica. Isso acarretou sua própria extinção.
(...)
Se os homens se revelam incapazes de compreender a enormidade do presente, como poedrão raciocinar em termos de futuro? Há vários milhares de anos que raciocinamos em termos do passado. Agora, de um golpe só, todo esse passado misterioso se extinguiu. Existe só o futuro, nos contemplando cara a cara. Boceja feito uma voragem. É aterrador, todo mundo reconhece, mesmo começar a imaginar o que o futuro nos reserva. Muito mais aterrador do que foi o passado. Antes os monstros tinham proporções humanas; podia-se enfrentá-los, bastava ser heróico. Agora o monstro é invisível; existem aos bilhões num grão de areia. Devem ter reparado que continuo usando a linguagem da Velha Idade da Pedra. Falo como se o próprio átomo fosse o monstro, como se ele exercesse o poder, e nós não. Eis aí o tipo de logro que pregamos em nós mesmos desde que o homem começou a pensar. E eis aí, também, uma ilusão - fingir que em algum ponto remoto do passado o homem começou a pensar. O homem nem sequer começou a pensar. Mentalmente, ainda anda de quatro. Está tateando no meio do nevoeiro, de olhos fechados, o coração batendo de medo. E o que mais teme - Deus de misericórdia! - é a sua própria imagem.
poeta roqueiro
paulo leminski, anseios crípticos 2
Aí vem o primeiro marginal. Vivesse hoje, Rimbaud seria músico de rock. Drogado como o guitarrista Jimi Hendrix, bissexual como Mike Jagger, dos Rolling Stones. “Na estrada”, como toda uma geração de roqueiros. Nenhum poeta francês do século passado teve vida tão “contemporânea” quanto o gatão e “vidente” Arthur Rimbaud. Pasmou os contemporâneos com uma precocidade poética extraordinária — obras-primas entre os 15 e os 18 anos. De repente, largou tudo, Europa, civilização ocidental-cristã, literatura e, cometa, se mandou para a Abissínia, na África. Lá, longe da Europa branca e burguesa que odiava, levou a vida de mercador árabe, traficando armas, varando desertos nunca antes pisados, vivendo a grande aventura infantil, pré-figurada em seu nome de rei lendário. Breve durou esse Camelot. Da África, o rei Arthur voltaria à França para amputar uma perna e morrer, de câncer, num hospital de Marselha, delirando poesia, cercado por padres e sua irmã, ávidos pela confissão desse blasfemo.
(...)Enfim, como diz o próprio poeta: “Eu é um outro”. A melhor poesia de Rimbaud esteve, porém, em seu gesto final: a recusa do “sucesso”, a escolha do “fracasso”, a derrota da literatura, inimiga da poesia, para que esta triunfasse.
do desejo
O desejo é um tempo parado
É quando se trocam as datas dos bichos e das flores
É quando aumenta a rachadura da velha parede
É quando se vira a folha, a folha da história
É quando se pinta um fio branco na cabeleira preta
É quando se endurece o rastro de sorriso
No canto dos olhos
Eu sei que a viagem é longa
A voz vai e vem
Você ta aí?
Você ta aí?
Ei, você está aí?
Vontade de abraçar infinito
(Otto - Meu mundo)
IV
Se eu disser que vi um pássaro
Sobre o teu sexo, deverias crer?
E se não for verdade, em nada mudará o Universo.
Se eu disser que o desejo é Eternidade
Porque o instante arde interminável
Deverias crer? E se não for verdade
Tantos o disseram que talvez possa ser.
No desejo nos vêm sofomanias, adornos
Impudência, pejo. E agora digo que há um pássaro
Voando sobre o Tejo. Por que não posso
Pontilhar de inocência e poesia
Ossos, sangue, carne, o agora
E tudo isso em nós que se fará disforme?
(Hilda Hilst - Do desejo)