Henry Miller
Outrora, se bem me lembro, minha vida era um festim onde se abriam todos os corações, onde corriam todos os vinhos.
Uma noite, sentei a Beleza em meus joelhos. — E encontrei-a amarga. — E insultei-a.
Levantei-me em armas contra a justiça.
Fugi. Ó bruxas, ó miséria, ó ódio, é a vós que meu tesouro foi confiado!
Uma noite, sentei a Beleza em meus joelhos. — E encontrei-a amarga. — E insultei-a.
Levantei-me em armas contra a justiça.
Fugi. Ó bruxas, ó miséria, ó ódio, é a vós que meu tesouro foi confiado!
Arthur Rimbaud
O trabalho de assassinato - pois é do que se trata - em breve chegará ao fim. Quando se sufoca a voz do poeta, a história perde o sentido, e a ameaça escatológica irrompe como nova e terrível aurora nas consciências humanas. Somente agora, à beira do abismo, é possível compreender que “tudo o que nos ensinam é falso”. A prova dessa afirmação devastadora está aí, visível, todo dia em toda parte: no campo de batalha, no laboratório, na fábrica, na imprensa, na escola, na igreja. Vivemos inteiramente no passado, alimentados por pensamentos estéreis, crenças obsoletas, ciências mortas. E é o passado que nos devora, não o futuro. O futuro sempre foi e sempre será do poeta.
(...)
“Ele nunca ficará satisfeito”, escreve um biógrafo. “Sob o peso de seu olhar, todas as flores murcham, todas as estrelas empalidecem.” Sim, existe um pouco de verdade nisso. Sei, porque sofro do mesmo mal. Mas, se alguém sonhou com um império, o império humano, e atreve-se a refletir sobre a lentidão de lesma com que a nossa civilização ruma para a civilização desse sonho, é bem possível que o que chamado de atividade humana se reduza a uma insignificância. Não posso crer, nem por um instante, que flores murchassem ou estrelas empalidecessem perante os olhos de Rimbaud. Acho que no âmago de seu ser sempre manteve uma comunicação direta e fervorosa com elas. Foi no mundo dos homens que seu olhar cansado enxergou coisas murchas e sem brilho. No começo queria “ver tudo, sentir tudo, exaurir tudo, explorar tudo, dizer tudo”. Não demorou muito para sentir o freio na boca, as esporas nos flancos e o chicote nas costas. Basta alguém vestir-se de modo diferente de seus semelhantes para tornar-se objeto de escárnio e ridículo. A única lei realmente acatada de bom grado e sem hesitações é a do conformismo. Não admira que mero adolescente terminasse “descobrindo que o desequilíbrio de sua mente era sagrado”. A essa altura já era vidente. Percebeu, porém, que o consideravam palhaço e charlatão. Viu-se diante da alternativa de passar o resto da vida lutando para defender o terreno conquistado ou renuncar por completo a essa luta. Por que preferiu não transigir? Porque transigir não fazia parte de seu vocabulário. Fanático desde menino, não suportava deixar nada pela metade, do contrário morreria. Nisso consiste a sua pureza, a sua inocência.
Em todos esses traços redescubro a minha própria sina. Nunca desistir de lutar. Mas o preço que paguei! Tive que recorrer a táticas de guerrilha, essa luta vã oriunda do desespero. A obra que me dispus a escrever ainda não está escrita, ou apenas em parte. Só para erguer a voz, para falar do modo que me é peculiar, tive que lutar palmo a palmo. A luta quase abafou a canção. E venham me falar do peso do olhar que murcha flores e empalidece estrelas! Os meus olhos se tornaram positivamente corrosivos: é um milagre que sob a minha mirada impiedosa elas não se desintegrem com estrondo. Isso quanto ao âmago do meu ser. Quanto às aparências, bem, o homem que os outros veem aos poucos foi aprendendo a se acomodar às imposições do mundo. Hoje ele é capaz de estar nele sem fazer parte dele. Pode ser amável, gentil, benévolo, hospitaleiro. Por que não? “O verdadeiro problema”, como frisou Rimbaud, “é tornar a alma monstruosa”. O que significa não horrenda, mas prodigiosa! Qual o sentido de monstruoso? Segundo o dicionário, “qualquer ofrma organizada de vida extremamente anômala, seja por falta, excesso, deslocamento, ou distorção de partes ou órgãos; por conseguinte, tudo o que for horrendo ou anormal, ou constituído de partes ou caracteres inconsistentes, sejam repulsivos ou não”. A raiz vem do verbo latino moneo, advertir. Na mitologia, reconhecemos o monstruoso sob as formas de harpia, da górgone, da esfinge, do centauro, da dríade, da sereia. Todos são prodígios, que é o sentido essencial da palavra. Perturbaram a norma, o equilíbrio. O que significa isso senão o medo do homem comum? As almas tímidas sempre veem monstros pela frente, seja lá o nome que tenham, hipogrifos ou hitlerianos. O maior pavor humano é o da expansão da consciência. Toda a parte assustadora, hedionda da mitologia deriva desse medo. “Vivamos em paz e harmonia!”, suplica o medíocre. Mas a lei do universo de termina que a paz e a harmonia só podem ser conquistadas pela luta íntima. O medíocre não quer pagar o preço desse tipo de paz e harmonia; quer encontrá-lo já pronto, feito terno confeccionado em série na fábrica.
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Que choque para um poeta descobrir que Rimbaud renunciou à sua vocação! Equivale a dizer que renunciou ao Amor. Fosse qual fosse o motivo, o impulso decisivo foi sem dúvida a perda da fé. A consternação do poeta, a sua sensação de traição e logro, encontra paralelo na reação do cientista ao descobrir o uso que fazem de suas invenções. Fica-se tentado a comparar o ato de renúncia de Rimbaud com o lançamento da primeira bomba atômica. A repercussão, embora mais difundida no último caso, não é mais profunda. O coração registra o choque antes do resto do corpo. Leva algum tempo para que a noção da ruína se espalhe por todo o núcleo da civilização. Mas quandoRimbaud saiu pela porta dos fundos, a ruína já se tinha feito anunciar.
Como fiz bem em adiar a verdeira descoberta de Rimbaud! Se tiro conclusões totalmente diferentes de outros poetas a respeito de sua aparição e de suas manifestações na Terra, é com o mesmo espírito que os santos tiram conclusões extraordinárias a respeito da vinda de Cristo. Ou essas coisas representam acontecimentos marcantes na história da humanidade ou a arte de interpretação é falsa. Não tenho a menor dúvida de que um dia todos nós viveremos como Cristo viveu. Nem tampouco de que antes disso todos nós negaremos o nosso individualismo. Atingimos o ponto máximo do egoísmo, o estado atômico do ser. E seremos despedaçados. Preparamo-nos agora para a morte do pequeno ego a fim de que possa surgir o ego verdadeiro. Inconscientemente e sem querer, unificamos o mundo, mas também o nulificamos. Precisamos passar por uma morte coletiva para emergir como indivíduos autênticos. Se for verdade, como disse Lautréamont, que “a poesia deve ser feita por todos”, então temos que achar uma nova linguagem, em que um coração fale com o outro sem intermediários. Os nossos mútuos apelos precisam ser tão diretos e espontâneos como os do homem de Deus com Deus. O poeta hoje está obrigado a desistir de sua vocação porque já demonstrou seu desespero, já reconheceu a própria incapacidade de comunicar-se. Ser poeta era antigamente a vocação mais sublime; hoje é a mais fútil. E isso não porque o mundo seja imune ás súplicas do poeta, mas porque ele mesmo não acredita mais no caráter divino de sua missão. Já vem cantando fora do tom há mais ou menos um século; por fim não conseguimos mais sintonizar. O assobio da bomba ainda tem sentido para nós, mas os delírios do poeta parecem disparates. E são um disparate se, de uma população mundial de dois bilhões de habitantes, apenas um punhado finge entender o que o poeta individual está dizendo. O culto da arte não preenche sua finalidade quando só existe para meia dúzia de homens e mulheres privilegiados. Então não é mais arte, mas a linguagem cifrada de uma sociedade secreta para a propagação de uma individualidade descabida. A arte é algo que incita as paixões humanas, que dá visão, lucidez, coragem e fé. Que artista da palavra, nesses últimos anos, incitou o mundo como Hitler? Que poema abalou o mundo, recentemente, como a bomba atômica? Desde o advento de Cristo que não se viam cenas semelhantes a se desenrolarem, se multiplicarem, diariamente. Que armas tem o poeta, em comparação? Ou que sonhos? Onde foi parar a sua decantada imaginação? A realidade está aí, diante dos nossos próprios olhos, completamente nua, mas onde está o cântico para anunciá-la? Existe algum poeta visível, de quinta magnitude ao menos? Não vejo nenhum. Não chamo de poeta quem apenas faz versos, com ou sem rima. Para mim, poeta é aquele homem capaz de alterar profundamente o mundo. Se houver um poeta desses vivendo entre nós, que se proclame. Que levante a voz! Mas terá que ser uma voz que possa abafar o estrondo da bomba. E que use uma linguagem que derreta os corações humanos, que faça borbulhar o sangue.
Se a missão da poesia é despertar, há muito tempo que deveríamos ter acordado. É inegável que alguns acordaram. Mas agora são todos que devem despertar - e imediatamente -, senão pereceremos. Só que o homem jamais perecerá, fiquem tranquilos. O que corre o rico de perecer é a cultura, a civilização, o estilo de vida. Quando esses mortos despertarem, e é certo que despertarão, poesia será a própria essência da vida. Podemos arcar com a perda do poeta se em troca preservarmos a poesia. Não se precisa de papel nem tina para se criar ou disseminar a poesia. De modo geral, os povos primitivos são poetas da ação, poetas da vida. Embora não nos comovam, ainda estão fazendo poesia. Se fôssemos suscetíveis ao poético, não seríamos imunes a seu modo de vida: teríamos incorporado essa poesia à nossa, teríamos impregnado nossas vidas da beleza que permeia as deles. A poesia do homem civilizado sempre foi exclusiva, esotérica. Isso acarretou sua própria extinção.
(...)
Se os homens se revelam incapazes de compreender a enormidade do presente, como poedrão raciocinar em termos de futuro? Há vários milhares de anos que raciocinamos em termos do passado. Agora, de um golpe só, todo esse passado misterioso se extinguiu. Existe só o futuro, nos contemplando cara a cara. Boceja feito uma voragem. É aterrador, todo mundo reconhece, mesmo começar a imaginar o que o futuro nos reserva. Muito mais aterrador do que foi o passado. Antes os monstros tinham proporções humanas; podia-se enfrentá-los, bastava ser heróico. Agora o monstro é invisível; existem aos bilhões num grão de areia. Devem ter reparado que continuo usando a linguagem da Velha Idade da Pedra. Falo como se o próprio átomo fosse o monstro, como se ele exercesse o poder, e nós não. Eis aí o tipo de logro que pregamos em nós mesmos desde que o homem começou a pensar. E eis aí, também, uma ilusão - fingir que em algum ponto remoto do passado o homem começou a pensar. O homem nem sequer começou a pensar. Mentalmente, ainda anda de quatro. Está tateando no meio do nevoeiro, de olhos fechados, o coração batendo de medo. E o que mais teme - Deus de misericórdia! - é a sua própria imagem.
poeta roqueiro
paulo leminski, anseios crípticos 2
Aí vem o primeiro marginal. Vivesse hoje, Rimbaud seria músico de rock. Drogado como o guitarrista Jimi Hendrix, bissexual como Mike Jagger, dos Rolling Stones. “Na estrada”, como toda uma geração de roqueiros. Nenhum poeta francês do século passado teve vida tão “contemporânea” quanto o gatão e “vidente” Arthur Rimbaud. Pasmou os contemporâneos com uma precocidade poética extraordinária — obras-primas entre os 15 e os 18 anos. De repente, largou tudo, Europa, civilização ocidental-cristã, literatura e, cometa, se mandou para a Abissínia, na África. Lá, longe da Europa branca e burguesa que odiava, levou a vida de mercador árabe, traficando armas, varando desertos nunca antes pisados, vivendo a grande aventura infantil, pré-figurada em seu nome de rei lendário. Breve durou esse Camelot. Da África, o rei Arthur voltaria à França para amputar uma perna e morrer, de câncer, num hospital de Marselha, delirando poesia, cercado por padres e sua irmã, ávidos pela confissão desse blasfemo.
(...)Enfim, como diz o próprio poeta: “Eu é um outro”. A melhor poesia de Rimbaud esteve, porém, em seu gesto final: a recusa do “sucesso”, a escolha do “fracasso”, a derrota da literatura, inimiga da poesia, para que esta triunfasse.
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