"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

O castelo

Franz Kafka

Eles se abraçaram, o pequeno corpo ardia nas mãos de K., eles rolaram, num estado de esquecimento do qual K. tentava contínua mas inutilmente se livrar; alguns passos à frente, bateram surdamente na porta de Klamm e depois ficaram deitados nas pequenas poças de cerveja e outras sujeiras que cobriam o chão. Ali passaram-se as horas, horas de respiração confundida, de batidas comuns do coração, horas nas quais K. tinha sem parar o sentimento de que se perdia ou estivesse numa terra estranha como ninguém antes dele, uma terra estranha na qual até o ar não tinha nada de familiar e em cujas tentações sem sentido não era possível fazer nada senão ir em frente e continuar se perdendo.

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Ela buscava algo e ele buscava algo, ambos furiosos, fazendo caretas; enterrando a cabeça um no peito do outro eles se buscavam e seus abraços e seus corpos arqueados não os faziam esquecer, mas lembrar-se da obrigação de continuar buscando; como os cães raspam desesperadamente o chão, eles raspavam os seus corpos e, desamparados e decepcionados, para alcançar ainda uma última felicidade, eles às vezes passavam a larga língua sobre o rosto do outro. Só o cansaço os acalmava e os tornava mutuamente gratos.

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Só uma pessoa completamente estranha pode fazer uma pergunta como a sua. Se existem autoridades de controle? Existem apenas autoridades de controle. Evidentemente elas não se destinam a descobrir erros no sentido grosseiro da palavra, pois não ocorrem erros, e mesmo que aconteça um, como no seu caso, quem tem o direito de dizer de forma definitiva que é um erro?

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Chego agora a uma característica especial do nosso aparelho administrativo. Correspondendo à sua precisão ele é extremamente sensível. Quando um assunto foi ponderado durante longo tempo, pode acontecer — mesmo que as ponderações ainda não estejam concluídas — que de repente, rápida como um raio, surja uma solução num ponto imprevisível e mais tarde não mais encontrável, que encerra a questão de maneira o mais das vezes muito justa, embora certamente arbitrária. É como se o aparelho administrativo não suportasse mais a tensão, a excitação derivada durante anos da mesma questão, talvez em si própria insignificante, e tivesse tomado a decisão por espontânea vontade, sem a colaboração dos funcionários. Naturalmente não aconteceu nenhum milagre e sem dúvida algum funcionário escreveu a resolução ou encontrou uma decisão não escrita, mas de qualquer modo, pelo menos de nossa parte, daqui onde estamos, ninguém, nem mesmo da administração competente, pode estabelecer que funcionário decidiu nesse caso e por quais motivos. Só os serviços de controle são capazes de estabelecê-lo muito mais tarde, mas nós não ficamos sabendo de mais nada, aliás é difícil que depois alguém ainda se interesse. Como foi dito, porém, justamente essas decisões são na maioria das vezes ótimas, o único inconveniente delas é que só vêm a ser conhecidas tarde demais, conforme acontece em geral com essas coisas, e portanto se continua, nesse ínterim, a deliberar apaixonadamente sobre questões há muito tempo decididas.

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