"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Meu nome é Vermelho


Orhan Pamuk


Ouço a pergunta de vocês: o que é uma cor?

A cor é o toque do olho, a música do surdo, a palavra que vem das trevas. Como tenho ouvido há dezenas de milhares de anos as almas sussurrarem, como o vento nas noites de tempestade, de livro em livro, de objeto em objeto, posso lhes dizer que meu toque se parece com o toque dos anjos. Uma parte minha, a parte séria, mobiliza a vossa visão, enquanto a parte brincalhona voa nas alturas, seguida por vossos olhares.

Que sorte tenho de ser o Vermelho! Sou o fogo, sou a força! Todos me notam e me admiram, e ninguém resiste a mim.

Devo ser franco: para mim, o refinamento não se esconde na fraqueza nem na sutileza, mas reside na firmeza e na determinação. Eu me exponho, pois, aos olhares. Não tenho medo nem das cores nem das sombras; menos ainda da multidão ou da solidão. Que prazer tenho ao pegar uma superfície oferecida ao meu ardente triunfo: eu a encho, expando-me nela; os corações se embalam, o desejo aumenta, os olhos se arregalam e todos os olhares brilham! Olhem para mim: é bom viver! Vejam como é bom ver! Viver é ver. Podem me ver em toda parte, creiam: a vida começa e se acaba sempre comigo.

Mas silêncio! Ouçam o relato do meu maravilhoso nascimento, a origem do escarlate! Um mestre miniaturista, perito em pigmentos, esmagou bem miúdo com seu pilão, num almofariz, cochonilhas importadas de longínquas e tórridas paragens do Hindustão. Para cinco dracmas desse pó vermelho, preparou um dracma de saponária e meio — só meio! — de aventurina. Ferveu a saponária num pote com três okkas de água, depois dissolveu no líquido a aventurina. Deixou fervendo o tempo de tomar um bom café e enquanto o saboreava, eu me impacientava, como um bebê que vai vir à luz! O café clareou-lhe a mente, seus olhos cintilavam como os de um djim. Ele derramou então na panela o fino pó de cochonilha, mexendo regularmente com um pauzinho reservado para esse fim. Eu ia me tornar o autêntico vermelho-carmim, mas faltava-me ainda uma boa consistência, e a mistura não devia ferver nem de mais, nem de menos. Com a ponta do pauzinho, pôs uma gota na unha do polegar — qualquer outro dedo seria absolutamente inaceitável. Que êxtase ser o Vermelho! Pintei graciosamente sua unha, sem nenhum escorrido: a consistência estava perfeita, mas ainda restavam sedimentos. Ele tirou a panela do fogo e passou o conteúdo num pano bem fino e bem limpo para me purificar mais ainda. Levou-me novamente ao fogo para ferver mais duas vezes, depois acrescentou uma pitada de alúmen, antes de me pôr para esfriar.

Passaram-se alguns dias, e eu continuava descansando no fundo da panela, sem ser misturado a nada mais. Ora, eu estava ansioso para que me passassem em cada canto de página, em tudo e em toda parte. Ficar quieto assim doía no meu coração e no meu espírito. Foi durante esse período de profundo silêncio que meditei sobre o significado de ser vermelho.

Uma vez, na Ásia Central, quando um belo aprendiz me passava com seu pincel na sela de um cavalo que um velho pintor cego desenhara de memória, surpreendi a animada discussão que dois pintores, também cegos, travavam a meu respeito:

“Embora, após toda uma vida de trabalho ardorosamente devotada a nossa arte, estejamos privados do sentido da visão, nós conhecemos o vermelho e lembramos que tipo de cor e de sentimento ele é”, dizia o que havia desenhado o cavalo na folha de papel. “E se tivéssemos nascido cegos? Como teríamos podido compreender esse vermelho que nosso formoso aprendiz está usando?”

“Belo tema”, disse o outro, “mas não se esqueça que as cores não são para ser compreendidas, e sim sentidas.”

“Caro mestre, procure então explicar o vermelho a quem nunca conheceu o vermelho.”

“Se o tocarmos com a ponta dos dedos, sentiremos algo entre o cobre e o ferro. Se o puséssemos na palma da mão, ele queimaria. Se o provássemos, teria um gosto encorpado, como charque salgado. Se o colocássemos entre nossos lábios, ele encheria nossa boca. Se o cheirássemos, teria um cheiro de cavalo. Se fosse uma flor, teria um aroma que lembraria muito mais a margarida do que a rosa.”

Na época (cem anos atrás), a pintura dos europeus ainda não era uma verdadeira ameaça, salvo algum capricho excepcional e passageiro de um dos nossos sultões, e nossos mestres lendários acreditavam em seus métodos tão fervorosamente quanto em Alá, considerando um desrespeito e uma vulgaridade o uso idiota que aqueles bárbaros faziam das nuances de diversos vermelhos nas carnes e nos ferimentos à espada, e até num simples saco de pano, em suas pinturas de infiéis. Só mesmo um bárbaro medroso, fraco e volúvel podia reunir vários vermelhos num manto vermelho, diziam eles. E as sombras, acrescentavam, não passam de péssima desculpa. De resto, só acreditávamos num único vermelho.

“Qual o significado do vermelho?”, voltou a perguntar o pintor cego que havia desenhado o cavalo.

“O significado da cor é que ela está diante de nós e nós a vemos”, respondeu o outro. “O vermelho não pode ser explicado a quem não vê.”

Nenhum comentário: