"há sempre um copo de mar para um homem navegar" - jorge de lima
Quando os cronópios saem em viagem, encontram os hotéis cheios, os trens já partiram, chove a cântaros e os táxis não querem levá-los ou lhes cobram preços altíssimos. Os cronópios não desanimam porque acreditam piamente que estas coisas acontecem a todo o mundo, e na hora de dormir dizem uns aos outros: “Que bela cidade, que belíssima cidade”. E sonham a noite toda que na cidade há grandes festas e que eles foram convidados. E no dia seguinte levantam contentíssimos, e é assim que os cronópios viajam.
(Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas)
(Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas)
"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios
domingo, 29 de janeiro de 2017
limites ao léu
Leminski
POESIA: “words set to music” (Dante
via Pound), “uma viagem ao
desconhecido” (Maiakóvski), “cernes
e medulas” (Ezra Pound), “a fala do
infalável” (Goethe), “linguagem
voltada para a sua própria
materialidade” (Jakobson),
“permanente hesitação entre som e
sentido” (Paul Valery), “fundação do
ser mediante a palavra” (Heidegger),
“a religião original da humanidade”
(Novalis), “as melhores palavras na
melhor ordem” (Coleridge), “emoção
relembrada na tranquilidade”
(Wordsworth), “ciência e paixão”
(Alfred de Vigny), “se faz com
palavras, não com ideias” (Mallarmé),
“música que se faz com ideias”
(Ricardo Reis/Fernando Pessoa), “um
fingimento deveras” (Fernando
Pessoa), “criticismo of life” (Mathew
Arnold), “palavra-coisa” (Sartre),
“linguagem em estado de pureza
selvagem” (Octavio Paz), “poetry is to
inspire” (Bob Dylan), “design de
linguagem” (Décio Pignatari), “lo
impossible hecho possible” (Garcia
Lorca), “aquilo que se perde na
tradução (Robert Frost), “a liberdade
da minha linguagem” (Paulo Leminski)…
*"if prose is a house, poetry is a man on fire running quite fast through it". (Anne Carson)
**"o delírio do verbo" (Manoel de Barros)
quarta-feira, 25 de janeiro de 2017
Salvo o crepúsculo
Julio Cortázar
Um poema de Bashô dá título a este livro: "Este caminho / já ninguém o percorre / salvo o crepúsculo". Um caminho que, evidentemente, não é de direção única. Nunca quis borboletas pregadas numa cartolina; busco uma ecologia poética, espreitar-me e reconhecer-me a partir de mundos diferentes, a partir de coisas que só os poemas não haviam esquecido e me guardavam como velhas fotografias fiéis. Não aceitar outra ordem que a das afinidades, outra cronologia que a do coração, outro horário que o dos encontros a deshora, os verdadeiros.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
o salto na escuridão
Muitas podem ser as pátrias, me ocorre agora, mas um só o passaporte, e esse passaporte evidentemente é a qualidade da literatura. Que não significa escrever bem, porque isso qualquer um pode fazer. Então o que é uma escritura de qualidade? Pois o que sempre foi: saber meter a cabeça no escuro, saber saltar no vazio, saber que a literatura é basicamente um ofício perigoso.
(Roberto Bolaño)
O prestígio é uma armadilha dos nossos semelhantes. Um artista consciente saberá que o êxito é prejuízo. Deve-se estar disponível para decepcionar os que confiaram em nós. Decepcionar é garantir o movimento. A confiança dos outros lhes diz respeito. A nós mesmos diz respeito outra espécie de confiança. A de que somos insubstituíveis na nossa aventura e de que ninguém a fará por nós.
(Herberto Helder)
(Roberto Bolaño)
O prestígio é uma armadilha dos nossos semelhantes. Um artista consciente saberá que o êxito é prejuízo. Deve-se estar disponível para decepcionar os que confiaram em nós. Decepcionar é garantir o movimento. A confiança dos outros lhes diz respeito. A nós mesmos diz respeito outra espécie de confiança. A de que somos insubstituíveis na nossa aventura e de que ninguém a fará por nós.
(Herberto Helder)
Mapas dos sonhos
Os brancos dormem deitados perto do chão, em camas, nas quais se agitam com desconforto. Seu sono é ruim e seu sonho tarda a vir. E quando afinal chega, nunca vai longe e acaba muito depressa. Não há dúvida de que eles têm muitas antenas e rádios em suas cidades, mas estes servem apenas para escutar a si mesmos. Seu saber não vai além das palavras que dirigem uns aos outros em todos os lugares onde vivem. As palavras dos xamãs são diferentes. Elas vêm de muito longe e falam de coisas desconhecidas pelas pessoas comuns. Os brancos, que não bebem yãkoana e não fazem dançar os espíritos, as ignoram. Não são capazes de ver Hutukarari, o espírito do céu, nem Xiwãripo, o do caos.Tampouco veem as imagens dos ancestrais animais yarori, nem as dos espíritos da floresta, urihinari. Omama não lhes ensinou nada disso. Seu pensamento fica esfumaçado porque eles dormem amontoados uns em cima dos outros em seus prédios, no meio dos motores e das máquinas.
(...) Nós, Yanomami, quando queremos conhecer as coisas, esforçamo-nos para vê-las no sonho. Esse é o modo nosso de ganhar conhecimento.
(A queda do céu, Davi Kopenawa e Bruce Abert)
O sonho é a pior das cocaínas, porque é a mais natural de todas. Assim se insinua nos hábitos com a facilidade que uma das outras não tem, se prova sem se querer, como um veneno dado. Não dói, não descora, não abate - mas a alma que dele usa fica incurável, porque não há maneira de se separar do seu veneno, que é ela mesma.
Como um espectáculo na bruma.
Aprendi nos sonhos a coroar de imagens as frontes do quotidiano, a dizer o comum com estranheza, o simples com derivação, a dourar, com um sol de artifício, os recantos e os móveis mortos e [a] dar música, como para me embalar, quando as escrevo, às frases fluidas da minha fixação.
(Livro do desassossego, Fernando Pessoa)
sexta-feira, 13 de janeiro de 2017
Encontro Inesperado
Wislawa Szymborska
Somos incrivelmente corteses um com o outro,
dizemos: que bom te rever depois de tantos anos.
Nossos tigres bebem leite.
Nossos falcões andam, não voam.
Nossos tubarões morrem afogados no mar.
Nossos lobos bocejam diante da porta aberta da jaula.
Nossas cobras perderam seu relâmpago,
nossos macacos, a inspiração; nossos pavões reais, as plumas.
Faz tempo que os morcegos abandonaram nossos cabelos.
Sucumbimos ao silêncio sem terminar a frase,
sorrimos, sem outro recurso.
Os humanos em nós
não sabem o que dizer.
dizemos: que bom te rever depois de tantos anos.
Nossos tigres bebem leite.
Nossos falcões andam, não voam.
Nossos tubarões morrem afogados no mar.
Nossos lobos bocejam diante da porta aberta da jaula.
Nossas cobras perderam seu relâmpago,
nossos macacos, a inspiração; nossos pavões reais, as plumas.
Faz tempo que os morcegos abandonaram nossos cabelos.
Sucumbimos ao silêncio sem terminar a frase,
sorrimos, sem outro recurso.
Os humanos em nós
não sabem o que dizer.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2017
sobre especialistas e vencedores
Um especialista é um homem que sabe qualquer coisa de uma coisa e nada de todas as coisas. De uma coisa não se pode saber senão qualquer coisa, porque o conhecimento humano é limitado. E, para perceber qualquer coisa seria preciso perceber todas as coisas, pois uma coisa é parte de todas as coisas. O especialista, pois, é um homem que não sabe nada e vive dessa ciência.
O especialista é útil apenas quando a sua especialidade é tão restrita que não tem importância. Pode haver bons especialistas de pregar pregos; não pode haver bons especialistas de construção de civilizações. Há muito bons cavadores e nenhum bom psiquiatra.
O especialista é um homem que tem a opinião dos outros, embora sobre um só assunto. O especialista é incapaz de iniciativa. Por isso os especialistas são muitos e felizes.
(Álvaro de Campos/Fernando Pessoa)
Os perdedores, assim como os autodidatas, sempre têm conhecimentos mais vastos que os vencedores, e quem quiser vencer deverá saber uma única coisa e não perder tempo sabendo todas, o prazer da erudição é reservado aos perdedores. Quanto mais coisas uma pessoa sabe, menos coisas deram certo para ela.
(Umberto Eco, Número Zero)
segunda-feira, 9 de janeiro de 2017
Elogio ao tédio
Joseph Brodsky
De certa forma, o tédio é a janela para o tempo, com vista para aquelas propriedades que costumamos ignorar pelo bem de nosso equilíbrio mental. Resumindo, é a janela para o infinito do tempo, o que significa que é a janela para nossa insignificância nele. É o que explica, talvez, o pavor de noites solitárias e apáticas, ou o fascínio com que às vezes assistimos às circunvoluções do pó num raio de sol, e ouvimos o tique-taque de um relógio, o dia está quente, e abaixo de zero a nossa força de vontade.
Uma vez aberta a janela, não tentem fechá-la; ao contrário, é melhor escancará-la. Pois o tédio fala a língua do tempo e ensina a lição mais valiosa da vida, algo que não se aprende aqui, nesses gramados verdejantes: nossa absoluta irrelevância.
(...) Somos irrelevantes porque somos finitos. No entanto,quanto mais finita uma coisa, mas repleta de vida, emoções, alegria, medos, compaixão. Pois o infinito não é incrivelmente vivo, não é incrivelmente emocionante. O tédio, pelo menos, nos diz isso. Porque nosso tédio é o tédio do infinito.
sábado, 7 de janeiro de 2017
A face de Deus é vespas
Adélia Prado
Queremos ser felizes.
Felizes como os flagelados da cheia,
que perderam tudo
e dizem-se uns aos outros nos alojamentos:
‘Graças a Deus, podia ser pior!’
Ó Deus, podemos gemer sem culpa?
Desde toda a vida a tristeza me acena,
o pecado contra Vosso Espírito
que é espírito de alegria e coragem.
Acho bela a vida e choro
porque a vida é triste,
incruenta paixão servida de seringas,
comprimidos minúsculos e dietas.
Eu não sei quem sou.
Sem me sentir banida experimento degredo.
Mas não recuso os marimbondos armando suas caixas
porque são alegres como posso ser,
são dádivas,
mistérios cuja resposta agora é só uma luz,
a pacífica luz das coisas instintivas.
Queremos ser felizes.
Felizes como os flagelados da cheia,
que perderam tudo
e dizem-se uns aos outros nos alojamentos:
‘Graças a Deus, podia ser pior!’
Ó Deus, podemos gemer sem culpa?
Desde toda a vida a tristeza me acena,
o pecado contra Vosso Espírito
que é espírito de alegria e coragem.
Acho bela a vida e choro
porque a vida é triste,
incruenta paixão servida de seringas,
comprimidos minúsculos e dietas.
Eu não sei quem sou.
Sem me sentir banida experimento degredo.
Mas não recuso os marimbondos armando suas caixas
porque são alegres como posso ser,
são dádivas,
mistérios cuja resposta agora é só uma luz,
a pacífica luz das coisas instintivas.
O fim do homem soviético
Svetlana Alexievich
Não canso de me surpreender como a vida comum é interessante, como são infinitas as verdades humanas. A história se interessa apenas pelos fatos, as emoções ficam à margem. Eu, porém, não olho para o mundo com os olhos de historiadora. E me surpreendo.
(...)
Estou procurando uma linguagem. O ser humano tem muitas linguagens: aquela com que se conversa com as crianças, aquela com que se fala de amor… Mas há também a linguagem com que falamos conosco mesmos, com a qual construímos nossas conversas interiores. Na rua, no trabalho, em viagens: em todo lugar, ressoa algo diferente, não só mudam as palavras, mas alguma outra coisa. De manhã as pessoas falam de um jeito, à noite, de outro. E o que acontece de madrugada entre duas pessoas desaparece completamente da história. Nós nos relacionamos apenas com a história do homem diurno. O suicídio é um tema noturno, o ser humano se encontra na fronteira entre o ser e o não ser. Na fronteira do sonho. Quero compreender isso exatamente como entendo o homem diurno. E me disseram: “Não tem medo de gostar?”
Não canso de me surpreender como a vida comum é interessante, como são infinitas as verdades humanas. A história se interessa apenas pelos fatos, as emoções ficam à margem. Eu, porém, não olho para o mundo com os olhos de historiadora. E me surpreendo.
(...)
Estou procurando uma linguagem. O ser humano tem muitas linguagens: aquela com que se conversa com as crianças, aquela com que se fala de amor… Mas há também a linguagem com que falamos conosco mesmos, com a qual construímos nossas conversas interiores. Na rua, no trabalho, em viagens: em todo lugar, ressoa algo diferente, não só mudam as palavras, mas alguma outra coisa. De manhã as pessoas falam de um jeito, à noite, de outro. E o que acontece de madrugada entre duas pessoas desaparece completamente da história. Nós nos relacionamos apenas com a história do homem diurno. O suicídio é um tema noturno, o ser humano se encontra na fronteira entre o ser e o não ser. Na fronteira do sonho. Quero compreender isso exatamente como entendo o homem diurno. E me disseram: “Não tem medo de gostar?”
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