"há sempre um copo de mar para um homem navegar" - jorge de lima
Quando os cronópios saem em viagem, encontram os hotéis cheios, os trens já partiram, chove a cântaros e os táxis não querem levá-los ou lhes cobram preços altíssimos. Os cronópios não desanimam porque acreditam piamente que estas coisas acontecem a todo o mundo, e na hora de dormir dizem uns aos outros: “Que bela cidade, que belíssima cidade”. E sonham a noite toda que na cidade há grandes festas e que eles foram convidados. E no dia seguinte levantam contentíssimos, e é assim que os cronópios viajam.
(Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas)
"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios
Amor, então, também, acaba? Não, que eu saiba. O que eu sei é que se transforma numa matéria-prima que a vida se encarrega de transformar em raiva. Ou em rima.
Tudo bem que se pode dizer que o conteúdo desse texto é de auto-ajuda, mas também se pode dizer que é poético. Enfim, selecionei alguns trechos que achei mais criativos e bonitos, ao menos fazem refletir... E lembrar que “o acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído”, o que talvez nem sempre seja verdade (será?), mas é necessário crer às vezes... Ah, desconheço a autoria, em alguns sites dizem que é de Clarice Lispector, mas tenho certeza que não.
“Mude, mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade. Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa. Mais tarde mude de mesa. Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua. Depois, mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente, observando com atenção os lugares por onde você passa. Tome outros ônibus.
Durma no outro lado da cama... Depois, procure dormir em outras camas.
Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as.
Seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa, longa, se possível sem destino.
Experimente coisas novas. Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez. Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as já conhecidas, mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia.
A maioria dos homens arruína suas vidas por força de um altruísmo doentio e extremado - são forçados, deveras, a arruiná-las. Acham-se cercados dos horrores da pobreza, dos horrores da fealdade, dos horrores da fome. É inevitável que se sintam fortemente tocados por tudo isso. As emoções do homem são despertadas mais rapidamente que sua inteligência; e, como ressaltei há algum tempo em um ensaio sobre a função da crítica, é bem mais fácil sensibilizar-se com a dor do que com a idéia. Conseqüentemente, com intenções louváveis embora mal aplicadas, atiram-se, graves e compassivos, à tarefa de remediar os males que vêem. Mas seus remédios não curam a doença: só fazem prolongá-la. De fato, seus remédios são parte da doença. Buscam solucionar o problema da pobreza, por exemplo, mantendo vivo o pobre; ou, segundo uma teoria mais avançada, entretendo o pobre. Mas isto não é uma solução: é um agravamento da dificuldade. A meta adequada é esforçar-se por reconstruir a sociedade em bases tais que nela seja impossível à pobreza. E as virtudes altruístas têm na realidade impedido de alcançar essa meta. Os piores senhores eram os que se mostravam mais bondosos para com seus escravos, pois assim impediam que o horror do sistema fosse percebido pelos que o sofriam, e compreendido pelos que o contemplavam. Da mesma forma, nas atuais circunstâncias na Inglaterra, os que mais dano causam são os que mais procuram fazer o bem. Por fim presenciamos o espetáculo de homens que estudaram realmente o problema e conhecem a vida - homens cultos do East End - virem a público implorar à comunidade que refreie seus impulsos altruístas de caridade, benevolência e coisas desta sorte. Fazem-no com base em que essa caridade degrada e desmoraliza. No que estão perfeitamente certos. A caridade cria uma legião de pecados. E há mais: é imoral o uso da propriedade privada com o fim de mitigar os males horríveis decorrentes da instituição da propriedade privada. É tão imoral quanto injusto. Com o Socialismo, tudo isso naturalmente será mudado. Não haverá pessoas enfiadas em antros e em trapos imundos, criando filhos doentes e oprimidos pela fome, em ambientes insuportáveis e repulsivos ao extremo. A segurança da sociedade não dependerá, como hoje, das condições climáticas. Se cair uma geada, não teremos uma centena de milhares de homens desempregados, vagando pelas ruas em estado repugnante de miséria, implorando esmolas ao próximo, ou apinhando-se às portas de albergues abomináveis para garantir um pedaço de pão e a pousada suja por uma noite. Cada cidadão irá compartilhar da prosperidade e felicidade geral da sociedade; e, se vier uma geada, ninguém será prejudicado. Por outro lado, o Socialismo em si terá significado simplesmente porque conduzirá ao Individualismo. Socialismo, Comunismo, ou que nome se lhe dê, ao transformar a propriedade privada em bem público, e ao substituir a competição pela cooperação, há de restituir à sociedade sua condição própria de organismo inteiramente sadio, e há de assegurar o bem-estar material de cada um de seus membros. Devolverá, de fato, à Vida, sua base e seu meio naturais. Mas, para que a Vida se desenvolva plenamente no seu mais alto grau de perfeição, algo mais se faz necessário. O que se faz necessário é o Individualismo. Se o Socialismo for Autoritário; se houver governos armados de poderes econômicos como estão agora armados de poderes políticos; se, numa palavra, houver Tiranias Industriais, então o derradeiro estado do homem será ainda pior que o primeiro. Atualmente, em virtude da existência da propriedade privada, muitos têm condições de desenvolver um certo grau bastante limitado de Individualismo. Ou estão desobrigados da necessidade de trabalhar para sustento próprio, ou em condições de escolher a esfera de atividade que seja realmente compatível com sua índole e lhes dê satisfação. Estes são os poetas, os filósofos, os homens da ciência, os homens da cultura - numa palavra, os verdadeiros homens, os que fizeram verdadeira sua individualidade, e nos quais todo o Humano alcança uma parcela dessa verdade. Por outro lado, há muitos que, por não possuírem qualquer propriedade privada, e por estarem sempre à beira da inanição completa, são compelidos a fazer o trabalho de bestas de carga, a fazer um trabalho totalmente incompatível com sua índole, ao qual são forçados pelo compulsório, absurdo e degradante jugo da privação. Estes são os pobres, e entre eles não há elegância nas maneiras nem encanto no discurso, civilização, cultura, refinamento nos prazeres, ou alegria de viver. Da força coletiva deles, a Humanidade ganha muito em prosperidade material. Mas o que ela ganha é apenas o produto material, e o homem pobre não tem em si mesmo nenhuma importância. É apenas o átomo infinitesimal de uma força que, longe de tê-lo em consideração, esmaga-o. Na verdade prefere-o esmagado, de vez que nesse caso ele é bem mais obediente. Naturalmente, poder-se-ia dizer que o Individualismo que se desenvolve sujeito às condições da propriedade privada nem sempre, ou sequer em regra, é de espécie refinada ou admirável, e que os pobres, se não têm cultura e atrativos, guardam, no entanto muitas virtudes. Ambas as declarações seriam bastante verdadeiras. A posse da propriedade privada é amiúde desmoralizante ao extremo, e esta é, evidentemente, uma das razões por que o Socialismo quer se ver livre dessa instituição. De fato, a propriedade é um estorvo. Alguns anos atrás, saiu-se pelo país dizendo que a propriedade tem obrigações. Disseram-no tantas vezes e tão fastidiosamente que, por fim, a Igreja começou a repeti-lo. Falam-no agora em cada púlpito. É a pura verdade. A propriedade não apenas tem obrigações, mas tantas que sua posse em grandes dimensões toma-se um fardo. Exige dedicação sem fim aos negócios, um sem-fim de deveres e aborrecimentos. Se a propriedade proporcionasse somente prazeres, poderíamos suportá-la, mas suas obrigações a tomam intolerável. Para bem dos ricos, devemos nos ver livres dela. Algumas virtudes dos pobres são prontamente aceitas, e há muitas a lamentar. Freqüentemente ouvimos dizer que os pobres são gratos pela caridade. Decerto alguns são gratos, mas nunca os melhores dentre eles. São ingratos, insatisfeitos, desobedientes e rebeldes. Têm toda razão em o serem. Para eles, a caridade é uma forma ridícula e inadequada de restituição parcial, ou esmola piedosa, em geral acompanhada de alguma tentativa por parte da alma apiedada de tiranizar suas vidas. Por que deveriam ser gratos pelas migalhas que caem da mesa do homem rico? Deveriam é estar sentados a ela, e já começam a se dar conta disso. Quanto à insatisfação, aquele que não se sentisse insatisfeito com essa condição inferior de vida seria um perfeito estúpido. A desobediência é, aos olhos de qualquer estudioso de História, a virtude original do homem. É através da desobediência que se faz o progresso, através da desobediência e da rebelião. Às vezes elogiam-se os pobres por serem parcimoniosos. Mas recomendar-lhes parcimônia é tão grotesco quanto insultuoso. É como aconselhar a um homem que esteja passando fome que coma menos. Que um trabalhador do campo ou da cidade usasse de parcimônia, seria absolutamente imoral. Um homem não deveria estar pronto a mostrar-se capaz de viver como um animal mal alimentado. Deveria recusar-se a viver assim, e deveria ou roubar ou viver às expensas do Estado, o que muitos consideram uma forma de roubo. Quanto a pedir esmolas, é mais seguro pedir do que tomar, mas é bem mais digno tomar do que pedir. Não: um homem pobre que seja ingrato, perdulário, insatisfeito e rebelde possui decerto uma personalidade plena e verdadeira. Constitui, de qualquer forma, um protesto sadio. Quanto aos pobres virtuosos, é natural que deles se tenha piedade, mas não admiração. Fizeram um acordo secreto com o inimigo e venderam seus direitos inatos em troca de um péssimo prato de comida. Devem também ser muito tolos. Posso compreender que um homem aceite as leis que protegem a propriedade privada e admita sua acumulação, desde que nessas circunstâncias ele próprio seja capaz de atingir alguma forma de existência harmoniosa e intelectual. Parece-me, porém, quase inacreditável que um homem cuja existência se perdeu e abrutalhou por força dessas mesmas leis possa vir a concordar com sua vigência. Mas não é muito difícil encontrar a explicação disso. Está simplesmente no fato de que as desgraças da pobreza são degradantes ao extremo e exercem de tal forma um efeito paralisador sobre a natureza humana que classe alguma tem consciência de seu próprio sofrimento. A outros cabe dar-lhes essa consciência, no que são quase sempre desacreditados. É a pura verdade o que os empregadores de mão-de-obra criticam nos agitadores. Estes são um grupo de pessoas que se infiltra e interfere em uma determinada classe social que se encontre perfeita mente satisfeita, para nela lançar as sementes da insatisfação. Eis a razão por que os agitadores são tão necessários. Sem eles, em nosso Estado imperfeito, não haveria nenhum avanço rumo à civilização. Nos Estados Unidos, a escravidão não foi abolida em conseqüência de alguma ação por parte dos escravos ou mesmo de sua vontade explícita de que deveriam ser livres. Foi abolida graças apenas à conduta completamente ilegal de alguns agitadores em Boston e em outras partes do país, os quais não eram escravos ou donos de escravos, nem tinham nada a ver realmente com a questão. Foram, sem dúvida, os abolicionistas que acenderam a chama, que deram início a tudo. E é curioso observar que dos próprios escravos partiu não só uma ajuda pouco significativa como quase nenhuma solidariedade. Quando no fim da guerra os escravos se viram livres - viram-se, com efeito, tão livres que estavam livres até para passar fome - muitos deles lamentaram amargamente o novo estado de coisas. Para o pensador, o fato mais trágico em toda a Revolução Francesa não é que Maria Antonieta tenha sido morta por ser uma rainha, mas que o camponês do Vendée tenha partido voluntariamente para morrer pela hedionda causa do feudalismo. Fica claro, então, que nenhum Socialismo Autoritário servirá. Pois enquanto no sistema atual muitos podem levar a vida com certo grau de liberdade, direito de expressão e felicidade, num sistema de aquartelamento industrial, ou num sistema de tirania industrial, absolutamente ninguém poderá desfrutar de uma liberdade dessa natureza. É lamentável que parte de nossa comunidade social viva praticamente escravizada, mas é ingenuidade propor-se resolver o problema submetendo toda a comunidade à escravidão. Todo homem tem o direito de ser inteiramente livre para escolher seu próprio trabalho. Não deve sofrer nenhuma forma de coação. Se alguma houver, seu trabalho não será bom para ele, nem em si mesmo, nem para os outros. E por trabalho entendo simplesmente atividade de qualquer espécie. Penso que dificilmente algum socialista, nos dias de hoje, levaria a sério a proposta de que um inspetor devesse bater, todas as manhãs, de casa em casa, para ver se cada cidadão levantou-se e cumpriu sua jornada de oito horas de trabalho braçal. A Humanidade ultrapassou esse estágio, reservando essa forma de vida àqueles que convencionou arbitrariamente chamar de criminosos. Mas confesso que muitos dos pontos de vista socialistas com que tenho deparado parecem-me contaminados por idéias de autoridade, se não de verdadeira coação. Evidentemente, tanto uma como outra são inadmissíveis. É necessário que toda associação seja voluntária, pois somente numa associação voluntária o homem é justo. Pode-se perguntar como a supressão da propriedade privada poderá beneficiar o Individualismo, cujo desenvolvimento depende hoje em certa medida da existência dessa mesma propriedade privada. A resposta é muito simples. É verdade que, nas condições atuais, uns poucos homens que dispunham de recursos próprios, como Byron, Shelley, Browning, Victor Hugo, Baudelaire e outros, conseguiram dar expressão à sua individualidade de forma mais ou menos completa. Nenhum desses homens trabalhou um só dia como assalariado. Estavam livres da pobreza, e esta foi sua grande vantagem. A questão é saber se, no interesse do Individualismo, essa vantagem deva ser eliminada. Suponhamos que ela o seja. Que acontecerá então ao Individualismo? Como ele se beneficiará? Ele se beneficiará da seguinte forma: sob as novas condições, o Individualismo será bem mais livre, justo e fortalecido do que é hoje. Não me refiro ao Individualismo elevado, concebido na imaginação desses poetas que mencionei, mas ao elevado e verdadeiro Individualismo, virtual e latente em toda humanidade. A admissão da propriedade privada, de fato, prejudicou o Individualismo e o obscureceu ao confundir um homem com o que ele possui. Desvirtuou por inteiro o Individualismo. Fez do lucro, e não do aperfeiçoamento, o seu objetivo. De modo que o homem passou a achar que o importante era ter, e não viu que o importante era ser. A verdadeira perfeição do homem reside não no que o homem tem, mas no que o homem é. A propriedade privada esmagou o verdadeiro Individualismo e criou um Individualismo falso. Impediu que uma parcela da comunidade social se individualizasse, fazendo-a passar fome. E também à outra, desviando-a do rumo certo e interpondo-lhe obstáculos no caminho. De fato, a personalidade do homem foi tão completamente absorvida por suas posses que a justiça inglesa sempre tratou com um rigor muito maior as transgressões contra a propriedade do que as transgressões contra a pessoa, e a propriedade ainda é a garantia da cidadania plena. Os meios indispensáveis à obtenção de dinheiro são também muito aviltantes. Numa sociedade como a nossa, em que a propriedade confere distinção, posição social, honra, respeito, títulos e outras coisas agradáveis da mesma ordem, o homem, por natureza ambicioso, fez do acúmulo dessa propriedade seu objetivo, e perseguirá sempre esse acúmulo, exaustivo e tedioso, ainda que venha a obter bem mais do que precise, possa usar ou desfrutar, ou mesmo que chegue até a ignorar quanto possui. O homem irá se matar por excesso de trabalho com o fim de garantir a propriedade, o que não é de surpreender, diante das enormes vantagens que ela oferece. É de lamentar que a sociedade, construída nessas bases, force o homem a uma rotina que o impede de desenvolver livremente o que nele há de maravilhoso, fascinante e agradável - rotina em que, de fato, perde o prazer verdadeiro e a alegria de viver. Nas atuais condições, o homem se sente também muito inseguro. É possível que um comerciante riquíssimo se encontre - e em geral se encontra - a todo instante da vida à mercê de coisas que lhe escapam ao controle. Quando o vento sopra um nó a mais, ou o tempo muda de repente, ou ocorre algum fato insignificante, poderá ver o navio ir a pique, enganar-se nas especulações e se descobrir em meio à pobreza - a posição social por água abaixo. Nada poderia prejudicar um homem a não ser ele próprio. Nada poderia lesá-lo. O que um homem realmente tem, é o que está nele. O que está fora dele deveria ser coisa sem importância. Abolida a propriedade privada, haveremos de ter o Individualismo verdadeiro, harmonioso e forte. Ninguém desperdiçará a vida acumulando coisas ou à cata de símbolos para elas. Haverá vida. Viver é o que há de mais raro neste mundo. Muitos existem, e é só.
Tinha cá pra mim Que agora sim Eu vivia enfim o grande amor Mentira Me atirei assim De trampolim Fui até o fim um amador Passava um verão A água e pão Dava o meu quinhão pro grande amor Mentira Eu botava a mão No fogo então Com meu coração de fiador
Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito Exijo respeito, não sou mais um sonhador Chego a mudar de calçada Quando aparece uma flor E dou risada do grande amor Mentira
Fui muito fiel Comprei anel Botei no papel o grande amor Mentira Reservei hotel Sarapatel E lua-de-mel em Salvador Fui rezar na Sé Pra São José Que eu levava fé no grande amor Mentira Fiz promessa até Pra Oxumaré De subir a pé o Redentor
Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito Exijo respeito, não sou mais um sonhador Chego a mudar de calçada Quando aparece uma flor E dou risada do grande amor Mentira
Olha, não sou daqui, me diga onde estou, não há tempo, não há nada que me faça ser quem sou, mas sem parar pra pensar, sigo estradas, sigo pistas pra me achar, e por sempre andar, andar, pequenas coisas vão ficando pra trás, pela longa estrada eu vou, estrada eu sou, deixe-me ir, preciso andar... O trem da juventude é veloz, quando foi olhar já passou, não tenho mais o tempo que passou, mas tenho muito tempo, temos todo o tempo do mundo, esse é só o começo do fim da nossa vida... O futuro é hoje e cabe na palma da mão, mas o tempo não pára e escorre pelas mãos, mesmo sem se sentir, enquanto as pessoas na sala de jantar são ocupadas em nascer e morrer... De repente a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa morna e ingênua que vai ficando no caminho, que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado pela beleza do que aconteceu há minutos atrás. Eu às vezes fico a pensar em outra vida ou lugar (cada ser tem sonhos à sua maneira), estou cansado demais, mas não pra dizer que estou indo embora, eu quero dar o fora, está provado: quem espera nunca alcança, aja duas vezes antes de pensar. A vida não está certa nem errada, aguarda apenas nossa decisão. Talvez eu volte, um dia eu volto, agora pego um caminhão, na lona vou a nocaute outra vez... Preciso às vezes ser durão, pois eu sou muito sentimental, acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto... Eu me sinto um estrangeiro, passageiro de algum trem que não passa por aqui, que não passa de ilusão, por Deus, nunca me vi tão só, e a própria fé é o que destrói, esses são dias desleais, mas o pulso ainda pulsa, dói bastante mas depois melhora e com o tempo vira um sentimento que nem sempre aflora mas que fica na memória depois vira um sofrimento que corrói tudo por dentro, que penetra no organismo, que devora, mas depois também melhora... Reconheço o meu pesar quando tudo é traição, e o que venho encontrar é a virtude em outras mãos; quando eu falava dessas cores mórbidas, quando eu falava desses homens sórdidos, você não escutou. Você não quer acreditar, mas isso é tão normal... Não tem dó no peito, não tem jeito, alguém me dê um coração, que este já não bate nem apanha, qualquer coisa que se sinta, que descanse meus olhos, sossegue minha boca, me encha de luz... A noite é longa pra uma vida curta, mas já não me importa, voltamos a viver como há dez anos atrás, e a cada hora que passa envelhecemos dez semanas. Eu devia estar contente porque tenho um emprego e sou um dito cidadão respeitável, mas o moço do disco voador não me levou... Eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza, deixemos de coisa, cuidemos da vida, senão chega a morte ou coisa parecida, e nos arrasta moço, sem ter visto a vida. E era só isso que eu queria da vida: uma cerveja, uma ilusão atrevida que me dissesse uma verdade chinesa, com uma intenção de um beijo doce na boca... Quem sabe de tudo não fale, quem não sabe nada se cale, se for preciso eu repito: deixa em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa, e qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d'água, debaixo d'água tudo era mais bonito, mais azul, mais colorido, só faltava respirar... Mas tinha que respirar, vai ser, vai ter que ser faca amolada, quem de dentro de si não sai, vai morrer sem amar ninguém. Eu quero tudo que dá e passa, quero tudo que se despe, se despede e despedaça, quero conhecer as manhas e as manhãs, o sabor das massas e das maçãs. Eu sou aquele navio no mar, sem rumo e sem dono, não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar. Tenho a miragem do porto pra reconfortar meu sono e flutuar sobre as águas da maré do abandono. E sou a ilha deserta onde ninguém quer chegar, lendo a rota das estrelas na imensidão do mar, chorando por um navio que passou sem me avistar... É o fundo do poço, é o fim do caminho, no rosto o desgosto é um pouco sozinho. Sei que assim falando pensas que esse desespero é moda, mas pergunte pro seu orixá: o amor só é bom se doer. Na verdade continuo sob a mesma condição: distraindo a verdade, enganando o coração.
PS: Pero nada me hará tán feliz como dos margaritas...
"O mais corrente neste mundo, nestes tempos em que às cegas vamos tropeçando, é esbarrarmos, ao virar a esquina mais próxima, com homens e mulheres na maturidade da existência e da prosperidade, que, tendo sido aos dezoito anos briosos revolucionários decididos a arrasar o sistema dos pais e pôr no seu lugar o paraíso, enfim, da fraternidade, se encontram agora, com firmeza pelo menos igual, repoltreados em convicções e práticas que, depois de haverem passado por qualquer das muitas versões do conservadorismo moderado, acabaram por desembocar no mais desbocado e reaccionário egoísmo. Em palavras não tão cerimoniosas, estes homens e estas mulheres, diante do espelho da sua vida, cospem todos os dias na cara do que foram o escarro do que são."
Uma das melhores respostas que já encontrei à eterna pergunta da canção de Gonzaguinha sobre o que é a vida: é irônica. Ou, nos dizeres de Alanis Morissette em Ironic:
It's like rain on your wedding day It's a free ride when you've already paid It's the good advice that you just didn't take Who would've thought...it figures
Ou, como diz, Vinicius:
sei lá, sei lá, a vida é uma grande ilusão sei lá, só sei que ela está coma razão
Mas eu ainda fico com a pureza da resposta das crianças: é a vida, e é bonita, e é bonita...
Ai que prazer Não cumprir um dever, Ter um livro pra ler E não o fazer! Ler é maçada. Estudar é nada. O sol doira Sem literatura
O rio corre, bem ou mal, Sem edição original. E a brisa, essa, De tão naturalmente matinal, Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta. Estudar é uma coisa em que está indistinta A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma, Esperar por Dom Sebastião, Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do mundo são as crianças, Flores, música, o luar, e o sol, que peca Só quando, em vez de criar, seca.
E mais do que isto É Jesus Cristo, Que não sabia de finanças Nem consta que tivesse biblioteca...
MUDAR O MUNDO SEM TOMAR O PODER (trecho) John Holloway
"Sejamos preguiçosos em tudo, exceto ao amar e beber, exceto em sermos preguiçosos". Lafargue começa sua obra The right to be lazy (O direito à preguiça) com essa citação, querendo dizer que não há nada mais incompatível com a exploração capitalista do que a preguiça defendida por Lessing. Na sociedade capitalista, no entanto, a preguiça implica uma rejeição a fazer, uma afirmação ativa de uma prática alternativa. Fazer, no sentido em que o entendemos aqui, inclui a preguiça e a busca do prazer, práticas que são negativas em uma sociedade baseada em sua negação. Em um mundo baseado em uma conversão do fazer em trabalho, a rejeição pode ser vista como uma forma efetiva de resistência.