"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Álvaro de Campos: Poesia em linha reta...

Poema em Linha Reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

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Lisbon Revisited
(l923)
Não: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Sobre mártires e inquisidores

(Trecho de A caixa-preta, de Amós Oz)

186a. Assimilar totalmente, portanto, o Eu dentro do Nós. Restringir-se a uma célula cega dentro de um organismo gigantesco, intemporal, onipotente e sublime. Fundir-se até o auto-esquecimento, até o limete extremo, à nação, ao movimento, à raça, como uma gota no ocenao da fé. Daí os diversos tipos de uniformes.

187. Um homem se ocupa com suas próprias questões enquanto tem interesses e enquanto tem privacidade. Na ausência destes, pelo medo do vazio da vida, ele se volta febrilmente para os assuntos dos outros. Para endireitá-los. Para castigá-los. Para esclarecer cada idiota e esmagar todo depravado. Para oferecer favores aos outros ou persegui-los selvagemente. Entre o fanático altruísta e o fanático assassino há naturalmente uma diferença de grau moral, mas não há diferença de essência. O assassínio e o auto-sacrifício são simplesmente dois lados da mesma moeda. Dominação e benevolência, agressão e devoção, repressão do próximo e auto-repressão, a redenção das almas daqueles que diferem de nós e a destruição daqueles que diferem de nós: não são pares de opostos, mas apenas expressões diversas do vazio e da insignificância do homem. "Sua insuficiência para si próprio", conforme a expressão de Pascal (ele mesmo um contaminado).

188. "À falta do que fazer com sua vida vazia e deserta, ele se pendura nos pescoços dos outros ou atira-se nas suas gargantas". (Eric Hoffer, O verdadeiro crente).

189. E este é o segredo da surpreendente semelhança entre a irmã de caridade, que trabalha dia e noite pelos desvalidos da sociedade, e o ladrão ideológico, chefe do serviço secreto, cuja vida é dedicada inteiramente à eliminação dos rivais, ou estranhos, ou inimigos da revolução: sua modéstia. Seu satisfazer-se com pouco. Sua hipocrisia cujo cheiro se sente à distância. Seu hábito secreto de autopiedade, e disso irradiar megawatts de sentimentos de culpa. O rancor comum à irmã de caridade e ao inquisidor por tudo o que é considerado "luxo" ou "auto-indulgência". O missionário dedicado e o diretor de purificação sedento de sangue: os mesmos modos suaves. A mesma cortesia floreada. O mesmo cheiro de azedume indefinido emana dos corpos de ambos. O mesmo estilo ascético de vestir. O mesmo gosto (sentimental, banal) em música e arte. E, particularmente, o mesmo vocabulário ativo, caracterizado por retórica gasta, modéstia afetada, rejeição a toda vulgaridade - toalete em vez de privada, faleceu em vez de morreu, solução em vez de extermínio, purificação em vez de matança. E naturalmente salvação, redenção. O lema comum a ambos: "Sou apenas um modesto instrumento". (Eu sou um "instrumento", portanto eu sou "dente de engrenagem" - ergo sum?!)

190. Torturador e vítima. Inquisidor e mártir. Crucificador e crucificado. O mistério da compreensão mútua, da secreta fraternidade que frequentemente cresce entre eles. A dependência mútua. A mútua admiração oculta. A facilidade com que são capazes de trocar de papéis quando as circusntâncias mudam.

191. "O sacrifício da vida pessoal no altar do ideal sagrado" é apenas uma desesperada adesão aos ideais quando a vida pessoal morre.

200. Em outras palavras: com a morte da alma o cadáver ambulante transforma-se num ser totalmente público.

201. "A santidade do dever": um apegar-se espasmódico a qualquer tábua de salvação que esteja ao nosso alcance. O tipo de tábua é quase acidental.

202. "Purificação de todo egoísmo": estratagema egoísta de sobrevivência, no limite do instinto cego.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

O africano

Le Clézio

Todo ser humano é um resultado de pai e mãe. Pode-se não reconhecê-los, não amá-los, pode-se duvidar deles. Mas eles estão aí: seu rosto, suas atitudes, suas maneiras e manias, suas ilusões e esperanças, a forma de suas mãos e de seus dedos do pé, a cor dos olhos e dos cabelos, seu modo de falar, suas idéias, provavelmente a idade de sua morte, tudo isso passou para nós.

Por muito tempo sonhei que minha mãe era negra. Inventei-me uma história, um passado, para escapar da realidade em meu retorno da África, neste país, nesta cidade onde eu não conhecia ninguém, onde me tornara um estrangeiro. Depois descobri, quando meu pai, na idade da aposentadoria, retornou para viver conosco na França, que o Africano era ele. Foi difícil admitir isso. Tive de voltar atrás, de recomeçar, de tentar compreender. Em memória disto escrevi este pequeno livro

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Gita

Eu que já andei pelos quatro cantos do mundo procurando, foi justamente num sonho que ele me falou...

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Sonhos

Um girassol se apropriou de Deus:
foi em
Van Gogh.

Manoel de Barros

sábado, 30 de agosto de 2008

Sobre o eterno retorno

A insustentável leveza do ser, Milan Kundera

2

Se cada segundo de nossa vida deve se repetir um número infinito de vezes, estamos pregados na eternidade como Cristo na cruz. Que idéia atroz! No mundo do eterno retorno, cada gesto carrega o peso de uma insustentável leveza. Isso é o que fazia com que Nietzsche dissesse que a idéia do eterno retorno é o mais pesado dos fardos (das schwerste Gewicht).

Se o eterno retorno é o mais pesado dos fardos, nossas vidas, sobre esse pano de fundo, podem aparecer em toda a sua esplêndida leveza.

Mas, na verdade, será atroz o peso e bela a leveza?

O mais pesado fardo nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino, O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais intensa realização vital. Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira.

Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semireal, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes.

Então, o que escolher? O peso ou a leveza?

Foi a pergunta que Parmênides fez a si mesmo nó século VI antes de Cristo. Segundo ele, o universo está dividido em duplas de contrários: a luz e a obscuridade, o grosso e o fino, o quente e o frio, o ser e o não-ser. Ele considerava que um dos pólos da contradição é positivo (o claro, o quente, o fino, o ser), o outro, negativo. Essa divisão em pólos positivo e negativo pode nos parecer de uma facilidade pueril. Menos em um dos casos: o que é positivo, o peso ou a leveza?

Parmênides respondia: o leve é positivo, o pesado negativo. Teria ou não razão? Essa é a questão. Uma coisa é certa. A contradição pesado-leve é a mais misteriosa e a mais ambígua de todas as contradições.


16

Um pouco depois, fez a seguinte reflexão que menciono para esclarecer o capítulo precedente: suponhamos que existisse no universo um planeta no qual fosse possível nascer uma segunda vez. Ao mesmo tempo, nos lembraríamos perfeitamente da vida que tínhamos levado na Terra; de toda experiência que teríamos aqui adquirido.

Talvez existisse um planeta em que se nascesse uma terceira vez, com a experiência de duas vidas já vividas.

E, talvez, um Outro planeta e outros mais, em que a espécie humana renasceria, subindo cada vez um degrau a mais (uma vida) na escala do amadurecimento.

Era essa a idéia que Tomas fazia do eterno retorno.

Nós, aqui na Terra (no planeta número um, no planeta da inexperiência), podemos ter apenas uma idéia muito vaga daquilo que acontece com o homem nos outros planetas. Teria ele mais sabedoria? Estaria a maturidade a seu alcance? Poderia atingi-la através da repetição?

E só na perspectiva dessa utopia que as noções de otimismo e pessimismo fazem sentido. O otimista é aquele que acredita que a história humana será menos sangrenta no planeta número cinco. O pessimista é aquele que não acredita nisso.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Mudar o mundo sem tomar o poder

A mudança revolucionária é mais de­sesperadamente urgente do que nunca, mas já não sabemos o que significa "revolução". Quando nos perguntam, tendemos a tossir e a gaguejar e tratamos de mudar de assunto. Nosso não-saber é, em parte, o não-saber daqueles que estão historicamente perdidos: o saber dos revolucionários do século passado foi derrotado. Mas é mais do que isso: nosso não-saber é também o não-saber daqueles que compreendem que não-saber é parte do processo revolucioná­rio. Perdemos toda certeza, mas a abertura da incerteza é fundamental para a revolução. "Perguntando, caminhamos", dizem os zapatistas. Nós perguntamos não só porque não conhecemos o caminho (não o conhecemos), como também porque perguntar pelo caminho é parte do próprio processo revolucionário.

(Trecho do capítulo 11 de "Mudar o mundo sem tomar o poder", de John Holloway)

domingo, 2 de março de 2008

Solidão

Na vida, quem perde o telhado
Em troca recebe as estrelas
Pra rimar até se afogar
E de soluço em soluço esperar
O sol que sobe na cama
E acende o lençol
Só lhe chamando
Solicitando

Solidão
Que poeira leve...

Tom Zé

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Clarice

Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.


Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.


Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.
(Perto do Coração Selvagem)


Terei toda a aparência de quem falhou, e só eu saberei se foi a falha necessária.
(A paixão segundo G.H)


O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós.


Porque há o direito ao grito.
então eu grito.

"Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas - mas eu também?! Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos.Sim."
(A hora da estrela)