Adélia Prado
Queremos ser felizes.
Felizes como os flagelados da cheia,
que perderam tudo
e dizem-se uns aos outros nos alojamentos:
‘Graças a Deus, podia ser pior!’
Ó Deus, podemos gemer sem culpa?
Desde toda a vida a tristeza me acena,
o pecado contra Vosso Espírito
que é espírito de alegria e coragem.
Acho bela a vida e choro
porque a vida é triste,
incruenta paixão servida de seringas,
comprimidos minúsculos e dietas.
Eu não sei quem sou.
Sem me sentir banida experimento degredo.
Mas não recuso os marimbondos armando suas caixas
porque são alegres como posso ser,
são dádivas,
mistérios cuja resposta agora é só uma luz,
a pacífica luz das coisas instintivas.
"há sempre um copo de mar para um homem navegar" - jorge de lima
Quando os cronópios saem em viagem, encontram os hotéis cheios, os trens já partiram, chove a cântaros e os táxis não querem levá-los ou lhes cobram preços altíssimos. Os cronópios não desanimam porque acreditam piamente que estas coisas acontecem a todo o mundo, e na hora de dormir dizem uns aos outros: “Que bela cidade, que belíssima cidade”. E sonham a noite toda que na cidade há grandes festas e que eles foram convidados. E no dia seguinte levantam contentíssimos, e é assim que os cronópios viajam.
(Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas)
(Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas)
"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios
sábado, 7 de janeiro de 2017
O fim do homem soviético
Svetlana Alexievich
Não canso de me surpreender como a vida comum é interessante, como são infinitas as verdades humanas. A história se interessa apenas pelos fatos, as emoções ficam à margem. Eu, porém, não olho para o mundo com os olhos de historiadora. E me surpreendo.
(...)
Estou procurando uma linguagem. O ser humano tem muitas linguagens: aquela com que se conversa com as crianças, aquela com que se fala de amor… Mas há também a linguagem com que falamos conosco mesmos, com a qual construímos nossas conversas interiores. Na rua, no trabalho, em viagens: em todo lugar, ressoa algo diferente, não só mudam as palavras, mas alguma outra coisa. De manhã as pessoas falam de um jeito, à noite, de outro. E o que acontece de madrugada entre duas pessoas desaparece completamente da história. Nós nos relacionamos apenas com a história do homem diurno. O suicídio é um tema noturno, o ser humano se encontra na fronteira entre o ser e o não ser. Na fronteira do sonho. Quero compreender isso exatamente como entendo o homem diurno. E me disseram: “Não tem medo de gostar?”
Não canso de me surpreender como a vida comum é interessante, como são infinitas as verdades humanas. A história se interessa apenas pelos fatos, as emoções ficam à margem. Eu, porém, não olho para o mundo com os olhos de historiadora. E me surpreendo.
(...)
Estou procurando uma linguagem. O ser humano tem muitas linguagens: aquela com que se conversa com as crianças, aquela com que se fala de amor… Mas há também a linguagem com que falamos conosco mesmos, com a qual construímos nossas conversas interiores. Na rua, no trabalho, em viagens: em todo lugar, ressoa algo diferente, não só mudam as palavras, mas alguma outra coisa. De manhã as pessoas falam de um jeito, à noite, de outro. E o que acontece de madrugada entre duas pessoas desaparece completamente da história. Nós nos relacionamos apenas com a história do homem diurno. O suicídio é um tema noturno, o ser humano se encontra na fronteira entre o ser e o não ser. Na fronteira do sonho. Quero compreender isso exatamente como entendo o homem diurno. E me disseram: “Não tem medo de gostar?”
segunda-feira, 19 de dezembro de 2016
Geografias da memória
Yehuda Amichai
Na história do nosso amor, um foi sempre
uma tribo nômade, outro uma nação em seu próprio solo.
Quando trocamos de lugar, tudo tinha acabado.
O tempo passará por nós, como paisagens
passam por trás de atores parados em suas marcas
quando se roda um filme.
As palavras
passarão por nossos lábios, até as lágrimas
passarão por nossos olhos.
O tempo passará
por cada um em seu lugar.
E na geografia do resto de nossas vidas,
quem será uma ilha e quem uma península,
ficará claro pra cada um de nós no resto de nossas vidas
em noites de amor com outros.
(tradução: Millôr Fernandes)
Na história do nosso amor, um foi sempre
uma tribo nômade, outro uma nação em seu próprio solo.
Quando trocamos de lugar, tudo tinha acabado.
O tempo passará por nós, como paisagens
passam por trás de atores parados em suas marcas
quando se roda um filme.
As palavras
passarão por nossos lábios, até as lágrimas
passarão por nossos olhos.
O tempo passará
por cada um em seu lugar.
E na geografia do resto de nossas vidas,
quem será uma ilha e quem uma península,
ficará claro pra cada um de nós no resto de nossas vidas
em noites de amor com outros.
(tradução: Millôr Fernandes)
domingo, 18 de dezembro de 2016
Elogio ao vinho
Rubaiyat, Omar Khayyam
137
Dizes: “Só existe um bálsamo no mundo!”
Trazei-me todo o vinho do universo.
Então! Meu coração tem tais e tantas
Feridas... Todo o vinho do universo,
E que o meu coração guarde as feridas!
79
Vinho! Vinho a jorro!
Que ele ferva dentro
De minha cabeça!
Salte em minhas veias!
Taças... E não fales!
Tudo são mentiras.
Taças... Mas depressa,
Que estou envelhecendo...
7
O nosso tesouro? O vinho.
O nosso palácio? A taberna.
Os nossos fiéis companheiros?
Ignoramos a inquietude,
Um tal cheiro de vinho
Virá do meu sepulcro,
Que poderão os passantes
Embriagar-se aspirando-o
E tamanho sossego
Cercará o meu jazigo,
Que não poderão dele
Afastar-se os amantes.
105
Os sábios não te ensinam nada,
Mas ao acarinhares os longos
Cílios de tua bem-amada
Sentirás a felicidade.
Não te esqueça que tens os dias
Contados. Assim compra vinho,
Busca um retiro sossegado
E no vinho a paz, o consolo.
134
Fatigado de interrogar
Em vão homens e livros, quis
interpelar a urna de vinho.
Pousei meus lábios nos seus lábios
E murmurei: "Quando eu morrer,
Para onde vou?" E ela: "Bebe.
Bebe em meus lábios longamente.
Nunca mais voltarás aqui."
56
A vida escoa-se...Que é feito
De Bagdad e Balk? O menor
Choque pode esfolhar a rosa
Demasiado desabrochada.
Por isso ouve este meu conselho:
Bebe vinho e contempla a lua
Lembrando as civilizações
Que ela viu desaparecerem.
83
Em que meditas, meu amigo?
Será nos teus antepassados?
Todos eles são pó no pó.
Meditas nas virtudes deles?
Repara só como sorrio.
Toma desta copa e bebamos,
Ouvindo sem inquietação
O grande silêncio do mundo.
Por mais raro que seja, ou mais antigo,
Só um vinho é deveras excelente
Aquele que tu bebes, docemente,
Com teu mais velho e silencioso amigo.
Só um vinho é deveras excelente
Aquele que tu bebes, docemente,
Com teu mais velho e silencioso amigo.
(Mario Quintana)
137
Dizes: “Só existe um bálsamo no mundo!”
Trazei-me todo o vinho do universo.
Então! Meu coração tem tais e tantas
Feridas... Todo o vinho do universo,
E que o meu coração guarde as feridas!
79
Vinho! Vinho a jorro!
Que ele ferva dentro
De minha cabeça!
Salte em minhas veias!
Taças... E não fales!
Tudo são mentiras.
Taças... Mas depressa,
Que estou envelhecendo...
7
O nosso tesouro? O vinho.
O nosso palácio? A taberna.
Os nossos fiéis companheiros?
A sede e a embriaguez.
Ignoramos a inquietude,
porque sabemos que as nossas
almas, corações e taças
e as nossas roupas maculadas
nada têm a temer
do pó, da água e do fogo.
80
do pó, da água e do fogo.
80
Um tal cheiro de vinho
Virá do meu sepulcro,
Que poderão os passantes
Embriagar-se aspirando-o
E tamanho sossego
Cercará o meu jazigo,
Que não poderão dele
Afastar-se os amantes.
105
Os sábios não te ensinam nada,
Mas ao acarinhares os longos
Cílios de tua bem-amada
Sentirás a felicidade.
Não te esqueça que tens os dias
Contados. Assim compra vinho,
Busca um retiro sossegado
E no vinho a paz, o consolo.
134
Fatigado de interrogar
Em vão homens e livros, quis
interpelar a urna de vinho.
Pousei meus lábios nos seus lábios
E murmurei: "Quando eu morrer,
Para onde vou?" E ela: "Bebe.
Bebe em meus lábios longamente.
Nunca mais voltarás aqui."
56
A vida escoa-se...Que é feito
De Bagdad e Balk? O menor
Choque pode esfolhar a rosa
Demasiado desabrochada.
Por isso ouve este meu conselho:
Bebe vinho e contempla a lua
Lembrando as civilizações
Que ela viu desaparecerem.
83
Em que meditas, meu amigo?
Será nos teus antepassados?
Todos eles são pó no pó.
Meditas nas virtudes deles?
Repara só como sorrio.
Toma desta copa e bebamos,
Ouvindo sem inquietação
O grande silêncio do mundo.
quinta-feira, 15 de dezembro de 2016
para arrancar alegria ao futuro
Maiakóvski
A SIERGUÉI IESSIÊNIN
Você partiu,
como se diz,
para o outro mundo.
Vácuo. . .
Você sobe,
entremeado às estrelas.
Nem álcool,
nem moedas.
Sóbrio.
Vôo sem fundo.
Não, lessiênin,
não posso
fazer troça, -
Na boca
uma lasca amarga
não a mofa.
Olho -
sangue nas mãos frouxas,
você sacode
o invólucro
dos ossos.
Sim,
se você tivesse
um patrono no "Posto"(1) -
ganharia
um conteúdo
bem diverso:
todo dia
uma quota
de cem versos,
longos
e lerdos,
como Dorônin(2).
Remédio?
Para mim,
despautério:
mais cedo ainda
você estaria nessa corda.
Melhor
morrer de vodca
que de tédio !
Não revelam
as razões
desse impulso
nem o nó,
nem a navalha aberta.
Pare,
basta !
Você perdeu o senso? -
Deixar
que a cal
mortal
Ihe cubra o rosto?
Você,
com todo esse talento
para o impossível;
hábil
como poucos.
Por quê?
Para quê?
Perplexidade.
- É o vinho!
- a crítica esbraveja.
Tese:
refratário à sociedade.
Corolário:
muito vinho e cerveja.
Sim,
se você trocasse
a boêmia
pela classe;
A classe agiria em você,
e Ihe daria um norte.
E a classe
por acaso
mata a sede com xarope?
Ela sabe beber -
nada tem de abstêmia.
Talvez,
se houvesse tinta
no "Inglaterra"(3);
você
não cortaria
os pulsos.
Os plagiários felizes
pedem: bis!
Já todo
um pelotão
em auto-execução.
Para que
aumentar
o rol de suicidas?
Antes
aumentar
a produção de tinta!
Agora
para sempre
tua boca
está cerrada.
Difícil
e inútil
excogitar enigmas.
O povo,
o inventa-línguas,
perdeu
o canoro
contramestre de noitadas.
E levam
versos velhos
ao velório,
sucata
de extintas exéquias.
Rimas gastas
empalam
os despojos, -
é assim
que se honra
um poeta?
- Não
te ergueram ainda um monumento -
onde
o som do bronze
ou o grave granito? -
E já vão
empilhando
no jazigo
dedicatórias e ex-votos:
excremento.
Teu nome
escorrido no muco,
teus versos,
Sóbinov(4) os babuja,
voz quérula
sob bétulas murchas -
"Nem palavra, amigo,
nem so-o-luço".
Ah,
que eu saberia dar um fim
a esse
Leonid Loengrim!(5)
Saltaria
- escândalo estridente:
- Chega
de tremores de voz!
Assobios
nos ouvidos
dessa gente,
ao diabo
com suas mães e avós!
Para que toda
essa corja explodisse
inflando
os escuros
redingotes,
e Kógan(6)
atropelado
fugisse,
espetando
os transeuntes
nos bigodes.
Por enquanto
há escória
de sobra.
0 tempo é escasso -
mãos à obra.
Primeiro
é preciso
transformar a vida,
para cantá-la -
em seguida.
Os tempos estão duros
para o artista:
Mas,
dizei-me,
anêmicos e anões,
os grandes,
onde,
em que ocasião,
escolheram
uma estrada
batida?
General
da força humana
- Verbo -
marche!
Que o tempo
cuspa balas
para trás,
e o vento
no passado
só desfaça
um maço de cabelos.
Para o júbilo
o planeta
está imaturo.
É preciso
arrancar alegria
ao futuro.
Nesta vida
morrer não é difícil.
O difícil
é a vida e seu ofício.
(Tradução de Haroldo de Campos)
1. Alusão à revista Na Postu (De Sentinela), órgão da RAPP (Associação Russa dos Escritores Proletários), cujos colaboradores se mostravam muito zelosos em atacar os escritores que lhes pareciam transgredir a moral proletária.
2. Referências ao poeta soviético I.I. Dorônin (n. em 1900).
3. Hotel em que Iessiênin se suicidou.
4. O famoso cantor L.V. Sóbinov (1872-1934) foi um dos participantes
da homenagem à memória de Iessiênin, que teve lugar no Teatro de Arte de Moscou, em 18 de janeiro de 1926, quando interpretou uma canção de Tchaikóvski.
5. O papel de Loengrim, da ópera deste nome, de Wagner, constituiu um dos grandes êxitos da carreira artística de Leonid Sóbinov.
6. O crítico P.S. Kógan (1872-1932), representante da crítica mais dogmática, com quem Maiakóvski manteve freqüentes polêmicas.
A SIERGUÉI IESSIÊNIN
Você partiu,
como se diz,
para o outro mundo.
Vácuo. . .
Você sobe,
entremeado às estrelas.
Nem álcool,
nem moedas.
Sóbrio.
Vôo sem fundo.
Não, lessiênin,
não posso
fazer troça, -
Na boca
uma lasca amarga
não a mofa.
Olho -
sangue nas mãos frouxas,
você sacode
o invólucro
dos ossos.
Sim,
se você tivesse
um patrono no "Posto"(1) -
ganharia
um conteúdo
bem diverso:
todo dia
uma quota
de cem versos,
longos
e lerdos,
como Dorônin(2).
Remédio?
Para mim,
despautério:
mais cedo ainda
você estaria nessa corda.
Melhor
morrer de vodca
que de tédio !
Não revelam
as razões
desse impulso
nem o nó,
nem a navalha aberta.
Pare,
basta !
Você perdeu o senso? -
Deixar
que a cal
mortal
Ihe cubra o rosto?
Você,
com todo esse talento
para o impossível;
hábil
como poucos.
Por quê?
Para quê?
Perplexidade.
- É o vinho!
- a crítica esbraveja.
Tese:
refratário à sociedade.
Corolário:
muito vinho e cerveja.
Sim,
se você trocasse
a boêmia
pela classe;
A classe agiria em você,
e Ihe daria um norte.
E a classe
por acaso
mata a sede com xarope?
Ela sabe beber -
nada tem de abstêmia.
Talvez,
se houvesse tinta
no "Inglaterra"(3);
você
não cortaria
os pulsos.
Os plagiários felizes
pedem: bis!
Já todo
um pelotão
em auto-execução.
Para que
aumentar
o rol de suicidas?
Antes
aumentar
a produção de tinta!
Agora
para sempre
tua boca
está cerrada.
Difícil
e inútil
excogitar enigmas.
O povo,
o inventa-línguas,
perdeu
o canoro
contramestre de noitadas.
E levam
versos velhos
ao velório,
sucata
de extintas exéquias.
Rimas gastas
empalam
os despojos, -
é assim
que se honra
um poeta?
- Não
te ergueram ainda um monumento -
onde
o som do bronze
ou o grave granito? -
E já vão
empilhando
no jazigo
dedicatórias e ex-votos:
excremento.
Teu nome
escorrido no muco,
teus versos,
Sóbinov(4) os babuja,
voz quérula
sob bétulas murchas -
"Nem palavra, amigo,
nem so-o-luço".
Ah,
que eu saberia dar um fim
a esse
Leonid Loengrim!(5)
Saltaria
- escândalo estridente:
- Chega
de tremores de voz!
Assobios
nos ouvidos
dessa gente,
ao diabo
com suas mães e avós!
Para que toda
essa corja explodisse
inflando
os escuros
redingotes,
e Kógan(6)
atropelado
fugisse,
espetando
os transeuntes
nos bigodes.
Por enquanto
há escória
de sobra.
0 tempo é escasso -
mãos à obra.
Primeiro
é preciso
transformar a vida,
para cantá-la -
em seguida.
Os tempos estão duros
para o artista:
Mas,
dizei-me,
anêmicos e anões,
os grandes,
onde,
em que ocasião,
escolheram
uma estrada
batida?
General
da força humana
- Verbo -
marche!
Que o tempo
cuspa balas
para trás,
e o vento
no passado
só desfaça
um maço de cabelos.
Para o júbilo
o planeta
está imaturo.
É preciso
arrancar alegria
ao futuro.
Nesta vida
morrer não é difícil.
O difícil
é a vida e seu ofício.
(Tradução de Haroldo de Campos)
1. Alusão à revista Na Postu (De Sentinela), órgão da RAPP (Associação Russa dos Escritores Proletários), cujos colaboradores se mostravam muito zelosos em atacar os escritores que lhes pareciam transgredir a moral proletária.
2. Referências ao poeta soviético I.I. Dorônin (n. em 1900).
3. Hotel em que Iessiênin se suicidou.
4. O famoso cantor L.V. Sóbinov (1872-1934) foi um dos participantes
da homenagem à memória de Iessiênin, que teve lugar no Teatro de Arte de Moscou, em 18 de janeiro de 1926, quando interpretou uma canção de Tchaikóvski.
5. O papel de Loengrim, da ópera deste nome, de Wagner, constituiu um dos grandes êxitos da carreira artística de Leonid Sóbinov.
6. O crítico P.S. Kógan (1872-1932), representante da crítica mais dogmática, com quem Maiakóvski manteve freqüentes polêmicas.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
O amante
Marguerite Duras
Nas histórias de meus livros que remetem à minha infância, de repente não sei mais o que evitei dizer, o que disse, acho que falei do amor que sentíamos por nossa mãe, mas não sei se falei do ódio que também sentíamos por ela e o amor que sentíamos uns pelos outros, e o ódio também, terrível, nessa história comum de ruína e morte que era a dessa família em qualquer caso, de amor ou de ódio, e que ainda não consigo entender plenamente, ainda me é inacessível, oculta no mais fundo de minha carne, cega como um recém-nascido no primeiro dia de vida. Ela é o ponto onde começa o silêncio. O que acontece é justamente o silêncio, essa lenta labuta durante toda a minha vida. Ainda estou lá, diante daquelas crianças possessas, à mesma distância do mistério. Nunca escrevi, e pensei que escrevia, nunca amei, e pensei que amava, nunca fiz nada a não ser esperar diante da porta fechada.
Nas histórias de meus livros que remetem à minha infância, de repente não sei mais o que evitei dizer, o que disse, acho que falei do amor que sentíamos por nossa mãe, mas não sei se falei do ódio que também sentíamos por ela e o amor que sentíamos uns pelos outros, e o ódio também, terrível, nessa história comum de ruína e morte que era a dessa família em qualquer caso, de amor ou de ódio, e que ainda não consigo entender plenamente, ainda me é inacessível, oculta no mais fundo de minha carne, cega como um recém-nascido no primeiro dia de vida. Ela é o ponto onde começa o silêncio. O que acontece é justamente o silêncio, essa lenta labuta durante toda a minha vida. Ainda estou lá, diante daquelas crianças possessas, à mesma distância do mistério. Nunca escrevi, e pensei que escrevia, nunca amei, e pensei que amava, nunca fiz nada a não ser esperar diante da porta fechada.
domingo, 27 de novembro de 2016
A poesia de cada dia
Pablo Neruda
O poeta não é um "pequeno deus". Não está marcado por um destino cabalístico superior ao de quem exerce outros misteres e ofícios. Exprimi muitas vezes que o melhor poeta é o homem que nos entrega o pão de cada dia: o padeiro mais próximo, que não se julga deus. Cumpre a sua majestosa e humilde tarefa de amassar, levar ao forno, dourar e entregar o pão de cada dia, com uma obrigação comunitária. E se o poeta chega a atingir essa simples consciência, a simples consciência também se pode converter em parte de uma artesania colossal, de uma construção simples ou complicada, que é a construção da sociedade, a transformação das condições que rodeiam o homem, a entrega da mercadoria: pão, verdade, vinho, sonhos.
(Discurso na entrega do Prêmio Nobel de 1971)
terça-feira, 22 de novembro de 2016
Meu nome é Vermelho
Orhan Pamuk
Ouço a pergunta de vocês: o que é uma cor?
A cor é o toque do olho, a música do surdo, a palavra que vem das trevas. Como tenho ouvido há dezenas de milhares de anos as almas sussurrarem, como o vento nas noites de tempestade, de livro em livro, de objeto em objeto, posso lhes dizer que meu toque se parece com o toque dos anjos. Uma parte minha, a parte séria, mobiliza a vossa visão, enquanto a parte brincalhona voa nas alturas, seguida por vossos olhares.
Que sorte tenho de ser o Vermelho! Sou o fogo, sou a força! Todos me notam e me admiram, e ninguém resiste a mim.
Devo ser franco: para mim, o refinamento não se esconde na fraqueza nem na sutileza, mas reside na firmeza e na determinação. Eu me exponho, pois, aos olhares. Não tenho medo nem das cores nem das sombras; menos ainda da multidão ou da solidão. Que prazer tenho ao pegar uma superfície oferecida ao meu ardente triunfo: eu a encho, expando-me nela; os corações se embalam, o desejo aumenta, os olhos se arregalam e todos os olhares brilham! Olhem para mim: é bom viver! Vejam como é bom ver! Viver é ver. Podem me ver em toda parte, creiam: a vida começa e se acaba sempre comigo.
Mas silêncio! Ouçam o relato do meu maravilhoso nascimento, a origem do escarlate! Um mestre miniaturista, perito em pigmentos, esmagou bem miúdo com seu pilão, num almofariz, cochonilhas importadas de longínquas e tórridas paragens do Hindustão. Para cinco dracmas desse pó vermelho, preparou um dracma de saponária e meio — só meio! — de aventurina. Ferveu a saponária num pote com três okkas de água, depois dissolveu no líquido a aventurina. Deixou fervendo o tempo de tomar um bom café e enquanto o saboreava, eu me impacientava, como um bebê que vai vir à luz! O café clareou-lhe a mente, seus olhos cintilavam como os de um djim. Ele derramou então na panela o fino pó de cochonilha, mexendo regularmente com um pauzinho reservado para esse fim. Eu ia me tornar o autêntico vermelho-carmim, mas faltava-me ainda uma boa consistência, e a mistura não devia ferver nem de mais, nem de menos. Com a ponta do pauzinho, pôs uma gota na unha do polegar — qualquer outro dedo seria absolutamente inaceitável. Que êxtase ser o Vermelho! Pintei graciosamente sua unha, sem nenhum escorrido: a consistência estava perfeita, mas ainda restavam sedimentos. Ele tirou a panela do fogo e passou o conteúdo num pano bem fino e bem limpo para me purificar mais ainda. Levou-me novamente ao fogo para ferver mais duas vezes, depois acrescentou uma pitada de alúmen, antes de me pôr para esfriar.
Passaram-se alguns dias, e eu continuava descansando no fundo da panela, sem ser misturado a nada mais. Ora, eu estava ansioso para que me passassem em cada canto de página, em tudo e em toda parte. Ficar quieto assim doía no meu coração e no meu espírito. Foi durante esse período de profundo silêncio que meditei sobre o significado de ser vermelho.
Uma vez, na Ásia Central, quando um belo aprendiz me passava com seu pincel na sela de um cavalo que um velho pintor cego desenhara de memória, surpreendi a animada discussão que dois pintores, também cegos, travavam a meu respeito:
“Embora, após toda uma vida de trabalho ardorosamente devotada a nossa arte, estejamos privados do sentido da visão, nós conhecemos o vermelho e lembramos que tipo de cor e de sentimento ele é”, dizia o que havia desenhado o cavalo na folha de papel. “E se tivéssemos nascido cegos? Como teríamos podido compreender esse vermelho que nosso formoso aprendiz está usando?”
“Belo tema”, disse o outro, “mas não se esqueça que as cores não são para ser compreendidas, e sim sentidas.”
“Caro mestre, procure então explicar o vermelho a quem nunca conheceu o vermelho.”
“Se o tocarmos com a ponta dos dedos, sentiremos algo entre o cobre e o ferro. Se o puséssemos na palma da mão, ele queimaria. Se o provássemos, teria um gosto encorpado, como charque salgado. Se o colocássemos entre nossos lábios, ele encheria nossa boca. Se o cheirássemos, teria um cheiro de cavalo. Se fosse uma flor, teria um aroma que lembraria muito mais a margarida do que a rosa.”
Na época (cem anos atrás), a pintura dos europeus ainda não era uma verdadeira ameaça, salvo algum capricho excepcional e passageiro de um dos nossos sultões, e nossos mestres lendários acreditavam em seus métodos tão fervorosamente quanto em Alá, considerando um desrespeito e uma vulgaridade o uso idiota que aqueles bárbaros faziam das nuances de diversos vermelhos nas carnes e nos ferimentos à espada, e até num simples saco de pano, em suas pinturas de infiéis. Só mesmo um bárbaro medroso, fraco e volúvel podia reunir vários vermelhos num manto vermelho, diziam eles. E as sombras, acrescentavam, não passam de péssima desculpa. De resto, só acreditávamos num único vermelho.
“Qual o significado do vermelho?”, voltou a perguntar o pintor cego que havia desenhado o cavalo.
“O significado da cor é que ela está diante de nós e nós a vemos”, respondeu o outro. “O vermelho não pode ser explicado a quem não vê.”
quarta-feira, 19 de outubro de 2016
O castelo
Franz Kafka
Eles se abraçaram, o pequeno corpo ardia nas mãos de K., eles rolaram, num estado de esquecimento do qual K. tentava contínua mas inutilmente se livrar; alguns passos à frente, bateram surdamente na porta de Klamm e depois ficaram deitados nas pequenas poças de cerveja e outras sujeiras que cobriam o chão. Ali passaram-se as horas, horas de respiração confundida, de batidas comuns do coração, horas nas quais K. tinha sem parar o sentimento de que se perdia ou estivesse numa terra estranha como ninguém antes dele, uma terra estranha na qual até o ar não tinha nada de familiar e em cujas tentações sem sentido não era possível fazer nada senão ir em frente e continuar se perdendo.
***
Ela buscava algo e ele buscava algo, ambos furiosos, fazendo caretas; enterrando a cabeça um no peito do outro eles se buscavam e seus abraços e seus corpos arqueados não os faziam esquecer, mas lembrar-se da obrigação de continuar buscando; como os cães raspam desesperadamente o chão, eles raspavam os seus corpos e, desamparados e decepcionados, para alcançar ainda uma última felicidade, eles às vezes passavam a larga língua sobre o rosto do outro. Só o cansaço os acalmava e os tornava mutuamente gratos.
***
Só uma pessoa completamente estranha pode fazer uma pergunta como a sua. Se existem autoridades de controle? Existem apenas autoridades de controle. Evidentemente elas não se destinam a descobrir erros no sentido grosseiro da palavra, pois não ocorrem erros, e mesmo que aconteça um, como no seu caso, quem tem o direito de dizer de forma definitiva que é um erro?
***
Chego agora a uma característica especial do nosso aparelho administrativo. Correspondendo à sua precisão ele é extremamente sensível. Quando um assunto foi ponderado durante longo tempo, pode acontecer — mesmo que as ponderações ainda não estejam concluídas — que de repente, rápida como um raio, surja uma solução num ponto imprevisível e mais tarde não mais encontrável, que encerra a questão de maneira o mais das vezes muito justa, embora certamente arbitrária. É como se o aparelho administrativo não suportasse mais a tensão, a excitação derivada durante anos da mesma questão, talvez em si própria insignificante, e tivesse tomado a decisão por espontânea vontade, sem a colaboração dos funcionários. Naturalmente não aconteceu nenhum milagre e sem dúvida algum funcionário escreveu a resolução ou encontrou uma decisão não escrita, mas de qualquer modo, pelo menos de nossa parte, daqui onde estamos, ninguém, nem mesmo da administração competente, pode estabelecer que funcionário decidiu nesse caso e por quais motivos. Só os serviços de controle são capazes de estabelecê-lo muito mais tarde, mas nós não ficamos sabendo de mais nada, aliás é difícil que depois alguém ainda se interesse. Como foi dito, porém, justamente essas decisões são na maioria das vezes ótimas, o único inconveniente delas é que só vêm a ser conhecidas tarde demais, conforme acontece em geral com essas coisas, e portanto se continua, nesse ínterim, a deliberar apaixonadamente sobre questões há muito tempo decididas.
Eles se abraçaram, o pequeno corpo ardia nas mãos de K., eles rolaram, num estado de esquecimento do qual K. tentava contínua mas inutilmente se livrar; alguns passos à frente, bateram surdamente na porta de Klamm e depois ficaram deitados nas pequenas poças de cerveja e outras sujeiras que cobriam o chão. Ali passaram-se as horas, horas de respiração confundida, de batidas comuns do coração, horas nas quais K. tinha sem parar o sentimento de que se perdia ou estivesse numa terra estranha como ninguém antes dele, uma terra estranha na qual até o ar não tinha nada de familiar e em cujas tentações sem sentido não era possível fazer nada senão ir em frente e continuar se perdendo.
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Ela buscava algo e ele buscava algo, ambos furiosos, fazendo caretas; enterrando a cabeça um no peito do outro eles se buscavam e seus abraços e seus corpos arqueados não os faziam esquecer, mas lembrar-se da obrigação de continuar buscando; como os cães raspam desesperadamente o chão, eles raspavam os seus corpos e, desamparados e decepcionados, para alcançar ainda uma última felicidade, eles às vezes passavam a larga língua sobre o rosto do outro. Só o cansaço os acalmava e os tornava mutuamente gratos.
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Só uma pessoa completamente estranha pode fazer uma pergunta como a sua. Se existem autoridades de controle? Existem apenas autoridades de controle. Evidentemente elas não se destinam a descobrir erros no sentido grosseiro da palavra, pois não ocorrem erros, e mesmo que aconteça um, como no seu caso, quem tem o direito de dizer de forma definitiva que é um erro?
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Chego agora a uma característica especial do nosso aparelho administrativo. Correspondendo à sua precisão ele é extremamente sensível. Quando um assunto foi ponderado durante longo tempo, pode acontecer — mesmo que as ponderações ainda não estejam concluídas — que de repente, rápida como um raio, surja uma solução num ponto imprevisível e mais tarde não mais encontrável, que encerra a questão de maneira o mais das vezes muito justa, embora certamente arbitrária. É como se o aparelho administrativo não suportasse mais a tensão, a excitação derivada durante anos da mesma questão, talvez em si própria insignificante, e tivesse tomado a decisão por espontânea vontade, sem a colaboração dos funcionários. Naturalmente não aconteceu nenhum milagre e sem dúvida algum funcionário escreveu a resolução ou encontrou uma decisão não escrita, mas de qualquer modo, pelo menos de nossa parte, daqui onde estamos, ninguém, nem mesmo da administração competente, pode estabelecer que funcionário decidiu nesse caso e por quais motivos. Só os serviços de controle são capazes de estabelecê-lo muito mais tarde, mas nós não ficamos sabendo de mais nada, aliás é difícil que depois alguém ainda se interesse. Como foi dito, porém, justamente essas decisões são na maioria das vezes ótimas, o único inconveniente delas é que só vêm a ser conhecidas tarde demais, conforme acontece em geral com essas coisas, e portanto se continua, nesse ínterim, a deliberar apaixonadamente sobre questões há muito tempo decididas.
quinta-feira, 15 de setembro de 2016
Como diria Odair
“Não acredito na felicidade — estou lhe dizendo a verdade. Acredito apenas na inquietude. Ou seja, nunca estou feliz por completo — sempre preciso fazer outra coisa. Mas admito que na vida existem felicidades que duram dez segundos ou meia hora, como quando nasceu meu primeiro filho — naquele instante, eu estava feliz. Mas são momentos muito breves. Alguém que é feliz a vida toda é um cretino. Por isso, antes de ser feliz, prefiro ser inquieto."
(Umberto Eco)
"Felicidade não existe,
O que existe na vida
São momentos felizes."
(Odair José)
(Umberto Eco)
"Felicidade não existe,
O que existe na vida
São momentos felizes."
(Odair José)
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