"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

sobre especialistas e vencedores



Um especialista é um homem que sabe qualquer coisa de uma coisa e nada de todas as coisas. De uma coisa não se pode saber senão qualquer coisa, porque o conhecimento humano é limitado. E, para perceber qualquer coisa seria preciso perceber todas as coisas, pois uma coisa é parte de todas as coisas. O especialista, pois, é um homem que não sabe nada e vive dessa ciência.

O especialista é útil apenas quando a sua especialidade é tão restrita que não tem importância. Pode haver bons especialistas de pregar pregos; não pode haver bons especialistas de construção de civilizações. Há muito bons cavadores e nenhum bom psiquiatra.

O especialista é um homem que tem a opinião dos outros, embora sobre um só assunto. O especialista é incapaz de iniciativa. Por isso os especialistas são muitos e felizes.


(Álvaro de Campos/Fernando Pessoa)



Os perdedores, assim como os autodidatas, sempre têm conhecimentos mais vastos que os vencedores, e quem quiser vencer deverá saber uma única coisa e não perder tempo sabendo todas, o prazer da erudição é reservado aos perdedores. Quanto mais coisas uma pessoa sabe, menos coisas deram certo para ela.

(Umberto Eco, Número Zero)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Elogio ao tédio

Joseph Brodsky

De certa forma, o tédio é a janela para o tempo, com vista para aquelas propriedades que costumamos ignorar pelo bem de nosso equilíbrio mental. Resumindo, é a janela para o infinito do tempo, o que significa que é a janela para nossa insignificância nele. É o que explica, talvez, o pavor de noites solitárias e apáticas, ou o fascínio com que às vezes assistimos às circunvoluções do pó num raio de sol, e ouvimos o tique-taque de um relógio, o dia está quente, e abaixo de zero a nossa força de vontade.
Uma vez aberta a janela, não tentem fechá-la; ao contrário, é melhor escancará-la. Pois o tédio fala a língua do tempo e ensina a lição mais valiosa da vida, algo que não se aprende aqui, nesses gramados verdejantes: nossa absoluta irrelevância.
(...) Somos irrelevantes porque somos finitos. No entanto,quanto mais finita uma coisa, mas repleta de vida, emoções, alegria, medos, compaixão. Pois o infinito não é incrivelmente vivo, não é incrivelmente emocionante. O tédio, pelo menos, nos diz isso. Porque nosso tédio é o tédio do infinito.


sábado, 7 de janeiro de 2017

A face de Deus é vespas

Adélia Prado

Queremos ser felizes.

Felizes como os flagelados da cheia,
que perderam tudo
e dizem-se uns aos outros nos alojamentos:
‘Graças a Deus, podia ser pior!’
Ó Deus, podemos gemer sem culpa?
Desde toda a vida a tristeza me acena,
o pecado contra Vosso Espírito
que é espírito de alegria e coragem.
Acho bela a vida e choro
porque a vida é triste,
incruenta paixão  servida de seringas,
comprimidos minúsculos e dietas.
Eu não sei quem sou.
Sem me sentir banida experimento degredo.
Mas não recuso os marimbondos armando suas caixas
porque são alegres como posso ser,
são dádivas,
mistérios cuja resposta agora é só uma luz,
a pacífica luz das coisas instintivas.

O fim do homem soviético

Svetlana Alexievich

Não canso de me surpreender como a vida comum é interessante, como são infinitas as verdades humanas. A história se interessa apenas pelos fatos, as emoções ficam à margem. Eu, porém, não olho para o mundo com os olhos de historiadora. E me surpreendo.

(...)

Estou procurando uma linguagem. O ser humano tem muitas linguagens: aquela com que se conversa com as crianças, aquela com que se fala de amor… Mas há também a linguagem com que falamos conosco mesmos, com a qual construímos nossas conversas interiores. Na rua, no trabalho, em viagens: em todo lugar, ressoa algo diferente, não só mudam as palavras, mas alguma outra coisa. De manhã as pessoas falam de um jeito, à noite, de outro. E o que acontece de madrugada entre duas pessoas desaparece completamente da história. Nós nos relacionamos apenas com a história do homem diurno. O suicídio é um tema noturno, o ser humano se encontra na fronteira entre o ser e o não ser. Na fronteira do sonho. Quero compreender isso exatamente como entendo o homem diurno. E me disseram: “Não tem medo de gostar?”


segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Geografias da memória

Yehuda Amichai 

Na história do nosso amor, um foi sempre
uma tribo nômade, outro uma nação em seu próprio solo.
Quando trocamos de lugar, tudo tinha acabado.
O tempo passará por nós, como paisagens
passam por trás de atores parados em suas marcas
quando se roda um filme.
As palavras
passarão por nossos lábios, até as lágrimas
passarão por nossos olhos.
O tempo passará
por cada um em seu lugar.
E na geografia do resto de nossas vidas,
quem será uma ilha e quem uma península,
ficará claro pra cada um de nós no resto de nossas vidas
em noites de amor com outros.

(tradução: Millôr Fernandes)

domingo, 18 de dezembro de 2016

Elogio ao vinho

RubaiyatOmar Khayyam
Por mais raro que seja, ou mais antigo,
Só um vinho é deveras excelente
Aquele que tu bebes, docemente,
Com teu mais velho e silencioso amigo.
(Mario Quintana)

137

Dizes: “Só existe um bálsamo no mundo!”
Trazei-me todo o vinho do universo.
Então! Meu coração tem tais e tantas
Feridas... Todo o vinho do universo,
E que o meu coração guarde as feridas!


79

Vinho! Vinho a jorro!
Que ele ferva dentro
De minha cabeça!
Salte em minhas veias!

Taças... E não fales!
Tudo são mentiras.
Taças... Mas depressa,
Que estou envelhecendo...


7

O nosso tesouro? O vinho.
O nosso palácio? A taberna.
Os nossos fiéis companheiros? 
A sede e a embriaguez.

Ignoramos a inquietude, 
porque sabemos que as nossas 
almas, corações e taças
e as nossas roupas maculadas 
nada têm a temer
do pó, da água e do fogo.


80

Um tal cheiro de vinho
Virá do meu sepulcro,
Que poderão os passantes
Embriagar-se aspirando-o

E tamanho sossego
Cercará o meu jazigo,
Que não poderão dele
Afastar-se os amantes.


105

Os sábios não te ensinam nada,
Mas ao acarinhares os longos
Cílios de tua bem-amada
Sentirás a felicidade.

Não te esqueça que tens os dias
Contados. Assim compra vinho,
Busca um retiro sossegado
E no vinho a paz, o consolo.


134

Fatigado de interrogar
Em vão homens e livros, quis
interpelar a urna de vinho.
Pousei meus lábios nos seus lábios

E murmurei: "Quando eu morrer,
Para onde vou?" E ela: "Bebe.
Bebe em meus lábios longamente.
Nunca mais voltarás aqui."


56

A vida escoa-se...Que é feito
De Bagdad e Balk? O menor
Choque pode esfolhar a rosa
Demasiado desabrochada.

Por isso ouve este meu conselho:
Bebe vinho e contempla a lua
Lembrando as civilizações
Que ela viu desaparecerem.


83

Em que meditas, meu amigo?
Será nos teus antepassados?
Todos eles são pó no pó.
Meditas nas virtudes deles?

Repara só como sorrio.
Toma desta copa e bebamos,
Ouvindo sem inquietação
O grande silêncio do mundo.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

para arrancar alegria ao futuro

Maiakóvski

A SIERGUÉI IESSIÊNIN

Você partiu,
                 como se diz,
                                    para o outro mundo.
Vácuo. . .
             Você sobe,
                             entremeado às estrelas.
Nem álcool,
                 nem moedas.
Sóbrio.
           Vôo sem fundo.
Não, lessiênin,
                      não posso
                                     fazer troça, -
Na boca
             uma lasca amarga
                                        não a mofa.
Olho -
          sangue nas mãos frouxas,
você sacode
                  o invólucro
                                 dos ossos.
Sim,
       se você tivesse
                             um patrono no "Posto"(1) -

ganharia
            um conteúdo
                               bem diverso:
todo dia
            uma quota
                           de cem versos,
longos
          e lerdos,
                       como Dorônin(2).
Remédio?
               Para mim,
                               despautério:
mais cedo ainda
                        você estaria nessa corda.
Melhor
           morrer de vodca
que de tédio !
Não revelam
                   as razões
                                 desse impulso
nem o nó,
               nem a navalha aberta.
Pare,
        basta !
                   Você perdeu o senso? -
Deixar
          que a cal
                        mortal
                                  Ihe cubra o rosto?
Você,
         com todo esse talento
para o impossível;
                          hábil
                                  como poucos.
Por quê?
             Para quê?
                            Perplexidade.
- É o vinho!
                 - a crítica esbraveja.
Tese:
         refratário à sociedade.
Corolário: 
                muito vinho e cerveja.

Sim,
       se você trocasse
                                a boêmia
                                             pela classe;
A classe agiria em você,
                                    e Ihe daria um norte.
E a classe
                por acaso
                               mata a sede com xarope?
Ela sabe beber -
                        nada tem de abstêmia.
Talvez,
          se houvesse tinta
                                    no "Inglaterra"(3);
você
        não cortaria
                          os pulsos.
Os plagiários felizes
                              pedem: bis!
Já todo
           um pelotão
                           em auto-execução.
Para que
              aumentar
                            o rol de suicidas?
Antes
         aumentar
                       a produção de tinta!
Agora
         para sempre
                           tua boca
                                        está cerrada.
Difícil
        e inútil
                  excogitar enigmas.
O povo,
            o inventa-línguas,
perdeu
          o canoro
                       contramestre de noitadas.

E levam
             versos velhos
                                 ao velório,
sucata
          de extintas exéquias.
Rimas gastas
                    empalam
                                  os despojos, -
é assim
            que se honra
                                um poeta?
- Não
        te ergueram ainda um monumento -
onde
        o som do bronze
                                 ou o grave granito? -
E já vão
            empilhando
                             no jazigo
dedicatórias e ex-votos:
                                   excremento.
Teu nome
               escorrido no muco,
teus versos,
                  Sóbinov(4) os babuja,
voz quérula
                 sob bétulas murchas -
"Nem palavra, amigo,
                               nem so-o-luço".
Ah,
      que eu saberia dar um fim
a esse
          Leonid Loengrim!(5)
Saltaria
            - escândalo estridente:
- Chega
            de tremores de voz!
Assobios
             nos ouvidos
                              dessa gente,
ao diabo
             com suas mães e avós! 
Para que toda
                    essa corja explodisse
inflando
            os escuros
                            redingotes,
e Kógan(6)
               atropelado
                               fugisse,
espetando
                os transeuntes
                                      nos bigodes.
Por enquanto
                    há escória
                                    de sobra.
0 tempo é escasso -
                              mãos à obra.
Primeiro
             é preciso
                           transformar a vida,
para cantá-la -
                      em seguida.
Os tempos estão duros
                                   para o artista:
Mas,
        dizei-me,
                     anêmicos e anões,
os grandes,
                 onde,
                          em que ocasião,
escolheram
                  uma estrada
                                     batida?
General
            da força humana
                                     - Verbo -
marche!
            Que o tempo
                               cuspa balas
                                                 para trás,
e o vento
             no passado
                              só desfaça
um maço de cabelos.
Para o júbilo
                   o planeta
                                 está imaturo.
É preciso
              arrancar alegria
                                     ao futuro.
Nesta vida
                morrer não é difícil.
O difícil
           é a vida e seu ofício.

(Tradução de Haroldo de Campos)

1. Alusão à revista Na Postu (De Sentinela), órgão da RAPP (Associação Russa dos Escritores Proletários), cujos colaboradores se mostravam muito zelosos em atacar os escritores que lhes pareciam transgredir a moral proletária.

2. Referências ao poeta soviético I.I. Dorônin (n. em 1900).

3. Hotel em que Iessiênin se suicidou.

4. O famoso cantor L.V. Sóbinov (1872-1934) foi um dos participantes
da homenagem à memória de Iessiênin, que teve lugar no Teatro de Arte de Moscou, em 18 de janeiro de 1926, quando interpretou uma canção de Tchaikóvski.

5. O papel de Loengrim, da ópera deste nome, de Wagner, constituiu um dos grandes êxitos da carreira artística de Leonid Sóbinov.

6. O crítico P.S. Kógan (1872-1932), representante da crítica mais dogmática, com quem Maiakóvski manteve freqüentes polêmicas.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O amante

Marguerite Duras 

Nas histórias de meus livros que remetem à minha infância, de repente não sei mais o que evitei dizer, o que disse, acho que falei do amor que sentíamos por nossa mãe, mas não sei se falei do ódio que também sentíamos por ela e o amor que sentíamos uns pelos outros, e o ódio também, terrível, nessa história comum de ruína e morte que era a dessa família em qualquer caso, de amor ou de ódio, e que ainda não consigo entender plenamente, ainda me é inacessível, oculta no mais fundo de minha carne, cega como um recém-nascido no primeiro dia de vida. Ela é o ponto onde começa o silêncio. O que acontece é justamente o silêncio, essa lenta labuta durante toda a minha vida. Ainda estou lá, diante daquelas crianças possessas, à mesma distância do mistério. Nunca escrevi, e pensei que escrevia, nunca amei, e pensei que amava, nunca fiz nada a não ser esperar diante da porta fechada.

domingo, 27 de novembro de 2016

A poesia de cada dia

Pablo Neruda

O poeta não é um "pequeno deus". Não está marcado por um destino cabalístico superior ao de quem exerce outros misteres e ofícios. Exprimi muitas vezes que o melhor poeta é o homem que nos entrega o pão de cada dia: o padeiro mais próximo, que não se julga deus. Cumpre a sua majestosa e humilde tarefa de amassar, levar ao forno, dourar e entregar o pão de cada dia, com uma obrigação comunitária. E se o poeta chega a atingir essa simples consciência, a simples consciência também se pode converter em parte de uma artesania colossal, de uma construção simples ou complicada, que é a construção da sociedade, a transformação das condições que rodeiam o homem, a entrega da mercadoria: pão, verdade, vinho, sonhos.

(Discurso na entrega do Prêmio Nobel de 1971)

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Meu nome é Vermelho


Orhan Pamuk


Ouço a pergunta de vocês: o que é uma cor?

A cor é o toque do olho, a música do surdo, a palavra que vem das trevas. Como tenho ouvido há dezenas de milhares de anos as almas sussurrarem, como o vento nas noites de tempestade, de livro em livro, de objeto em objeto, posso lhes dizer que meu toque se parece com o toque dos anjos. Uma parte minha, a parte séria, mobiliza a vossa visão, enquanto a parte brincalhona voa nas alturas, seguida por vossos olhares.

Que sorte tenho de ser o Vermelho! Sou o fogo, sou a força! Todos me notam e me admiram, e ninguém resiste a mim.

Devo ser franco: para mim, o refinamento não se esconde na fraqueza nem na sutileza, mas reside na firmeza e na determinação. Eu me exponho, pois, aos olhares. Não tenho medo nem das cores nem das sombras; menos ainda da multidão ou da solidão. Que prazer tenho ao pegar uma superfície oferecida ao meu ardente triunfo: eu a encho, expando-me nela; os corações se embalam, o desejo aumenta, os olhos se arregalam e todos os olhares brilham! Olhem para mim: é bom viver! Vejam como é bom ver! Viver é ver. Podem me ver em toda parte, creiam: a vida começa e se acaba sempre comigo.

Mas silêncio! Ouçam o relato do meu maravilhoso nascimento, a origem do escarlate! Um mestre miniaturista, perito em pigmentos, esmagou bem miúdo com seu pilão, num almofariz, cochonilhas importadas de longínquas e tórridas paragens do Hindustão. Para cinco dracmas desse pó vermelho, preparou um dracma de saponária e meio — só meio! — de aventurina. Ferveu a saponária num pote com três okkas de água, depois dissolveu no líquido a aventurina. Deixou fervendo o tempo de tomar um bom café e enquanto o saboreava, eu me impacientava, como um bebê que vai vir à luz! O café clareou-lhe a mente, seus olhos cintilavam como os de um djim. Ele derramou então na panela o fino pó de cochonilha, mexendo regularmente com um pauzinho reservado para esse fim. Eu ia me tornar o autêntico vermelho-carmim, mas faltava-me ainda uma boa consistência, e a mistura não devia ferver nem de mais, nem de menos. Com a ponta do pauzinho, pôs uma gota na unha do polegar — qualquer outro dedo seria absolutamente inaceitável. Que êxtase ser o Vermelho! Pintei graciosamente sua unha, sem nenhum escorrido: a consistência estava perfeita, mas ainda restavam sedimentos. Ele tirou a panela do fogo e passou o conteúdo num pano bem fino e bem limpo para me purificar mais ainda. Levou-me novamente ao fogo para ferver mais duas vezes, depois acrescentou uma pitada de alúmen, antes de me pôr para esfriar.

Passaram-se alguns dias, e eu continuava descansando no fundo da panela, sem ser misturado a nada mais. Ora, eu estava ansioso para que me passassem em cada canto de página, em tudo e em toda parte. Ficar quieto assim doía no meu coração e no meu espírito. Foi durante esse período de profundo silêncio que meditei sobre o significado de ser vermelho.

Uma vez, na Ásia Central, quando um belo aprendiz me passava com seu pincel na sela de um cavalo que um velho pintor cego desenhara de memória, surpreendi a animada discussão que dois pintores, também cegos, travavam a meu respeito:

“Embora, após toda uma vida de trabalho ardorosamente devotada a nossa arte, estejamos privados do sentido da visão, nós conhecemos o vermelho e lembramos que tipo de cor e de sentimento ele é”, dizia o que havia desenhado o cavalo na folha de papel. “E se tivéssemos nascido cegos? Como teríamos podido compreender esse vermelho que nosso formoso aprendiz está usando?”

“Belo tema”, disse o outro, “mas não se esqueça que as cores não são para ser compreendidas, e sim sentidas.”

“Caro mestre, procure então explicar o vermelho a quem nunca conheceu o vermelho.”

“Se o tocarmos com a ponta dos dedos, sentiremos algo entre o cobre e o ferro. Se o puséssemos na palma da mão, ele queimaria. Se o provássemos, teria um gosto encorpado, como charque salgado. Se o colocássemos entre nossos lábios, ele encheria nossa boca. Se o cheirássemos, teria um cheiro de cavalo. Se fosse uma flor, teria um aroma que lembraria muito mais a margarida do que a rosa.”

Na época (cem anos atrás), a pintura dos europeus ainda não era uma verdadeira ameaça, salvo algum capricho excepcional e passageiro de um dos nossos sultões, e nossos mestres lendários acreditavam em seus métodos tão fervorosamente quanto em Alá, considerando um desrespeito e uma vulgaridade o uso idiota que aqueles bárbaros faziam das nuances de diversos vermelhos nas carnes e nos ferimentos à espada, e até num simples saco de pano, em suas pinturas de infiéis. Só mesmo um bárbaro medroso, fraco e volúvel podia reunir vários vermelhos num manto vermelho, diziam eles. E as sombras, acrescentavam, não passam de péssima desculpa. De resto, só acreditávamos num único vermelho.

“Qual o significado do vermelho?”, voltou a perguntar o pintor cego que havia desenhado o cavalo.

“O significado da cor é que ela está diante de nós e nós a vemos”, respondeu o outro. “O vermelho não pode ser explicado a quem não vê.”