"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Panis et circensis

Todos os problemas do mundo se resumem a algo muito simples e cinza: as pessoas na sala de jantar, ocupadas que são em nascer e morrer. Principalmente em morrer. Afinal, nascer é muito natural, não há que se preocupar com algo tão banal. Ah, não que a morte também não seja tão comum quanto o vir ao mundo, mas é que a vida passou a ser uma ordem, as pessoas na sala de jantar precisam de um ritual muito especial para morrer, na verdade elas se enterram na sala de jantar muito cedo, não diria que ao nascer, mas logo que amadurecem e perdem o ingênuo hábito de viver no presente. Elas se preparam tão solenemente para esse momento final que em verdade o concretizam muito antes, quase que inconscientemente, durante o jantar de todo dia vendo na tv a colorida propaganda do banco que financia a felicidade, durante a ceia natalina de todo ano quando todos são humanos por um dia, a cada vez que a consciência se cala numa paz omissa diante do inaceitável, a cada grito engolido quando é o próprio corpo que cai lentamente do oitavo andar. As pessoas na sala de jantar estão muito ocupadas para pensar, não podem notar as mensagens que nos chegam sem parar, não podem perceber nem que a guerra acontece ao seu redor nem que há bem mais sóis crestando entre as estrelas. Como não sabem e não crêem que se pode sempre a sorte escolher, fica a morte por medida, fica a vida por prisão. O futuro é hoje e cabe na palma da mão, mas também escorre por entre os dedos gota a gota. Para seres que vivem como vegetais, talvez lhes falte aprender um pouco com a natureza, as folhas sabem procurar pelo sol, e as raízes procurar, procurar... Sejamos simples e calmos, como os regatos e as árvores. Mas calma não é apatia, nem simplicidade é submissão. Quem tem olhos para ver, que veja, mas além do próprio nariz. Quem de dentro de si não sai, vai morrer sem amar ninguém, é necessário sair da ilha para ver a ilha. É mais conveniente não ver os meninos invisíveis que se alimentam de luz no Brejo da Cruz e nos sinais, ou não saber que o dinheiro de quem não dá é o trabalho de quem não tem. Homens e mulheres partidos, que quando mudam, é para que tudo permaneça como está, que quando dão migalhas, é para se sentirem humanos. Muita coisa as pessoas na sala de jantar fazem seguindo o caminho que o mundo traçou, seguindo a cartilha que alguém ensinou, seguindo a receita da vida normal, mas o que é vida afinal, será que é fazer o que o mestre mandou, é comer o pão que o diabo amassou, perdendo da vida o que tem de melhor? Não, a única forma que pode ser norma é nenhuma regra ter, é nunca fazer nada que o mestre mandar; sempre desobedecer, nunca reverenciar. A sala de jantar não tem portas, nela estamos presos todos e não podemos sair individualmente, pois a única saída é derrubar totalmente suas paredes. É preciso que não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. É por isso que eu não estou interessado em nenhuma teoria, a minha alucinação é suportar o dia-a-dia, e o meu delírio é a experiência com coisas reais. Revoltar-me é mais que possível, é necessário. Amar e mudar as coisas me interessa mais.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Amanhã serei o que hoje não posso nunca ser...

Adiamento

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...

Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...
Sim, o porvir...

Álvaro de Campos

O bicho cotidiano

O Bicho

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

Manuel Bandeira

Ah, se eu pudesse sozinho dinamitar a ilha de Manhattan...

Quem diria, Drummond era um terrorista poético... E um profeta... Ou então foi a realidade que não mudou muito de 1938 pra cá... A única "atualização" que eu acharia cabível seria substituir, na 4ª estrofe, "ao telefone" por "ao computador".

Poema não indicado para momentos de crise existencial ou depressão.

ELEGIA 1938

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios de espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Que espécie de homem sou

Fernando Pessoa

É necessário agora que eu diga que espécie de homem sou. Meu nome, não importa, nem qualquer outro pormenor exterior meu próprio. Devo falar de meu caráter.

A constituição inteira de meu espírito é de hesitação e dúvida. Nada é ou pode ser positivo para mim; todas as coisas oscilam em torno de mim, e, com elas, uma incerteza para comigo mesmo. Tudo para mim é incoerência e mudança. Tudo é mistério e tudo está cheio de significado. Todas as coisas são "desconhecidas", simbólicas do Desconhecido. Em conseqüência, o horror, o mistério, o medo por demais inteligente.

Pelas minhas próprias tendências naturais, pelo ambiente que me cercou a infância, pela influência dos estudos realizado sob o impulso delas (dessas mesmas tendências), por tudo isto meu caráter é da espécie interiorizada, concentrada, muda, não auto-suficiente, mas perdida em si mesma. Toda a minha vida tem sido de passividade e dúvida. Todo o meu caráter consiste no ódio, no horror, na incapacidade que invade tudo quanto em mim existe, física e mentalmente, para atos decisivos, para pensamentos definidos. Nunca tive uma decisão nascida de um autocomando, nunca uma denúncia exterior de uma vontade consciente. Todos os meus escritos ficaram inacabados; sempre novos pensamentos se interpunham, associações de indéias extraordinárias e inexcluíveis, de término infinito. Não posso evitar o ódio que têm meus pensamentos de ir até o fim; a respeito de uma simples coisa, surgem dez mil pensamentos e milhares de interassociações com eses dez mil pensamentos e careço de vontade de eliminá-los ou detê-los, nem tampouco de reuni-los num pensamento central, onde os seus pormenores sem importância mas associados podem-se perder. Introduzem-se em mim; não são pensamentos meus, mas pensamentos que passam através de mim. Não pondero, sonho; não me sinto inspirado, deliro. Sei pintar, mas nunca pintei; sei compor música, mas nunca compus. Estranhas concepções em três artes, amáveis afagos de imaginação acariciam meu cérebro;mas deixo-os ali dormitar até que morram, pois não tenho poder de corporificá-los, de torná-los coisas do mundo exterior.

O caráter de minha mente é tal que odeio os começos e os fins das coisas, porque são pontos definidos. Aflige-me a idéia de que se descubra uma solução para os mais altos e mais nobres problemas de ciência e filosofia; horroriza-me a idéia de que uma coisa qualquer possa ser determinada por Deus ou pelo mundo. Enlouquece-me a idéia de que as coisas mais momentosas possam realizar-se, de que os homens pudessem todos ser felizes um dia, de que se encontrasse uma solução para os males da sociedade, mas nas suas concepções. Contudo não sou mau nem cruel; sou louco e isso dum modo difícil de conceber.

Embora tenha sido um leitor voraz e ardente, não me lembro contudo de nenhum livro que tenha lido a tal ponto eram minhas leituras estados de minha própria mente, sonhos meus, e mais ainda provocações de sonhos. Minha própria recordação de acontecimentos, de coisas exteriores, é vaga, mais do que incoerente. Estremeço ao pensar quão conservo em mente do que tem sido minha vida passada. Eu, o homem que afirma que o hoje é um sonho, sou menos do que uma coisa de hoje.