"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

sábado, 9 de maio de 2009

CURRICULUM VITAE

Tenho muito talento para inutilidades.
Sei contemplar com extrema deseficiência,
Sem qualquer resultado avaliável.
Sou competente para inventar perguntas para o que as palavras não dizem.
Consigo a proeza de escutar os desabafos das pessoas sem dar um conselho sequer,
Pois compreendo suas confusões a tal ponto
Que acabo fundindo-as com minhas próprias confusões.

Me adapto com facilidade a qualquer fase da lua.
Leio poesia com improdutividade rigorosa,
Sendo incapaz de escrever um único verso que preste.
Para coisas úteis, está claro.

Sou particularmente criativo para repetir clichês batidos
Até senti-los.
Afinal, repetindo o poeta Manoel,
Repetir, repetir é um dom do estilo.

Sou destacadamente eficaz para sonhar impossibilidades.
Tenho vasta experiência em amar e sofrer com intensidade.
Rio e choro com fluência em qualquer idioma.
Me esforço muito para desaprender pelo menos 8 horas por dia.

Meu curso atual é bem definido:
Me deixar navegar pelo mar
À procura do turbilhão onde quero me perder
E me afogar
E me sentir protegido debaixo d'água,
Onde tudo é mais bonito, mais azul, mais colorido,
E ainda assim conseguir respirar.

Sou determinado:
Para atingir um objetivo, sou capaz de qualquer sacrifício.
Menos de fazer o que não gosto.
Porque, no fim das contas, meu objetivo é simplesmente
Fazer o que gosto.

Almejo chegar longe, sim, até Pasárgada,
Não porque ache novidade ver a nudez do rei,
Mas porque não abro mão de ter a mulher que quero
Na cama que escolherei.

Quanto à questão da confiança, sou do tipo que não sabe mentir.
Se por, outro lado, também não sei dizer a verdade,
É que tenho a sabedoria socrática
De que só sei que nada sei,
Se é que alguém sabe se isso é verdade.

Não sou bom em esconder sentimentos,
A não ser de mim mesmo.
Meu ser é transparente como um poço de água cristalina.
Só que sem fundo
E no escuro.

Sim, eu sou exatamente essa máscara
Que vocês hoje não poderão nunca ver
Porque o espelho dos olhos tem medo de se enxergar-me.

Ah! Tenho uma memória prodigiosa para lembrar com detalhes
Os sabores de meus sorvetes preferidos
E das peles das mulheres que amei.

Minhas habilidades musicais são tamanhas
Que as esgoto completamente na complexa arte de saber escutar.
Habilidades teatrais? Óbvio!
Ou vocês acham que qualquer um consegue interpretar eu próprio o tempo inteiro,
Sem poder sair de cena desta eterna comédia dell'arte,
Dirigida por um sádico que não se decide
Entre a tragédia grega,
O dramalhão mexicano,
A perversão rodriguiana
E o absurdo becketiano?
Pode não parecer, mas eu não sou um personagem fácil,
Ainda mais para um ator inexperiente como eu.

A carga horária não é problema,
Tenho disponibilidade para sonhar em tempo integral,
Inclusive quando estou dormindo.
Creio que posso contribuir muito
Para que o grupo atinja a exuberância das desimportâncias essenciais.

Meu projeto é um dia não querer mais
Deixar de ser a criança que hoje finjo que não sou.
Minhas ambições são para pássaro ou para peixe,
Mas também me contento com a beleza única
Da pieguice cotidiana de uma flor.
Tenho tendência à rebeldia
E aptidão para a liberdade.
Minha vocação é me embriagar de mar.

Um defeito?
Não sei lidar muito bem com esse troço de vida.
Pra algumas pessoas parece tão fácil, quase automático...
Mas pra mim não;
Em mim nada está como é,
Tudo é um tremendo esforço de ser.
E a cada dia tenho que improvisar uma solução nova
Para que a vida continue para sempre funcionando
Por enquanto.

Quanto a minha vida privada, é um livro aberto,
Embora ninguém ainda tenha descoberto em que língua e em que tempo está sendo escrito
Neste exato momento
Em que eu nunca termino.

Um comentário:

Anônimo disse...

Lindo! Acho que muitos se sentem assim, inclusive eu