"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O mundo num jogo de amarelinha

(Julio Cortázar, O jogo da amarelinha)

"ABUSO DE CONSCIENCIA

Esta casa em que vivo se assemelha em tudo à minha: disposição dos cômodos, cheiro do vestíbulo, móveis, luz oblíqua pela manhã, atenuada ao meio-dia, solapada pela tarde; tudo é igual, inclusive os caminhos e árvores do jardim, e essa velha porta semicorroída e os tijolos do pátio.

Também as horas e os minutos do tempo que passa são semelhantes às horas e aos minutos de minha vida. No momento em que giram ao meu redor, digo: "Parecem realmente! Como se assemelham às verdadeiras horas que vivo neste momento!"

Da minha parte, se bem que suprimi em minha casa qualquer superfície de reflexão, quando apesar de tudo o vidro inevitável de uma janela se empenha em devolver-me meu reflexo, vejo nele alguém que se parece a mim. Sim, que se parece muito a mim, como o reconheço!

Mas que não pretenda ser eu! Vamos! Tudo é falso aqui. Quando me hajam devolvido minha casa e minha vida, então encontrarei meu verdadeiro rosto.

Jean Tardieu" (CAP. 152)


"Os peixes passavam e passavam, havia um, negro, um peixe enorme, muito maior que os outros. Passava e passava com sua mão por minhas pernas, subindo, descendo... Então fazer amor era isso, um peixe negro passando e passando obstinadamente. Uma imagem como qualquer outra, bastante certa no mais. A repetição ao infinito de uma ânsia de fuga, de atravessar o cristal e entrar em outra coisa.

– Quem sabe – disse Maga – Me parece que os peixes já não querem sair do aquário, quase nunca tocam o vidro com o nariz.

Gregorovius pensou que em alguma parte Chestov havia falado de aquários com uma divisória móvel que num momento dado podia ser retirado sem que o peixe habituado ao compartimento se decidisse jamais a passar ao outro lado. Chegar até um ponto da água, girar, voltar, sem saber que já não há obstáculo, que bastaria seguir avançando...

– Mas o amor também poderia ser isso – disse Gregorovius – Que maravilha estar admirando os peixes no seu aquário e, de repente, vê-los passar para o ar livre, voando como pombas. Uma esperança idiota, claro. Todos retrocedemos por medo de topar com o nariz em algo desagradável. Do nariz como limite do mundo, tema de dissertação. " (CAP. 25)


"Toco a tua boca, com um dedo toco o contorno da tua boca, vou desenhando-a como se saísse de minha mão, como se pela primeira vez tua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar, faço nascer cada vez a boca que desejo, a boca que a minha mão escolhe e te desenha na cara, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com tua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha.

Tu me olhas, de perto, tu me olhas, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no teu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E há uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu te sinto tremular contra mim como uma lua na água." (CAP. 7)


(...) "Uma análise da inquietude, na medida do possível, aludia sempre a uma descolocação, a uma forma de estar fora do centro com respeito a uma ordem que Oliveira era incapaz de precisar. Se sabia espectador à margem do espetáculo, como estar num teatro com os olhos vendados: às vezes lhe chegava o sentido segundo de alguma palavra, de alguma música, enchendo-o de ansiedade porque era capaz de intuir que aí estava o sentido primeiro. Nestes momentos se sabia mais próximo ao centro que muitos que viviam convencidos de ser o eixo da roda, mas a sua era uma proximidade inútil, um instante tantálico que nem sequer adquiria qualidade de suplício. Alguma vez havia acreditado no amor como enriquecimento, exaltação das potências intercessoras. Um dia se deu conta de que seus amores eram impuros porque pressupunham essa esperança, enquanto o verdadeiro amante amava sem esperar nada fora do amor, aceitando cegamente que o dia se tornasse mais azul e a noite mais doce e o trânsito menos incômodo." (CAP. 90)



(...) "pela loucura se poderia acaso chegar a uma razão que não fosse essa razão cuja falência é a loucura." (CAP. 18)



"Na realidade, nós somos como as comédias quando alguém chega ao teatro no segundo ato. Tudo é muito bonito, mas não se entende nada." (CAP. 28)


"Para que serve um escritor senão para destruir a literatura?" (CAP. 99)


(...) "mas havia que viver de outra maneira. E o que quer dizer de outra maneira? Talvez viver absurdamente para acabar com o absurdo, atirar-se em si mesmo com tal violência que o salto acabasse nos braços de outro." (CAP. 22)


"- É certo que há um xadrez índio com sessenta peças de cada lado?

- É possível - disse Oliveira - A partida infinita.

- Ganha o que conquista o centro. Daí se dominam todas as possibilidades, e não tem sentido que o adversário se empenhe em seguir jogando. Mas o centro poderia estar numa casa lateral, ou fora do tabuleiro.

- Ou no bolso do jaleco." (CAP. 154)

Nenhum comentário: