Italo Calvino
Ao chegar a este ponto, Kublai Kan o interrompia ou imaginava que o interrompia com uma pergunta como: "Avanças com a cabeça sempre voltada para trás?", ou bem: "O que vês está sempre a tuas costas?"; ou melhor: "Tua viagem transcorre somente no passado?"
Tudo para que Marco Polo pudesse explicar ou imaginar que explicava ou que Kublai houvesse imaginado que explicava ou conseguir por último explicar-se a si mesmo que aquilo que buscava era sempre algo que já estava diante dele, e ainda que se tratasse do passado, era um passado que avançava à medida que ele avançava em sua viagem, porque o passado do viajante muda sempre segundo o itinerário cumprido, não digamos já o passado próximo ao que cada dia que passa acresce um dia, senão o passado mais remoto. Ao chegar a cada nova cidade o viajante encontra um passado seu que já não sabia que tinha: a estranheza do que não és ou do que não possuis mais, te espera nos lugares estranhos e não possuídos.
Marco entra numa cidade: vê alguém que vive em uma praça uma vida ou um instante que poderiam ser seus; em algum lugar daquele homem agora poderia estar ele se houvesse parado no tempo muito tempo antes, ou se muito tempo antes, numa encruzilhada, em vez de tomar um caminho houvesse tomado o oposto e ao cabo de uma larga volta houvesse ido encontra-se no lugar daquele homem naquela praça. Dali em diante, daquele passado seu verdadeiro ou hipotético, ele fica excluído; não pode se deter; deve continuar até outra cidade onde o espera outro passado seu, ou algo que talvez havia sido um possível futuro e agora é o presente de algum outro. Os futuros não realizados são só ramos do passado: ramos secos.
- Viajas para reviver teu passado? - era nesse momento a pergunta do Kan, que podia também formular-se assim: Viajas para encontrar teu futuro?
E a resposta de Marco:
- O outro lado é um espelho em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu ao descobrir o muito que não teve e não terá.
As cidades e a memória. 2
Ao homem que cavalga longamente por terras agrestes lhe assalta o desejo de uma cidade. Finalmente chega a Isidora, cidade onde os palácios tem escadas em caracol incrustadas de caracóis marinhos, onde se fabricam com todas as regras da arte telescópios e violinos, onde quando o forasteiro está indeciso entre duas mulheres sempre encontra uma terceira, onde as brigas de galos degeneram em rinhas sangrentas entre os que apostam. Em todas estas coisas pensava o homem quando desejava uma cidade. Isidora é, pois, a cidade de seus sonhos; com uma diferença. À cidade sonhada ele chegava jovem; a Isidora chega em idade avançada. Na praça há um murete de onde os velhos olham passar a juventude: o homem está sentado em fila com eles. Os desejos já são recordações.
As cidades e a memória. 3
Inutilmente, magnânimo Kublai, tentarei descrever Zaíra, a cidade dos altos bastiões. Poderia dizer de quantos degraus são suas ruas em escada, de que tipo os arcos de seus pórticos, que chapas de zinco cobrem seus telhados; mas já sei que seria como não dizer nada. A cidade não está feita disto, e sim de relações entre as medidas de seu espaço e os acontecimentos de seu passado: a distância do solo até um lampião e os pés pendurados de um usurpador enforcado; o fio esticado do lampião à balaustrada em frente e os festões que empavesavam o percurso do cortejo nupcial da rainha; a altura daquela balaustrada e o salto do adúltero que foge de madrugada; a inclinação de um canal que escoa a água das chuvas e o passo majestoso de um gato que se introduz numa janela; a linha de tiro da canhoneira que surge inesperadamente atrás do cabo e a bomba que destrói o canal; os rasgos nas redes de pesca e os três velhos remendando as redes que, sentados ao molhe, contam pela milésima vez a história da canhoneira do usurpador, que dizem ser o filho ilegítimo da rainha, abandonado de cueiro ali sobre o molhe.
A cidade se embebe como uma esponja dessa onda que reflui das recordações e se dilata. Uma descrição de Zaíra como é atualmente deveria conter todo o passado de Zaíra. Mas a cidade não conta o seu passado, ela o contém como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, nos corrimãos das escadas, nas antenas dos pára-raios, nos mastros das bandeiras, cada segmento riscado por arranhões, serradelas, entalhes, esfoladuras.
As cidades e o desejo. 3
Há duas maneiras de se alcançar Despina: de navio ou de camelo. A cidade se apresenta de forma diferente para quem chega por terra ou por mar.
O cameleiro que vê despontar no horizonte do planalto os pináculos dos arranha-céus, as antenas de radar, os sobressaltos das birutas brancas e vermelhas, a fumaça das chaminés, imagina um navio; sabe que é uma cidade, mas a imagina como uma embarcação que pode afastá-lo do deserto, um veleiro que esteja para zarpar, com o vento que enche as suas velas ainda não completamente soltas, ou um navio a vapor com a caldeira que vibra na carena de ferro, e imagina todos os portos, as mercadorias ultramarinas que os guindastes descarregam nos cais, as tabernas em que tripulações de diferentes bandeiras quebram garrafas na cabeça umas das outras, as janelas térreas iluminadas, cada uma com uma mulher que se penteia.
Na neblina costeira, o marinheiro distingue a forma da corcunda de um camelo, de uma sela bordada de franjas refulgentes entre duas corcundas malhadas que avançam balançando; sabe que é uma cidade, mas a imagina como um camelo de cuja albarda pendem odres e alforjes de fruta cristalizada, vinho de tâmaras, folhas de tabaco, e vê-se ao comando de uma longa caravana que o afasta do deserto do mar rumo a um oásis de água doce à sombra cerrada das palmeiras, rumo a palácios de espessas paredes caiadas, de pátios azulejados onde as bailarinas dançam descalças e movem os braços para dentro e para fora do véu.
Cada cidade recebe a forma do deserto a que se opõe; é assim que o cameleiro e o marinheiro vêem Despina, cidade fronteiriça entre dois desertos.
As cidades e os intercâmbios. 1
A oitenta milhas de distância contra o vento noroeste, atinge-se a cidade de Eufêmia, onde os mercadores de sete nações se reúnem em cada solstício e cada equinócio. O barco que ali atraca com uma carga de gengibre e algodão zarpará com a estiva cheia de pistaches e sementes de papoula, e a caravana que acabou de descarregar sacas de noz-moscada e uvas passas agora enfeixa as albardas para o retorno com rolos de musselina dourada. Mas o que leva a subir os rios e atravessar os desertos para vir até aqui não é apenas o comércio das mesmas mercadorias que se encontram em todos os bazares dentro e fora do império do Grande Khan, espalhadas pelo chão nas mesmas esteiras amarelas, à sombra dos mesmos mosqueteiros, oferecidas com os mesmos descontos enganosos. Não é apenas para comprar e vender que se vem a Eufêmia, mas também porque à noite, ao redor das fogueiras em torno do mercado, sentados em sacos ou barris ou deitados em montes de tapetes, para cada cada palavra que se diz – como “lobo”, “irmã”, “tesouro escondido”, “batalha” , “sarna”, “amantes” – os outros contam uma história de lobos, de irmãs, de tesouros, de sarnas, de amantes, de batalhas. E sabem que na longa viagem de retorno, quando, para permanecerem acordados bambaleando no camelo ou no junco, puserem-se a pensar nas próprias recordações, o lobo terá se transformado num outro lobo, a irmã numa irmã diferente, a batalha em outras batalhas, ao retornar de Eufêmia, a cidade onde em cada solstício e cada equinócio trocamos nossas recordações.
"há sempre um copo de mar para um homem navegar" - jorge de lima
Quando os cronópios saem em viagem, encontram os hotéis cheios, os trens já partiram, chove a cântaros e os táxis não querem levá-los ou lhes cobram preços altíssimos. Os cronópios não desanimam porque acreditam piamente que estas coisas acontecem a todo o mundo, e na hora de dormir dizem uns aos outros: “Que bela cidade, que belíssima cidade”. E sonham a noite toda que na cidade há grandes festas e que eles foram convidados. E no dia seguinte levantam contentíssimos, e é assim que os cronópios viajam.
(Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas)
(Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas)
"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios
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