"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

sábado, 31 de outubro de 2009

Crítica de uma obra não escrita

A resenha crítica abaixo foi escrita por meu amigo russo Dimitri José, publico aqui com sua autorização, mas me parece que, apesar de obviamente não poder ser considerada como literatura, apresenta o defeita básico de ter sido escrita. E convém advertir que o ponto de vista apresentado não é original: conta-se que a única obra publicada do célebre poeta argentino Humberto Calvo foi um livro de poesia cujo título era um ponto final e todas as páginas estavam em branco. Aparentemente o público não compreendeu suas concepções literárias vanguardistas e isso lhe gerou inúmeros transtornos. Morreu há alguns anos ainda jovem, no melhor de seu pontencial criativo. Hoje poucos lembram dele, mas alguns críticos o lamentam porque o consideravam uma grande promessa da nova geração. Foi publicada ainda uma obra póstuma sua cujo título eram reticências, mas dela só foram encontradas folhas em branco soltas, sem unidade poética. Consta que o seguinte poema de Leminski foi escrito em sua homenagem:

Aqui jaz um grande poeta
Nada deixou escrito
Este silêncio, acredito,
são suas obras completas


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Há quem não tenha gostado da obra por considerá-la incompleta, uma colcha de retalhos esburacada sem início nem fim em que cada parte não se completa nem por si nem em conjunto com as demais. Uma sensação constante de que algo muito importante falta, de que o essencial não foi dito. De minha parte, concordo plenamente com as observações sobre o caráter fragmentário do livro: a tal ponto parece ser uma obra a ser construída, futura, que resulta quase impossível classificá-la nas categorias tradicionais de romance, conto ou poesia. A bem da verdade, é difícil mesmo dizer se estamos tratando de literatura, música, cinema ou algo para o qual ainda não existe a devida categoria artística. Se é que se trata de uma obra de arte. Ou ainda às vezes se tem a impressão de que não se trata de rascunhos soltos a serem desenvolvidos, mas justamente do contrário: dos restos de uma obra-prima, aquelas partes excedentes e supérfluas que necessariamente têm de ficar de fora da história principal. Foi justamente esse o fundamento de muitas das críticas: que a história principal não foi contada, e sem ela as partes anexas não têm qualquer sentido.

Pois bem, como disse estou de acordo com tudo isso, com a pequena diferença de que para mim essas características é que revelam a genialidade da obra: a melhor forma de contar uma história não é revelando, mas sugerindo. E a verdade é que isso ocorre em toda obra de arte, mas em geral não conseguimos perceber: o essencial é o que não foi dito, o que não foi mostrado. Muitos dizem que o essencial de um livro está oculto nas entrelinhas, nas margens, mas eu digo que o mais importante de um livro é tudo que está fora dele. O mais deslumbrante na arte é o que ela não revela, porque por mais completa que seja uma obra, seu grande mérito é sugerir o universo infinito que está para além de seus limites. Os romances mais inquietantes são os que nos fazem sentir que a história principal não trata dos personagens, mas de nós próprios. A rigor, a história principal nunca é contada, simplesmente porque é impossível. Não há dúvidas de que "Crime e Castigo" é uma das maiores obras da literatura universal, mas quem sabe se no apartamento vizinho ao de Raskólnikov estivesse ocorrendo uma história muito mais fascinante na qual ele não passava de um mero coadjuvante ou até mesmo figurante. E da mesma maneira que não costumamos indagar na literatura sobre o que está fora dos limites do que foi dito, na vida também não costumamos nos perguntar sobre a histórias épicas que protagoniza quem senta ao nosso lado no ônibus. Talvez no fim das contas a história de Raskólnikov não tenha nada de muito excepcional, talvez ele seja tão comum e banal como qualquer um de nós, que também matamos nossas velhinhas, de uma maneira ou de outra.

De fato, nenhuma obra tem início nem fim, porque antes e depois de seus marcos inicial e final há uma infinidade que foi calada, e que não costumamos atentar, mas ali é que está a grande obra, a história principal, completa. Por isso Clarice inicia "A hora da estrela" dizendo que tudo começa com um ponto, porque é quando a obra de arte acaba que começa a vida. Quanto mais incompleta uma obra, mais ela revela que o completo está fora dela. Imagino que talvez a obra literária ideal se resuma a um ponto, ou talvez nem isso, talvez a obra ideal seja aquela não escrita, apenas vivida por personagens que ignoram que suas histórias jamais serão lidas, mas fazem parte da grande história principal. Assim, a obra que é objeto da presente crítica constitui, ao meu ver, a mais bela criação artística humana, já que como nunca foi escrita, revela tudo o que não diz: o mundo.

Pressinto que algo grandioso se inicia agora, com este ponto.

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