"há sempre um copo de mar para um homem navegar" - jorge de lima
(Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas)
"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios
sábado, 31 de outubro de 2009
Crítica de uma obra não escrita
Aqui jaz um grande poeta
Nada deixou escrito
Este silêncio, acredito,
são suas obras completas
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Há quem não tenha gostado da obra por considerá-la incompleta, uma colcha de retalhos esburacada sem início nem fim em que cada parte não se completa nem por si nem em conjunto com as demais. Uma sensação constante de que algo muito importante falta, de que o essencial não foi dito. De minha parte, concordo plenamente com as observações sobre o caráter fragmentário do livro: a tal ponto parece ser uma obra a ser construída, futura, que resulta quase impossível classificá-la nas categorias tradicionais de romance, conto ou poesia. A bem da verdade, é difícil mesmo dizer se estamos tratando de literatura, música, cinema ou algo para o qual ainda não existe a devida categoria artística. Se é que se trata de uma obra de arte. Ou ainda às vezes se tem a impressão de que não se trata de rascunhos soltos a serem desenvolvidos, mas justamente do contrário: dos restos de uma obra-prima, aquelas partes excedentes e supérfluas que necessariamente têm de ficar de fora da história principal. Foi justamente esse o fundamento de muitas das críticas: que a história principal não foi contada, e sem ela as partes anexas não têm qualquer sentido.
Pois bem, como disse estou de acordo com tudo isso, com a pequena diferença de que para mim essas características é que revelam a genialidade da obra: a melhor forma de contar uma história não é revelando, mas sugerindo. E a verdade é que isso ocorre em toda obra de arte, mas em geral não conseguimos perceber: o essencial é o que não foi dito, o que não foi mostrado. Muitos dizem que o essencial de um livro está oculto nas entrelinhas, nas margens, mas eu digo que o mais importante de um livro é tudo que está fora dele. O mais deslumbrante na arte é o que ela não revela, porque por mais completa que seja uma obra, seu grande mérito é sugerir o universo infinito que está para além de seus limites. Os romances mais inquietantes são os que nos fazem sentir que a história principal não trata dos personagens, mas de nós próprios. A rigor, a história principal nunca é contada, simplesmente porque é impossível. Não há dúvidas de que "Crime e Castigo" é uma das maiores obras da literatura universal, mas quem sabe se no apartamento vizinho ao de Raskólnikov estivesse ocorrendo uma história muito mais fascinante na qual ele não passava de um mero coadjuvante ou até mesmo figurante. E da mesma maneira que não costumamos indagar na literatura sobre o que está fora dos limites do que foi dito, na vida também não costumamos nos perguntar sobre a histórias épicas que protagoniza quem senta ao nosso lado no ônibus. Talvez no fim das contas a história de Raskólnikov não tenha nada de muito excepcional, talvez ele seja tão comum e banal como qualquer um de nós, que também matamos nossas velhinhas, de uma maneira ou de outra.
De fato, nenhuma obra tem início nem fim, porque antes e depois de seus marcos inicial e final há uma infinidade que foi calada, e que não costumamos atentar, mas ali é que está a grande obra, a história principal, completa. Por isso Clarice inicia "A hora da estrela" dizendo que tudo começa com um ponto, porque é quando a obra de arte acaba que começa a vida. Quanto mais incompleta uma obra, mais ela revela que o completo está fora dela. Imagino que talvez a obra literária ideal se resuma a um ponto, ou talvez nem isso, talvez a obra ideal seja aquela não escrita, apenas vivida por personagens que ignoram que suas histórias jamais serão lidas, mas fazem parte da grande história principal. Assim, a obra que é objeto da presente crítica constitui, ao meu ver, a mais bela criação artística humana, já que como nunca foi escrita, revela tudo o que não diz: o mundo.
Pressinto que algo grandioso se inicia agora, com este ponto.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Quando me dei conta estava vivo...
Se me hacia tarde, ya me iba
Siempre se hace tarde en la ciudad
Cuando me di cuenta estaba vivo
Vivo para siempre de verdad
Hoy compre revistas en el metro
No pensaba en nada, nada mas
Y cai que al fin esto es un juego
Todo empieza siempre una vez mas.
Y a rodar, y a rodar, y a rodar, y a rodar mi vida
Y a rodar, y a rodar, y a rodar, y a rodar mi amor
Yo no se donde va, yo no se donde va mi vida
Yo no se donde va pero tampoco creo que sepas vos
Quiero salir, si, quiero vivir
Quiero dejar una suerte de señal
Si un corazon triste pudo ver la luz
Si hice mas liviano el peso de tu cruz
Nada mas me importa en esta vida.
Chau, hasta mañana.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
O mundo num jogo de amarelinha
"ABUSO DE CONSCIENCIA
Esta casa em que vivo se assemelha em tudo à minha: disposição dos cômodos, cheiro do vestíbulo, móveis, luz oblíqua pela manhã, atenuada ao meio-dia, solapada pela tarde; tudo é igual, inclusive os caminhos e árvores do jardim, e essa velha porta semicorroída e os tijolos do pátio.
Também as horas e os minutos do tempo que passa são semelhantes às horas e aos minutos de minha vida. No momento em que giram ao meu redor, digo: "Parecem realmente! Como se assemelham às verdadeiras horas que vivo neste momento!"
Da minha parte, se bem que suprimi em minha casa qualquer superfície de reflexão, quando apesar de tudo o vidro inevitável de uma janela se empenha em devolver-me meu reflexo, vejo nele alguém que se parece a mim. Sim, que se parece muito a mim, como o reconheço!
Mas que não pretenda ser eu! Vamos! Tudo é falso aqui. Quando me hajam devolvido minha casa e minha vida, então encontrarei meu verdadeiro rosto.
Jean Tardieu" (CAP. 152)
"Os peixes passavam e passavam, havia um, negro, um peixe enorme, muito maior que os outros. Passava e passava com sua mão por minhas pernas, subindo, descendo... Então fazer amor era isso, um peixe negro passando e passando obstinadamente. Uma imagem como qualquer outra, bastante certa no mais. A repetição ao infinito de uma ânsia de fuga, de atravessar o cristal e entrar em outra coisa.
– Quem sabe – disse Maga – Me parece que os peixes já não querem sair do aquário, quase nunca tocam o vidro com o nariz.
Gregorovius pensou que em alguma parte Chestov havia falado de aquários com uma divisória móvel que num momento dado podia ser retirado sem que o peixe habituado ao compartimento se decidisse jamais a passar ao outro lado. Chegar até um ponto da água, girar, voltar, sem saber que já não há obstáculo, que bastaria seguir avançando...
– Mas o amor também poderia ser isso – disse Gregorovius – Que maravilha estar admirando os peixes no seu aquário e, de repente, vê-los passar para o ar livre, voando como pombas. Uma esperança idiota, claro. Todos retrocedemos por medo de topar com o nariz em algo desagradável. Do nariz como limite do mundo, tema de dissertação. " (CAP. 25)
"Toco a tua boca, com um dedo toco o contorno da tua boca, vou desenhando-a como se saísse de minha mão, como se pela primeira vez tua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar, faço nascer cada vez a boca que desejo, a boca que a minha mão escolhe e te desenha na cara, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com tua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha.
Tu me olhas, de perto, tu me olhas, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no teu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E há uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu te sinto tremular contra mim como uma lua na água." (CAP. 7)
(...) "Uma análise da inquietude, na medida do possível, aludia sempre a uma descolocação, a uma forma de estar fora do centro com respeito a uma ordem que Oliveira era incapaz de precisar. Se sabia espectador à margem do espetáculo, como estar num teatro com os olhos vendados: às vezes lhe chegava o sentido segundo de alguma palavra, de alguma música, enchendo-o de ansiedade porque era capaz de intuir que aí estava o sentido primeiro. Nestes momentos se sabia mais próximo ao centro que muitos que viviam convencidos de ser o eixo da roda, mas a sua era uma proximidade inútil, um instante tantálico que nem sequer adquiria qualidade de suplício. Alguma vez havia acreditado no amor como enriquecimento, exaltação das potências intercessoras. Um dia se deu conta de que seus amores eram impuros porque pressupunham essa esperança, enquanto o verdadeiro amante amava sem esperar nada fora do amor, aceitando cegamente que o dia se tornasse mais azul e a noite mais doce e o trânsito menos incômodo." (CAP. 90)
(...) "pela loucura se poderia acaso chegar a uma razão que não fosse essa razão cuja falência é a loucura." (CAP. 18)
"Na realidade, nós somos como as comédias quando alguém chega ao teatro no segundo ato. Tudo é muito bonito, mas não se entende nada." (CAP. 28)
"Para que serve um escritor senão para destruir a literatura?" (CAP. 99)
(...) "mas havia que viver de outra maneira. E o que quer dizer de outra maneira? Talvez viver absurdamente para acabar com o absurdo, atirar-se em si mesmo com tal violência que o salto acabasse nos braços de outro." (CAP. 22)
"- É certo que há um xadrez índio com sessenta peças de cada lado?
- É possível - disse Oliveira - A partida infinita.
- Ganha o que conquista o centro. Daí se dominam todas as possibilidades, e não tem sentido que o adversário se empenhe em seguir jogando. Mas o centro poderia estar numa casa lateral, ou fora do tabuleiro.
- Ou no bolso do jaleco." (CAP. 154)
terça-feira, 27 de outubro de 2009
As cidades invisíveis
Ao chegar a este ponto, Kublai Kan o interrompia ou imaginava que o interrompia com uma pergunta como: "Avanças com a cabeça sempre voltada para trás?", ou bem: "O que vês está sempre a tuas costas?"; ou melhor: "Tua viagem transcorre somente no passado?"
Tudo para que Marco Polo pudesse explicar ou imaginar que explicava ou que Kublai houvesse imaginado que explicava ou conseguir por último explicar-se a si mesmo que aquilo que buscava era sempre algo que já estava diante dele, e ainda que se tratasse do passado, era um passado que avançava à medida que ele avançava em sua viagem, porque o passado do viajante muda sempre segundo o itinerário cumprido, não digamos já o passado próximo ao que cada dia que passa acresce um dia, senão o passado mais remoto. Ao chegar a cada nova cidade o viajante encontra um passado seu que já não sabia que tinha: a estranheza do que não és ou do que não possuis mais, te espera nos lugares estranhos e não possuídos.
Marco entra numa cidade: vê alguém que vive em uma praça uma vida ou um instante que poderiam ser seus; em algum lugar daquele homem agora poderia estar ele se houvesse parado no tempo muito tempo antes, ou se muito tempo antes, numa encruzilhada, em vez de tomar um caminho houvesse tomado o oposto e ao cabo de uma larga volta houvesse ido encontra-se no lugar daquele homem naquela praça. Dali em diante, daquele passado seu verdadeiro ou hipotético, ele fica excluído; não pode se deter; deve continuar até outra cidade onde o espera outro passado seu, ou algo que talvez havia sido um possível futuro e agora é o presente de algum outro. Os futuros não realizados são só ramos do passado: ramos secos.
- Viajas para reviver teu passado? - era nesse momento a pergunta do Kan, que podia também formular-se assim: Viajas para encontrar teu futuro?
E a resposta de Marco:
- O outro lado é um espelho em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu ao descobrir o muito que não teve e não terá.
As cidades e a memória. 2
Ao homem que cavalga longamente por terras agrestes lhe assalta o desejo de uma cidade. Finalmente chega a Isidora, cidade onde os palácios tem escadas em caracol incrustadas de caracóis marinhos, onde se fabricam com todas as regras da arte telescópios e violinos, onde quando o forasteiro está indeciso entre duas mulheres sempre encontra uma terceira, onde as brigas de galos degeneram em rinhas sangrentas entre os que apostam. Em todas estas coisas pensava o homem quando desejava uma cidade. Isidora é, pois, a cidade de seus sonhos; com uma diferença. À cidade sonhada ele chegava jovem; a Isidora chega em idade avançada. Na praça há um murete de onde os velhos olham passar a juventude: o homem está sentado em fila com eles. Os desejos já são recordações.
As cidades e a memória. 3
Inutilmente, magnânimo Kublai, tentarei descrever Zaíra, a cidade dos altos bastiões. Poderia dizer de quantos degraus são suas ruas em escada, de que tipo os arcos de seus pórticos, que chapas de zinco cobrem seus telhados; mas já sei que seria como não dizer nada. A cidade não está feita disto, e sim de relações entre as medidas de seu espaço e os acontecimentos de seu passado: a distância do solo até um lampião e os pés pendurados de um usurpador enforcado; o fio esticado do lampião à balaustrada em frente e os festões que empavesavam o percurso do cortejo nupcial da rainha; a altura daquela balaustrada e o salto do adúltero que foge de madrugada; a inclinação de um canal que escoa a água das chuvas e o passo majestoso de um gato que se introduz numa janela; a linha de tiro da canhoneira que surge inesperadamente atrás do cabo e a bomba que destrói o canal; os rasgos nas redes de pesca e os três velhos remendando as redes que, sentados ao molhe, contam pela milésima vez a história da canhoneira do usurpador, que dizem ser o filho ilegítimo da rainha, abandonado de cueiro ali sobre o molhe.
A cidade se embebe como uma esponja dessa onda que reflui das recordações e se dilata. Uma descrição de Zaíra como é atualmente deveria conter todo o passado de Zaíra. Mas a cidade não conta o seu passado, ela o contém como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, nos corrimãos das escadas, nas antenas dos pára-raios, nos mastros das bandeiras, cada segmento riscado por arranhões, serradelas, entalhes, esfoladuras.
As cidades e o desejo. 3
Há duas maneiras de se alcançar Despina: de navio ou de camelo. A cidade se apresenta de forma diferente para quem chega por terra ou por mar.
O cameleiro que vê despontar no horizonte do planalto os pináculos dos arranha-céus, as antenas de radar, os sobressaltos das birutas brancas e vermelhas, a fumaça das chaminés, imagina um navio; sabe que é uma cidade, mas a imagina como uma embarcação que pode afastá-lo do deserto, um veleiro que esteja para zarpar, com o vento que enche as suas velas ainda não completamente soltas, ou um navio a vapor com a caldeira que vibra na carena de ferro, e imagina todos os portos, as mercadorias ultramarinas que os guindastes descarregam nos cais, as tabernas em que tripulações de diferentes bandeiras quebram garrafas na cabeça umas das outras, as janelas térreas iluminadas, cada uma com uma mulher que se penteia.
Na neblina costeira, o marinheiro distingue a forma da corcunda de um camelo, de uma sela bordada de franjas refulgentes entre duas corcundas malhadas que avançam balançando; sabe que é uma cidade, mas a imagina como um camelo de cuja albarda pendem odres e alforjes de fruta cristalizada, vinho de tâmaras, folhas de tabaco, e vê-se ao comando de uma longa caravana que o afasta do deserto do mar rumo a um oásis de água doce à sombra cerrada das palmeiras, rumo a palácios de espessas paredes caiadas, de pátios azulejados onde as bailarinas dançam descalças e movem os braços para dentro e para fora do véu.
Cada cidade recebe a forma do deserto a que se opõe; é assim que o cameleiro e o marinheiro vêem Despina, cidade fronteiriça entre dois desertos.
As cidades e os intercâmbios. 1
A oitenta milhas de distância contra o vento noroeste, atinge-se a cidade de Eufêmia, onde os mercadores de sete nações se reúnem em cada solstício e cada equinócio. O barco que ali atraca com uma carga de gengibre e algodão zarpará com a estiva cheia de pistaches e sementes de papoula, e a caravana que acabou de descarregar sacas de noz-moscada e uvas passas agora enfeixa as albardas para o retorno com rolos de musselina dourada. Mas o que leva a subir os rios e atravessar os desertos para vir até aqui não é apenas o comércio das mesmas mercadorias que se encontram em todos os bazares dentro e fora do império do Grande Khan, espalhadas pelo chão nas mesmas esteiras amarelas, à sombra dos mesmos mosqueteiros, oferecidas com os mesmos descontos enganosos. Não é apenas para comprar e vender que se vem a Eufêmia, mas também porque à noite, ao redor das fogueiras em torno do mercado, sentados em sacos ou barris ou deitados em montes de tapetes, para cada cada palavra que se diz – como “lobo”, “irmã”, “tesouro escondido”, “batalha” , “sarna”, “amantes” – os outros contam uma história de lobos, de irmãs, de tesouros, de sarnas, de amantes, de batalhas. E sabem que na longa viagem de retorno, quando, para permanecerem acordados bambaleando no camelo ou no junco, puserem-se a pensar nas próprias recordações, o lobo terá se transformado num outro lobo, a irmã numa irmã diferente, a batalha em outras batalhas, ao retornar de Eufêmia, a cidade onde em cada solstício e cada equinócio trocamos nossas recordações.
sábado, 17 de outubro de 2009
Resistindo na boca da noite um gosto de sol...
Eu já estou com o pé nessa estrada
Qualquer dia a gente se vê
Sei que nada será como antes amanhã
Que notícias me dão dos amigos?
Que notícias me dão de você?
Sei que nada será como está, amanhã ou depois de amanhã
Resistindo na boca da noite um gosto de sol
Num domingo qualquer, qualquer hora
Ventania em qualquer direção
Sei que nada será como antes, amanhã
Que notícias me dão de você?
Sei que nada será como está, amanhã ou depois de amanhã
Resistindo na boca da noite um gosto de sol
Caminhos do coração - Gonzaguinha
Há muito tempo que eu saí de casa
Há muito tempo que eu caí na estrada
Há muito tempo que eu estou na vida
Foi assim que eu quis, e assim eu sou feliz
Principalmente por poder voltar
A todos os lugares onde já cheguei
Pois lá deixei um prato de comida
Um abraço amigo, um canto prá dormir e sonhar
E aprendi que se depende sempre
De tanta, muita, diferente gente
Toda pessoa sempre é as marcas
Das lições diárias de outras tantas pessoas
E é tão bonito quando a gente entende
Que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá
E é tão bonito quando a gente sente
Que nunca está sozinho por mais que pense estar
É tão bonito quando a gente pisa firme
Nessas linhas que estão nas palmas de nossas mãos
É tão bonito quando a gente vai à vida
Nos caminhos onde bate, bem mais forte o coração
E aprendi ...
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Reinvenções
Canção do caminho
Por aqui vou sem programa,
sem rumo,
sem nenhum itinerário.
O destino de quem ama
é vário,
como o trajeto do fumo.
Minha canção vai comigo.
Vai doce.
Tão sereno é seu compasso
que penso em ti, meu amigo.
- Se fosse,
em vez da canção, teu braço!
Ah! mas logo ali adiante
- tão perto!-
acaba-se a terra bela.
Para este pequeno instante,
decerto,
é melhor ir só com ela.
(Isto são coisas que digo,
que invento,
para achar a vida boa...
A canção que vai comigo
é a forma de esquecimento
do sonho sonhado à toa...)
Noções
para a navegação dos meus desejos afligidos.
Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.
Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.
Virei-me sobre a minha própria existência, e contemplei-a
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.
Ó meu Deus, isto é a minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera...
Reinvenção
reinventada.
Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... — mais nada.
Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.
Não te encontro, não te alcanço...
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.
Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
Dos apontamentos de Harry Haller
- Você trazia no íntimo uma imagem da vida, uma fé, uma exigência; estava disposto a feitos, a sofrimentos e sacrifícios, e logo aos poucos notou que o mundo não lhe pedia nenhuma ação, nenhum sacrifício nem algo semelhante; que a vida não é nenhum poema épico, com rasgos de heróis e coisas parecidas, mas um salão burguês, no qual se vive inteiramente feliz com a comida e a bebida, o café e o tricô, o jogo de cartas e a música de rádio. E quem aspira a outra coisa e traz em si o heróico e o belo, a veneração pelos grandes poetas ou a veneração pelos santos, não passa de um louco ou de um Quixote. Pois bem, meu amigo, comigo também foi assim! Eu era uma jovem bem dotada, com vocação para viver dentro de um elevado padrão, para esperar muito de mim mesma e para realizar grandes feitos. Poderia ter um belo futuro, ser a esposa de um rei, a amante de um revolucionário, a irmã de um gênio, a mãe de um mártir. E a vida só me permitiu ser uma cortesã de mediano bom gosto, o que já se vai tornando bastante difícil para mim! Foi isso o que me aconteceu. Fiquei algum tempo desconsolada e procurei com afinco a culpa em mim mesma. A vida, pensava eu, sempre acaba tendo razão, e se a vida se ria dos meus belos sonhos, pensava, era porque meus sonhos tinham sido estúpidos e irracionais. Mas isso não me valeu de nada. Mas como tivesse bons olhos e ouvidos, e, além disso, fosse curiosa, examinei com toda a atenção a chamada vida, observei meus vizinhos e conhecidos, pouco mais de cinqüenta pessoas e destinos, e percebi então, Harry, que meus sonhos estavam certos, estavam mil vezes certos, assim como os seus. Mas a vida, a realidade, não tinha razão. O fato de uma mulher da minha classe não ter alternativa senão envelhecer de uma maneira insensata e pobremente junto a uma máquina de escrever a serviço de um capitalista, ou casar-se com ele por seu dinheiro ou converter-se numa espécie de meretriz, era tão injusto quanto o de um homem como você, solitário, tímido e desesperado, ter de recorrer à navalha de barbear para matar-se. Talvez a miséria em mim fosse mais material e moral, e em você mais espiritual; mas o caminho era o mesmo. Pensa que eu não pude reconhecer sua angústia diante do foxtrote, sua repugnância pelos bares e pelos dancings e tudo o mais? Compreendia e muito bem, como compreendia seu horror pela política, sua tristeza pelo palavreado vão e a conduta irresponsável dos partidos e da imprensa; seu desespero diante da guerra, as passadas e as futuras; pela maneira como hoje se pensa, se lê, se edifica, se compõe música, se celebram as festas e se educa! Você tem razão, Lobo da Estepe, mil vezes razão, e contudo terá de perecer. Vive demasiadamente faminto e cheio de desejos para um mundo tão singelo, tão cômodo, que se contenta com tão pouco; para o mundo de hoje em dia, que lhe cospe em cima, você tem uma dimensão a mais. Quem quiser hoje viver e satisfazer-se com sua vida, não pode ser uma pessoa assim como você e eu. Quem quiser música em vez de balbúrdia, alegria em vez de prazer, alma em vez de dinheiro, verdadeiro trabalho em vez de exploração, verdadeira paixão em vez de jogo, para este não há lugar neste belo mundo em que padecemos...
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Em busca das sete chaves do mistério
Si alguna vez he dado más de lo que tengo
me han dado algunas veces más de lo que doy,
se me ha olvidado ya el lugar de donde vengo
y puede que no exista el sitio adonde voy.
A las buenas costumbres nunca me he acostumbrado,
del calor de la lumbre del hogar me aburrí,
también en el infierno llueve sobro mojado,
lo sé porque he pasado más de una noche allí.
En busca de las siete llaves del misterio,
siete versos tristes en una canción,
siete crisantemos en el cementerio,
siete negros signos de interrogación.
En tiempos tan oscuros nacen falsos profetas
y mucha golondrinas huyen de la ciudad,
el asesino sabe más de amor que el poeta
y el cielo cada vez está más lejos del mar.
Lo bueno de los años es curan heridas,
lo malo de los besos es que crean adición;
ayer quiso matarme la mujer de mi vida,
apretaba el gatillo… cuando se despertó.
Me enamoro de todo, me conformo con nada;
un aroma, un abrazo, un pedazo de pan
y lo que buenamente me den por la Balada
de la Vida Privada… de Fulano de Tal.
Juventude
(...) Na multidão das calçadas, a maioria é de jovens. Falando estritamente, é contemporâneo deles, mas não se sente assim. Sente-se de meia idade, uma prematura meia-idade: um daqueles acadêmicos exangues, de testa alta, cuja pele se esfolha ao menor toque. No fundo, ainda é uma criança, que ignora seu lugar no mundo, assustada, indecisa. O que está fazendo na cidade imensa, fria, onde apenas sobreviver significa segurar-se o tempo inteiro, tentando não cair?
(...) Mas sua situação é diferente da deles. Não é um refugiado; ou melhor, uma reivindicação de sua parte para ser refugiado não o levaria a parte alguma junto ao Departamento do Interior. Quem está oprimindo você?, o Departamento do Interior perguntará. De que está fugindo? Do tédio, ele responderá. Da hipocrisia. Da atrofia da vida moral. Da vergonha. Onde o levarão esses pretextos?
(...) Não pode continuar assim. Não pode sacrificar mais nem um momento de sua vida ao princípio de que os seres humanos devem trabalhar em miséria por seu pão, um princípio a que parece filiar-se embora não faça idéia de onde o encontrou. Não pode ficar demonstrando para sempre à sua mãe na Cidade do Cabo que construiu uma vida sólida e, portanto, ela pode parar de se preocupar. Geralmente, não sabe o que quer, não se preocupa em saber o que quer. Saber bem demais o que se quer demonstra, pensa, a morte da faísca criativa. Mas neste caso não pode se permitir continuar em sua habitual névoa de indecisão. Tem de deixar a IBM. Tem de sair, não importa quanto isso vá lhe custar em humilhação.
(...)
Queria que lhe fosse dado despertar para a vida e por um minuto apenas, por um segundo apenas, saber como é arder com o fogo sagrado da arte.
Sofrimento, loucura, sexo: três maneiras de invocar o fogo sagrado sobre si. Já visitou os reinos inferiores do sofrimento, esteve em contato com a loucura; o que sabe de sexo? Sexo e criatividade andam juntos, todo mundi diz isso, e ele não tem dúvidas a respeito. Porque são criadores, os artistas possuem o segredo do amor.
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Do Tratado do Lobo da Estepe
Pois parece ser uma necessidade inata e imperativa de todos os homens imaginarem o próprio ser como unidade. E apesar de essa ilusão sofrer com freqüência graves contratempos e terríveis choques, ela sempre se recompõe. O juiz que se senta defronte ao criminoso e o fita no rosto, e por um instante reconhece todas as emoções, potencialidades e possibilidades do assassino em sua própria alma de juiz e ouve a voz do assassino como sendo a sua, já no momento seguinte volta a ser uno e indivisível como juiz, volta a encerrarse na envoltura do seu eu quimérico e cumpre seu dever e condena o assassino à morte. E se em algumas almas humanas, singularmente dotadas e de percepção sensível, se levanta a suspeita de sua composição múltipla, e, como ocorre aos gênios, rompem a ilusão da unidade personalística e percebem que o ser se compõe de uma pluralidade de seres como um feixe de eus, e chegam a exprimir essa idéia, então imediatamente a maioria as prende, chama a ciência em seu auxílio, diagnostica esquizofrenia e protege a Humanidade para que não ouça um grito de verdade dos lábios desses infelizes. Então, para que perder aqui palavras, por que expressar coisas que todos aqueles que pensam conhecem por si mesmos, quando sua simples enunciação é uma nota de mau gosto? Assim, pois, se um homem se aventura a converter numa dualidade a pretendida unidade do eu, se não é um gênio, é em todo caso uma rara e interessante exceção. Mas na realidade não há nenhum eu, nem mesmo no mais simples, não há uma unidade, mas um mundo plural, um pequeno firmamento, um caos de formas, de matizes, de situações, de heranças e possibilidades. Cada indivíduo isolado vive sujeito a considerar esse caos como uma unidade e fala de seu eu como se fora um ente simples, bem formado, claramente definido; e a todos os homens, mesmo aos mais eminentes, esse rude engano parece uma necessidade, uma exigência da vida, como o respirar e o comer.
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Memórias do subsolo
Pensai no seguinte: a razão, meus senhores, é coisa boa, mas razão é só razão e satisfaz apenas a capacidade racional do homem, enquanto o ato de querer constitui a manifestação de toda a vida, isto é, de toda a vida humana, com a razão e com todo o coçar-se. E, embora a nossa vida, nessa manifestação, resulte muitas vezes em algo bem ignóbil, é sempre a vida e não a extração de uma raiz quadrada. Eu, por exemplo, quero viver muito naturalmente, para satisfazer toda a minha capacidade vital, e não apenas a minha capacidade racional, isto é, algo como a vigésima parte da minha capacidade de viver. Que sabe a razão? Somente aquilo que teve tempo de conhecer (algo, provavelmente, nunca chegará a saber; embora isto não constitua consolo, por que não expressá-lo?), enquanto a natureza humana age em sua totalidade, com tudo o que nela existe de consciente e inconsciente, e, embora minta, continua vivendo.
(...)
Pergunto-vos agora: o que se pode esperar do homem, como criatura provida de tão estranhas qualidades? Podeis cobri-lo de todos os bens terrestres, afogá-lo em felicidade, de tal modo que apenas umas bolhazinhas apareçam na superfície desta, como se fosse a superfície da água; dar-lhe fartura, do ponto de vista econômico, que ele não tenha mais nada a fazer a não ser dormir, comer pão-de-ló e cuidar da continuação da história universal - pois mesmo neste caso o homem, unicamente por ingratidão e pasquinada, há de cometer alguma ignonímia. Vai arriscar até o pão-de-ló e desejar, intencionalmente, o absurdo mais destrutivo, o mais antieconômico, apenas para acrescentar a toda esta sensatez positiva o seu elemento fantástico e destrutivo. Desejará conservar justamente os seus sonhos fantásticos, a sua mais vulgar estupidez, só para confirmar a si mesmo (como se isso fosse absolutamente indispensável) que os homens são sempre homens e não teclas de piano, que as próprias leis da natureza tocam e ameaçam tocar de tal modo que atinjam um ponto em que não se possa desejar nada fora do calendário. Mais ainda: mesmo que ele realmente mostrasse ser uma tecla de piano, mesmo que isso lhe fosse demonstrado, por meio das ciências naturais e da matemática, ainda assim ele não se tornaria razoável e cometeria intencionalmente alguma inconveniência, apenas por ingratidão e justamente para insistir na sua posição. E, no caso de não ter meios para tanto, inventaria a destruição e o caos, inventaria diferentes sofrimentos e, apesar de tudo, insistiria no que é seu! Lançaria a maldição pelo mundo e, visto que somente o homem pode amaldiçoar (é um privilégio seu, a principal das qualidades que o distinguem dos outros animais), provavelmente com a mera maldição alcançaria o que lhe cabe: continuaria convicto de ser um homem e não uma tecla de piano! Se me disserdes que tudo isto também se pode calcular numa tabela, o caos, a treva, a maldição, - de modo que a simples possibilidade de um cálculo prévio vai tudo deter, prevalecendo a razão -, vou responder-vos que o homem se tornará louco intencionalmente, para não ter razão e insistir no que é seu! Creio nisto, respondo por isto, pois, segundo parece, toda a obra humana realmente consiste apenas em que o homem, a cada momento, demonstre que é um homem e não uma tecla!
(...)
Senhores, os problemas me atormentam; resolvei-os para mim. Quereis, por exemplo, desacostumar uma pessoa dos seus velhos hábitos e corrigir-lhe a vontade, de acordo com as exigências da ciência e do bom senso. Mas como sabeis que o homem não apenas pode, mas deve ser assim transformado? De onde concluís que à vontade humana é tão indispensavelmente necessário corrigir-se? Numa palavra, como sabeis que uma tal correção realmente trará vantagem ao homem? E, se é para dizer tudo, por que estais tão certamente convictos de que não ir contra as vantagnes reais, normais, asseguradas pelas conclusões da razão e pela aritmética, é de fato sempre vantajoso para o homem e constitui uma lei para toda a humanidade? Mas, por enquanto, isso é apenas uma suposição vossa. Admitamos que seja uma lei lógica, mas talvez não o seja, de modo algum, da humanidade. Talvez penseis, senhores, que estou louco? Permiti-me emendar o que disse. Concordo: o homem é un animal criador por excelência, condenado a tender conscientemente para um objetivo e a ocupar-se da arte da engenharia, isto é, abrir para si mesmo um caminho, eterna e incessantemente, para onde quer que seja. Mas talvez precisamente por isto lhe venha às vezes uma vontade de se desviar, justamente por estar condenado a abrir esse caminho, e talvez ainda porque, por mais estúpido que seja um homem direto e de ação, ocorre-lhe às vezes que o caminho vai quase sempre para alguma parte, e que o principal não está em saber para onde se dirige, mas em que se dirija, e em que a criança comportada, desprezando a arte da engenharia, não se entregue à ociosidade destruidora que, como se sabe, é mãe de todos os vícios. O homem gosta de criar e de abrir estradas, isto é indiscutível. Mas por que ama também, até a paixão, a destruição e o caos? Dizei-me! Mas eu mesmo quero dizer separadamente duas palavras sobre o assunto. Não amará ele a tal ponto a destruição e o caos porque teme instintivamente atingir o objetivo e concluir o edifício em construção? Como podeis sabê-lo? Talvez ele ame o edifício apenas de longe e nunca de perto; talvez ele goste apenas de criá-lo e não de viver nele, deixando-o depois para os animaux domestiques, isto é, formigas, carneiros, etc. Já as formigas tem um gosto de todo diferente.
As dignas formigas começaram pelo formigueiro e certamente acabarão por ele, o que confere grande honra à sua constância e caráter positivo. Mas o homem é uma criatura volúvel e pouco atraente e talvez, a exemplo do enxadrista, ame apenas o processo de atingir o objetivo, não o próprio objetivo. E - quem sabe? -, não se pode garantir, mas talvez todo o objetivo sobre a terra, aquele para o qual tende a humanidade, consista unicamente nesta constinuidade de atingir o processo de atingir o objetivo, ou, em outras palavras, na própria vida e não exatamente no objetivo, o qual, naturalmente, não deve ser outra coisa que o dois e dois são quatro, isto é, uma fórmula; mas na realidade dois e dois não são mais a vida, meus senhores, mas o começo da morte. Pelo menos, o homem sempre temeu de certo modo este dois e dois são quatro, e eu o temo até agora. Suponhamos que o homem não faça outra coisa senão procurar este dois e dois são quatro: ele atravessa os oceanos a nado, sacrifica a vida nesta busca, mas quanto a encontrá-lo realmente... juro por Deus, tem medo. Bem que ele sente: uma vez encontrado isto, não haverá mais o que procurar. (...) Estou de acordo em que dois e dois são uma coisa admirável; mas, se é para elogiar tudo então dois e dois são cinco também constitui, às vezes, uma coisinha muito simpática.
(...)
Existem nas recordações de todo homem coisas que ele só revela aos seus amigos. Há outras que não revela mesmo aos amigos, mas apenas a si próprio, e assim mesmo em segredo. Mas também há, finalmente, coisas que o homem tem medo de desvendar até a si próprio, e, em cada homem honesto, acumula-se um número bastante considerável de coisas no gênero. E acontece até o seguinte: quanto mais honesto é o homem, mais coisas assim ele possui.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Não quero ver TV nessa janela
Mais um passo
Nesse espaço
Tanto espaço
E ainda assim
O mundo é pequeno pra mim
A janela
Forma uma tela
O mundo todo dentro dela
É pequeno pra mim
Olho milhares de fotos
Jornais
Tantos lugares
E nada
Não quero ver tv nessa janela
Não quero ficar preso nela
Talvez por ter vivido só
Eu tenha me feito assim
Eu criei um mundo bem maior
E melhor
Pra mim