"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Do Livro do desassossego

Bernardo Soares/Fernando Pessoa

11.
Nós nunca nos realizamos.
Somos dois abismos - um poço fitando o Céu.

94.
Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir - é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.

Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com cada nova madrugada, numa revirgindade perpétua da emoção - isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos. Esta madrugada é a primeira do mundo. Nunca esta cor rosa amarelecendo para branco quente pousou assim na face com que a casaria de oeste encara cheia de olhos vidrados o silêncio que vem na luz crescente. Nunca houve esta hora, nem esta luz, nem este meu ser. Amanhã o que for será outra coisa, e o que eu vir será visto por olhos recompostos, cheios de uma nova visão. Altos montes da cidade! Grandes arquitecturas que as encostas íngremes seguram e engrandecem, resvalamentos de edifícios diversamente amontoados, que a luz tece de sombras e queimações – sois hoje, sois eu, porque vos vejo, sois o que [serei?] amanhã, e amo-vos da amurada como um navio que passa por outro navio e há saudades desconhecidas na passagem.

12.
Invejo - mas não sei se invejo - aqueles de quem se pode escrever uma biografia, ou que podem escrever a própria. Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer.

Que há-de alguém confessar que valha ou que sirva? O que nos sucedeu, ou sucedeu a toda a gente ou só a nós; num caso não é novidade, e no outro não é de compreender. Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações. Compreendo bem as bordadoras por mágoa e as que fazem meia porque há vida. Minha tia velha fazia paciências durante o infinito do serão. Estas confissões de sentir são paciências minhas. Não as interpreto, como quem usasse cartas para saber o destino. Não as ausculto, porque nas paciências as cartas não têm propriamente valia. Desenrolo-me como uma meada multicolor, ou faço comigo figuras de cordel, como as que se tecem nas mãos espetadas e se passam de umas crianças para as outras. Cuido só de que o polegar não falhe o laço que lhe compete. Depois viro a mão e a imagem fica diferente. E recomeço.

Viver é fazer meia com uma intenção dos outros. Mas, ao fazê-la, o pensamento é livre, e todos os príncipes encantados podem passear nos seus parques entre mergulho e mergulho da agulha de marfim com bico reverso. Croché das coisas... Intervalo... Nada...

De resto, com que posso contar comigo? Uma acuidade horrível das sensações, e a compreensão profunda de estar sentindo... Uma inteligência aguda para me destruir, e um poder de sonho sôfrego de me entreter... Uma vontade morta e uma reflexão que a embala, como a um filho vivo... Sim, croché...

173.
O sonho é a pior das cocaínas, porque é a mais natural de todas. Assim se insinua nos hábitos com a facilidade que uma das outras não tem, se prova sem se querer, como um veneno dado. Não dói, não descora, não abate - mas a alma que dele usa fica incurável, porque não há maneira de se separar do seu veneno, que é ela mesma.

Como um espectáculo na bruma.

Aprendi nos sonhos a coroar de imagens as frontes do quotidiano, a dizer o comum com estranheza, o simples com derivação, a dourar, com um sol de artifício, os recantos e os móveis mortos e [a] dar música, como para me embalar, quando as escrevo, às frases fluidas da minha fixação.

348.
Só o que sonhamos é o que verdadeiramente somos, porque o mais, por estar realizado, pertence ao mundo e a toda a gente. Se realizasse algum sonho, teria ciúmes dele, pois me haveria traído com o ter-se deixado realizar. Realizei tudo quanto quis, diz o débil, e é mentira; a verdade é que sonhou profeticamente tudo quanto a vida realizou dele. Nada realizamos. A vida atira-nos como uma pedra, e nós vamos dizendo no ar, "Aqui me vou mexendo".

Seja o que for este interlúdio mimado sob o projector do sol e as lantejoulas das estrelas, não faz mal decerto saber que ele é um interlúdio; se o que está para além das portas do teatro é a vida, viveremos; se é a morte, morreremos, e a peça nada tem com isso.

Por isso nunca me sinto tão próximo da verdade, tão sensivelmente iniciado, como quando nas raras vezes que vou ao teatro ou ao circo: sei então que enfim estou assistindo à perfeita figuração da vida. E os actores e as actrizes, os palhaços e os prestidigitadores são coisas importantes e fúteis, como o sol e a lua, o amor e a morte, a peste, a fome, a guerra na humanidade. Tudo é teatro. Ah, quero a verdade? Vou continuar o romance...

285.
Estou quase convencido de que nunca estou desperto. Não sei se não sonho quando vivo, se não vivo quando sonho, ou se o sonho e a vida não são em mim coisas mistas, interseccionadas, de que meu ser consciente se forme por interpenetração.

As vezes, em plena vida activa, em que, evidentemente, estou tão claro de mim como todos os outros, vem até à minha suposição uma sensação estranha de dúvida; não sei se existo, sinto possível o ser um sonho de outrem, afigura-seme, quase carnalmente, que poderei ser personagem de uma novela, movendome, nas ondas longas de um estilo, na verdade feita de uma grande narrativa.

Tenho reparado, muitas vezes, que certas personagens de romance tomam para nós um relevo que nunca poderiam alcançar os que são nossos conhecidos e amigos, os que falam connosco e nos ouvem na vida visível e real. E isto faz com que sonhe a pergunta se não será tudo neste total de mundo uma série entreinserta de sonhos e romances, como caixinhas dentro de caixinhas maiores - umas dentro de outras e estas em mais -, sendo tudo uma história com histórias, como as Mil e Uma Noites, decorrendo falsa na noite eterna.

Se penso, tudo me parece absurdo; se sinto, tudo me parece estranho; se quero, o que quer é qualquer coisa em mim. Sempre que em mim há acção, reconheço que não fui eu. Se sonho, parece que me escrevem. Se sinto, parece que me pintam. Se quero, parece que me põem num veículo, como a mercadoria que se envia, e que sigo com um movimento que julgo próprio para onde não quis que fosse senão depois de lá estar.

Que confusão é tudo! Como ver é melhor que pensar, e ler melhor que escrever! O que vejo, pode ser que me engane, porém não o julgo meu. O que leio, pode ser que me pese, mas não me perturba o tê-lo escrito. Como tudo dói se o pensamos como conscientes de pensar, como seres espirituais em quem se deu aquele segundo desdobramento da consciência pelo qual sabemos que sabemos! Embora o dia esteja lindíssimo, não posso deixar de pensar assim... Pensar ou sentir, ou que coisa terceira entre os cenários postos de parte? Tédios do crepúsculo e do desalinho, leques fechados, cansaço de ter tido que viver...

21.
Haja ou não deuses, deles somos servos.

107.
Sou daquelas almas que as mulheres dizem que amam, e nunca reconhecem quando encontram; daquelas que, se elas as reconhecessem, mesmo assim não as reconheceriam. Sofro a delicadeza dos meus sentimentos com uma atenção desdenhosa. Tenho todas as qualidades, pelas quais são admirados os poetas românticos, mesmo aquela falta dessas qualidades, pela qual se é realmente poeta romântico. Encontro-me descrito (em parte) em vários romances como protagonista de vários enredos; mas o essencial da minha vida, como da minha alma, é não ser nunca protagonista.

110.
Cada qual tem o seu álcool. Tenho álcool bastante em existir. Bêbado de me sentir, vagueio e ando certo. Se são horas, recolho ao escritório como qualquer outro. Se não são horas, vou até ao rio fitar o rio, como qualquer outro. Sou igual. E por detrás de isso, céu meu, constelo-me às escondidas e tenho o meu infinito.

111.
O amor romântico é um produto extremo de séculos sobre séculos de influência cristã; e, tanto quanto à sua substância, como quanto à sequência do seu desenvolvimento, pode ser dado a conhecer a quem não o perceba comparando-o com uma veste, ou traje, que a alma ou a imaginação fabriquem para com ele vestir as criaturas, que acaso apareçam, e o espírito ache que lhes cabe.

Mas todo o traje, como não é eterno, dura tanto quanto dura; e em breve, sob a veste do ideal que formámos, que se esfacela, surge o corpo real da pessoa humana, em quem o vestimos.

O amor romântico, portanto, é um caminho de desilusão. Só o não é quando a desilusão, aceite desde o princípio, decide variar de ideal constantemente, tecer constantemente, nas oficinas da alma, novos trajes, com que constantemente se renove o aspecto da criatura, por eles vestida.

112.
Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém.

É um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos.

Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa. O onanista é abjecto, mas, em exacta verdade, o onanista é a perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não disfarça nem se engana.

As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha complexidade. No próprio acto em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois "amo-te" ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada um quer dizer uma ideia diferente, uma vida diferente, até, porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma abstracta de impressões que constitui a actividade da alma.

117.
A maioria da gente enferma de não saber dizer o que vê e o que pensa.

Dizem que não há nada mais difícil do que definir em palavras uma espiral: é preciso, dizem, fazer no ar, com a mão sem literatura, o gesto, ascendentemente enrolado em ordem, com que aquela figura abstracta das molas ou de certas escadas se manifesta aos olhos. Mas, desde que nos lembremos que dizer é renovar, definiremos sem dificuldade uma espiral: é um círculo que sobe sem nunca conseguir acabar-se. A maioria da gente, sei bem, não ousaria definir assim, porque supõe que definir é dizer o que os outros querem que se diga, que não o que é preciso dizer para definir. Direi melhor: uma espiral é um círculo virtual que se desdobra a subir sem nunca se realizar. Mas não, a definição ainda é abstracta. Buscarei o concreto, e tudo será visto: uma espiral é uma cobra sem cobra enroscada verticalmente em coisa nenhuma.

Toda a literatura consiste num esforço para tornar a vida real. Como todos sabem, ainda quando agem sem saber, a vida é absolutamente irreal, na sua realidade directa; os campos, as cidades, as ideias, são coisas absolutamente fictícias, filhas da nossa complexa sensação de nós mesmos. São intransmissíveis todas as impressões salvo se as tornarmos literárias. As crianças são muito literárias porque dizem como sentem e não como deve sentir quem sente segundo outra pessoa. Uma criança, que uma vez ouvi, disse, querendo dizer que estava à beira de chorar, não "Tenho vontade de chorar", que é como diria um adulto, isto é, um estúpido, senão isto: "Tenho vontade de lágrimas". E esta frase, absolutamente literária, a ponto de que seria afectada num poeta célebre, se ele a pudesse dizer, refere resolutamente a presença quente das lágrimas a romper das pálpebras conscientes da amargura líquida. "Tenho vontade de lágrimas"! Aquela criança pequena definiu bem a sua espiral.

Dizer! Saber dizer! Saber existir pela voz escrita e a imagem intelectual! Tudo isto é quanto a vida vale: o mais é homens e mulheres, amores supostos e vaidades factícias, subterfúgios da digestão e do esquecimento, gentes remexendo-se, como bichos quando se levanta uma pedra, sob o grande pedregulho abstracto do céu azul sem sentido.

350.
Não sei o que é o tempo. Não sei qual a verdadeira medida que ele tem, se tem alguma. A do relógio sei que é falsa: divide o tempo espacialmente, por fora. A das emoções sei também que é falsa: divide, não o tempo, mas a sensação dele. A dos sonhos é errada; neles roçamos o tempo, uma vez prolongada- mente, outra vez depressa, e o que vivemos é apressado ou lento conforme qualquer coisa do decorrer cuja natureza ignoro.

Julgo, às vezes, que tudo é falso, e que o tempo não é mais do que uma moldura para enquadrar o que lhe é estranho. Na recordação, que tenho da minha vida passada, os tempos estão dispostos em níveis e planos absurdos, sendo eu mais jovem em certo episódio dos quinze anos solenes que em outro da infância sentada entre brinquedos.

Emaranha-se-me a consciência se penso nestas coisas. Pressinto um erro em tudo isto; não sei, porém, de que lado está. É como se assistisse a uma sorte de prestidigitação, onde, por ser tal, me soubesse enganado, porém não concebesse qual a técnica, ou a mecânica, do engano.

Chegam-me, então, pensamentos absurdos, que não consigo todavia repelir como absurdos de todo. Penso se um homem que medita devagar dentro de um carro que segue depressa está indo depressa ou devagar. Penso se serão iguais as velocidades idênticas com que caem no mar o suicida e o que se desequilibrou na esplanada. Penso se são realmente sincrónicos os movimentos, que ocupam o mesmo tempo, em os quais fumo um cigarro, escrevo este trecho e penso obscuramente.

De duas rodas no mesmo eixo podemos pensar que há sempre uma que estará mais adiante, ainda que seja fracções de milímetro. Um microscópio exageraria este deslocamento até o tornar quase inacreditável, impossível se não fosse real. E por que não há o microscópio de ter razão contra a má vista? São considerações inúteis? Bem o sei. São ilusões da consideração? Concedo. Que coisa, porém, é esta que nos mede sem medida e nos mata sem ser? E é nestes momentos, em que nem sei se o tempo existe, que o sinto como uma pessoa, e tenho vontade de dormir.

230.
A arte é um esquivar-se a agir, ou a viver. A arte é a expressão intelectual da emoção, distinta da vida, que é a expressão volitiva da emoção. O que não temos, ou não ousamos, ou não conseguimos, podemos possuí-lo em sonho, e é com esse sonho que fazemos arte. Outras vezes a emoção é a tal ponto forte que, embora reduzida à acção, a acção, a que se reduziu, não a satisfaz; com a emoção que sobra, que ficou inexpressa na vida, se forma a obra de arte. Assim, há dois tipos de artista: o que exprime o que não tem e o que exprime o que sobrou do que teve.

233.
... a tristeza solene que habita em todas as coisas grandes – nos píncaros como nas grandes vidas, nas noites profundas como nos poemas eternos.

234.
Podemos morrer se apenas amamos.

270.
A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não sentimos os nossos - vis porque são nossos e vis porque são vis.

O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares da arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela.

O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele.

Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso - o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objectivo.

Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência.

372.
Apoteose do absurdo

Absurdemos a vida, de leste a oeste.

213.
Meu Deus, meu Deus, a quem assisto? Quantos sou? Quem é eu? O que é este intervalo que há entre mim e mim?

Personagens perdidos

(De Seis personagnes à procura de um autor, de Pirandello)



DIRETOR: Alguém que tem pretensões de personagem tem o atrevimento de perguntar quem sou!

O PAI: Um personagem, senhor, sempre pode perguntar a um homem quem é. Porque um personagem tem realmente uma vida, com seus próprios atributos, pelo que sempre é "alguém". Enquanto que um homem - e não estou falando do senhor agora - um homem qualquer pode não ser ninguém.

(...)

DIRETOR: E? Aonde quer chegar?

O PAI: A lugar nenhum, senhor. Apenas fazer-lhe ver que se nós (indica a si mesmo e aos outros PERSONAGENS) não temos outra realidade além da ilusão, também seria bom que o senhor descofiasse de sua realidade, da que respira e toca, porque, como a de ontem, está destianda a revelar-se amanhã como uma ilusão.

DIRETOR: Tem toda a razão! Agora só falta que o senhor diga que com esta comédia que pretende representar é mais real que eu!

O PAI: Não tenho a menor dúvida, senhor!

DIRETOR: Ah, sim?

O PAI: Supus que o senhor o houvesse compreendido desde o princípio.

DIRETOR: Mais real que eu?

O PAI: Se sua realidade pode alterar-se de um dia para o outro...

DIRETOR: Mas claro que pode mudar! E continuamente! Como todos!

O PAI: Mas a nossa, não, senhor! Entende? Essa é a diferença! Não muda, não pode mudar nem ser outra, jamais, porque foi fixada, assim, "esta", e para sempre! E isso é terrível, senhor! É realmente inalterável! Até deveriam sentir um calafrio perto de nós!

DIRETOR: Eu queria saber quando foi que se viu um personagem saiu de seu papel para dedicar-se a ponderar como faz o senhor, expondo e explicando suas idéias? Poderia dizer? Jamais vi nada assim em minha vida!

O PAI: Não viu, senhor, porque os autores escondem com muita freqüência as inquietudes de sua criação. Quando os personagens estão vivos, verdadeiramente vivos diante de seu autor, este não faz outra coisa que observar as palavras e os gestos que eles propõem, e é necessário que ele os aceite tal qual são, porque muito cuidado se não é assim! Quando nasce um personagem, este adquire uma independência tal, inclusive frente a seu próprio autor, que pode ser imaginado em muitíssimas outras circunstâncias que o autor nem sequer imaginou. E com isso, inclusive, adquire, em certas ocasiões, um significado que o autor jamais sonhou!

domingo, 15 de novembro de 2009

A vida é sonho

"Porque uma coisa é sonhar, e outra é estar dormindo."
Vanzetti

"Mas pra que a gente acorde
é fundamental sonhar."
Alice Ruiz


"O maior erro que podemos cometer é achar que estamos vivos quando estamos na verdade dormindo na sala de espera da vida. O segredo é combinarmos as habilidades racionais da vida desperta com as possibilidades infinitas de nossos sonhos. Se soubermos fazê-lo, poderemos fazer qualquer coisa. Já teve um trabalho que odiava e ao qual se dedicava muito? Depois de trabalhar o dia todo, você chega em casa, deita e fecha os olhos. Aí você acorda e percebe que o dia de trabalho havia sido um sonho. Já é ruim o bastante que vendamos nossa vida desperta por um salário mínimo, mas agora eles ficam com seus sonhos de graça." - De um personagem de "Waking Life”.












Auto-retrato

Meu caro Théo,

É um pouco a contragosto que lhe escrevo, não o tendo feito há tanto tempo, e isto por muitos motivos.

(...) Involuntariamente, tornei-me na família uma espécie de personagem impossível e suspeito, seja como for, alguém que não merece confiança. A quem poderia eu ser útil de alguma maneira?

É por isto que antes de mais nada, sou levado a crer, seja vantajoso, e melhor resolução a tomar, e o mais razoável, que eu vá embora e me mantenha a uma distância conveniente, que eu faça como se não existisse.

O que para os pássaros é a muda, a época em que trocam de plumagem, a adversidade ou o infortúnio, os tempos difíceis, são para nós, seres humanos. Podemos permanecer neste tempo de muda, podemos também deixá-lo como que renovados, mas de qualquer forma isto não se faz em público, é pouco divertido, e por isto convém eclipsar-se. Pois seja.

(...) É verdade que ora ganhei meu pedaço de pão, ora ele me foi dado por bondade de um amigo; vivi como pude, nem bem nem mal, como dava; é verdade que perdi a confiança de muitos; é verdade que minha situação pecuniária está num triste estado; é verdade que o futuro me é bem sombrio; é verdade que eu poderia ter feito melhor; é verdade que só para ganhar meu pão eu perdi tempo; é verdade que meus próprios estudos estão num estado lamentável e desesperador, e que me falta mais, infinitamente mais do que o que tenho. Mas vocês chamam isso de cair, de não fazer nada?

Talvez você diga: mas por que você não continuou como gostaríamos que continuasse, pelo caminho da universidade? Não responderei mais do que isso: é muito caro, e ademais esse futuro não seria melhor do que o de agora, no caminho em que estou.

Mas no caminho em que estou devo continuar - se eu não fizer nada, se não estudar, se não procurar mais, então estarei perdido. Então, ai de mim.

Eis como eu vejo a coisa: continuar, continuar, isso é que é necessário.

Mas qual é o seu objetivo definitivo?, você perguntará. Este objetivo torna-se mais definido, desenhar-se-á lenta e seguramente como o croquis que se torna esboço e o esboço que se torna quadro, à medida que se trabalhe mais seriamente, que se aprofunde mais a idéia, no início vaga, o primeiro pensamento fugidio e passageiro, a menos que o fixemos.

(...) Meu Deus, como é belo Shakespeare. Quem é misterioso como ele? Sua palavra e sua maneira de fazer equivalem a um pincel fremente de febre e emoção. Mas é preciso aprender a ler, como é preciso aprender a ver e aprender a viver.

Portanto, você não deve acreditar que eu renegue isto ou aquilo, sou uma espécie de fiel na minha infidelidade e, embora mudado, sou o mesmo e meu tormento não é mais do que este: no que eu poderia ser bom?

Não poderia eu servir e ser útil de alguma maneira? Como poderia saber mais e aprofundar este ou aquele tema? Como você vê, isto me atormenta continuamente. Além disto, sinto-me como um prisioneiro do meu tormento, excluído de participar nesta ou naquela obra, e tendo estas ou aquelas coisas necessárias fora de meu alcance. Por isto sentimo-nos melancólicos, e sentimos grandes vazios ali onde poderiam existir amizades e elevadas e sérias afeições, e sentimos um terrível desânimo corroendo nossa própria energia moral, e a fatalidade parece poder colocar obstáculos aos instintos de afeição, e uma maré de desgosto nos invade. E então dizemos: até quando, meu Deus?

O que você quer? O que se passa no íntimo revela-se exteriormente? Fulano tem uma grande chama quimando em sua alma, e ninguém jamais vem nela se esquentar, e os transeuntes só percebem um pouquinho de fumaça no alto da chaminé e seguem então seu caminho. E agora, o que fazer? Sustentar essa chama interior, ter substância em si mesmo, esperar pacientemente, e no entanto com quanta impaciência, esperar, dizia, a hora em que alguém desejará aproximar-se - e ficar? Que sei eu? Quem quer que acredite em Deus, que espere a hora que cedo ou tarde chegará.

(...) Depois, às vezes, pode-se até ficar um pouco abstraído, um pouco sonhador. Há quem fique abstraído demais, sonhador demais; talvez seja o que ocorre comigo, mas é minha culpa. Afinal, quem sabe, não havia motivo para isto. Estava abstraído, procupado, inquieto por uma ou outra razão, mas a gente se refaz! O sonhador às vezes cai num poço, mas dizem que logo ele se reergue.

E o homem abstraído, em compensação, por vezes também tem sua presença de espírito. Às vezes é um personagem que tem sua razão de ser por um ou outro motivo que não distinguimos à primeira vista, ou que, na maioria das vezes, esquecemos involuntariamente. Fulano, que andou agitado como se estivesse num mar tempestuoso, chega enfim ao seu destino; um outro que parecia não valer nada e ser incapaz de exercer qualquer função acaba por encontrar uma e, ativo e capaz de agir, mostra-se totalmente outro do que parecia à primeira vista. Escrevo-lhe um pouco ao acaso o que me vem à pena, ficaria muito contente se de alguma maneira você pudesse ver em mim mais que um vagabundo.

(...) Um pássaro na gaiola durante a primavera sabe muito bem que existe algo no que ele pode ser bom, sente muito bem que há algo a fazer, mas não pode fazê-lo. O que será? Ele não se lembra muito bem. Tem então vagas lembranças e diz para si mesmo: "Os outros fazem seus ninhos, têm seus filhotes, criam sua ninhada", e então bate com a cabeça nas grades da gaiola. E a gaiola continua ali, e o pássaro fica louco de dor.

"Vejam que vagabundo", diz um outro pássaro que passa, "esse aí é um tipo de aposentado". No entanto, o prisioneiro vive, e não morre, nada exteriormente revela o que se passa em seu íntimo, ele está bem, está mais ou menos feliz sob os raios de sol. Mas vem a época da migração. Acesso de melancolia - "mas" dizem as crianças que o criam na gaiola, "afinal ele tem tudo o que precisa". E ele olha lá fora o céu cheio, carregado de tempestade, e sente em si a revolta contra a fatalidade. "Estou preso, estou preso e não me falta nada, imbecis. Tenho tudo o que preciso. Ah! por bondade, liberdade! ser um pássaro como os outros."

Aquele homem vagabundo assemelha-se a este pássaro vagabundo...

E os homens ficam frequentemente impossibilitados de fazer algo, prisioneiros de não sei que prisão horrível, horrível, muito horrível.

Há também, eu sei, a libertação, a libertação tardia. Uma reputação arruinada com ou sem razão, a penúria, a fatalidade das circunstâncias, o infortúnio, fazem prisioneiros.

Nem sempre sabemos dizer o que é que nos encerra, o que é que nos cerca, o que é que parece nos enterrar, mas no entanto sentimos não sei que barras, que grades, que muros.

Será tudo isto imaginação, fantasia? Não creio; e então nos perguntamos: meu Deus, será por muito tempo, será para sempre, para a eternidade?

Você sabe o que faz desaparecer a prisão. É toda afeição profunda, séria. Ser amigos, ser irmãos, amar, isto abre a porta da prisão por poder soberano, como um encanto muito poderoso. Mas aquele que não tem isto permanece na morte.

Mas onde renasce a simpatia, renasce a vida.

Além disso, a prisão às vezes se chama preconceito, mal-entendido, ignorância, falta disto ou daquilo, desconfiança, falsa vergonha.

Mas para falar de outra coisa, se eu caí, por outro loado você subiu. E se eu perdi simpatias, você por seu lado as ganhou. Eis o que me deixa contente; falo sério e isto sempre me alegrará. Se você fosse pouco sério e pouco profundo, eu poderia temer que isso não durasse muito, mas como acredito que você seja muito sério e muito profundo, sou levado a crer que isto durará.

Só que se lhe fosse possível ver em mim algo mais que um vagabundo da pior espécie eu ficaria muito contente. Então se eu puder alguma vez fazer algo por você, ser-lhe útil em alguma coisa, saiba que estou à sua disposição.

Se aceitei o que você me deu, você também poderia, caso de alguma forma eu puder ajudá-lo, pedir-me: eu ficaria contente e consideraria isso uma prova de confiança. Nós estamos muito distantes um do outro e podemos ter pontos de vista diferentes; contudo, em dado momento, algum dia, poderíamos ajudar-nos um ao outro.

Por hoje eu lhe aperto a mão, agradecendo novamente a bondade que você teve comigo.

Agora, se mais cedo ou mais tarde você quiser me escrever, meu endereço é chez Decrucq, rue du Pavillon 8, em Cuesmes, perto de Mons.

E saiba que escrevendo-me você me fará bem.

Do seu,

Vincent.

(Carta de Van Gogh a seu irmão Théo, julho de 1880)


Trecho do belíssimo filme Sonhos, de Akira Kurosawa, com Martin Scorsese interpretando Van Gogh:



Van Gogh: o Suicidado Pela Sociedade

(trechos)
Antonin Artaud


Não, Van Gogh não estava louco, mas suas telas eram jorros de substância incendiária, bombas atômicas cujo ângulo de visão, ao contrário de toda a pintura com prestígio na sua época, teria sido capaz de perturbar seriamente o conformismo espectral da burguesia do Segundo Império e dos esbirros de Thiers, Gambetta, Félix Faure, assim como os de Napoleão III.
Pois a pintura de Van Gogh ataca, não um determinado conformismo dos costumes, mas das instituições. E até a natureza exterior, com seus climas, suas marés e suas tormentas equinociais não pode mais manter a mesma gravitação depois da passagem de van Gogh pela Terra.
Tanto mais razão para, no plano social, as instituições se decomporem e a medicina parecer um hediondo e imprestável cadáver que declara louco a Van Gogh.
Diante da lucidez ativa de Van Gogh, a psiquiatria nada mais é que um antro de gorilas obcecados e perseguidos que só dispõem de uma ridícula terminologia para aplacar os mais espantosos estados de angústia e asfixia humana,
uma terminologia digna dos seus cérebros tarados.
Com efeito, não existe psiquiatra que não seja um erotômano declarado.
E não creio em exceções à regra da inveterada erotomania dos psiquiatras.
....................................................................................................
E o que é um autêntico louco?
É um homem que preferiu ficar louco, no sentido socialmente aceito, em vez de trair uma determinada idéia superior de honra humana.
Assim, a sociedade mandou estrangular nos seus manicômios todos aqueles dos quais queria desembaraçar-se ou defender-se porque se recusavam a ser seus cúmplices em algumas imensas sujeiras.
Pois o louco é o homem que a sociedade não quer ouvir e que é impedido de enunciar certas verdades intoleráveis.
Nesse caso, a reclusão não é sua única arma e a conspiração dos homens tem outros meios para triunfar sobre as vontades que deseja esmagar.
Além dos feitiços menores dos bruxos de aldeia, há as grandes sessões de enfeitiçamento global das quais participa, periodicamente, a consciência em pânico.
Assim, por ocasião de uma guerra, de uma revolução, de um transtorno social ainda latente, a consciência coletiva é interrogada e se questiona para emitir um julgamento.
Essa consciência também pode ser provocada e despertada por certos casos individuais particularmente flagrantes.
Assim foi que houve feitiços coletivos nos casos de Baudelaire, Edgar Poe, Gérard de Nerval, Nietzsche, Kierkegaard, Hölderlin, Coleridge,
e também no caso de Van Gogh.
Podem ser feitos durante o dia, mas geralmente são realizados à noite.
Então, estranhas forças são despertadas e levadas à abóbada celeste; a essa espécie de cúpula sombria que, sobre a respiração da humanidade, constitui a venenosa hostilidade do espírito maligno da maioria das pessoas.
É assim que as poucas pessoas lúcidas e de boa vontade que se debatem sobre a terra já se viram, em certas horas da noite ou do dia, tragadas pela profundeza de autênticos pesadelos em vigília e rodeadas por uma poderosa sucção, pela poderosa opressão tentacular de uma espécie de magia cívica que logo será vista aparecendo nos costumes de modo mais manifesto.

Diante dessa sordidez unânime que de um lado se baseia no sexo e de outro na missa e. outros ritos psíquicos, não há delírio em passear à noite com um chapéu coroado por doze velas para pintar uma paisagem natural;
pois como faria o pobre van Gogh para iluminar-se, como tão bem assinalou outro dia nosso amigo, o ator Roger Blin?
Quanto à mão assada, trata-se de heroísmo puro e simples;
quanto à orelha cortada, pura lógica direta,
e repito,
um mundo que, cada vez mais, noite e dia, come o
incomível para fazer sua maléfica vontade alcançar seus objetivos
não tem outra alternativa nessa questão
a não ser calar a boca.

POST-SCRIPTUM

Van Gogh não morreu num estado propriamente de delírio,
mas por ter sido corporalmente o campo de batalha de um problema em tomo do qual o espírito iníquo desta humanidade se debate desde as origens.
O problema do predomínio da carne sobre o espírito, do corpo sobre a carne ou do espírito sobre ambos.
E nesse delírio, onde está o lugar do eu humano?
Van Gogh o buscou durante toda sua vida com uma singular energia e determinação,
e ele não se suicidou num acesso de loucura, de desespero por não conseguir encontrá-lo,
mas, pelo contrário, ele havia conseguido, tinha descoberto o que era e quem era quando a consciência coletiva da sociedade, para puni-lo por ter rompido as amarras,
o suicidou.
E aconteceu com van Gogh como poderia ter acontecido com qualquer um de nós, por meio de uma bacanal, de uma missa, de uma absolvição ou qualquer outro rito de consagração, possessão, sucubação ou incubação.
Assim a sociedade inoculou-se no seu corpo, esta sociedade
absolvida,
consagrada,
santificada
e possuída,
apagou nele a consciência sobrenatural que acabara de adquirir e, como uma inundação de corvos negros nas fibras da sua árvore interna,
submergiu-o num último vagalhão
e, tomando seu lugar,
o matou.
Pois está na lógica anatômica do homem moderno nunca ter podido viver, nunca ter podido pensar em viver, a não ser como possuído.






Campo de trigo com corvos, 1890, último quadro de Van Gogh


quinta-feira, 12 de novembro de 2009

na natureza selvagem

Have no fear
For when I'm alone
I'll be better off than I was before

I've got this light
I'll be around to grow
Who I was before
I cannot recall







"Eu queria movimento e não um curso calmo de existência. Queria excitação e perigo e a oportunidade de sacrificar-me por meu amor. Sentia em mim uma superabundância de energia que não encontrava escoadouro em nossa vida tranqüila."
Leon Tolstoi, "Felicidade Familiar", trecho sublinhado em um dos livros encontrados com Chris McCandless

"27 de abril de 1992

Saudações de Fairbanks! Esta é a última vez que você terá notícias minhas, Wayne. Cheguei aqui há dois dias. Foi muito difícil pegar carona no território de Yukon. Mas finalmente cheguei. Por favor, devolva toda a minha correspondência para os remetentes. Posso demorar muito até voltar para o Sul. Se esta aventura se revelar fatal e nunca mais tiver notícias de mim, quero que saiba que você é um grande homem. Caminho agora para dentro da natureza selvagem. Alex."
Última correspondência enviada por Chris McCandless

(Transcrições do livro "Na natureza selvagem", de Jon Krakauer)

Parte de um poema de Alberto Caeiro/Fernando Pessoa de Ficções do Interlúdio que me lembra muito a história de Chris Mclandess, e tantas outras histórias:


Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a Natureza produziu.

E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como um homem,
Mas como quem sente a Natureza, e mais nada.
E assim escrevo, ora bem ora mal,
Ora acertando com o que quero dizer ora errando,
Caindo aqui, levantando-me acolá,
Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.

Ainda assim, sou alguém.
Sou o Descobridor da Natureza.
Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.
Trago ao Universo um novo Universo
Porque trago ao Universo ele-próprio.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Sobre o nada

(Manoel de Barros, Livro sobre nada)

Pretexto

O que eu gostaria de fazer é um livro sobre nada. Foi o que escreveu Flaubert a uma sua amiga em 1852. Li nas Cartas exemplares organizadas por Duda Machado. Ali se vê que o nada de Flaubert não seria o nada existencial, o nada metafísico. Ele queria o livro que não tem quase tema e se sustente só pelo estilo. Mas o nada de meu livro é nada mesmo. É coisa nenhuma por escrito: um alarme para o silêncio, um abridor de amanhecer, pessoa apropriada para pedras, o parafuso de veludo, etc, etc. O que eu queria era fazer brinquedos com as palavras. Fazer coisas desúteis. O nada mesmo. Tudo que use o abandono por dentro e por fora.


Não é por me gavar
mas eu não tenho esplendor.
Sou referente pra ferrugem
mais do que referente pra fulgor.
Trabalho arduamente para fazer o que é desnecessário.
O que presta não tem confirmação,
o que não presta, tem.
Não serei mais um pobre diabo que sofre de nobrezas.
Só as coisas rasteiras me celestam.
Eu tenho cacoete pra vadio.
As violetas me imensam.

-----------------------------------------

Sei que fazer o inconexo aclara as loucuras.
Sou formado em desencontros.
A sensatez me absurda.
Os delírios verbais me terapeutam.
Posso dar alegria ao esgoto (palavra aceita tudo).
(E sei de Baudelaire que passou muitos meses tenso
porque não encontrava um título para os seus poemas.
Um título que harmonizasse os seus conflitos. Até que
apareceu Flores do mal. A beleza e a dor. Essa antítese o acalmou.)

As antíteses congraçam.

------------------------------------------

O que não sei fazer desmancho em frases

Eu fiz o nada aparecer

(Represente que o homem é um poço escuro
Aqui de cima não se vê nada
Mas quando se chega ao fundo do poço já se pode ver
o nada)

Perder o nada é um empobrecimento.

-----------------------------------------

Tudo que não invento é falso.

------------------------------------------

Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.

------------------------------------------

Tem mais presença em mim o que me falta.

-----------------------------------------

O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.

----------------------------------------

A terapia literária consiste em desarumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.

----------------------------------------

O artista é um erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.

---------------------------------------

Por pudor sou impuro.

---------------------------------------

Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.

---------------------------------------

Não preciso do fim para chegar.

---------------------------------------

Do lugar onde estou já fui embora.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A arte explosiva

(Trecho de Os alquimistas vampiros, de Javier Quijano, traduzido por mim)

Eu não diria que o "dom" do artista é uma exatamente vantagem, a não ser que se considere o dom dos vampiros de ser obrigados a se alimentar do sangue alheio como uma vantagem. Porque, no fundo, é isso que os artistas são, vampiros condenados a se nutrirem do sofrimento, e como eles não podem sofrer de tudo em suas próprias vidas, são obrigados a viver o sofrimento alheio, a absorvê-lo e transformá-lo em arte, mas este processo alquímico não tem nada de prazeroso, pelo contrário, é doloroso e necessário como um parto, e na mesma medida glorioso. Claro, há os artistas "profissionais", para quem a arte é uma técnica, uma profissãoe, por isso podem decidir livremente o rumo de suas carreiras. Mas estou me referindo ao artista de alma, o verdadeiro, que não tem escolha, aquele para os qual a arte faz parte do próprio estar no mundo, e o que menos importa é se suas obras um dia serão publicadas ou expostas, porque o essencial é colocar para fora o sofrimento do qual ele se alimenta, mas que se permanecer dentro dele o levará à morte. Esses pobres coitados que não escolhem o tema de uma obra porque, no fim das contas, estão sempre falando de si próprios, de deus sofrimentos e do sofrimento alheio que eles absorveram e sentiram como se fosse deles. Ladrões de sofrimento. Mas, adivinhem, a boa notícia aqui é que as vítimas, longe de se indignarem, querem ser roubadas, desejam ser sugadas, já que como não foram agraciadas com o "dom", essa é sua única forma de impedir que aquele câncer cresça descontroladamente. Artistas no auge do sucesso (ou que sequer chegaram lá) afundados em drogas e sofrimento não é um "privilégio" de roqueiros ou estrelas pop irresponsáveis: quase todos os grandes nomes do jazz chegaram muitas vezes a um fundo do poço sem fim para só com muito esforço conseguirem se reerguer, no caso dos que conseguiram. Para não falar dos grandes poetas, escritores e pintores de todas as épocas. A verdade é que não passa de uma grande hipocrisia quando lamentamos tristemente ao ver mais um grande artista envolvido em escândalos aberrantes: é justamente isso o que queremos, porque é isso o que os nutre e nos alenta, e assim secretamente gozamos na grande orgia vazia do cotidiano mecânico ao vermos no artista o sofrimento que não podemos sentir. Porque estamos cada vez mais anestesiados, sim, mas no fundo ainda não somos totalmente robôs, ainda resta algo de humano em nós, algo que sente essa estranha vontade de gritar e chorar, e para satisfazer a esse nosso lado obscuro recorremos aos palcos, aos livros, à música, porque precisamos testemunhar alguém extravasando o que em nós precisa ficar enterrado. Mas ver o sofrimento do artista no palco é pouco: precisamos de algo mais real, precisamos que a própria vida do artista seja uma grande tragédia pública, porque aí está o melhor dos espetáculos, e o que no fim vai justificar perante nossas próprias consciências porque não podemos seguir seu caminho: eles podem criar obras geniais, mas não sabem viver, coitados... No fundo, todo grande artista sabe da existência oculta deste grande pacto hipócrita no qual eles são levados ao estrelato como uma bruxa prestes a ser queimada viva, e depois todos se deleitarão com seus restos. Sim, o artista sabe disso, mas segue porque sabe que ali ele não é nenhuma vítima, pelo contrário, aqueles hipócritas que o exploram justamente porque o idolatram são os que o mantêm vivo porque lhe doam seu sofrimento. Da mesma maneira que o indivíduo precisa de válvulas de escape para seus sofrimentos e angústias, o mesmo passa com a sociedade, e é justamente esse o papel social do artista: concentrando em si o sofrimento de tantos, dá vazão ao sofrimento de milhares, talvez milhões, que de outra forma explodiriam. Me pergunto o sofrimento de quanta gente foi necessário pra se chegar a uma obra do nível de Van Gogh, Bach, Miles Davis ou Janis Joplin. Por isso é que a arte, por mais contestadora e revolucionária que seja, é necessária à manutenção de qualquer sistema social, porque sua função é ser o espaço onde o pior de um indivíduo ou de uma sociedade é metamorfoseado em ouro. Talvez o artista realmente revolucionário seja aquele que conscientemente se omite, às custas de esgotar o próprio sofrimento e passar desapercebido como mais um no meio da multidão (creiam, existem vários). Talvez no dia em que todos os artistas se calem, as pessoas já não consigam mais calar, e talvez o mundo mude, talvez o mundo exploda.

Lunaris

Carlos Ribeiro


Uma pessoa tão normal

Talvez esse Senso de Responsabilidade fosse apenas uma reação insconsciente, uma forma dele se infiltrar na chamada "comunidade dos homens". Fruto da suspeita, vaga e desconfortável, de que fosse, no fundo, uma pessoa estranha. Talvez por isso Alberto fosse uma pessoa tão normal. Era uma forma de disfarçar uma realidade que só ele podia perceber. Talvez por isso o tocasse tão profundamente os dramas dos personagens da literatura ou do cinema que, por um motivo ou outro, eram colocados à margem - naquela solidão profunda que resulta de uma radical singularidade. Impressionaram-no bastante, por exemplo, a personagem vivida pelo ator Cristopher Walken, no filme A hora da zona morta, de David Cronemberg. Ou, ainda mais, o Demian, de Herman Hesse. Aquele que tinha na testa o Sinal de Caim. Lembrava-se de Homero Mesiara, uma figura insólita que conhecera em Itapuã, em meados dos anos 70, que, numa casa velha, na rua Guararapes, entre livros antigos, teias de aranha e chás macrobióticos, lhe dissera:

- Você também tem o Sinal de Caim. Daqueles que não poderão nunca viver com o rebanho. Daqueles que estão marcados para sempre pela solidão.

Talvez por isso Alberto nunca soubesse, quando se via andando pelas ruas desertas de Salvador, para onde realmente estava indo. Sabia apenas que amava aquelas ruas como se fossem partes dele mesmo. Quase podia sentir-se em tudo no que, à sua volta, seus olhos tocavam: os casarões centenários do Centro Histórico, as casas comerciais da Baixa dos Sapateiros, com seus vendedores e suas calçadas apinadas de pedestres, as avenidas ensolaradas da Orla Marítima, com suas casas iluminadas pelo sol da tarde, os labirintos de vielas e becos dos bairros periféricos, as pacíficas e desertas paisagens do subúrbio ferroviário, as praias, os pátios, as sacadas, os campos de futebol, os varais, os mangues, as veredas, as dunas e pastagens da Grande Salvador. Tudo que os seus olhos puderam ver não podia ser compartilhado. Tudo aquilo era, ao contrário do que parecia, uma outra dimensão, que repousava em algum lugar atrás dos seus olhos.

- Mas o que tem a ver todas essas ruas, praças, avenidas, varais e não sei o que mais com o seu "sinal de Caim"? - perguntou o amigo de Alberto, pitocando um carretel de linha com o dedo médio da mão direita.

- Não sei. Talvez eja uma forma de "amar a solidão", como disse Rilke em uma de suas cartas. A cidade é o meu elo com as pessoas. Uma forma de não me perder. Talvez tenha a ver com a idéia da solidão como caminho para a comunhão. A única forma de amar alguma coisa é saber-se separado dela. É impossível amar verdadeiramente se nos sentimos apenas como uma ovelha do rebanho.

Seu amigo torceu o nariz. Disse que ele parecia um personagem de um livro de auto-ajuda. Alberto sabia que, na verdade, aquilo não explicava nada. Tinha que fazer alguma coisa para não cair no lugar comum.


O dever de resistir

Talvez Alberto, como muitas outras pessoas de sua geração, sem o saber ou sequer imaginr tal coisa, aguardasse aquilo que mais desprezava: um Messias. Precisaria ser alguém muito especial, alguém impossível de existir... de verdade. Alguém que pudesse convencê-lo do impossível; alguém que pudesse convencê-lo a renunciar a tudo aquilo que mais amava e no que mais acreditava, para caminhar no deserto. Alguém que pudesse convencê-lo a morrer. Mas não foi exatamente isso o que aconteceu com os heróis do Araguaia? Os sonhadores, manipulados por heróis de pés de barro, que só encontraram a desgraça e a derrota e o supremo desamparo? Alberto seria tão estúpido ainda para ficar aí esperando a redenção do mundo? Ele rejeitava essa idéia com todo o seu ser, para tornar a encontrá-la, lá no mais fundo do seu íntimo, como uma imagem luminosa. A única capz de mobilizar tudo o que existia nele de verdadeiro, de real.

Lembrou-se de um amigo seu, o jornalista Carlos Ribeiro, que lhe confessara ter ficado profundamente impressionado com o ilustre geógrafo baiano Milton Santos, que entrevistara. Tudo porque ele denunciara, sem meias palavras, o mais tenebroso crime que se estava perpetrando, entre as imagens feéricas e enganadoras da globalização - ou, como ele mesmo dizia, do globalitarismo: a morte do pensamento. E a necessidade da utopia como forma de resistência. Disse ele, numa entrevista: "A idéia de generosidade que a gente praticou até os anos 60, e que levava à noção de utopia e de possibilidade de realização da utopia, ela voltará. Nós temos que voltar urgentemente a noção do Homem, do humanismo. Isso é que vai ser o grande fanal."

- O homem está sendo mutilado pela realização histórica atual - disse o professor Santos, com seu rosto largo, sua pele negra contrastando com seus dentes brancos e seus olhos vivos, espremidos, sempre sorrindo, com voz mansa dizendo coisas tão sérias, ali sentado, gesticulando com suas grandes mãos, com suas mãos enormes que pareciam ocupar todo o espeaço à sua frente. Ele sorria, e falava, e gesticulava, dizendo que nós tínhamos o dever de resistir, de impedir que não nos deixassem ser completamente homens, que precisávamos recuperar a idéia de humanismo. Precisávamos resistir à idéia terrível de sermos reduzidos a meros consumidores. Precisamos resistir ao Mercado, este Big Brother desses tempos ocos, sem substância.

Precisamos resistir ao fato de que estamos sendo transformados em simulacros. Cidadãos do mundo, uni-vos! Desembainhem suas espadas e lutem contra a tirania da informação e do dinheiro, contra o bezerro de ouro da competitividade, que se aproveita da confusão dos espíritos para pregar seu falso paraíso, que nada mais é que um pântano fétido e purulento. Resistam à canalhice dos que se locupletam no banquete dos bem-sucedidos, dos que se curvam aos poderosos e lambem o chão onde eles pisaram, dos que pilotam seus programas de grande audiência que disseminam a alienação e a ignorância, dos que se contrapões às idéias que podem efetivamente mudar o mundo.

- As épocas que subestimam as utopias são épocas de empobrecimento intelectual, ético e estético. É preciso jogar-se para frente, o que pode parecer suicida. Mas, do contrário, ficamos paralisados pelo pragmatismo... - disse o amigo de Alberto, evaporando-se, em seguida, diante dos seus olhos, como um fantasma vindo do fundo da noite mais luminosa.

Alberto ficou também duas noites sem dormir, após ter ouvido o relato do seu amigo jornalista e a apraição do professor, em Lunaris, após seu desencarnamento (palavra que pode desagradar aos agnósticos, por suas ressonâncias espíritas, mas que se aplica bem ao caso: a aparaição do professor, apesar mesmo da nitidez do seu sorriso, do seu olhar e dos seus gestos, era toda isenta do peso da carne. Era pura idéia.) "Tal como aconteceu ao meu amigo jornalista, o professor reacendeu, dentro de mim, uma fogueira que brilhava na noite escura e fria, tal como as fogueiras ancestrais, acesas pelos patagões nas remotas paisagens geladas da Terra do Fogo. A fogueira que aqucia seus corpos nus, enquanto ventos gelados os cercam com seu uivo", pesnou Alberto, andando pelas ruas, com as mãos nos bolsos do casaco que se tornava, pouco a pouco, menos real.

A fogueira tornava caro o que antes lhe parece obscuro. Ela fazia derreter as máscaras dos falsos ídolos e revelava o que havia de horrendo sob as faces sedutoras. Oh, mas ele era apenas um homem que andava pela cidade à noite, parando para olhar as vitrines, os jornais nas bancas de revistas, o mar distante, o silêncio e a sua própria insignificância. Ele erao mais anônimo entre os homens que vagam à noite pela cidade - e este era seu mais intenso prazer. Alberto não se acreditava capaz de mudar nada. Por que viera, então, a ele, aquela iluminação? As palavras do professor exigiam-lhe um gesto, uma atitude, ação. Eram como uma onda que, gerada em algum ponto do nadajorrava através dele para quebrar-se em uma pria que não sabia sequer onde estava. Mas não podia represar a onda, ela era mais forte que ele - e isso o assustava.

Alberto voltou pra casa, mergulhado nos seus pensamentos. Naquela noite, sua mulher não quis queixar-se do seu alheamento. Limitou-se a dar-lhe um beijo no rosto, voltar-se para o lado e dormir, enquanto ele ficou alguns minutos com os olhos pregados numa estrelaque estava em algum lugar acima do teto do seu apartamento e das nuvens cerradas que cobriam a cidade.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

de um amigo

Carta de Leminski a Régis Bonvicino

ctba, 4/8/78

mano régis,


as coisas que você faz
você faz passando
e para passar

o feito
é o superado

as pessoas
no entanto
te congelam
te reduzem
te prendem
ao que você fez ontem para não fazer mais hoje nem nunca mais

todo ser em movimento
é perigoso
todo ser que se trasnforma
incomoda



que dizer diante das coisas que v. me diz estar passando?

levei a vida inteira
acreditando que as palavras são instrumentos onipotentes

sei
hoje
que as palavras que estão na vida
não é a vida que está nas palavras

não sei o que te dizer
gostaria de achar a frase
o grito
a sílaba que te fizesse mais bem

pode ser qualquer uma
POESIA
TRANSCENDA
FUJA
ESQUEÇA
ENFRENTE
ENDUREÇA POR DENTRO
REZE
TRABALHE
MEDITE
MUDE
TRADUZA TUDO EM TERMOS SEMIÓTICOS
ANALISE TUDO EM FUNÇÃO DA PLENITUDE QUE VOCÊ QUER ATINGIR E AJA DE CONFORMIDADE
TRANSFORME EM SIGNOS OS ACONTECIMENTOS QUE TE ATORMENTAM
EM VERSO
IDEOGRAMA
PROSA
DIÁRIO
MEMÓRIAS
PALAVRAS PARA CANTAR

mas não te digo nada

te digo TE AMO

modo de dizer que sofro
não estou legal
por causa das coisas que se passam com você

nunca fui muito bom nesse negócio chamado vida
mas o tempo
entre um poema e outro
me ensinou umas coisinhas

principalmente
PENSAR AS DIFICULDADES PARA RESOLVÊ-LAS ATRAVÉS DA AÇÃO
e ACEITAR O INEVITÁVEL COMO UM INGREDIENTE DA AVENTURA DE VIVER

me ensinou o que eu sempre quis aprender
SIMPLICIDADE

fora com os ornamentos
mitos
tabus
conveniências familiares ou sociais
supérfluos
ambições de paraíso

um mestre zen disse
"mente tranquila qualquer quarto escuro tem céu azul
mente em desordem o dia claro dá à luz demônios e fantasmas"

comece pela mente

quando a barra pesar demais pense em praticar uma arte marcial
(judô karatê aikidô)

a mente começa no corpo

aí está tudo que pude te dizer depois de um dia de vontade e de bloqueio

só quero que v. saiba
que se você não encontrar a paz em lugar algum
existirá sempre um lugar onde a paz espera você

aqui em casa
conosco
com os seus


Leminski


ps: não deixe seus problemas
se transformarem
no centro de tua vida
v. não é tristeza e dor
v. é poesia e alegria
força esperança

O que aprendemos até agora

(Affonso Romano De Sant'anna, Tempo de delicadeza)

A vida vai nos levando e, às vezes, a gente pára e se pergunta: "Mas o que foi que aprendi de essencial até agora?"

Essas rugas, esses cabelos brancos, esses filhos, esses netos, todos esses corpos, casas e países habitados, todos os jornais e livros que lemos ( ou que nos leram), os animais que tivemos, tudo o que nos exibiram nos museus do espanto, enfim, tanta alegria e perplexidade, tudo isto, para quê?

(...)

Talvez o verdadeiro aprendizado comece quando descobrimos que certas perguntas não têm respostas, que a arte da vida não está em achar respostas, mas em trocar de perguntas.

(...)

Sobre o amor a gente julga ter aprendido algo, mas sempre se surpreende que está repetindo as lições. Ah! o amor - esse interminável aprendizado. Cada amor é um amor, cada amor um jeito de amar o próprio amor. E reconhecendo que o amor é a essência das essências, então a gente pode reconhecer que erraram os que disseram que era o trabalho, a luta de classes e a guerra que moviam a história. O que move a história e nossos pequenos gestos é o desejo. O desejo e seus desdobramentos: amor e paixão.

Aprendemos, então, que se ama diferentemente em cada idade. E a perícia maior na arte de amar é descobrir as sutilezas do amor que em cada idade o amor nos doa.

Aprende-se com isto que o amadurecimento tem o som, o ritmo do adágio. Para trás vai ficando o saltitante "allegro vivace", chega um tempo em que assumimos o ritmo do discreto outono. E a nossa figura incorpora aquilo que se chama a pátina do tempo.

Aprende-se que as amizades são delicadas. São muito delicadas as amizades, e muitas podem se romper ao mínimo descuido, e cultivá-las está entre a arte do ikebana e a arte da porcelana.

(...)

Aprende-se que, na verdade, precisaríamos de poucas coisas, que a volúpia de possuir e de acumular é uma perversão dos civilizados. Precisamos de uma casa, do amor, da família, de meia dúzia de objetos e amigos, precisamos que nos respeitem, e, no entanto, meu Deus!, como é difícil obter isto.

(...)

Às vezes tenho a pretensão de achar que já estou começando a entender certas coisas. Há muito que tenho essa sensação, de que um certo sentido vai se configurando. Daqui a uns cem anos, quando eu morrer, vou pedir para me colocarem esse epitáfio entre duas reticências:
"...logo agora que eu estava começando a compreender..."

O segredo de seus olhos

Soledad Villamil: La canción y el poema
Morir de amor




Hoy que el tiempo ya pasó,
Hoy que ya pasó la vida,
Hoy que me río si pienso,
Hoy que olvidé aquellos días,
No sé por qué me despierto
Algunas noches vacías
Oyendo una voz que canta
Y que, tal vez, es la mía.

Quisiera morir ahora de amor,
Para que supieras
Cómo y cuánto te quería,
Quisiera morir, quisiera… de amor,
Para que supieras…

Algunas noches de paz,
Si es que las hay todavía
Pasando como sin mí
Por esas calles vacías,
Entre la sombra acechante
Y un triste olor de glicinas,
Escucho una voz que canta
Y que, tal vez, es la mía.


Soledade Villamil deslumbrante no recém-estreado filme argentino "El secreto de sus ojos", um dos mais belos que vi nos últimos tempos.


Variações sobre um mesmo tema

(do livro "Sobre Heróis e Tumbas, do argentino Ernesto Sábato)

De "Os rostos invisíveis":

- Então você não acredita na verdade?

- Acredito que a verdade está bem nas matemáticas, na química, na filosofia. Não na vida. Na vida é mais importante a ilusão, a imaginação, o desejo, a esperança. Além disso, sabemos acaso o que é a verdade? Se eu lhe digo que aquela janela é azul, digo uma verdade. Mas é uma verdade parcial, e portanto uma espécie de mentira. Porque esta janela não está só, está em uma casa, em uma cidade, em uma paisagem. Está rodeada do cinza deste muro de cimento, do azul claro deste céu, daquelas nuvens alongadas, de infinitas coisas mais. E se não digo tudo, absolutamente tudo, estou mentindo. Mas dizer tudo é impossível, ainda que neste caso da janela, de um simples pedaço da realidade física, da simples realidade física. A realidade é infinita e tem infinitos matizes, e se me esqueço de um só matiz já estou mentindo. Agora, imagine o que é a realidade dos seres humanos, com suas complicações e rodeios, contradições e que ainda por cima estão sempre mudando. Porque muda a cada instante que passa, e o que éramos há um momento já não somos mais. Somos, acaso, sempre a mesma pessoa? Temos, acaso, sempre os mesmos sentimentos? Se pode amar alguém e logo depois não mais querer-lhe e até odiar-lhe. E se quando o odiamos cometemos o erro de dizer-lhe, isto é uma verdade, mas uma verdade momentânea, que não será mais verdade dentro de uma hora ou no outro dia ou em outras circunstâncias. E em compensação o ser a quem dissemos acreditará que essa é a verdade, a verdade para sempre e desde sempre. E afundará no desespero.

(...)

Toda consideração abstrata, ainda que se referisse a problemas humanos, não servia para consolar a nenhum homem, para mitigar nenhuma das tristezas e angústias que pode sofrer um ser concreto e de carne e osso, um pobre ser com olhos que miram ansiosamente (para que ou para quem?), uma criatura que somente sobrevive pela esperança. Porque felizmente (pensava) o homem não está feito só de desespero mas de fé e esperança; não só de morte mas também de anseio de vida; tampouco unicamente de solidão mas também de momentos de comunhão e amor. Porque se prevalecesse o desespero, todos nos deixaríamos morrer ou nos mataríamos, e isso não é de maneira nenhuma o que acontece. O que demonstrava, a seu juízo, a pouca importância da razão, já que não é razoável manter esperanças neste mundo em que vivemos. Nossa razzão, nossa inteligência, constantemente nos estão provando que este mundo é atroz, motivo pelo qual a razão é aniquiladora e conduz ao ceticismo, ao cinismo e finalmente à aniquilação. Mas, por sorte, o homem não é quase nunca um ser razoável, e por isso a esperança renasce uma e outra vez em meio das calamidades. E este mesmo renascer de algo tão disparatado, tão desprovido de todo fundamento, é a prova de que o homem não é um ser racional. E assim, tão só os terremotos arrasam uma vasta região do Japão ou do Chile; uma gigantesca inundação liquida a centenas de milhares de chineses na região do Yang Tsé; uma guerra cruel e, para a imensa maioria das vítimas, sem sentido, como a Guerra dos Trinta Anos, mutilou e torturou, assassinou e violou, incendiou e arrasou a mulheres, crianças e povos, já os sobreviventes, os que apesar de tudo assistiram, espantados e impotentes, a essas calamidades da natureza ou dos homens, esses mesmos seres que naqueles momentos de desespero pensaram que nunca mais queriam viver e que jamais reconstruiriam suas vidas nem poderiam reconstruir-las ainda que quisessem, esses mesmos homens e mulheres (sobretudo mulheres, porque a mulher é a própria vida e a terra mãe, a que jamais perde um último resto de esperança), esses precários seres humanos já começam de novo, como formiguinhas tontas mas heróicas, a levantar seu pequeno mundo de todos os dias: mundo pequeno, é certo, mas por isso mesmo mais comovedor. De modo que não eram as idéias que salvavam o mundo, nem o intelecto nem a razão, senão o contrário: aquelas insensatas esperanças dos homens, sua fúria persistente para sobreviver, sua ânsia de respirar enquanto seja possível, seu pequeno, teimoso e grotesco heroísmo de todos os dias frente ao infortúnio. E se a angústia é a experiência do Nada, algo assim como a prova ontológica do Nada, não seria a esperança a prova de um Sentido Oculto da Existência, algo pelo qual vale a pena lutar? E sendo a esperança mais poderosa que a angústia (já que sempre triunfa sobre ela, porque se não todos nos suicidaríamos), não seria esse Sentido Oculto mais verdadeiro, por dizer assim, que o famoso Nada?

(...)

E recordou algo que lhe havia dito Bruno: que sempre é terrível ver a um homem que se crê absoluta e seguramente só, pois há nele algo de trágico, talvez até de sagrado, e ao mesmo tempo horrível e vergonhoso. Sempre - dizia - levamos uma máscara, uma máscara que nunca é a mesma, mas que muda para cada um dos papéis que assumimos na vida: a do professor, a do amante, a do intelectual, a do marido enganado, a do herói, a do irmão carinhoso. Mas que máscara pomos ou que máscara nos sobra quando estamos na solidão, quando acreditamos que ninguém, ninguém nos observa, nos controla, nos escuta, nos exige, nos suplica, nos intima, nos ataca? Acaso o caráter sagrado desse instante se deve a que o homem está então frente à Divindade, ou pelo menos ante sua própria e implacável consciência. E talvez ninguém perdoe ser surpreendido nessa última e essencial nudez de seu rosto, a mais terrível e a mais essencial das nudezes, porque mostra a alma sem defesa.


De "Um deus desconhecido":

Havia de transcorrer muitos anos, sofrer muitos golpes, perder grandes ilusões e conhecer multidões de gente para recuperar em certo modo ao meu pai e à minha terra natal; já que sempre o caminho até o mais íntimo é um longo périplo que passa por seres e universos. Assim recuperaria a meu pai. Mas, como quase sempre acontece, quando era tarde demais. Se naquele momento houvesse intuído que o via são pela última vez, se ouvesse adivinhado que vinte e cinco anos depois o veria convertido em um monte sujo de ossos e vísceras em podridão, olhando-me tristemente desde o fundo de uns olhos já quase alheios a este mundo, então haveria tratado de compreender aquele homem áspero mas bom, enérgico mas cândido, violento mas puro. Mas sempre entendemos tarde demais aos seres que estão mais perto de nós, e quando começamos a compreender este difícil ofício de viver já temos que morrer, e sobretudo já morreram aqueles a quem mais haveria importado aplicar nossa sabedoria.

Quando voltei a Buenos Aires ainda não tinha idéia do que haveria de estudar. Queria tudo ou talvez não queria nada. Gostava de pintar, escrevia contos e poemas. Mas era isso uma profissão? Alguém podia dizer a sério às pessoas que queria dedicar-se a pintar ou escrever? Não eram mais passatempos de gente desocupada e sem responsabilidade? Todos os demais pareciam tão sólidos, instalados nas faculdades de Medicina ou Engenharia, estudando a forma de curar uma escarlatina ou de levantar uma ponte, que eu mesmo não me levava a sério. Por essa espécie de pudor, pois, ingressei na Faculdade de Direito, ainda que no mais íntimo de meu espírito estava seguro de que jamais seria capaz de trabalhar como advogado.

(...) não há casualidades, apenas destinos. Não se encontra senão o que se busca, e se busca o que de certo modo está escondido no mais profundo e escuro de nosso coração.

As aventuras dos Homens Sensíveis de Flores

(trechos do livro "Crônicas do Anjo Cinza", do argentino Alejandro Dolina)

A divisão dos sonhos no bairro de Flores

Dormir no bairro de Flores é uma experiência notável. Todos sabemos que ali se sonham coisas muito estranhas. As causas deste fenômeno foram examinadas por tratadistas de todo tipo.
Os meteorólogos, astrólogos e vendedores de elixir acreditaram explicar o assunto sustentando que os corpos celestes e os ventos cruzados exercem fortes influências sobre as mentes sonhadoras.
Os médicos e dentistas insistem que a culpa é dos ruídos provocados pelos automóveis e pelos baderneiros que noite após noite recorrem o bairro atirando pedras à lua.
Naturalmente, essas teorias não seduzem aos Homens Sensíveis. Estes preferem crer na responsabilidade do Anjo Cinza. E na realidade, não há sentido em duvidar que o Anjo reparte sonhos desde o anoitecer até a alvorada.
Tem uma cesta cheia. Ali há sonhos para todos.
Sonhos rosas para as ingênuas da rua Artigas. Sonhos brancos para os jovens e sonhos vermelhos para os violentos.
Há sonhos esburacados de despertares. Há sonhos sem sonhos que são como uma longa fita negra. E sonhos usados para os que sempre sonham o mesmo.
Sonhos frescos, sonhos maduros. O Anjo tem sonhos bons e maus. Tem um tão terrível que se a pessoa não desperta a tempo, morre. Tem outro que dura cnco dias e cinco noites. E tem um sonhos tão curto como um suspiro: quem o sonha, sonha que suspira.
O Anjo Cinza escolhe sonhos para cada um dos que se atrevem a dormir no bairro de Flores.
No entanto, há quem se atreva a negar este fato indiscutível. Estou me referindo aos Refutadores de Lendas, uma abominável seita racionalista de Vila do Parque.
Trata-se de indivíduos terríveis. Passam a vida fazendo com que lhe contem velhas histórias e mitos para logo demonstrar sua falsidade.
Alguém lhes diz: "No bairro de Flores há um jovem que voa. Se chama Luciano." Eles, em vez de olhar para o céu, se põem a raciocinar implacavelmente. "Os homens não voam. Luciano é hum homem. Logo, Luciano não voa." Os Refutadores de Lendas não se limitam a demonstrar que o mundo é razoável e científico, senão que também o desejam assim. (Este é seguramente seu pior pecado.)
Os homens desta sociedade mantêm uma constante polêmica com os Homens Sensíveis de Flores e os hostilizam com teoremas perfeitas e demonstraçõs olímpicas. Mas os Homens Sensíveis não crêem em nenhuma razão que não os faça chorar, então fazem pouco caso dos Refutadores de Lendas.
Mas em tantos anos de luta, o esforço refutador alcançou alguns êxitos. Os jovens de Flores (de modo especial os que vivem do rua Rivadavia para o norte) quase não crêem em duendes, fadas, bruxas, ogros e gnomos. É o resultado da incessante pregação dos Refutadores nos recreios e nas saídas dos colégios.
Se sabe que algumas crianças são integrantes da seita, com a vergonhosa anuência de deus pais. Mas também é certo que muitos anciões renunciam a seus cargos: quem conhece a fundo os mecanismos da razão, acaba por desconfiar dela.
Desde logo, os Refutadores de Lendas não crêem no Anjo Cinza e - ainda mais - sustentam que não é certo que se sonhe em Flores de modo diferente.
Durante muito tempo foi realizada toda classe de experiências para indagar a verdadeira natureza dos sonhos de Flores.
Os Refutadores dormiram centenas de vezes no bairo e declaram que sonharam mais ou menos o mesmo que em Vila do Parque.
Os Homens Sensíveis pensam que é precisamente o Anjo Cinza quem elegeu para eles sonhos sem graça e vulgares, como castigo. Manuel Mandeb, pensador do qual convém desconfiar, é autor de uma monografia na qual se registram alguns sonhos interessantes. Vejamos:
"Durante muito tempo, o poeta Julio C. Del Prete esteve perseguido pelo mesmo sonho: se via a si mesmo escrevendo um poema perfeito. As palavras despertavam nele emoções indescritíveis. Mas Del Prete não recordava o poema ao acordar. Uma noite lhe ocorreu deitar-se com um lápis e um papel. Quando sonhou a poesia fez um esforço colossal e despertou chorando. Meio dormido escreveu as palavras que havia sonhado. Na manhã seguinte as leu. De qualquer maneira, ninguém pôde jamais inteira-se da forma do poema perfeito: Del Prete enlouqueceu e permaneceu mudo até sua morte, ocorrida quatorze dias depois."
"Todas as segundas-feiras, o professor Galeano sonha que é terça. Nas terças sonha que é quarta; nas quartas, que é quinta, e nas quintas que é sexta. Isto lhe provoca inumeráveis transtornos..."
"Todas as noites, quando se deita, a senhora escuta que tocam a campanhia. Mas jamais consegue atender, porque um instante depois dorme. Não resta dúvidas: quem toca é o Anjo Cinza..."
"Certa noite de 1970, Ricardo Salzman, o jogador de dados, sonhou com o número 18... Algum tempo mais tarde - em outro sonho ou no mesmo - se lhe apresentou o número 41. No dia seguinte Salzman resolveu jogar tudo quanto tinha nos dois números. Mas no último instante, seguindo uma inspiração jogou unicamente no 18. Saiu o 89..."

Manuel Mandeb cita mil e oitocentos casos verdadeiramente sugestivos. Mas há que reconhecer que depois de ler sua monografia se fica mais fatigado que convencido.
Os Homens Sensíveis dizem que o Anjo Cinza favorece com bons sonhos a seus protegidos e castiga com pesadelos a seus inimigos.
Mas acontece que o Anjo tem idéias muito especiais acerca do que é desejável.
Ele pensa - por exemplo - que a melancolia é uma grande coisa e que estar triste é maravilhoso. Então presenteia a seus sombrios favoritos novas lágrimas e tristeza a cada noite. Por isso em flores há tantos garotos tristes e tantas namoradas do tango.
Um assunto que também se discute muito é o itinerário que segue o Anjo Cinza.
Há quem afirme que começa em Nazca e Gaona e progride até o Sudeste. Outros asseguram que o primeiro sonho é entrege em Boyacá e Avellaneda, e o último - quase às seis - em San Pedro e Bilbao.
Os Refutadores de Lendas argumentam que as pessoas dormem em flores de modo caótico e que essa desordem demonstra a inexistência do Anjo. Cabe esclarecer que a corrente mais atualizada dos Homens Sensíveis coincide com os Refutadores em que as pessoas começam a sonhar em qualquer momento, mas atribuem este fato aos caprichos do Anjo Cinza.
Não faltam neste apaixonante caso opiniões interesseiras e invejosas.
Certos habitantes de Belgrano se atreveram a comparar os sonhos deste bairro com os de Flores.


História da mulher bela demais

Na rua Bacacay vive uma mulher muito bela. Tão bela que não é possível descrever seu aspecto, pois quem chega a vê-la morre. A mulher está triste e desesperada.
Todas as noites se senta frente ao espelho e passa longas horas tratando de afeiar-se com maquiagem. Mas nada adianta: cada dia está mais linda e mais só.
Sua irmã - dizem - não vale grande coisa e no entanto tem um ou talvez dois namorados.
Os jovens valentes de Flores juram que são capazes de desafiar a morte para ver a mulher bela demais.
Mas sempre se equivocam de portas, onde os recem senhoritas vulgares ou japoneses que não entendem o idioma.

História dos bilhetes enfeitiçados

Os passageiros de ônibus de Flores dizem que entre os milhares de bilhetes que são vendidos há um - apenas um - cuja cifra expressa o mistério do Universo. Quem conhecesse esta cifra seria sábio.
Não se sabe seo o bleto já foi vendido ou se ainda permanece oculta nas herméticas máquinas que usam para despachar-los.
É possível que neste momento algum passageiro já conheça o segredo do Cosmos. Também pode haver ocorrido que a pessoa favorecida haja tirado o bilhete sem concultar a cifra, ou que a haja visto sem saber interpretá-la.
Na Avenida Rivadavia falam de um bilhete vermelho, que é o bilhete do amor. Quem o obternha obterá a adoração de todo o mundo, ou ao menos de seus companheiros de viagem. Se menciona também um bilhete verde que condena seu possuidor a viajar eternamente, sem jamais descer do ônibus.
Na linha 86 vendem o bilhete da morte, mas se negam a indicar sua cor e seu número, para evitar discussões com os usuários. Em geral, pode-se afirmar que todos os bilhetes influenciam de algum modo em nossa vida. Os fiscais são - antes de tudo - funcionários do destino que impedem que trapaceemos a sorte.

A magia em Flores

Os Homens Sensíveis de Flores sempre acreditaram que o bairro estava enfeitiçado.
Segundo eles, os Feiticeiros de Chiclana haviam lançado suas piores maldições sobre as ruas do Anjo Cinza.
E na realidade tinham muitas razões para pensar deste modo.
Nas sextas à noite, todos os cães enlouqueciam e quem se atrevia a sair de sua casa se arriscava a enfrentar matilhas espantosas que espreitavam em todas as esquinas.
As cúpulas e campanários eram sobrevoados por pombas azuis, umas aves que tinham plumas como navalhas.
Os garotos se apaixonavam sempre por mulheres esquivas e distantes, quando não perversas, e o amor e o sofrimento eram uma mesma coisa em Flores. Segundo alguns desesperados, havia uma esquina fatal para os casais. Se dois namorados passavam juntos por ali, se separavam para sempre.
Ao que parece, não era possível saber qual era essa esquina, porque a mudavam a cada noite. Manuel Mandeb chegou a descobrir que a correspondente ao 11 de outubro era a das ruas Morón e Boyacá.
A má sorte perseguia aos Homens Sensíveis e sempre lhes ocorria o mau, o desatinado e o disforme, em vez do belo e do bom.
Desta melancólica situação nasceu o maior dos empreendimentos dos jovens do Anjo Cinza: a luta contra o destino. Desde logo essa luta assumiu formas muito diferentes e se travou em distintos campos: no amor, na arte, no jogo, na aventura, no pensamento, nos corações.
Mas sabendo que os Bruxos de Chiclana eram cúmplices do destino, os Homens Sensíveis buscaram auxílio em outros magos mais benevolentes, ainda que sempre menos poderosos. Por isso em Flores os adivinhos e feiticeiros gozaram sempre de grande prestígio.

O diabo em Flores

Muitos foram os que asseguraram haver visto o demônio nas ruas de Flores. O russo Salzman, jogador de dados da rua Artigas, sustentava que o vigilante da esquina de sua casa era Satanás, ainda que o próprio agente o ignorasse. Há muitas pessoas que são o diabo, sem sabê-lo.
Salzman acreditava que o diabo estava interesado em comprar sua alma. Isso lhe atemorizava muito, porque o russo não estava seguro de que não venderia.
No entanto, Satanás conhecia bem os Homens Sensíveis de Flores e tentava-os a sua maneira. Em vez de comprar suas almas, as pedia. Quem sabe quantos jovens se haverão condenado para sempre, de pura generosidade.
Em matéria de pactos diabólicos, sempre se suspeitou do bandoneonista Anselmo Graciani, que era capaz de tocar a variação de Canaro en París com os olhos fechados.
Na rua Aranguren vivia uma mulher que - segundo os entendidos - era bela demais para ser inocente. Alguns diziam que tinha trato com o diabo, outros pensavam que era o diabo. Ninguém se atreveu jamais a namorar-lhe.

O homem que era, sem saber, o diabo

Um cavalheiro da rua Caracas resolveu negociar sua alma. Seguindo os ritos conseguiu contactar Astarothm membro da nobreza infernal.
- Desejo vender minha alma ao diabo - declarou.
- Não será possível - respondeu Astaroth.
- Por que?
- Porque você é o diabo.

Balada do amor impossível

Os cronistas mais sérios do bairro do Anjo Cinza coincidem em destacar a propensão de seus habitantes aos amores impossíveis.
Assim, enquanto os garotos de outros bairros se apaixonam por garotas generosamente possíveis, os homens de Flores parecem condenados a amar - quase sempre em segredo - a mulheres que não serão para eles.
E em honra a estas damas é que os Homens Sensíveis fazem o que fazem.
Alguns empreendem desde pequenos o estudo do violino, unicamente para aprender a tocar uma valsa em homenagem a sua amada. Não importa que ela não chegue jamais a ouvi-lo. Este não é o ponto.
Outros indagam os segredos da versificação e submergem na dor para conseguir uma poesia.
Há os que se exercitam com a coragem e cultivam a beleza. E não faltam os que escolhem a melancolia ou a loucura.
Pensam os Homens Sensíveis que sendo melhores merecerão ser amados. E para a ética sentimental deste bairro, os melhores homens são artistas, valentes, tristes ou loucos.
Por isso os melhores garotos de Flores sofrem por amor.
Esta realidade tem despertado a atenção de todos e a piedade de muitos.
Cada semana, os apaixonados de Flores recebem o conselho de seus amigos de outros bairros, são vozes tentadoras que expõem as vantagens do amor razoável.
A estas exortações, os Homens Sensíveis respondem - não sem acerto - que no amor não existe livre arbítrio e que ninguém pode decidir por quem vai se apaixonar.
No entanto - e com risco de cair em especulações psicológicas foram de tom - cabe reconhecer que os garotos do Anjo Cinza tendem a aproximar-se sentimaentalmente das mulheres que menos lhes convêm.
Os tratadistas de Vila do Parque e os Refutadores de Lendas sustentam que buscar um par é uma tarefa inteiramente racional e até científica.
Vale a pena citar a novela didática Hoje te amo com a cabeça, do professor Amadeo Battista. Esta obra esconde - mal - a tese antes referida, entre as esfarrapdas dobras de sua trama.
Parecidos critérios defende a esposa deste escritor, a doutora Alba C. de Battista em seu livro Me casei com um cretino.
Muitos homens de negócios, comerciantes e industriais da zona entendem que o amor impossível é coisa nefasta, não só para o que ama, senão também para o desenvolvimento das atividades produtivas em geral.
Declaram este lúcidos mercadores que os apaixonados sem esperança são péssimos empregados, mais atentos à recordação de uns olhos pardos que à correta realização ode uma nota de débito.
Tratando de reduzir o número de desencontros amorosos em benefício da felicidade geral, os Refutadores de Lendas, com a ajuda dos contadores da Sociedade de Fomento de Vila Malcom, prepararam as Tábuas do amor infalível, espécie de fórmula de cálculo segundo a qual as medidas do corpo do homem, seu coeficiente intelectual, sua idade, sua educação e fortuna determinavam de modo preciso a mulher mais conveniente para seus planos amorosos.
Isto é nem mais nem menos que a refutação de uma lenda ou - o que é pior - sua redução a termos científicos. A lenda é esta:
"Há para cada homem uma mulher, e somente uma, que reúne todas as qualidades que este homem sonha. Sua beleza está feita para deslumbrar a esse homem. Sua voz foi criada para seduzi-lo. Sua inteligência, para suscitar-lhe e sugerir-lhe idéias extraordinárias. Sua ternura, para fazer-lhe doce o sofrimento diário. Esta mulher existe e anda pelas mesmas ruas que ele. Mas o destino decidiu que jamais seus caminhos se cruzem."
Manuel Mandeb, o polígrafo de Flores, deixou um volumoso estudo intitulado Registro de amores impossíveis na linha Sarmiento.
A obra consta de 914 fichas que correspondem a outros tantos casos de amor sem recompensa. Está dividida em quatro capítulos:
O primeiro, com o subtítulo Nunca lhe disse nada, é o mais extenso e registra episódios protagonizados por apaixonados silenciosos.
O segundo, Negativas, expõe 115 rejeições, seus motivos, termos e consequências, para não falar de outros detalhes supérfluos que carrega toda a obra de Mandeb.
O terceiro capítulo, Amargo desengano, cataloga 126 decepções, incluindo quatro padecidoas pelo próprio autor.
O quarto e último título é um inspirado texto romântico que se conhece como Elogio do amor inconcluso. Vejamos este parágrafo:
"...Assim como as pessoas que morrem em sua plenitude nos poupam a recordação de sua decadência, os amores interrompidos abruptamente seguem vivendo em nosso coração não como brasas agonizantes, mas como terríveis chamas que queimam a cada noite..."
"Não há melhor amor do que o que nunca foi. Os romances que chegam a completar-se levam inevitavelmente ao desengano, ao rancor ou à paciência; os amores incompletos são sempre paixão."

Mas deixemos já a Manuel Mandeb e reflexionemos sobre este delicado assunto. É certo que uma infinidade de pessoas decentes vivem a módica alegria do amor comum e corrente.
Mas o amor impossível, aquele do qual somente são capazes os Homens Sensíveis de Flores, é o único cabalmente maravilhoso e digno de admiração.
Acontece assim: um garoto se apaixona pela Mulher Mais Bela.
Desde este momento, sua vida não tem outro sentido que esse amor.
No entanto, o homem sabe que não tem chance neste desafio, pois as Mulheres Mais Belas invariavelmente se casam com outros cavalheiros, geralmente ricos ou bons moços ou amabas as coisas.
Seus bons amigos lhe aconselharão o esquecimento, mas este homem nasceu em flores e não tem a menor intenção de trapacear a dor.
E cada dia deixa mansamente que a tristeza lhe invada os ossos e impregne até o último de seus pensamentos.
Às vezes, as distrações e os assuntos mundanos ameaçarão fazer-lhe esquecer por um momento seu amor e sua dor. Mas o homem reagirá imediatamente e submergrá outra vez em seu próprio abismo.
Que ninguém se engane. Este homem que ri a gargalhadas quando algum conhecido se refere à piada dos supositórios, está pensando em seu amor impossível.
E o sangue que corre em sua veias é negro e espesso.
Mas, atenção. Este amor que lhe faz desgraçado é o que lhe faz melhor. Ele já reunciou à Mulher Mais Bela. Jamais padecerá decepções. Sua paixão não envelhecerá nem se amesquinhará. Ninguém poderá enganar-lhe. E ao custo de banhar-se cada dia no sofrimento, haverá aprendido o segredo da resignação.
Os cavalheiros exitosos não conhecerão jamais a verdadeira essência do amor impossível. Eles jamais apostam a vida numa só carta. Com toda a prudência realizam investimentos em um e outro lugar para compensar com uma a perda ocasionada por outras.
Mas o amor impossível não é coisa de prudentes, mas de Quixotes.
Somente quatro vezes em doze anos Alonso Quijano viu Aldonza Lorenzo.
Jamais trocaram palavra. Mas isto lhe bastou para viver nela e por ela. Sem esperar recompensa.
Por iso, senhores, se acaso vocês forem premiados com um destes amores loucos, não é caso de se arrepender. Sigam sonhando e esperando o impossível. Ainda sabendo que nossas ilusões não hão de cumprir-se nunca, sigamos acariciando-as. O contrário seria - como pensava Wimpy - confundir uma ilusão com algo que não existe.
Será uma longa jornada. Muitas vezes teremos vontade de declarar nossa pena, mas não poderemos fazê-lo, para não profaná-la. Sempre estaremos sós e tristes, mas não é para tanto. Depois de tudo, já se sabe que os únicos paraísos que existem são os paraísos perdidos.

domingo, 1 de novembro de 2009

S.O.S. às avessas

Cada poema é uma garrafa de náufrago jogada às aguas... Quem a encotrar, salva-se a si mesmo.


É isso mesmo


Quem nunca se contradiz deve estar mentindo.


Transferência

Dar conselhos traz sempre um grande alívio porque nos desobriga de os seguir.


A múltipla verdade

O bom de escrever teatro é que se pode dizer, com toda a sinceridade, as coisas mais opostas, sem ser acusado de contradição.


Diálogo noite adentro

- Mas há as que nos compreendem...

- Ah, essas são as piores!


O assunto


E nunca me perguntes o assunto de um poema. Um poema sempre fala de outras coisas...


Escrever

Se alguém nota que estás escrevendo bem, toma cuidado: é caso de desconfares... O crime perfeito não deixa vestígios.


Vigilantes noturnos


Os que fazem amor não estão apenas fazendo amor: estão dando corda ao relógio do mundo.


À la menière de la Rochefoucauld

Os moralistas condenam o que eles não têm coragem de praticar.


Os crocodilos

Pior, mas muito pior mesmo do que as lágrimas de crocodilo, são os sorrisos de crocodilo.


O limite

O limite do poema é uma página em branco - conclusão a que deveria ter chegado Rimbaud.


Epígrafe para uma história da filosofia

O exercício da filosofia nunca solucionou coisa nenhuma, é como jogar xadrez consigo mesmo... Fica-se eternamente empatado.


(Mario Quintana - Da preguiça como método de trabalho)