"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A arte explosiva

(Trecho de Os alquimistas vampiros, de Javier Quijano, traduzido por mim)

Eu não diria que o "dom" do artista é uma exatamente vantagem, a não ser que se considere o dom dos vampiros de ser obrigados a se alimentar do sangue alheio como uma vantagem. Porque, no fundo, é isso que os artistas são, vampiros condenados a se nutrirem do sofrimento, e como eles não podem sofrer de tudo em suas próprias vidas, são obrigados a viver o sofrimento alheio, a absorvê-lo e transformá-lo em arte, mas este processo alquímico não tem nada de prazeroso, pelo contrário, é doloroso e necessário como um parto, e na mesma medida glorioso. Claro, há os artistas "profissionais", para quem a arte é uma técnica, uma profissãoe, por isso podem decidir livremente o rumo de suas carreiras. Mas estou me referindo ao artista de alma, o verdadeiro, que não tem escolha, aquele para os qual a arte faz parte do próprio estar no mundo, e o que menos importa é se suas obras um dia serão publicadas ou expostas, porque o essencial é colocar para fora o sofrimento do qual ele se alimenta, mas que se permanecer dentro dele o levará à morte. Esses pobres coitados que não escolhem o tema de uma obra porque, no fim das contas, estão sempre falando de si próprios, de deus sofrimentos e do sofrimento alheio que eles absorveram e sentiram como se fosse deles. Ladrões de sofrimento. Mas, adivinhem, a boa notícia aqui é que as vítimas, longe de se indignarem, querem ser roubadas, desejam ser sugadas, já que como não foram agraciadas com o "dom", essa é sua única forma de impedir que aquele câncer cresça descontroladamente. Artistas no auge do sucesso (ou que sequer chegaram lá) afundados em drogas e sofrimento não é um "privilégio" de roqueiros ou estrelas pop irresponsáveis: quase todos os grandes nomes do jazz chegaram muitas vezes a um fundo do poço sem fim para só com muito esforço conseguirem se reerguer, no caso dos que conseguiram. Para não falar dos grandes poetas, escritores e pintores de todas as épocas. A verdade é que não passa de uma grande hipocrisia quando lamentamos tristemente ao ver mais um grande artista envolvido em escândalos aberrantes: é justamente isso o que queremos, porque é isso o que os nutre e nos alenta, e assim secretamente gozamos na grande orgia vazia do cotidiano mecânico ao vermos no artista o sofrimento que não podemos sentir. Porque estamos cada vez mais anestesiados, sim, mas no fundo ainda não somos totalmente robôs, ainda resta algo de humano em nós, algo que sente essa estranha vontade de gritar e chorar, e para satisfazer a esse nosso lado obscuro recorremos aos palcos, aos livros, à música, porque precisamos testemunhar alguém extravasando o que em nós precisa ficar enterrado. Mas ver o sofrimento do artista no palco é pouco: precisamos de algo mais real, precisamos que a própria vida do artista seja uma grande tragédia pública, porque aí está o melhor dos espetáculos, e o que no fim vai justificar perante nossas próprias consciências porque não podemos seguir seu caminho: eles podem criar obras geniais, mas não sabem viver, coitados... No fundo, todo grande artista sabe da existência oculta deste grande pacto hipócrita no qual eles são levados ao estrelato como uma bruxa prestes a ser queimada viva, e depois todos se deleitarão com seus restos. Sim, o artista sabe disso, mas segue porque sabe que ali ele não é nenhuma vítima, pelo contrário, aqueles hipócritas que o exploram justamente porque o idolatram são os que o mantêm vivo porque lhe doam seu sofrimento. Da mesma maneira que o indivíduo precisa de válvulas de escape para seus sofrimentos e angústias, o mesmo passa com a sociedade, e é justamente esse o papel social do artista: concentrando em si o sofrimento de tantos, dá vazão ao sofrimento de milhares, talvez milhões, que de outra forma explodiriam. Me pergunto o sofrimento de quanta gente foi necessário pra se chegar a uma obra do nível de Van Gogh, Bach, Miles Davis ou Janis Joplin. Por isso é que a arte, por mais contestadora e revolucionária que seja, é necessária à manutenção de qualquer sistema social, porque sua função é ser o espaço onde o pior de um indivíduo ou de uma sociedade é metamorfoseado em ouro. Talvez o artista realmente revolucionário seja aquele que conscientemente se omite, às custas de esgotar o próprio sofrimento e passar desapercebido como mais um no meio da multidão (creiam, existem vários). Talvez no dia em que todos os artistas se calem, as pessoas já não consigam mais calar, e talvez o mundo mude, talvez o mundo exploda.

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