(De Seis personagnes à procura de um autor, de Pirandello)
DIRETOR: Alguém que tem pretensões de personagem tem o atrevimento de perguntar quem sou!
O PAI: Um personagem, senhor, sempre pode perguntar a um homem quem é. Porque um personagem tem realmente uma vida, com seus próprios atributos, pelo que sempre é "alguém". Enquanto que um homem - e não estou falando do senhor agora - um homem qualquer pode não ser ninguém.
(...)
DIRETOR: E? Aonde quer chegar?
O PAI: A lugar nenhum, senhor. Apenas fazer-lhe ver que se nós (indica a si mesmo e aos outros PERSONAGENS) não temos outra realidade além da ilusão, também seria bom que o senhor descofiasse de sua realidade, da que respira e toca, porque, como a de ontem, está destianda a revelar-se amanhã como uma ilusão.
DIRETOR: Tem toda a razão! Agora só falta que o senhor diga que com esta comédia que pretende representar é mais real que eu!
O PAI: Não tenho a menor dúvida, senhor!
DIRETOR: Ah, sim?
O PAI: Supus que o senhor o houvesse compreendido desde o princípio.
DIRETOR: Mais real que eu?
O PAI: Se sua realidade pode alterar-se de um dia para o outro...
DIRETOR: Mas claro que pode mudar! E continuamente! Como todos!
O PAI: Mas a nossa, não, senhor! Entende? Essa é a diferença! Não muda, não pode mudar nem ser outra, jamais, porque foi fixada, assim, "esta", e para sempre! E isso é terrível, senhor! É realmente inalterável! Até deveriam sentir um calafrio perto de nós!
DIRETOR: Eu queria saber quando foi que se viu um personagem saiu de seu papel para dedicar-se a ponderar como faz o senhor, expondo e explicando suas idéias? Poderia dizer? Jamais vi nada assim em minha vida!
O PAI: Não viu, senhor, porque os autores escondem com muita freqüência as inquietudes de sua criação. Quando os personagens estão vivos, verdadeiramente vivos diante de seu autor, este não faz outra coisa que observar as palavras e os gestos que eles propõem, e é necessário que ele os aceite tal qual são, porque muito cuidado se não é assim! Quando nasce um personagem, este adquire uma independência tal, inclusive frente a seu próprio autor, que pode ser imaginado em muitíssimas outras circunstâncias que o autor nem sequer imaginou. E com isso, inclusive, adquire, em certas ocasiões, um significado que o autor jamais sonhou!
"há sempre um copo de mar para um homem navegar" - jorge de lima
Quando os cronópios saem em viagem, encontram os hotéis cheios, os trens já partiram, chove a cântaros e os táxis não querem levá-los ou lhes cobram preços altíssimos. Os cronópios não desanimam porque acreditam piamente que estas coisas acontecem a todo o mundo, e na hora de dormir dizem uns aos outros: “Que bela cidade, que belíssima cidade”. E sonham a noite toda que na cidade há grandes festas e que eles foram convidados. E no dia seguinte levantam contentíssimos, e é assim que os cronópios viajam.
(Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas)
(Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas)
"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios
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