Uma pessoa tão normal
Talvez esse Senso de Responsabilidade fosse apenas uma reação insconsciente, uma forma dele se infiltrar na chamada "comunidade dos homens". Fruto da suspeita, vaga e desconfortável, de que fosse, no fundo, uma pessoa estranha. Talvez por isso Alberto fosse uma pessoa tão normal. Era uma forma de disfarçar uma realidade que só ele podia perceber. Talvez por isso o tocasse tão profundamente os dramas dos personagens da literatura ou do cinema que, por um motivo ou outro, eram colocados à margem - naquela solidão profunda que resulta de uma radical singularidade. Impressionaram-no bastante, por exemplo, a personagem vivida pelo ator Cristopher Walken, no filme A hora da zona morta, de David Cronemberg. Ou, ainda mais, o Demian, de Herman Hesse. Aquele que tinha na testa o Sinal de Caim. Lembrava-se de Homero Mesiara, uma figura insólita que conhecera em Itapuã, em meados dos anos 70, que, numa casa velha, na rua Guararapes, entre livros antigos, teias de aranha e chás macrobióticos, lhe dissera:
- Você também tem o Sinal de Caim. Daqueles que não poderão nunca viver com o rebanho. Daqueles que estão marcados para sempre pela solidão.
Talvez por isso Alberto nunca soubesse, quando se via andando pelas ruas desertas de Salvador, para onde realmente estava indo. Sabia apenas que amava aquelas ruas como se fossem partes dele mesmo. Quase podia sentir-se em tudo no que, à sua volta, seus olhos tocavam: os casarões centenários do Centro Histórico, as casas comerciais da Baixa dos Sapateiros, com seus vendedores e suas calçadas apinadas de pedestres, as avenidas ensolaradas da Orla Marítima, com suas casas iluminadas pelo sol da tarde, os labirintos de vielas e becos dos bairros periféricos, as pacíficas e desertas paisagens do subúrbio ferroviário, as praias, os pátios, as sacadas, os campos de futebol, os varais, os mangues, as veredas, as dunas e pastagens da Grande Salvador. Tudo que os seus olhos puderam ver não podia ser compartilhado. Tudo aquilo era, ao contrário do que parecia, uma outra dimensão, que repousava em algum lugar atrás dos seus olhos.
- Mas o que tem a ver todas essas ruas, praças, avenidas, varais e não sei o que mais com o seu "sinal de Caim"? - perguntou o amigo de Alberto, pitocando um carretel de linha com o dedo médio da mão direita.
- Não sei. Talvez eja uma forma de "amar a solidão", como disse Rilke em uma de suas cartas. A cidade é o meu elo com as pessoas. Uma forma de não me perder. Talvez tenha a ver com a idéia da solidão como caminho para a comunhão. A única forma de amar alguma coisa é saber-se separado dela. É impossível amar verdadeiramente se nos sentimos apenas como uma ovelha do rebanho.
Seu amigo torceu o nariz. Disse que ele parecia um personagem de um livro de auto-ajuda. Alberto sabia que, na verdade, aquilo não explicava nada. Tinha que fazer alguma coisa para não cair no lugar comum.
O dever de resistir
Talvez Alberto, como muitas outras pessoas de sua geração, sem o saber ou sequer imaginr tal coisa, aguardasse aquilo que mais desprezava: um Messias. Precisaria ser alguém muito especial, alguém impossível de existir... de verdade. Alguém que pudesse convencê-lo do impossível; alguém que pudesse convencê-lo a renunciar a tudo aquilo que mais amava e no que mais acreditava, para caminhar no deserto. Alguém que pudesse convencê-lo a morrer. Mas não foi exatamente isso o que aconteceu com os heróis do Araguaia? Os sonhadores, manipulados por heróis de pés de barro, que só encontraram a desgraça e a derrota e o supremo desamparo? Alberto seria tão estúpido ainda para ficar aí esperando a redenção do mundo? Ele rejeitava essa idéia com todo o seu ser, para tornar a encontrá-la, lá no mais fundo do seu íntimo, como uma imagem luminosa. A única capz de mobilizar tudo o que existia nele de verdadeiro, de real.
Lembrou-se de um amigo seu, o jornalista Carlos Ribeiro, que lhe confessara ter ficado profundamente impressionado com o ilustre geógrafo baiano Milton Santos, que entrevistara. Tudo porque ele denunciara, sem meias palavras, o mais tenebroso crime que se estava perpetrando, entre as imagens feéricas e enganadoras da globalização - ou, como ele mesmo dizia, do globalitarismo: a morte do pensamento. E a necessidade da utopia como forma de resistência. Disse ele, numa entrevista: "A idéia de generosidade que a gente praticou até os anos 60, e que levava à noção de utopia e de possibilidade de realização da utopia, ela voltará. Nós temos que voltar urgentemente a noção do Homem, do humanismo. Isso é que vai ser o grande fanal."
- O homem está sendo mutilado pela realização histórica atual - disse o professor Santos, com seu rosto largo, sua pele negra contrastando com seus dentes brancos e seus olhos vivos, espremidos, sempre sorrindo, com voz mansa dizendo coisas tão sérias, ali sentado, gesticulando com suas grandes mãos, com suas mãos enormes que pareciam ocupar todo o espeaço à sua frente. Ele sorria, e falava, e gesticulava, dizendo que nós tínhamos o dever de resistir, de impedir que não nos deixassem ser completamente homens, que precisávamos recuperar a idéia de humanismo. Precisávamos resistir à idéia terrível de sermos reduzidos a meros consumidores. Precisamos resistir ao Mercado, este Big Brother desses tempos ocos, sem substância.
Precisamos resistir ao fato de que estamos sendo transformados em simulacros. Cidadãos do mundo, uni-vos! Desembainhem suas espadas e lutem contra a tirania da informação e do dinheiro, contra o bezerro de ouro da competitividade, que se aproveita da confusão dos espíritos para pregar seu falso paraíso, que nada mais é que um pântano fétido e purulento. Resistam à canalhice dos que se locupletam no banquete dos bem-sucedidos, dos que se curvam aos poderosos e lambem o chão onde eles pisaram, dos que pilotam seus programas de grande audiência que disseminam a alienação e a ignorância, dos que se contrapões às idéias que podem efetivamente mudar o mundo.
- As épocas que subestimam as utopias são épocas de empobrecimento intelectual, ético e estético. É preciso jogar-se para frente, o que pode parecer suicida. Mas, do contrário, ficamos paralisados pelo pragmatismo... - disse o amigo de Alberto, evaporando-se, em seguida, diante dos seus olhos, como um fantasma vindo do fundo da noite mais luminosa.
Alberto ficou também duas noites sem dormir, após ter ouvido o relato do seu amigo jornalista e a apraição do professor, em Lunaris, após seu desencarnamento (palavra que pode desagradar aos agnósticos, por suas ressonâncias espíritas, mas que se aplica bem ao caso: a aparaição do professor, apesar mesmo da nitidez do seu sorriso, do seu olhar e dos seus gestos, era toda isenta do peso da carne. Era pura idéia.) "Tal como aconteceu ao meu amigo jornalista, o professor reacendeu, dentro de mim, uma fogueira que brilhava na noite escura e fria, tal como as fogueiras ancestrais, acesas pelos patagões nas remotas paisagens geladas da Terra do Fogo. A fogueira que aqucia seus corpos nus, enquanto ventos gelados os cercam com seu uivo", pesnou Alberto, andando pelas ruas, com as mãos nos bolsos do casaco que se tornava, pouco a pouco, menos real.
A fogueira tornava caro o que antes lhe parece obscuro. Ela fazia derreter as máscaras dos falsos ídolos e revelava o que havia de horrendo sob as faces sedutoras. Oh, mas ele era apenas um homem que andava pela cidade à noite, parando para olhar as vitrines, os jornais nas bancas de revistas, o mar distante, o silêncio e a sua própria insignificância. Ele erao mais anônimo entre os homens que vagam à noite pela cidade - e este era seu mais intenso prazer. Alberto não se acreditava capaz de mudar nada. Por que viera, então, a ele, aquela iluminação? As palavras do professor exigiam-lhe um gesto, uma atitude, ação. Eram como uma onda que, gerada em algum ponto do nadajorrava através dele para quebrar-se em uma pria que não sabia sequer onde estava. Mas não podia represar a onda, ela era mais forte que ele - e isso o assustava.
Alberto voltou pra casa, mergulhado nos seus pensamentos. Naquela noite, sua mulher não quis queixar-se do seu alheamento. Limitou-se a dar-lhe um beijo no rosto, voltar-se para o lado e dormir, enquanto ele ficou alguns minutos com os olhos pregados numa estrelaque estava em algum lugar acima do teto do seu apartamento e das nuvens cerradas que cobriam a cidade.
6 comentários:
Olá!
Meu nome é Rosângela, sou jornalista e moro na cidade de São Paulo.
Lendo seu comentário identifiquei um nome mencionado: Homero Mesiara.
Eu conheci este cidadão, pois nascemos na mesma cidade (Guaxupé - Minas Gerais).
Haveria como eu ter notícias dele? A última informação que obtive é que ele havia se mudado para a cidade de Brumado, na Bahia.
Grata,
Rosângela
e-mail: rosangelafelippe@yahoo.com.br
Conheci Homero em Salvador, na década de 70, quando vivi na Boa Terra. Moramos na mesma rua, na Barra Avenida. Fiz com ele aulas de inglês. Depois voltei a vê-lo. Havia se mudado para Itapoã. Voltei para o Ceará e hoje busquei alguma coisa de através do Google e cheguei neste "blog".
Conheci Homero quando morava em Itapuã. Hoje, lembrei-me dele, coisa que me ocorre com frequência,e tive a ideia de buscar alguma informação no google. Homero faleceu há mais de dez anos. Fui seu aluno e posso dizer que foi uma honra conviver personagem tão sui generis. às vezes brigávamos, porque ele insistia em ser meu mestre, além de ter grande dificuldade em ser contrariado. Mas é claro que ele era um homem especial. Sua biblioteca revelava o homem de cultura eclética que era. Sua sensibilidade era ímpar: um homem à frente do seu tempo. Gostaria muito de saber notícias sobre sua vida, antes de vir para a Bahia.
Mais informações sobre Homero Mesiara:
http://www.carlosribeiroescritor.com.br/correspondencia_rosangela.html
MEU NOME E HUMBERTO FUI ALUNO DESSE GRANDE MESTRE QUERIA MAS INFORMAÇOES SOBRE ELE
Também conheci Homero Mesiara, exatamente na Rua Guararapes, em Itapuã, onde residia. Realmente, uma figura ímpar, um tanto enigmática, macrobiótico. Muito nos ensinou, a mim e aos meus amigos, induzindo à leitura, principalmente de livros existencialistas como O Pequeno Príncipe, Sidarta, O menino do Dedo Verde, O Encontro Marcado, etc. A última notícia que tive dele é que havia falecido (há mais de dez anos) em função do cigarro, do qual era um usuário voraz. A casa em que residiu, em Itapuã, hoje tem aspecto de abandono e não sei quem reside lá.
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