"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

em busca da poesia perdida

I. Mexicanos perdidos no México (1975)

2 de novembro


Fui cordialmente convidado a formar parte do realismo visceral. Obviamente, aceitei. Não houve cerimônia de iniciação. Melhor assim.

3 de novembro

Não sei muito bem em que consiste o realismo visceral. Tenho dezessete anos, me chamo Juan García Madero, estou no primero semestre do curso de Direito. Eu não queria estudar Direito, e sim Letras, mas meu tio insistiu, e ao final acabei cedendo. Sou órfão. Serei advogado. Isso foi o que disse a meu tio e a minha tia e logo me tranquei no quarto e chorei toda a noite. Ou ao menos uma boa parte. Depois, com aparente resignação, entrei na gloriosa Faculdade de Direito, mas ao fim de um mês me inscrevi na oficina de poesia de Julio César Álamo, na Faculdade de Filosofia e Letras, e dessa maneira conheci aos real visceralistas ou viscerrealistas e até vicerrealistas como às vezes gostavam de se chamar. Até então eu havia assistido quatro vezes a oficina e nunca havia acontecido nada, o que é uma maneira de falar, porque olhando bem sempre aconteciam coisas: líamos poemas e Álamo, segundo estivesse seu humor, os louvava ou os pulverizava; um lia, Álamo criticava, outro lia, Álamo criticava, outro mais voltava a ler, Álamo criticava. Às vezes Álamo se aborrecia e pedia a nós (os que nesse momento não líamos) que criticássemos também, e então nós criticávamos e Álamo se punha a ler o jornal.

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E então Norman disse: não se trata dos real visceralistas, você não entendeu nada! E eu lhe disse: de que se trata então? E Norman, para meu alívio, deixou de olhar pra mim e se concentrou alguns minutos na estrada, e depois disse: da vida, do que perdemos sem nos dar conta e do que podemos recuperar. O que perdemos, podemos recuperar intacto, disse Norman. Podemos recuperar o que?, pensei sem me importar que a velocidade fosse cada vez maior. Podemos voltar a entrar no jogo no momento em que quisermos, ouvi que dizia.

(Roberto Bolaño, Os detetives selvagens)

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