"Siempre acabamos llegando a donde nos esperan" - Libro de los itinerarios

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A peste

Albert Camus

- E eu me dizia, enquanto isso, que da minha parte me negarei sempre a dar sequer uma razão, sequer uma, escute bem, a esta carnificina repugnante. Sim, decidi por esta cegueira obstinada enquanto não veja mais claro.
(...)
E foi por isso que decidi recusar tudo o que, de perto ou de longe, por boas ou más razões, faz morrer ou justifica que se faça morrer.

É ainda por isso que esta epidemia não me ensina nada, senão que é preciso combatê-la ao seu lado. Sei, de ciência certa (sim, Rieux, sei tudo da vida, como vê), que cada um traz em si a peste, porque ninguém, não, ninguém no mundo está isento dela.
(...)
Desde esse tempo sei que eu já não sirvo para o mundo e que a partir do momento em que renunciei a matar condenei a mim mesmo a um exílio definitivo. Os outros serão os que farão a história. Sei também que não posso julgar a esses outros. Há uma qualidade que me falta para ser um assassino razoável. Obviamente, não se trata de nenhuma superioridade. Venho a ser o que sou, consegui alcançar a modéstia. Sei unicamente que há neste mundo flagelos e vítimas, e que há que negar-se como seja possível a estar com os flagelos. Isto pode lhe parecer um pouco simples e eu não sei se é simples verdadeiramente, mas sei que é certo.

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